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Balbina (AM) - Barco viaja pela Amazônia para salvar o peixe-boi

· Amazonas

 

Comunidades são preparadas para receber o animal criado em cativeiro

 

Por décadas as comunidades à margem do lago Maracanarã, próximo à usina hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, exploraram indiscriminadamente pau-rosa para a indústria de cosméticos, colocando o vegetal em alto risco de extinção. A escassez causada pelo uso predatório inviabilizou a antiga atividade econômica e serviu de lição para os vilarejos, agora dedicados a proteger uma espécie da fauna caçada ilegalmente como fonte de alimentação e finalidade comercial: o peixe-boi-amazônico.

 

“Vigiamos os lagos contra forasteiros que chegam com arpões”, conta Claudomiro dos Santos, o Cacá, sem querer repetir a história do pai, migrante nordestino que há três décadas fundou o povoado para fornecer pau-rosa a uma empresa italiana.

 

Explorado à exaustão, o peixe-boi foi igualmente importante para a economia da Amazônia. Caçada comercialmente como alimento desde o período colonial, a espécie teve ápice da captura no final do século XIX e início do XX, quando o couro era empregado na fabricação de correias para máquinas, polias e até dobradiça de portas. Com a banha do animal produzia-se óleo para lamparinas e para a iluminação pública. Antigos registros comprovam que entre 1930 e 1950 mais de 200 mil peixes-bois foram abatidos para comercialização. Na época o animal passava a ser alternativa econômica ao fracasso da produção da borracha frente à concorrência internacional.

 

Hoje em dia, apesar da proibição legal, a espécie é capturada em sua maior parte para subsistência e para a venda da carne nos mercados de grandes centros urbanos, como Manaus. O preço varia de R$ 15 a R$ 30 o quilo, conforme o período do ano. A oferta é maior na estação de seca, entre agosto e dezembro, quando os lagos estão rasos e os peixes-bois mais vulneráveis à caça. As incertezas sobre os impactos das mudanças climáticas na região preocupam. “Nas últimas grandes estiagens, de 2005 e 2010, a maior em 100 anos, milhares deles foram abatidos e não podemos esperar que cheguem a um número mínimo de indivíduos a ponto de não ser possível a recuperação da espécie”, adverte Stella Lazzarini, pesquisadora do Centro de Preservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos (CPPMA).

 

Construído há 20 anos como medida de compensação ambiental da hidrelétrica de Balbina, 187 Km ao norte de Manaus, no Amazonas, o centro abriga hoje 49 peixes-bois – na maioria resgatados em comunidades ribeirinhas quando filhotes, após a morte das mães pelos caçadores. Lá os animais são amamentados, alimentados por toneladas de capim aquático e tratados até mesmo com florais de Bach para a redução do estresse do confinamento. “A população em cativeiro chegou ao limite e é preciso encontrar um método adequado para devolvê-los à natureza”, alerta Lazzarini.

 

O vilarejo de Maracanarã e entorno são alvo de um projeto de educação ambiental que percorre o rio Uatumã, com objetivo de conscientizar os moradores, mudar hábitos e prepará-los para a reintrodução dos animais em seus ambientes nativos sem a ameaça da caça. Em viagens de dez dias nesta que é uma das regiões de maior matança, um antigo barco de passageiros adaptado para o trabalho de educação visita 28 comunidades até o encontro com o rio Amazonas, no município de São Sebastião do Uatumã. Cinema, teatro e outras atividades são realizadas nas escolas para o debate sobre a importância de se preservar aqueles animais. “Em lugares onde eles já sumiram, a tendência é existir menos tambaquis, matrinchãs, jaraquis e outros peixes que são base da alimentação local”, explica o educador André Franzini.

 

Com apoio da Tetra Pak, a embarcação navega pelos rios amazônicos também para a conscientização sobre problemas ambientais, como o lixo, típicos de grotões que começam a se urbanizar. A população é orientada a separar os resíduos recicláveis e, em alguns casos, deixam queimá-los nos quintais. O materiais são transportados nos barcos de passageiros até a cidade maior mais próxima junto com melancia, o milho e a farinha que os moradores levam para vender nas feiras. “É um trabalho formiguinha, longe ainda do ideal”, ressalva Franzini, lembrando que a conexão da biodiversidade com o lixo é importante para se aproximar a questão ao dia a dia dos moradores.

