Return to site

Balsas (MA) - Eldorado

Olhos claros, barba comprida, camisa social de seda e um esquisito cordão preso à cintura, o lavrador Karpe Anufriv, 41 anos, e toda a comunidade de origem russa que vive em modestos casebres de madeira com telhado de palha, no extremo-Sul do Maranhão, destoam dos demais fazendeiros do Sul, Sudeste e Centro-Oeste que migram em caravanas de tratores para aquele chapadão de cerrado a perder de vista. Embora diferentes na língua e no estilo de vida, tanto uns quanto os outros são donos de terra e buscam fincar raízes no mais novo eldorado agrícola do país.

Nascido na China quando a família refugiava-se do comunismo russo, Anufriv migrou junto com parentes após a revolução de Mao Tse Tung. Os migrantes, reunidos em comunidade para praticar os credos da Igreja Católica Ortodoxa, aportaram no Paraná. Cultivaram a terra e formaram núcleos comunitários que ao longo das décadas transformaram-se em cidades. Mais tarde, à procura de paragens ricas, baratas e menos saturadas, Anufriv partiu com a família para o Mato Grosso, depois Goiás e hoje é um dos líderes da pequena vila provisória instalada por ele e pelos companheiros na fronteira do Tocantins com o Maranhão. A comunidade, que fala russo e mantém os rituais religiosos da pátria, é dona de uma invejável área de 23.500 hectares de cerrado. “Estamos agora preparando o solo para cultivar soja e criar as condições para a breve chegada de pelo menos 60 outras famílias de migrantes russos”, revela Anufriv.

Os planos ambiciosos do lavrador, a poeira que sobe das estradas de barro, transitadas por um frenético vai-e-vem de caminhões e tratores, e o céu cinzento coberto pela fumaça das queimadas refletem o burburinho de uma nova fronteira agrícola em pleno desenvolvimento. O município de Balsas, localizado 850 quilômetros ao Sul de São Luis, é o centro nervoso desse eldorado. Em seis anos, a área plantada com soja na região aumentou mais de sete vezes. A produção cresceu 13 vezes, totalizando neste ano 320 mil toneladas, toda destinada à exportação. Na safra que está sendo cultivada agora para colheita em 1999, os agricultores maranhenses estimam produzir 27% mais que no ano anterior.

Vários fatores contribuem para isso. A forte incidência de sol, as chuvas uniformes entre setembro e abril, o relevo plano e alto formando chapadões e o solo homogêneo de fácil correção através de adubos químicos são alguns deles. O mais importante, no entanto, são as excelentes condições de logística criadas para o escoamento da produção. Em janeiro, será inaugurado um novo trecho da Ferrovia Norte-Sul, ligando as cidades maranhenses de Estreito e Imperatriz. Ali a ferrovia se conecta ao trecho já em operação até Açailândia, mais ao norte, onde estrada de ferro integra-se à Ferrovia Carajás-São Luis, operada pela Vale do Rio Doce. De São Luís, o produto é exportado para a Europa por graneleiros de grande calado, a partir do porto da Ponta da Madeira, o mais profundo do país. Esses novos 120 quilômetros de trilhos reduzirão em torno de 30% os custos de transporte entre Estreito e Imperatriz, hoje coberto por caminhões. “Exportar pelo Maranhão custa aos empresários locais a metade do necessário para os produtores do Centro-Oeste e Sudeste escoarem a soja via Porto de Santos”, afirma o agricultor Wellington Cunha de Souza, secretário de Agricultura de Balsas.

Wellington trocou, há 15 anos, o conforto a beira-mar em Recife por um pequeno e rústico pedaço de terra arrendada no Maranhão. Não se arrependeu. Após um ano, com o empurrão de um político para obter financiamento, comprou sua própria fazenda, hoje produtora de banana, maracujá, abacaxi e pitanga. Como aconteceu com o secretário, a partir de 1992, com a abertura de linhas de crédito pelo Banco do Brasil e o apoio do governo ao corredor de exportação por estrada de ferro, agricultores de todo o país começaram a migrar para a região..

