Return to site

Alta Floresta / Cachoeira da Serra / Marcelândia (MT) - Para onde vai a Amazônia

 

Nosso repórter percorreu 2 mil km desse pedaço devastado da mata. Conheceu gente que não se importa com a destruição e gente que faz tudo para impedi-la. E conta porque essa é uma discussão que você tem que tomar parte

· Mato Grosso

Serra do Cachimbo, extremo-norte de Mato Grosso, agosto de 2007. No dia anterior a nossa chegada nessa que foi uma das primeiras regiões devastadas da floresta, o governo anunciava a redução de 25% do desmatamento da Amazônia entre 2005 e 2006. Durante uma semana, percorremos quase 2 mil quilômetros no entorno desse eixo de destruição: a BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA). Vimos sinais da mata castigada. No horizonte, o céu cinzento denunciava a fumaça das queimadas. A realidade contrastava com os dados oficiais. Como conciliar os novos tempos com o passado de destruição?

A paisagem empoeirada nessa época seca lembrava o Velho Oeste Americano. Protegido à sombra de uma castanheira solitária em meio às pastagens, Enivaldo Piovesan, 49 anos, observava a boiada que ocupa terras antes cobertas por mata frondosa. Ele conta que veio do Espírito Santo. Fez parte da segunda geração de colonos que chegaram ali, atendendo ao chamado do governo militar na segunda metade da década de 70, de ocupar a região para garantir a soberania do Brasil sobre ela, sob o lema de “integrar para não entregar”. “Pagamos impostos, mas até hoje não temos a posse da terra”, constata. “E ainda somos acusados de destruidores.”

Enivaldo derrubou uma área de floresta equivalente a 600 campos de futebol para plantar pasto em terras da União. Mas reconhece agora que é preciso frear essa destruição. Não diz isso, obviamente, porque é amigo da natureza. Mas “para garantir o futuro dos filhos”. Se estragar toda a floresta, não vai sobrar nada para eles explorarem. Pensando nisso, o produtor mantém uma parte de suas terras intocável. É uma exceção entre a maioria dos grileiros da Amazônia que ocuparam a região sem pensar no amanhã e hoje, nessas regiões mais devastadas, disputam áreas e recursos cada vez mais escassos.

“Daqui para a frente, será preciso seguir outra lógica”, constata Gustavo Irgang, do Instituto Centro de Vida (ICV), entidade que trabalha com a conservação de áreas protegidas. “Vai sobreviver quem estiver legalizado e cumprir as exigências ambientais.” Gustavo acredita que a Amazônia hoje “assiste ao fim de um ciclo”. Não é mais possível continuar a destruição, entre outros aspectos, porque o mundo está com os olhos na região. Salvar a Amazônia é essencial para garantir o equilíbrio do clima do planeta, além de preservar a riqueza da floresta e as populações tradicionais. A tendência é crescer o aperto contra o ambiente sem lei que gera violência e degradação em várias partes da floresta.

Riqueza e pobreza na beira da estrada

Partimos pela rodovia MT 208, em Alta Floresta, a 876 quilômetros de Cuiabá, para alcançar a BR-163. Nas proximidades do município de Colíder (MT), chamam a atenção as marcas do eldorado criado pela agropecuária - grandes frigoríficos e a fábrica Agrodiesel, que produz biodiesel a partir do sebo de vaca. Em contraste, mais adiante, a cidade de Peixoto de Azevedo, que cresceu sobre os barrancos deixados pelos antigos e numerosos garimpos às margens do rio do mesmo nome, é um retrato da decadência dos ciclos econômicos. Com a escassez do metal e a queda do valor no mercado, garimpeiros que antes andavam armados e ostentavam dentes e colares de ouro, hoje cortam madeira e trabalham com gado.

Pelas cicatrizes na paisagem, não é difícil imaginar o que pode acontecer em outras regiões da Amazônia se esse modelo prevalecer. Até agora, a floresta sofreu com a ação de grileiros, que ocupam terras públicas, derrubam árvores para vender a madeira e, na área aberta, instalam pastos ou cultivos agrícolas. Como resultado, o solo se degrada e os posseiros se deslocam para novas áreas, reiniciando o ciclo de destruição. Isso quando não lucram com a especulação, vendendo as terras para terceiros apenas com os documentos provisórios de posse. Acrescente-se a ação dos grandes fazendeiros que têm o título de propriedade, mas desmatam mais do que a lei permite, para ampliar pastagens e plantios depois de retirar e vender a madeira.

O processo vicioso já levou a Amazônia a perder 17% da mata original, área superior a de muitos países, como a França. “Antes, fomos orientados pelo Incra a desmatar para comprovar a ocupação da área e ter o documento de posse”, reclama Altemar Queirós, 44 anos. Ele conta que viveu em acampamentos de sem-terra até investir R$ 125 mil, que recebeu de herança do pai, para comprar a “posse” de 1,4 mil hectares de floresta e cerrado de um dos primeiros colonos na região de Guarantã do Norte (MT).

A cidade nasceu há 25 anos a partir de um assentamento rural, logo após a inauguração da BR-163. A estrada facilitou o acesso de quem vinha de outras regiões em busca de um melhor futuro na floresta. O dinheiro da madeira e do gado abriu restaurantes, locadoras de vídeo e hotéis. Rasgou avenidas e construiu casas. A pavimentação da rodovia, que começa a sair do papel, deve atrair ainda mais gente. Nas condições atuais, a BR-163 fica intransitável em muitos trechos na estação das chuvas.

“As terras vão valorizar e atrair compradores”, prevê o comerciante Henrique Lopes de Lima, 69 anos, gaúcho de Lagoa Vermelha que há 30 anos deixou o Sul e instalou um bar para garimpeiros à beira da estrada em construção. Hoje, além de possuir 430 hectares de terra, Henrique é dono de um restaurante e um hotel. “Com o asfalto, o fluxo de caminhões vai aumentar”, calcula, esperando bons lucros.

Reforma da estrada influi no desmatamento

Prevista para ser concluída até o fim de 2007, a pavimentação da BR-163, com seus 1.767 km de extensão, busca encurtar distâncias na exportação de produtos agrícolas do norte do país, por meio do porto fluvial de Santarém. As obras de terraplanagem já começaram, como indica o vai-e-vem de máquinas em alguns pontos. Mas nem todo mundo está satisfeito. “Os estudos prévios de impacto ambiental têm falhas e as conseqüências podem ser desastrosas”, alerta o pesquisador norte-americano Philip Fearside, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), um dos cientistas que mais publicam trabalhos de pesquisa sobre a Amazônia no exterior.

Ele explica por quê: “Ao passar pela região de clima mais seco que a média amazônica, a BR-163 asfaltada vai induzir a abertura de clareiras que poderão aumentar o risco de queimadas de grandes proporções”. O processo pode ser mais intenso diante das mudanças no clima locais e globais. O perigo é fazer da floresta uma savana - um tipo de vegetação rasteira, mais parecida com a do cerrado. O alerta preocupa. Em 2007, a incidência de queimadas na Amazônia aumentou, segundo as imagens de satélite apuradas até julho pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Foram 23% mais focos de incêndio em relação ao ano anterior, sendo que 6,5 mil casos ocorreram dentro de unidades de conservação federais e estaduais e reservas indígenas. Mato Grosso, cortado pela BR-163, lidera o ranking dos números.

Segundo a previsão de Fearside, até 2030, se não houver mobilização social e maior controle do governo contra a destruição, a rodovia asfaltada poderá promover o desmatamento de 29,7 mil quilômetros quadrados, uma área maior que o estado de Alagoas. Sem o asfalto, a estrada já serve à exploração madeireira numa faixa de 5 quilômetros em cada margem. Após as obras, a distância que torna a extração de madeira viável deve se estender 45 quilômetros de cada lado, ameaçando áreas até hoje poupadas da destruição. “Novas rotas para o transporte ilegal de madeira devem empurrar o desmatamento para o centro da Amazônia”, diz o pesquisador.

Entre a devastação, onças e nascentes

Partindo de Guarantã do Norte rumo à cidade de Cachoeira da Serra, na divisa do Mato Grosso com o Pará, observamos as marcas desse processo. A paisagem rala é pontilhada pela inconfundível figura da palmeira patiúca, com suas folhas em forma de leque. É a única que escapa da destruição, pois as fibras de seu tronco são ricas em sílica, substância que danifica as lâminas de corte das motosserras.

Essa área que é uma das portas de entrada da planície amazônica - onde o cerrado encontra a floresta densa - ainda protege pedaços importantes de mata nativa, apesar de ser explorada há décadas. Esses trechos estão situados em locais mais isolados no alto das montanhas, nas áreas protegidas por lei e nas ilhas verdes que restaram por entre pastagens. Pegadas de onça, que observamos na margem da pista, confirmam a sua existência. Outra surpresa é um lago de águas azuis borbulhantes, que lembra a região de Bonito, no Mato Grosso do Sul. A beleza da nascente, espremida na mata entre clareiras cobertas por troncos queimados, dá bem a medida da riqueza natural que existia ali no passado.

Quilômetros à frente, logo após o monumento que marca a inauguração da BR-163 pelo presidente militar Ernesto Geisel, em 1982, alcançamos as exuberantes cachoeiras do rio Curuá, que estão com os dias contados. Em nome do progresso, parte das águas será desviada para alimentar as turbinas de três usinas hidrelétricas de pequeno porte em construção à margem da estrada.

Outros perigos rondam o projeto de asfaltamento. Prevê-se a chegada de mais grileiros à procura das terras valorizadas e o avanço da violência no campo. Os pessimistas temem a repetição da história do assassinato da missionária Dorothy Stang, no Pará, em 2005, que defendia os pequenos lavradores na luta contra os grileiros. Contra isso, o governo federal, pressionado pela repercussão do caso e pelos números galopantes do desmatamento, traçou um plano para dar um destino diferente à BR-163 asfaltada. Seu objetivo é transformá-la na primeira rodovia “sustentável” do país, um modelo que promove o desenvolvimento econômico e social, sem agredir o meio ambiente.

Promessas e a espera pela implementação

Áreas estratégicas de floresta da União, vizinhas à estrada, foram “congeladas” para qualquer tipo de exploração até que o governo decida o que fazer com elas. Entre as medidas previstas no plano, está a criação de 8,2 milhões de hectares de parques, reservas ecológicas e outras áreas protegidas por lei, além de ações para inibir a especulação de terras públicas por grileiros. Já foi extinto o Protocolo de Solicitação de Regularização Fundiária, documento conferido pelo Incra com o qual os posseiros conseguiam autorização oficial para cortar madeira, obter empréstimo em bancos para desmatar e vender a terra para terceiros.

“O plano é interessante, mas precisa ser implementado na prática”, diz André Mugiatti, um dos coordenadores do Greenpeace na região. Ele lembra que muitas promessas ficam no papel por falta de recursos humanos do governo na Amazônia. “O processo é lento, porque envolve a articulação com diversos setores”, rebate André Lima, diretor do Ministério do Meio Ambiente responsável pelas ações na Amazônia.

No momento, o governo pretende focar a atenção na revisão do Plano Nacional de Combate ao Desmatamento, iniciado em 2004. “A prioridade até hoje tem sido reforçar a investigação policial contra crimes ambientais e aumentar a fiscalização”, afirma Lima. Depois, segundo ele, o foco será incentivar o uso econômico das florestas. “Não podemos salvar a Amazônia apenas à base de porretes”, argumenta Lima. Uma iniciativa dentro dessa nova lógica foi a criação do Distrito Florestal Sustentável da BR-163, aberto às comunidades para projetos de geração de emprego e renda. Para dar suporte a essa segunda fase, o governo federal elaborou um atlas com o qual, pela primeira vez, se poderá saber quantas são, onde ficam e qual o tamanho das florestas que lhe pertencem -- e assim protegê-las com maior eficácia.

A tarefa será árdua. É fácil constatar a força da ilegalidade em meio à poeira da BR-163. No passado, carretas transportando toras de madeira, muitas vezes ilegais, circulavam em grandes comboios à luz do dia. De certa maneira, a situação mudou após a Operação Curupira, da Polícia Federal, que em 2006 ganhou espaço nobre na televisão ao levar à cadeia madeireiros ilegais, autoridades e agentes ambientais acusados de corrupção em Mato Grosso. Mas a diferença é que, atualmente, os caminhões com madeira irregular rodam na calada da noite para escapar dos fiscais, como chegamos a constatar.

“Para evitar problemas com a fiscalização, fazendeiros autorizados a desmatar para plantar ou criar gado dentro do que é permitido por lei só cortam uma ou outra árvore mais valiosa. O resto é tudo queimado”, constata Rodrigo Dutra, chefe do Ibama em Alta Floresta. Os recursos naturais, em vez de ajudar no sustento de famílias, viram fumaça lançada na atmosfera, contribuindo para o agravamento do efeito estufa e para as alterações no clima do planeta.

Com autorização do Ibama, acompanhamos uma operação de rotina dos fiscais nas imediações da BR-163. Após quatro horas de incursões em pequenas estradas secundárias, a equipe chegou à Fazenda Ingazeira, multada em 2006 por desmatamento ilegal. Armados e equipados com GPS e mapas, os fiscais procuravam novas áreas derrubadas, flagradas recentemente pelas imagens de satélite. Encontraram caídas na terra despelada para o plantio de pasto árvores centenárias, como uma castanheira de 30 metros de altura por 1,60m de diâmetro - espécie cujo corte é proibido por lei. “A área está preparada para ser queimada”, comprova o fiscal.

Onde impera a lei da selva

Zootécnico que há quatro anos trocou o emprego com gado de leite no Paraná pela fiscalização de crimes ambientais no Mato Grosso, Rodrigo Dutra chegou como força jovem para colocar ordem na casa. Em 2006, apenas na região de Alta Floresta, aplicou multas que somaram R$ 70 milhões, embargou uma área equivalente a 40 mil campos de futebol de desmatamento ilegal e apreendeu 400 carretas grandes de madeira ilegal. Mas reconhece que está mexendo num barril de pólvora. Em julho de 2007, ele e sua equipe foram cercados e mantidos como reféns por madeireiros na cidade de Paranaíta (MT). Foram obrigados a reabrir as serrarias ilegais que tinham acabado de embargar. “A resposta será severa”, ameaça o chefe do Ibama, que prepara uma mega-operação na cidade com apoio do Exército.

Em região de difícil acesso, onde o Estado está pouco presente, impera a lei da selva. Vingança, pistolagem e ameaças de morte são comuns. Nesses lugares, fiscais do Ibama, policiais, oficiais de justiça e outros representantes do governo não costumam ser bem-vindos. “Falta credibilidade”, admite João Alencar Simioni, secretário de Meio Ambiente de Marcelândia, uma cidade que vive há décadas do corte de madeira e agora, com as restrições à atividade, busca uma nova vocação econômica.

Em dois anos, o número de serrarias na cidade caiu pela metade. Os desempregados fazem fila na prefeitura pedindo cestas básicas. Sem alternativas, os produtores queimam árvores para abrir pastos. “Um incêndio descontrolado já consumiu durante oito dias mais de 1 mil hectares de floresta”, recorda Simioni. “Como a prefeitura só tem dois caminhões-pipa, o socorro vem dos próprios empresários do ramo madeireiro”, diz o secretário.

A cidade busca um caminho para voltar a crescer e para isso é palco de projetos para a preservação de importantes nascentes que abastecem o rio Xingu, no Mato Grosso. “Estamos recompondo o que ajudamos a destruir”, afirma Adão Rodrigues Leal, que antes serrava o equivalente a 20 árvores por dia. Hoje, ele trabalha plantando mudas no viveiro público, destinado a reflorestar o município. O trabalho faz parte da campanha Y Ikatu Xingu, coordenada pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com diversas instituições.

Ações de reflorestamento, alternativas econômicas, pesquisas, formação de lideranças e educação ambiental tentam salvar as fontes de água que estão ameaçadas pela expansão agrícola e abastecem diversas comunidades, entre elas aquelas do Parque Indígena do Xingu, onde vivem 10 mil índios. “É preciso somar forças e ter pressa porque está em jogo o futuro das próximas gerações”, diz D. Erwin Krautler, bispo do Xingu, diversas vezes ameaçado de morte por seu trabalho em defesa dos índios. “Comemorar a redução do desmatamento na Amazônia é um equívoco: é como festejar que em determinado lugar morrem diariamente cinco e não dez índios por desnutrição infantil como em outros tempos.”

O desmatamento é, de fato, um mau negócio tanto para o meio ambiente como para a população, segundo recente estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). No primeiro momento, afirma a pesquisadora Danielle Calentano, a derrubada de árvores gera dinheiro. Mas, no longo prazo, a população empobrece. O estudo revelou que, nos municípios amazônicos com mais de 90% do território desmatado, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) - parâmetro internacional que mede a qualidade de vida da população - é menor do que a média regional.

Sem alternativas de sustento, a população migra da floresta para a periferia das cidades, aumentando a violência. Um exemplo está no município de Trairão (PA), cerca de 600 km ao norte da Serra do Cachimbo, mas há muitos outros, relata o pesquisador Marcos Ximenes, diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). A cidade foi fundada por colonos na década de 70, que se aventuraram na selva para praticar uma agricultura de subsistência. Com o tempo, passaram a trabalhar no garimpo, na pecuária e na exploração madeireira, na maioria ilegal. Em julho de 2007, a sede do Ipam naquele município foi baleada e precisou ser fechada. “O técnico especializado em organizar comunidades para atividades produtivas sustentáveis foi transferido para a cidade de Itaituba (PA)”, conta Ximenes.

Os que estão em busca de alternativas

Nas proximidades de BR-163, a 100 km do ponto final da rodovia na cidade de Santarém (PA), os pesquisadores do Ipam dão suporte científico à empresa Manejo Florestal e Prestação de Serviços (Maflops) na adoção de um novo modelo para exploração de madeira em parceria com assentamentos rurais. Em vez de ocupar floresta pública por meio de grilagem de terras ou comprar área para cortar árvores sem critério, como é a prática tradicional, a empresa faz contratos com os pequenos produtores para receber a madeira retirada de suas terras. Os assentados são orientados pelos técnicos do Ipam a preservar 80% das propriedades, conforme manda a lei, e a obter ganhos com a exploração dessa reserva sem prejuízos ambientais.

O corte das árvores é planejado para garantir as sementes das quais vão brotar as espécies que serão exploradas no futuro. “Com o sucesso do trabalho, que inclui também o aproveitamento de áreas já degradadas para pasto e plantios, evitando o avanço sobre a floresta, o modelo deve se expandir para outras regiões da Amazônia”, informa Ximenes. Outra iniciativa para frear o desmatamento é a Moratória da Soja, conduzida pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Pela iniciativa, os empresários se comprometem a não comercializar o grão produzido em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2006.

A moratória, conduzida em parceria com instituições não-governamentais, como o próprio Ipam, o Greenpeace, o WWF e a The Nature Conservancy (TNC), tem a adesão de um número significativo de grandes produtores, com incentivo para não desmatar novas áreas e manter as reservas de floresta, conforme determina a lei. Parte das propriedades se localiza na região de influência da BR-163. “A moratória é uma oportunidade única de demonstrar que a articulação entre empresas, organizações não-governamentais e movimentos sociais pode efetivamente proteger a floresta”, afirma Paulo Adario, do Greenpeace. Ele acredita que “é possível virar o jogo contra o desmatamento e as mudanças climáticas”, evitando que problemas hoje comuns nas primeiras regiões desmatadas na Amazônia se espalhem por toda a região. A BR-163, nesse caso, poderá ter um futuro melhor. Será, além de símbolo da destruição, palco de medidas tomadas para mudar esse quadro.

BOX (serra do Cachimbo)

Serra do Cachimbo: produzir ou preservar?

Eles vieram de outras regiões, compraram a “posse” de terras públicas da União, abriram pastagens, construíram estradas e pontes e ajudaram a criar cidades. Hoje, cerca de 200 produtores rurais da Serra do Cachimbo, entre Mato Grosso e Pará, correm o risco de serem expulsos do território depois que o governo federal criou uma reserva biológica no local, na qual é proibido qualquer tipo de ocupação ou exploração econômica. É um exemplo dos conflitos que precisam ser gerenciados na Amazônia e envolvem questões delicadas para os brasileiros que acreditaram nas políticas de ocupação do passado.

“Fomos pegos de surpresa”, diz Marcelo de Castro Souza, 35 anos, presidente da Associação dos Produtores do Vale do Quinze. Ele diz que os posseiros pretendiam obter o título das terras que ocupam há mais de duas décadas. Como estratégia para facilitar esse processo, decidiram reduzir a devastação. Com suporte técnico de pesquisadores, desenvolveram então um projeto que visava a transformação de uma parcela desse território em parque nacional. O parque, com um total de 280 mil hectares, abrangeria principalmente as áreas improdutivas, cobertas por floresta e por uma vegetação rasteira de solo arenoso, típica de zonas classificadas como restingas amazônicas.

No entanto, em vez disso, em 2005, o governo federal criou a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, envolvendo até mesmo as pastagens abertas por eles. A notícia sobre a nova reserva gerou revolta. “Tínhamos a intenção de preservar, mas também de produzir e sustentar nossas famílias”, conta Souza. “Muitos agora dizem que, caso sejam obrigados a abandonar a área, atearão fogo em tudo.” Ele acha que as famílias mereciam um tratamento diferente. “Não somos ilegais, pagamos impostos, declaramos as terras na Receita Federal, o gado tem laudos da vigilância sanitária”, afirma.

“O Estado sempre esteve ausente e não nos orienta sobre como agir”, acrescenta Amâncio Marques, 50 anos, dono de 500 hectares de pastagem e 4,5 mil hectares de floresta que guardava para os cinco filhos. Inconformado, o produtor constata: “Se antes a preservação da área tinha muitas famílias como aliadas, hoje só tem inimigos”, afirma Marques. Até o momento, apenas uma pequena parte, cerca de 6% da região ocupada pelos produtores, foi desmatada para instalar pastagens. Mas ninguém sabe o que está por vir. “Sem documentação de posse, ninguém é dono da terra e por isso poucos cuidam da floresta”, diz Marques.

BOX - Mapa

Proteção deve se estender além do papel

A Amazônia brasileira tem hoje 40% de seu território protegido por lei. Além das terras indígenas, existem na região 287 unidades de conservação estaduais e federais. No total, entre parques e florestas nacionais, terras indígenas e reservas biológicas e de desenvolvimento sustentável, cobrem 116 milhões de hectares, área superior a toda a Região Sudeste. Trata-se de um dos maiores complexos de territórios ecologicamente protegidos do mundo, conforme ilustra o mapa ao lado, produzido pelo Instituto Socioambiental.

“O problema é que a simples criação de unidades de conservação não garante que elas cumpram o papel de evitar o desmatamento em larga escala, o mau uso dos recursos naturais e a extinção das espécies”, adverte José Maria Cardoso, vice-presidente de ciência da Conservação Internacional (CI-Brasil). É preciso implementá-las na prática, com a realização de inventários biológicos, planos de manejo, regularização fundiária e ordenação dos vários usos, por exemplo.

Nos últimos anos, o governo intensificou a criação de novas áreas protegidas, como o Parque Nacional do Juruena, em Mato Grosso, para blindar as florestas bem preservadas ante o avanço de atividades destrutivas que muitas vezes seguem o curso das estradas. No entanto, um diagnóstico elaborado em 2007 pela Fundação Vitória Amazônica, no qual foram avaliados 200 parques e reservas da região, revela que uma parte muito pequena possui estratégias de gestão definidas e a maioria tem recursos humanos insuficientes e não dispõe de qualquer tipo de infra-estrutura, como centro de visitantes, trilhas demarcadas e placas de sinalização.

Segundo o estudo, as reservas estaduais são as que apresentam maior número de problemas. Em Rondônia, por exemplo, as taxas de desmatamento são consideradas alarmantes, muito superiores à média das unidades de conservação federais e terras indígenas. Já no Mato Grosso, as ameaças rondam o Parque Estadual do Cristalino, pressionado por fazendas que praticam queimadas e por posseiros que cortam ilegalmente madeira, vindos de outras regiões onde a fartura de recursos naturais está no fim. Para tornar a proteção dessas e das demais unidades de conservação mais eficiente, o estudo destaca a importância dos projetos que reúnem a sociedade civil, proprietários, empresas e órgãos de governo federal, estadual e municipal. É o caso dos corredores de biodiversidade, que interligam pedaços de floresta essenciais à preservação das espécies.

Box cidade

Cidade fantasma

O silêncio das ruas vazias indica que a cidade de Cachoeira da Serra (MT), cortada pela BR-163, já não tem a vida corrida de pouco tempo atrás. Pelo contrário, pode se tornar um povoado fantasma. A explicação é simples: com o aperto da fiscalização contra a madeira ilegal, grande parte da população, que trabalhava no corte de árvores e em serrarias, abandonou o lugar em busca de emprego. “O movimento caiu 80%”, constata Silvio de Oliveira Bittencourt, 50 anos, dono do bar da rodoviária local. A salvação, para ele, é a venda de passagens de ônibus para os trabalhadores que se mudam para outros lugares do Brasil.

José Vilmar Ângelo, 51 anos, proprietário da maior serraria da cidade, amargou uma redução de 40% nas vendas e já demitiu 30 dos 45 funcionários. “Desde 2003 o governo estadual não libera novos projetos de manejo florestal para o corte legal de madeira”, reclama o madeireiro. O comércio da cidade sentiu o impacto e começa a fechar as portas.

Não fosse a recente chegada dos operários que trabalham na construção de pequenas hidrelétricas a poucos quilômetros dali, a situação seria ainda pior. Em meio à crise, há quem aposte no futuro. José Newton Leite, 41 anos, veio de Pernambuco com mais de 70 pessoas para montar uma fábrica de farinha na cidade. “Vou usar energia elétrica gerada por uma cachoeira aqui perto”, revela.

BOX 1 – página dupla com foto grande

A Amazônia é vital para o mundo

Manter as árvores de pé é uma tarefa urgente para melhorar a vida dos habitantes e garantir a saúde do planeta. Por quê?

Porque é refúgio da biodiversidade

A região corresponde a 40% de todas as florestas tropicais que restaram no mundo. As características de calor e umidade, com chuvas abundantes e bem distribuídas, responsáveis pela existência de vários ecossistemas – das matas de terra firme às várzeas e igapós - deram origem a uma diversidade de plantas, animais e microorganismos. Calcula-se que a Amazônia abriga entre 30% e 50% de todas as formas de vida da Terra. São pelo menos 45.000 espécies de plantas, 311 de mamíferos e 1.000 de aves. Somam-se a essas mais 163 espécies de anfíbios, 305 de serpentes, 1.800 de borboletas e 1.300 de peixes de água doce já descritos pela ciência.

