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Aruanã / Mineiros (GO) - Eles salvam nascentes

 

Rio Araguaia é alvo de projetos para recuperação das águas que servem à pesca e aos plantios dos vazanteiros

· Goiás

Quando reunia os proprietários rurais da vizinhança para o famoso churrasco anual de aniversário, o fazendeiro Milton Frias, de Mineiros (GO), costumava fazer um discurso e depois pedir um minuto de silêncio para que todos meditassem sobre o meio ambiente. Certa vez, o anfitrião brincou: “se vocês fizerem só a metade do que pensaram, está bom demais”. Assim, como um trabalho incondicional e “formiguinha”, o produtor venceu dogmas da agricultura e mobilizou nos últimos anos a adesão dos colegas para medidas destinadas a um objetivo urgente: salvar as nascentes do rio Araguaia.

Falecido no ano passado, Frias deixou para as filhas a tarefa de continuar a longa e penosa história de conservação iniciada na década de 1980, quando foram comprados 54 hectares com o único intuito de proteger a chamada “Nascente A”, reconhecida pelo Exército como a principal daquela bacia, na tríplice divisa entre Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Na época o proprietário já tinha recuperado a voçoroca “Buracão”, erosão causada anos antes pela obra de uma rodovia construída para escoar a produção agrícola. Com o retorno da água, formou-se no local uma grande lagoa azul. Para consertar os estragos do passado, foram plantadas até o momento 1 milhão de mudas nativas, com meta – agora assumida pelas filhas do fazendeiro -- de chegar a 2 milhões.

Alvo do reflorestamento é a Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN) Nascentes do Rio Araguaia, com 725 hectares que correspondem a áreas de proteção obrigatória na fazenda e uma porção de terra produtiva deixada intacta para a conservação no entorno do Parque Nacional das Emas. “O plano maior é compor um corredor ecológico para conexão entre dos biomas do Cerrado e Amazônia”, explica Dalton Nogueira, gerente da Fazenda Babilônia, da família Frias, onde se localizam 12 olhos d´água formadores do Araguaia. O projeto de um segundo corredor de menor tamanho, previsto especificamente para unir as nascentes, deverá aumentar em um terço a RPPN. Diferentes instituições, centros de pesquisa e propriedades rurais participam em conjunto do trabalho de juntar pedaços de remanescentes florestais, como uma colcha de retalhos. Na vizinhança, a Fazenda Célia criou duas reservas particulares com 300 hectares, replicando a iniciativa de prevenir as cicatrizes deixadas ao longo dos anos pela expansão agrícola sem critérios ambientais.

A erosão, que abre gigantescos buracos no solo arenoso e frágil, é a principal delas. Foi o caso, por exemplo, da voçoroca Chitolina, uma das maiores e mais famosas do país, causada a partir de 1981 por cultivos de soja na área hoje pertencente à Fazenda Babilônia, onde milho e outras culturas cobrem um total de 5 mil hectares. O corrimento de água sem infiltração na terra desmatada provoca a destruição. Com 2,5 km de extensão, a cratera foi totalmente mapeada e estabilizada. Neste ano, serão plantadas 15 mil mudas na área. “A água agora está limpa e não leva areia para o Araguaia”, garante Nogueira, apontando o assoreamento como uma grave ameaça. Há dois anos, uma expedição do governo goiano descobriu a existência de 50 voçorocas, dez delas maiores que a famosa Chitolina.

No município vizinho de Caiapônia (GO), o problema atinge com gravidade o Assentamento Cachoeira Bonita. “Erosões gigantes sugam a água que servia à agricultura”, afirma o engenheiro agrônomo Agostinho Didonet, da Embrapa, que auxilia pequenos produtores a fazer intervenções para conter os buracos. No entorno do maior deles, os técnicos orientaram a comunidade para métodos sustentáveis de uso do solo, implantação de curvas de nível, além de terraplanagem, redução do gado e reflorestamento com mudas de espécies nativas. A produção de leite foi substituída por cultivo de frutas, como ingá e cajuzinho-do-Cerrado, em sistemas agroecológicos. Em cinco anos, a renda mensal pulou de um para quatro salários mínimos. Como resultado, o êxodo rural foi contido. “Produtores já planejavam abandonar o assentamento”, conta o engenheiro, para quem a expansão da cana-de-açúcar empurra pequenos lavradores para áreas de solo inadequado ou para a periferia das cidades.

Ao longo de seus 2,1 mil km até desaguar no rio Tocantins, o Araguaia sofre o implacável efeito do que acontece nas nascentes. Bancos de areia pontilham as águas em número cada vez maior, principalmente na estação da seca. Por um lado, a formação dessas áreas rasas facilita a vida de quem frequenta os tradicionais e disputados “ranchos”, instalações temporárias de hospedagem que entre maio e julho acolhem famílias para temporada da pesca esportiva. Por outro lado, o problema da erosão prejudica populações tradicionais, como os vazanteiros – os lavradores que semeiam e irrigam os plantios conforme o avanço e o recuo das águas nas margens. A antiga atividade está em extinção em decorrência das mudanças no clima e dos impactos ambientais.

No município de Aruanã (GO), Manoel Fernandes planta mandioca, cana, milho e pimenta toda vez que as águas começam a subir, na estação chuvosa. “Mas neste ano a situação mudou”, lamenta o vazanteiro. O rio não subiu como esperado, a produção foi perdida e ele se viu obrigado a trabalhar como diarista na construção civil para ganhar os dois salários mínimos que normalmente recebia na lavoura.

A questão social piora diante dos conflitos de terra após a criação da Reserva Extrativista Lago do Cedro, há seis anos. Os 17 mil hectares ainda não tiveram a situação fundiária regularizada e, sem receber o pagamento do governo pela desapropriação, os fazendeiros proíbem o acesso das comunidades. Na reserva existem 84 lagos e matas repletas de árvores de baru, amêndoa típica do Cerrado, fonte complementar de renda das famílias agora impedidas de fazer a coleta nos volumes de antes. Uma parte da produção é enviada para a Coopercerrado, cooperativa localizada em Goiânia que beneficia o produto extraído em vários municípios para venda em redes de supermercado.

Diante das restrições, a alternativa econômica nas margens do Araguaia tem sido o trabalho como guia de pesca. “Capturar peixes continua sendo nosso meio de vida, só que de uma maneira diferente”, diz Wedson Campos, feliz com a diária de R$ 180 paga por quem chega de longe em busca de pirararas e douradas, os peixes mais cobiçados. O turismo é mais rentável do que a antiga produção pesqueira. Em Aruanã, polo de pesca esportiva no Araguaia, há cerca de 180 guias, muitos deles equipados com barcos comprados com auxílio financeiro liberado pelo governo federal para uso em atividades tradicionais.

Sem fiscalização, turistas chegam a áreas de pesca restrita, exatamente as mais ricas em peixes, que vão abastecer a cozinha dos ranchos. No Acampamento Jaburu, mantido por um grupo de amigos e suas famílias, cerca de 2,5 mil alevinos de matrinxã e caranha são colocados a cada temporada no rio como uma compensação para a natureza – e como uma maneira de contribuir para que tenha peixe em quantidade no ano seguinte. “Os peixes estão cada vez menores”, adverte o empresário José Cláudio Curado, dono do rancho. Por aquelas bandas, mutuns e patos rarearam por conta dos agrotóxicos das grandes propriedades nas margens, segundo relato dos pescadores. Eles dizem que o entupimento do rio pelo barro carreado desde as nascentes, onde é intensa a pressão da agropecuária, reduziu o número de jacarés. Nada está perdido, se a recuperação das águas aumentar de ritmo. Para o Araguaia, retomar a vitalidade pode ser uma questão de tempo. Espera-se.

BOX – Tombamento de nascentes

Tombar nascentes de rios como patrimônio natural e cultural é um projeto que começa a ser estudado pelo governo federal como mecanismo de proteção. O Araguaia deverá ser o primeiro da lista. “Como o local onde o rio nasce já está sendo conservado, o processo fica mais fácil”, ressalta Dalvino Franca, diretor da Agência Nacional de Águas (ANA). O plano é apoiar a conservação mediante o pagamento a produtores pelo serviço ambiental prestado quando se abre mão de áreas produtivas para a conservação de recursos naturais. No programa Produtor de Água, a ANA repassa dinheiro para iniciativas municipais e estaduais envolvendo até o momento 400 proprietários em várias regiões do Brasil, com trabalhos de restauração dos mananciais. Reconhecer o valor cultural das nascentes, por meio do tombamento, é uma maneira de se evitar alterações na paisagem, prevenir enchentes e garantir água para o abastecimento e a produção das indústrias e dos cultivos. Os municípios serão compelidos a tratar esgotos. O modelo inclui restrições ao uso, como nos bens arquitetônicos tomados. Mas não prevê a desapropriação. Técnicos estão concluindo o mapeamento do lugar onde minam os rios Araguaia e São Francisco, a partir de um conceito abrangente de nascente, que vai além de um “olho d’água”. A área inclui todo o perímetro que engloba a principal bacia de drenagem formadora do rio. A partir dos dados técnicos da ANA, o tombamento será efetivado pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, cujas equipes estão se reestruturando para que os projetos possam ser concluídos. A ideia de tombar rios com o patrimônio surgiu quando foram identificados sítios históricos sob a ameaça de inundações, como a ocorrida em 2001 na cidade de Goiás Velho. A iniciativa expõe conflitos entre interesses econômicos e a proteção da natureza. Um exemplo é fenômeno natural que marca a confluência das águas escuras do Rio Negro com as pardas do Solimões, em Manaus, cartão-postal do Amazonas. Aquele trecho dos rios foi tomado há dois anos com apoio popular para se evitar modificações na paisagem por projetos portuários, mas o assunto está para ser decidido na Justiça.


 
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