Existem hoje no pólo agrícola de Balsas 240 proprietários rurais. Muitos eram empregados em fazendas no Sul do país e transferiram-se para o Maranhão para realizar o sonho de ser donos da própria terra. O agricultor Valdemiro Roeder, 60 anos, era tratorista de uma fazenda em Chapada, Rio Grande do Sul. “Se continuasse lá, até hoje estaria trabalhando como empregado”, prevê Roeder, hoje dono de três propriedades, no total de 1.700 hectares, onde planta soja e cria gado. “Ainda existe muita terra barata por essas bandas, mas é preciso trabalhar duro”, recomenda.

Eugênio Sandri, 56 anos, morava com quatro irmãos numa minúscula propriedade em Carazinho, Paraná. Como a terra, de somente 22 hectares, era pequena demais para dividir entre eles e os filhos, toda a família decidiu vender o pouco que tinha e embarcar para Balsas. Enquanto no Paraná o hectare custa em média R$ 2 mil, no Sul do Maranhão não passa de R$ 300. Atualmente, Eugênio é dono de três fazendas de soja e seus quatro filhos homens têm, cada um, duas propriedades. “E já existem seis netos para dividir toda essa terra e continuar o desenvolvimento da região”, revela Sandri.

No rastro dos fazendeiros, indústrias e serviços de suporte à produção e exportação de soja instalaram-se na região. Conectados on-line com os preços da Bolsa de Mercadorias de Chicago, exportadores como a Ceval, a Cargill e a Eximcoop, construíram em Balsas silos para secagem e armazenagem de grãos, com capacidade total de 106 mil toneladas. Ao seu redor, fixaram-se transportadoras, empresas de consultoria técnica em agricultura e filiais de fábricas de fertilizantes, cujo consumo cresce a uma taxa de 20% ao ano na região. De olho nesta farta demanda, a beneficiadora Olfiba está instalando no município uma fábrica de óleo de soja.

Atualmente, o núcleo central do pólo de Balsas fica na Chapada das Mangabeiras, numa região também conhecida com Gerais, a 200 Km da sede do município, extremo-sul do Estado. Ali instalou-se a Cooperativa Agropecuária Batavo Nordeste, criada pelo grupo paranaense especialmente para reunir 40 colonos, todos oriundos de outros estados. Ocupando uma área de cerrado no total de 40 mil hectares, (metade presercadadividida em glebas de mil hectares, os produtores fazem parte do Programa de Desenvolvimento do Cerrado (Prodescer) -- um projeto bilateral entre Brasil e Japão, que já absorveu investimento de US$ 70 milhões, 60% do governo japonês. Grande consumidor de soja como proteína, o Japão tem interesse em garantir níveis de produção capazes de manter estáveis os preços do produto no mercado internacional mesmo com o aumento da população, no futuro.

Com maquinário moderno, armazéns e silos de grande porte para armazenamento de 60 mil toneladas de soja, além do acesso facilitado a tecnologias e financiamento, os colonos produziu neste ano 38 mil toneladas de soja e 10 mil de arroz, além de milho e feijão. Em dezembro, começarão a cultivar bananas. “Aos poucos estamos transformando uma área inóspita numa cidade produtiva”, destaca o fazendeiro Olivério Alves de Melo, 33 anos. Ele largou o emprego de gerente numa fazenda de Três Marias, Minas Gerais, e chegou ao Maranhão com R$ 8 mil no bolso para comprar a terra, construir uma confortável casa e adquirir insumos. A diferença para os R$ 80 mil necessários para realizar o sonho foi conseguida através de financiamento com três anos de carência. O benefício também ajudou o proprietário vizinho, Edson Cristiano Bonawitz, 28 anos, que migrou de Carambi, Paraná, juntamente com outros 19 colonos. Hoje está muito satisfeito com os R$ 70 mil de renda que apura por ano com o plantio de soja. “Além do mais, o clima aqui é bem mais saudável que no Paraná, onde as crianças sempre tinham bronquite”, ressalta o produtor.