 

Junto com uma maior visão ambiental, chegaram melhorias nos serviços públicos e na qualidade de vida. “Decidimos ser guardiões dos lagos, quando percebemos que a fartura de peixes já não era como antes”, afirma Claudionor Martins, o Nono, apontando com orgulho as caixas de fossa séptica que a comunidade recebeu para resolver a poluição do esgoto. Casas foram reformadas e a escola local tem aulas noturnas para os mais velhos com tecnologia de ensino à distância. “Chegou a hora de falar menos sobre o lixo e agir mais”, ressalta Martha Gomes, diretora da escola, para quem a conservação do peixe-boi pode ser o símbolo das mudanças como um todo.

Dados do Ibama com base nos autos de infração indicam que pelo menos 500 animais desta espécie são mortos anualmente por caçadores, na Amazônia. “O número real de abate deve ser bem superior, tendo em vista o tamanho da região sem cobertura de fiscalização rotineira”, estima o pesquisador Jone César, diretor da AMPA, entidade não governamental que trabalha em conjunto com o Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) nos estudos com o peixe-boi.

 

Na sede da instituição, em Manaus, há também tanques de cativeiro com mais 51 animais que aguardam uma solução para o retorno à natureza. No total, juntando os que estão em Balbina, há 100 na fila. Em novembro, três deles foram soltos em lagos seminaturais para aclimatação e testes a reintrodução sem os problemas que ocorreram em tentativas anteriores. Pesando até 400 quilos, os peixes-bois amazônicos podem viver até 60 anos. São mamíferos aquáticos dóceis e pouco ágeis para a fuga dos arpões, lançados quando a cada três minutos sobem à superfície da água para respirar. “Um único animal fornece carne para a família toda por um bom tempo, mas é preciso mostrar que há alternativas alimentares”, recomenda o pesquisador.

 

Da cidade de Balbina, originária da vila operária erguida na década de 80 para a construção da hidrelétrica, são três horas de lancha até Maracanarã. De lado a lado ao longo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, estão os refúgios dos peixes-bois. E também de quelônios, como os existentes no lago Carabá, protegido em sua entrada por uma guarita de vigilância flutuante. Tempos atrás, as tartarugas foram reduzidas a um número preocupante, vitimadas pelas redes dos pescadores e pelo hábito de se capturar os ovos para alimentação. “Com fiscalização, em quatro anos, a desova aumentou 70%”, revela o agente ambiental Renato de Oliveira. Próximo ao refúgio, o ribeirinho Francisco Soares, dono da única pousada da região, também comemora. Ele admite que antes matava peixes-bois, mas hoje os preserva como fonte de renda com o turismo, ao receber em seu estabelecimento grupos de estrangeiros para pesca esportiva ou pesquisas científicas.

Comunidades são preparadas para receber o animal criado em cativeiro

Por décadas as comunidades à margem do lago Maracanarã, próximo à usina hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, exploraram indiscriminadamente pau-rosa para a indústria de cosméticos, colocando o vegetal em alto risco de extinção. A escassez causada pelo uso predatório inviabilizou a antiga atividade econômica e serviu de lição para os vilarejos, agora dedicados a proteger uma espécie da fauna caçada ilegalmente como fonte de alimentação e finalidade comercial: o peixe-boi-amazônico.

“Vigiamos os lagos contra forasteiros que chegam com arpões”, conta Claudomiro dos Santos, o Cacá, sem querer repetir a história do pai, migrante nordestino que há três décadas fundou o povoado para fornecer pau-rosa a uma empresa italiana.

Explorado à exaustão, o peixe-boi foi igualmente importante para a economia da Amazônia. Caçada comercialmente como alimento desde o período colonial, a espécie teve ápice da captura no final do século XIX e início do XX, quando o couro era empregado na fabricação de correias para máquinas, polias e até dobradiça de portas. Com a banha do animal produzia-se óleo para lamparinas e para a iluminação pública. Antigos registros comprovam que entre 1930 e 1950 mais de 200 mil peixes-bois foram abatidos para comercialização. Na época o animal passava a ser alternativa econômica ao fracasso da produção da borracha frente à concorrência internacional.

Hoje em dia, apesar da proibição legal, a espécie é capturada em sua maior parte para subsistência e para a venda da carne nos mercados de grandes centros urbanos, como Manaus. O preço varia de R$ 15 a R$ 30 o quilo, conforme o período do ano. A oferta é maior na estação de seca, entre agosto e dezembro, quando os lagos estão rasos e os peixes-bois mais vulneráveis à caça. As incertezas sobre os impactos das mudanças climáticas na região preocupam. “Nas últimas grandes estiagens, de 2005 e 2010, a maior em 100 anos, milhares deles foram abatidos e não podemos esperar que cheguem a um número mínimo de indivíduos a ponto de não ser possível a recuperação da espécie”, adverte Stella Lazzarini, pesquisadora do Centro de Preservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos (CPPMA).

Construído há 20 anos como medida de compensação ambiental da hidrelétrica de Balbina, 187 Km ao norte de Manaus, no Amazonas, o centro abriga hoje 49 peixes-bois – na maioria resgatados em comunidades ribeirinhas quando filhotes, após a morte das mães pelos caçadores. Lá os animais são amamentados, alimentados por toneladas de capim aquático e tratados até mesmo com florais de Bach para a redução do estresse do confinamento. “A população em cativeiro chegou ao limite e é preciso encontrar um método adequado para devolvê-los à natureza”, alerta Lazzarini.

O vilarejo de Maracanarã e entorno são alvo de um projeto de educação ambiental que percorre o rio Uatumã, com objetivo de conscientizar os moradores, mudar hábitos e prepará-los para a reintrodução dos animais em seus ambientes nativos sem a ameaça da caça. Em viagens de dez dias nesta que é uma das regiões de maior matança, um antigo barco de passageiros adaptado para o trabalho de educação visita 28 comunidades até o encontro com o rio Amazonas, no município de São Sebastião do Uatumã. Cinema, teatro e outras atividades são realizadas nas escolas para o debate sobre a importância de se preservar aqueles animais. “Em lugares onde eles já sumiram, a tendência é existir menos tambaquis, matrinchãs, jaraquis e outros peixes que são base da alimentação local”, explica o educador André Franzini.

Com apoio da Tetra Pak, a embarcação navega pelos rios amazônicos também para a conscientização sobre problemas ambientais, como o lixo, típicos de grotões que começam a se urbanizar. A população é orientada a separar os resíduos recicláveis e, em alguns casos, deixam queimá-los nos quintais. O materiais são transportados nos barcos de passageiros até a cidade maior mais próxima junto com melancia, o milho e a farinha que os moradores levam para vender nas feiras. “É um trabalho formiguinha, longe ainda do ideal”, ressalva Franzini, lembrando que a conexão da biodiversidade com o lixo é importante para se aproximar a questão ao dia a dia dos moradores.

Junto com uma maior visão ambiental, chegaram melhorias nos serviços públicos e na qualidade de vida. “Decidimos ser guardiões dos lagos, quando percebemos que a fartura de peixes já não era como antes”, afirma Claudionor Martins, o Nono, apontando com orgulho as caixas de fossa séptica que a comunidade recebeu para resolver a poluição do esgoto. Casas foram reformadas e a escola local tem aulas noturnas para os mais velhos com tecnologia de ensino à distância. “Chegou a hora de falar menos sobre o lixo e agir mais”, ressalta Martha Gomes, diretora da escola, para quem a conservação do peixe-boi pode ser o símbolo das mudanças como um todo.

Dados do Ibama com base nos autos de infração indicam que pelo menos 500 animais desta espécie são mortos anualmente por caçadores, na Amazônia. “O número real de abate deve ser bem superior, tendo em vista o tamanho da região sem cobertura de fiscalização rotineira”, estima o pesquisador Jone César, diretor da AMPA, entidade não governamental que trabalha em conjunto com o Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) nos estudos com o peixe-boi.

Na sede da instituição, em Manaus, há também tanques de cativeiro com mais 51 animais que aguardam uma solução para o retorno à natureza. No total, juntando os que estão em Balbina, há 100 na fila. Em novembro, três deles foram soltos em lagos seminaturais para aclimatação e testes a reintrodução sem os problemas que ocorreram em tentativas anteriores. Pesando até 400 quilos, os peixes-bois amazônicos podem viver até 60 anos. São mamíferos aquáticos dóceis e pouco ágeis para a fuga dos arpões, lançados quando a cada três minutos sobem à superfície da água para respirar. “Um único animal fornece carne para a família toda por um bom tempo, mas é preciso mostrar que há alternativas alimentares”, recomenda o pesquisador.

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