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Altamira (PA) - No rastro da floresta

Beraca mobiliza clientes compradores de ingredientes da biodiversidade para a exportação

· Pará

Na espaçosa sala de aulas e reuniões, a bacia de barro com o banho de cheiro para “descarrego” contém vindicá, manjerona-de-Angola, casca de cedro, patchouli e várias ervas boas para atrair energias positivas. Entre as espécies vegetais daquela alquimia amazônica, uma em especial se destaca pelo aroma que hoje compõe a fórmula de perfumes ao redor do mundo: a priprioca, cultivada no terreno ao fundo juntamente com outras plantas nativas de interesse comercial, como a pataqueira. “Tudo que temos hoje devemos a elas”, afirma Paulo Teles, integrante da associação de produtores orgânicos da comunidade de Boa Vista, município de Acará (PA).

A raiz da priprioca é fornecida para beneficiamento do óleo aromático na Beraca, fabricante de insumos para cosméticos e alimentos com unidade fabril instalada em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Mediante técnicas de produção sustentável, os associados encontraram uma valiosa alternativa à roça de mandioca e à derrubada de árvores para produzir carvão.

A maior renda permitiu a construção ou melhoria das residências e a compra de carro, moto e smartphones. Além disso, o contrato de repartição de benefícios pelo uso comercial da biodiversidade, firmado com a Natura, compradora dos ingredientes da Beraca, tem gerado ganhos adicionais que resultam nos caprichos da sede da associação. Cercado por jardins de muitos cheiros, o prédio tem biblioteca, sala de informática. “Ganhamos capacitação em troca do conhecimento tradicional”, ressalta o presidente, José Maria do Rosário, ao lembrar que o aprendizado abriu a cabeça para os negócios.

Quem visita as localidades amazônicas conhece as dificuldades e o real valor por trás dos cosméticos e outros produtos finais. “Além da logística complicada devido ao isolamento, o trabalho junto aos produtores envolve a burocracia para regularização da posse da terra e perigos variados, desde picadas de cobra a panes nos barcos com risco de ficar à deriva nos rios”, conta Karina Raiol, supervisora de recursos florestais da Beraca.

Há também um esforço de inovação e qualidade na planta de beneficiamento em Ananindeua, que processa 1 mil toneladas de matéria-prima por ano. São sementes, folhas, cascas, raízes, polpas e amêndoas, das quais se obtém os ingredientes – 40% hoje destinados à exportação. Além das essências aromáticas, a unidade beneficia a argila amazônica, utilizada no tratamento da pele. E ainda refina diversos óleos que vão compor sabonetes, xampus e creme hidratantes, obtidos de espécies como andiroba, castanha-do-Brasil, buriti, babaçu e açaí. Uma das novidades do laboratório de pesquisa é a ucuúba, a “joia da Amazônia”, cuja árvore era antes cortada para fazer cabo de vassoura e hoje tem alto valor de mercado como componente de perfumes.

O bom relacionamento com os produtores florestais, mediante auxílio técnico e pagamento de valores justos e atrativos para se evitar a dependência de intermediários, é estratégico para a garantia da matéria-prima com origem sustentável. Devido a esse diferencial, a empresa despertou o interesse de uma das líderes mundiais de especialidades químicas – a suíça Clariant – para a constituição de uma joint-venture capaz de fazer o insumo da biodiversidade brasileira alcançar novas fronteiras.

A Beraca trabalha com mais de 100 comunidades, em nove estados. “A partir da experiência junto aos fornecedores, a ideia agora é trabalhar o outro lado da cadeia produtiva, ajudando pequenas empresas que compram nossos ingredientes a explorar os atributos socioambientais para exportar”, destaca o gerente de sustentabilidade, Thiago Terada.

O desafio levou a empresa a participar como “âncora” no projeto ICV Global, ao lado de dez clientes. “Temos agora um plano de ação mais coerente para dar novos passos”, afirma Maria José Viesi, diretora do Empório Saúde, grupo empresarial que tradicionalmente atua no mercado hospitalar e decidiu iniciar a produção de cosméticos orgânicos, carregando valores associados à biodiversidade e ao conhecimento tradicional.

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