A vila agrícola que abriga os colonos na Serra das Mangabeiras tem escola, clube, telefone, restaurante e casas confortáveis. Bem diferente de poucos anos atrás, quando a paisagem era selvagem e pobre. A renda dos nativos aumentou: um trabalhador rural, que antes ganhava no máximo R$ 3,60 por dia na agricultura familiar, hoje recebe R$ 8. A mão-de-obra especializada é ainda mais valorizada: um tratorista ganha ali o dobro dos colegas que trabalham em fazendas do Sul e do Sudeste.

Balsas, centro urbano mais próximo, vive a euforia do desenvolvimento. Recessão ou crise internacional não chegaram por lá. “A tendência é o crescimento continuar no mesmo ritmo, mesmo com os sucessivos recordes de produção de soja nos Estados Unidos e a conseqüente redução do preço internacional”, afirma o engenheiro agrônomo Rômulo Chaves Molina, diretor da Companhia de Promoção Agrícola, empresa que coordena o programa.

A soja criou 10 mil empregos diretos e indiretos no munícipio e a população, hoje de 48 mil habitantes, cresce 15% ao ano.Com mais dinheiro em circulação, novos negócios estão sendo criados -- hotéis, restaurantes, clínicas médicas, locadoras de automóveis, escritórios de advocacia e contabilidade e até boutiques que vendem grifes famosas. “A cidade tem hoje muitos jovems de ótimo poder aquisitivo”, garante Cléber da Silva Peres, 23 anos, dono de uma recém-inaugurada loja de acessórios para automóveis. A febre dos shopping-centers já chegou à cidade. O médico Carlos Antunes Souza, 39 anos, é dono do primeiro deles, o Shopping Equatorial, inaugurado em setembro. “É um crescimento sem volta”, aposta o empresário, dono do único Alfa Romeo da cidade. Ele se prepara para enfrentar a concorrência. O comerciante Mateus Rodrigues, 35 anos, ex-torneiro mecânico numa cidade próxima, há 12 anos montou em Balsas uma pequena mercearia, que deu origem a uma loja de móveis e um grande supermercado. Com o lucro, o empresário está agora investindo num grande projeto de piscicultura e construindo um novo shopping. “Pelo andar da corruagem, dentro de cinco anos Balsas será a segunda maior cidade do Maranhão”, estima Rodrigues.

BOXES

Personagem (O PIONEIRO)

O holandês Leonardus Phillipsen, 75 anos, o primeiro agricultor a apostar na soja em Balsas, trazendo sementes e adubo do Sul do País, já foi chamado de lunático. Hoje dono de 5 mil hectares, além de outras três propriedades que comprou para os filhos, o agricultor orgulha-se de ter acertado na intuição. Ao lado da esposa Mina, cujo nome inspirou a nomenclatura de uma nova e importante variedade de soja desenvolvida pela Embrapa, Phillipsen migrou para o Brasil em busca de terras grandes e baratas. Na Holanda, seu pai tinha somente 11 hectares, que seriam divididos entre 16 filhos. Inicialmente, foi para Holambra, interior de São Paulo, junto com outros migrantes, plantar batata e criar porco. Depois a cooperativa local faliu e a família passou e viver em terra arrendada no Sul. Até que, em 1974, recebeu a notícia de que o Estado do Maranhão estava doando lotes de 3 mil hectares para o cultivo de soja. “Fizemos a primeira exportação em 1992”, recorda o agricultor, colecionador de diplomas e medalhas em homenagem ao seu pioneirismo.

FERROVIA NORTE-SUL (informações que podem ser acopladas a um mapa)

Extensão total prevista: 2.199,5 Km

Trechos concluídos: Açailândia (MA)-Imperatriz (MA) - 106 Km

Imperatriz (MA)- Estreito (MA) - 120 Km

Valor total do projeto: R$ 2,2 bilhões

Investimento em 1998 (até setembro): R$ 38,7 milhões

Custo da Ferrovia por Km: R$ 880 mil

A ferrovia está em processo de privatização. Com recursos do Banco Mundial, a empresa canadense CPCS Transcom, especializada em transportes, está neste momento fazendo auditoria nos estudos de viabilidade econômica da estrada de ferro.

ATENÇÃO: SEGUEM PELO FAX ESTATÍSCAS PARA GRÁFICOS

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly