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Aquidauana / Corumbá (MS) - Pantanal em agonia

Sufocada pelo assoreamento de cultivos agrícolas do Cerrado, a maior planície alagável do mundo está com os dias contados. É possível salvá-la?

· Mato Grosso do Sul

No caminho entre Campo Grande e Corumbá, cidade às margens do rio Paraguai, no Mato Grosso do Sul, a BR 262 bordeja um dos mais sensíveis refúgios de vida silvestre do planeta: o Pantanal. A estrada descortina impactos que mudam a paisagem e alteram o equilíbrio ecológico. Estamos no limite-Sul da planície pantaneira. É fácil avistar queimadas em fazendas centenárias com pastagens estranhas ao ambiente natural. No município de Aquidauana, a 130 km da capital, carvoarias indicam o destino das árvores retiradas para abrir plantações. Ao longo da rodovia, impressiona a quantidade de animais atropelados: em menos de 50 Km de percurso, um cachorro-do-mato, um tamanduá-mirim, um tamanduá-bandeira e um quati. Plantios de eucalipto sobre pastagens abandonadas se espalham perto de nascentes. Ao transpor a ponte sobre o rio Miranda, 350 km antes de Corumbá, constatamos erosão severa na beira da água. Bancos de areia barram o curso do rio e pintam a paisagem de marrom. “Antes pescava dourado com anzol lançado da ponte, mas o peixe sumiu”, lamenta o motorista Paulo Mora, lembrando um passado de fartura.

O que há de errado com o Pantanal e suas belezas naturais? “A vida na região depende do ir e vir das águas, mas os rios recebem impactos graves que estão mudando o cenário, causando desequilíbrios e tornando o Pantanal irreconhecível”, alerta o pesquisador Walfrido Tomas, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Corumbá. O desmatamento é o principal vilão. Resta apenas 40% da vegetação original em toda a Bacia do Rio Paraguai, incluindo a planície inundável que constitui o bioma do Pantanal propriamente dito e o planalto de Cerrado em seu entorno. O diagnóstico compõe um recente mapeamento elaborado por cinco organizações ambientalistas -- Conservação Internacional, WWF-Brasil, SOS Mata Atlântica, Avina e Ecoa. O objetivo é fornecer subsídios para o governo federal agir.

A situação é mais grave no planalto, onde 58% das matas estão comprometidas. Entre 2002 e 2008, foi devastada uma área de 6,8 mil Km2. Nesta região vizinha mais alta, a expansão agrícola sem critérios ambientais é a principal causa dos problemas na planície pantaneira. Segundo a pesquisa, 85% das terras mais baixas mantêm-se conservada -- mas não se sabe até quando.

Danos podem ser para sempre

Com o desmatamento no planalto, os solos desprotegidos são castigados pelas chuvas que carregam terra para o rio Taquari, mudando a paisagem dos campos pontilhados de lagoas, o mais famoso cartão-postal do Pantanal. O processo natural de sedimentação, típico da região, está sendo acelerado pela ação do homem com impactos que podem ser irreversíveis. Com 801 Km de extensão, o Taquari é o maior afluente do rio Paraguai. Nasce a 800 metros de altitude no Planalto Central, em Mato Grosso, compondo uma bacia hidrográfica de 65 mil quilômetros quadrados, a maior parte no Pantanal. É um rio essencial ao equilíbrio da região, mas o assoreamento interrompeu a navegação, reduziu os peixes e causou prejuízos às propriedades rurais e à população.

O fluxo de cheias e vazantes foi alterado. O entupimento transformou uma porção da área em deserto durante a seca. Em outra parte, 5 mil Km2 da planície passaram a ficar permanentemente alagados. Gado e fauna foram expulsos e o local é hoje cemitério de árvores afogadas, compondo uma paisagem lunar, conhecida como “paliteiros”. A situação preocupa, porque dois terços da água que circula no Pantanal nascem nas áreas agrícolas do Mato Grosso. Estudos da Embrapa detectaram nesses mananciais a existência de pesticidas, inclusive o DDT, banido há décadas pelos efeitos danosos ao meio ambiente.

População migra para favelas

A inundação deslocou colônias de pequenos agricultores para a periferia de cidades maiores, como Corumbá. O bairro Cobrasa, ao redor de um dique inacabado na beira do rio Paraguai, espelha essa realidade. “Sem alternativas econômicas, aumentou a violência e a prostituição”, afirma José Aníbal Camastri, chefe da Embrapa na cidade. O problema atingiu também grandes fazendeiros, que viram suas terras submergirem. Quem não faliu arrendou áreas melhores para produzir ou investiu as economias para abrir novas pastagens longe dali. Pistas de pouso das propriedades abandonadas passaram a servir ao narcotráfico.

“Dá pena ver a vegetação morrendo”, diz o proprietário Pedro Lacerda. Sua fazenda, a Bela Vista, teve 60% das terras comprometidas pelas águas e o gado foi reduzido à metade. “Tive de comprar outra área no Pantanal para descolar os animais”, completa Lacerda, também presidente do Sindicado Rural de Corumbá. Com vista para o rio Paraguai, a sede do sindicato estampa na fachada os dizeres: “Passa boi, passa boiada ... a natureza fica”. Mas Lacerda teme que o futuro não seja bem assim. “É preciso uma ação urgente de controle, porque os rios estão agonizando”, adverte o fazendeiro, defendendo a realização de obras para estancar o assoreamento.

O Ministério da Integração Nacional reservou R$ 54 milhões para consertar os estragos no rio Taquari, recuperando o equilíbrio natural das cheias e vazantes. Estão previstas dragagens e construção de canais, entre outras intervenções. A obra, prevista para começar no final de 2009, será executada pela Transrio -- empresa que recuperou a calha do rio Tietê, em São Paulo. A “doença” do Taquari tem poder de se alastrar pelas águas de todo o Pantanal, como já ocorre em outros dois importantes rios -- o Miranda e o São Lourenço. “Estamos diante do maior acidente ecológico do País na atualidade e a situação chegou a tal ponto que não dá para ficar de braços cruzados”, afirma o senador Delcídio Amaral (PT-MS), ferrenho defensor do projeto de dragagem, que é polêmico.

Mudanças na agricultura

“Será dinheiro jogado no ralo”, prevê Alcides Faria, diretor da organização não-governamental Ecoa, em Campo Grande. Ele diz que antes de mais nada é necessário sarar o foco da ferida -- ou seja, estancar os sedimentos que descem das plantações de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão na beira do Pantanal. Medidas como curvas de nível nos cultivos, reflorestamento da beira dos riachos e recuperação de voçorocas e outras áreas degradadas começaram a ser empregadas. Mas o ritmo é lento: o material sólido continua entupindo a planície, também alvo de práticas destrutivas, como as queimadas.

“Em 2009, o fogo para renovar pastagens foi muito mais frequente”, informa Faria. Ele diz que a criação extensiva de gado alimentado por pastagens naturais contribuiu para a conservação do Pantanal e que é preciso valorizar economicamente esse modelo mais adequado de produção. Uma das iniciativas é a pecuária orgânica. A carne com selo ecológico é exportada e chega a redes de supermercados com preços compensadores para os fazendeiros. Em complemento, o ecoturismo é hoje uma importante fonte de renda. A idéia é criar alternativas capazes de competir com atividades predatórias que chegam à região junto com modelos diferentes da tradição pantaneira.

Um dos perigos é o desmatamento para o cultivo de novas pastagens, que ocorre principalmente porque a cada geração as grandes fazendas são divididas entre herdeiros. “Em menor tamanho, as áreas acabam desmatadas para expandir pastagens e aumentar a produtividade, tornando-se economicamente viável”, explica o biólogo George Camargo, da Conservação Internacional. A ong é proprietária da Fazenda Rio Negro, que preserva um refúgio de áreas virgens para pesquisas de campo sobre o Pantanal e sua função de suprir água, estabilizar o solo e conservar o clima. “Na estrada até a propriedade, vi grande extensão de mata desaparecer em menos de cinco anos”, revela Camargo.

Cuidados na mineração

A mineração é outra ameaça que preocupa quem defende o uso sustentável da região. Nos arredores de Corumbá, a BR 262 cruza morrarias que guardam a segunda maior jazida de ferro do país, explorada há mais de uma década por um pólo mínero-siderúrgico que agora planeja ampliar a atividade. Como a tubulação de gás natural que liga os poços da Bolívia a São Paulo atravessa aquela paisagem, o governo estadual acenou com a idéia de incentivar a instalação de indústrias químicas. O debate sobre o impacto para a vida do Pantanal acirrou-se, levando empresas, organizações não-governamentais e Ministério Público a construir uma plataforma de diálogo em busca soluções. O grupo encomendou um amplo estudo para avaliar os riscos da mineração e decidir o melhor caminho. “Todo cuidado é pouco, porque o sistema pantaneiro é complexo e frágil”, afirma o pesquisador Emílio La Rovere, coordenador do estudo realizado pela Coppe, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Um dos perigos é alimentar os fornos da siderurgia com o carvão obtido da mata nativa ou de florestas de eucalipto plantadas sem métodos de controle. Outra ameaça está no consumo exagerado de água, foco de conflitos na região. As mineradoras chegaram ao Maciço do Urucum com a promessa de gerar emprego, mas os riachos secaram. “Apesar de o Pantanal ter tanta água, hoje dependemos de carros-pipa”, reclama Luzinete Correia, presidente da Associação de Moradores de Antônio Maria Coelho. O povoado se localiza ao pé da morraria, vizinho à linha de trem que transporta o minério de ferro para o resto do país. Três balneários que garantem renda para a localidade foram prejudicados.

“A situação só não é pior, porque cuidamos do que restou”, revela Rômulo Mesquita, mostrando o riacho Pirapitanga que corre no quintal de sua casa. O morador não aceitou o acordo com as empresas para deixar a área, cercada por montanhas que funcionam como refúgio da biodiversidade durante as cheias na planície pantaneira. Árvores de ipê-roxo e amarelo colorem a paisagem verde, cenário de pesquisas com espécies que dão pistas sobre alterações no ambiente. Jacarés-paguás, por exemplo, receberam implante de chips e são monitorados dia e noite por técnicos da Embrapa para detectar mudanças de comportamento. A ciência faz a sua parte, os ambientalistas mapeiam impactos, mas “falta uma política do governo federal específica para o Pantantal”, reivindica Michael Becker, do WWF-Brasil. Ele completa: “não dá mais para ficar de braços cruzados”.

BOX -

Bichos por toda parte

O Pantanal é a maior área úmida continental de água doce do planeta. A “dança” entre cheias e vazantes leva nutrientes para a planície, em benefício da fauna em busca de alimento, abrigo e boas condições para se reproduzir. É fácil avistar animais na natureza. São 122 espécies de mamíferos, 263 de peixes, 93 de répteis e 656 de aves, além de 1.132 espécies de borboletas catalogadas. Com os impactos ambientais, há risco de espécies mais sensíveis desaparecerem antes que sejam conhecidas pela ciência. Além do tuiuiú, pássaro-símbolo da região, existem araras-azuis, veados-campeiros, antas, tatus e uma infinidade de jacarés.

Os biólogos não mediram ao certo os efeitos das agressões ambientais na fauna. Mas sabe-se que algumas espécies se beneficiam do aumento das inundações, como é o caso da ariranha. Capturada para exportação da pele, a espécie foi considerada comercialmente extinta no final da década de 1960. Após a proibição da caça, as populações se recuperaram. Hoje, após dez anos de grandes cheias no Pantanal, as ariranhas são frequentemente avistadas. Também os cervos-do-pantanal e as onças-pintadas tiram proveito das enchentes, pois deixam de ser caçados quando o gado está longe.

O caso dos lobos-guarás é diferente. Eles foram prejudicados com a maior inundação causada pelo assoreamento dos rios, que muda a distribuição das espécies terrestres no Pantanal e pode abrir as portas para espécies invasoras que causam diversos danos. Uma delas, o mexilhão dourado, já chegou à região no casco de navios mercantes asiáticos que subiram o a bacia do Prata para navegar no rio Paraguai.

Conflitos no rio Paraguai

O Rio Paraguai compõe uma bacia hidrográfica de 624 mil Km2, abrangendo os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de regiões do Paraguai e Bolívia. Tem grande importância estratégica, por ligar o Sul do continente a uma das regiões de maior produção agrícola do país. O rio é também essencial ao equilíbrio ecológico do Pantanal. Por essas razões, o uso de suas águas é foco de debates polêmicos. O projeto de construir uma hidrovia para servir à produção agrícola e mineral acabou engavetado há uma década pelo governo federal. Os custos e possíveis impactos das dragagens e retificação de seu curso frearam a obra. A questão voltou à tona no plano para integrar comercialmente o Cone-Sul à Amazônia e ao Norte do continente, mas a idéia não saiu do papel.

Atualmente, a construção de hidrelétricas é o principal motivo de debate. Vinte nove pequenas, médias e grandes usinas estão em operação na bacia do Alto-Paraguai e existem 115 novos projetos previstos para a região. “As licenças são concedidas pelos órgãos ambientais individualmente, mas é urgente avaliar o impacto de todas essas obras no conjunto”, afirma a pesquisadora Márcia Divina, da Embrapa, em Corumbá. As barragens podem mudar o regime de cheias do Pantanal, piorando os impactos do assoreamento já existentes na planície em decorrência da expansão agrícola do entorno.

Os efeitos das mudanças climáticas

A Serra do Amolar, complexo de montanhas na fronteira do Brasil com a Bolívia, protege uma das mais belas paisagens do Pantanal. É cenário de pesquisas sobre as mudanças no clima e seus efeitos na biodiversidade. Cientistas da Universidade Estadual Paulista e do Arizona, nos EUA, coletam sedimentos para analisar as variações de temperatura nos últimos 30 mil anos e prever o que pode acontecer no futuro, diante do aquecimento global. Os dados contribuirão para políticas de conservação e de desenvolvimento econômico. Com as previsões de clima mais seco para a planície pantaneira no futuro, o assoreamento que hoje dificulta a navegação nos rios e atinge as espécies da fauna tende a ser mais severo. A pesca poderá ser afetada diretamente, com necessidade de alternativas de renda para a população.

Para desvendar efeitos futuros, os pesquisadores enfrentam aventuras, a começar pela viagem de 24 horas no rio Paraguai entre Corumbá e a Serra do Amolar. O lugar mantém-se bem conservado, vizinho ao Parque Nacional do Pantanal, à Estação Ecológica Taymaã e reservas em terras particulares. Em território boliviano estão o Parque Nacional de Otuquis e a Área Natural de Manejo Integrado San Matías. A região abrigou etnias indígenas presentes no Pantanal há 8 mil anos, entre as quais os últimos remanescentes são os Guató -- povo canoeiro que hoje habita a Ilha Ínsua e a periferia de Corumbá. As comunidades da Serra do Amolar vivem de acordo com o ciclo natural das águas e retiram o sustento do ambiente, sem comprometer os recursos naturais.

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