Porque mantém o equilíbrio do clima

Na presença da luz, as plantas retiram o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera por meio da fotossíntese. O carbono retorna na forma de CO2 por processos biológicos (respiração e decomposição da matéria morta). Esse equilíbrio entre a retirada de carbono e o retorno para a atmosfera é alterado pelo desmatamento e pelas queimadas, sendo responsável pelo aumento de gases que provocam a elevação da temperatura na Terra. Desmatamento e queimadas são os dois fatores que mais contribuem para o aquecimento global no Brasil. O país é responsável por 7,5% das emissões mundiais de dióxido de carbono provenientes de desmatamentos.

Porque garante chuvas normais em outras regiões

Cerca de 50% de toda a chuva que cai na Amazônia é gerada a partir da evaporação da água contida nas árvores e demais plantas da floresta. Recentes pesquisas indicam que o desmatamento e as queimadas na região alteram os níveis de vapor d’água nas nuvens e causam efeitos sobre o regime de chuvas no centro-sul do país. O problema poderá causar prejuízos à agricultura e ao abastecimento de água na Região Sudeste no futuro.

Porque abriga povos, línguas e tradições

A Amazônia é habitada por uma grande diversidade de povos que preservam conhecimento, práticas de uso da floresta e tradições culturais milenares. Além dos caboclos, quilombolas e outras populações locais, a região abriga 60% dos índios brasileiros. São 414 reservas indígenas, que cobrem mais de 20% do território amazônico. Essa diversidade inclui também a maior parte das 180 línguas e dialetos falados por povos indígenas no Brasil, número que antes da chegada dos portugueses era superior a mil.

Porque reúne grandes mananciais de água

A disponibilidade e qualidade dos recursos hídricos estão intimamente ligadas às florestas, que protegem as nascentes e mananciais e os mantêm limpos. Também neste quesito, a Amazônia é uma terra de superlativos. Possui o rio mais volumoso do planeta, o Amazonas, que compõe uma bacia gigantesca, responsável por 20% das águas fluviais da Terra.

Porque sustenta populações e é importante para o desenvolvimento do país

A floresta guarda tesouros naturais que, explorados adequadamente e mais valorizados, podem gerar inúmeros benefícios econômicos e sociais para as populações locais e para o país como um todo. Dos minerais existentes no subsolo, à força da energia hídrica dos rios, passando pelas espécies de madeira e pelo extrativismo de frutos, sementes e plantas com as quais se produzem cosméticos e remédios, o potencial de utilização é imenso. A preservação é fundamental para garantir o sustento das comunidades tradicionais, o desenvolvimento regional duradouro e o futuro dos negócios com os produtos da floresta.

Box 2 – verdades e mitos

Verdades e mitos

Centro das atenções, a Amazônia é alvo de visões distorcidas. Conheça os principais mitos sobre a floresta

Pulmão do mundo

A tese de que a Amazônia produz 80% do oxigênio do mundo é equivocada. A maior parte do oxigênio liberado pelas plantas é consumida lá mesmo.

Celeiro onde tudo dá

A exuberância da floresta não significa que tudo o que se planta lá se desenvolve com sucesso. Ao contrário, o teor de nutrientes do solo é baixo, o que dificulta transformar a região em eldorado agrícola.

Floresta uniforme e homogênea

Embora a floresta pareça um tapete verde contínuo, na verdade, ela reúne diversas realidades ecológicas, como as matas de terra firme, as florestas inundadas, os campos abertos e as manchas de cerrado.

Amazônia vazia

Apesar de possuir florestas a perder de vista, a Amazônia não é vazia e inabitada ou um imenso espaço aberto que precisa ser ocupado e colonizado. Ali vivem 20 milhões de pessoas.

Patrimônio da humanidade

São comuns insinuações a favor da internacionalização da Amazônia, em detrimento da soberania política e econômica do Brasil na região. A preocupação são as ameaças ambientais do desmatamento.

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly