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Barra de Serinhaém (PE) - Cangaceiro do mangue

Desemprego espalha acampamentos nômades nos manguezais para a captura de caranguejos, gerando conflitos sociais e ameaças à preservação dessas espécies

· Pernambuco

O barulho da lancha que nos transportava no Rio Camaragibe, litoral-norte de Alagoas, era a senha para os homens que capturam caranguejos nos manguezais baterem em retirada. Barcos a motor, naquelas paragens, costumam ser usados somente por fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Neste cenário inóspito de mata fechada, espinhos, raízes e galhos plasticamente contorcidos e muita lama, era difícil encontrar um ser humano – somente pegadas, rastros. Canoas estacionadas nas margens do rio e barracos temporários construídos com madeira de mangue e lona de plástico, indicavam a presença dos caranguejeiros que coletam crustáceos de maneira predatória e ilegal. Ninguém se arrisca a informar sobre o paradeiro deles, pois comenta-se que muitos andam armados e vivem sem moradia fixa, ao estilo de Lampião e seus cangaceiros – a diferença é a paisagem enlameada dos mangues, ao invés da aridez do sertão.

O medo é constante nos manguezais de Alagoas. Desembarcamos no sítio ribeirinho de Josias Antônio dos Santos, o Jó, que tentou nos despistar, fornecendo informações erradas sobre a localização dos caranguejeiros. Quando percebemos que fomos iludidos, tomamos outras trilhas na propriedade de Jó e acabamos flagrando o acampamento, recém-abandonado pelos sitiantes quando souberam da nossa presença. A panela com feijão deixada no fogo indicava a correria para a fuga. Ao lado da cabana, havia cinco sacos grandes com mais de 300 caranguejos. Por toda a parte, espalhada no chão, a prova do crime: restos de plástico desfiado, usado para fazer armadilhas, conhecidas como redinhas. São proibidas por lei, porque exigem o corte de madeira de mangue para serem fixadas e bloqueiam os buracos onde vivem os crustáceos, não poupando os animais jovens, que acabam morrendo antes de se reproduzir. Estudo realizado pelo Ibama indica que cada catador utiliza em média 28 mil redinhas por ano, o que significa 17 Kg de fios de nylon espalhados na natureza e 42 Km lineares de raízes de mangue cortadas da mata.

“Tive medo de contar a verdade”, admite Jó, sem querer dizer o que ganha em troca pelo acampamento em suas terras. Alugar áreas para forasteiros catarem ilegalmente crustáceos parece ser um bom negócio na região. “Outro dia apareceu um grupo de 20 homens de Pernambuco propondo montar barracos, mas não permiti”, safa-se o proprietário. Com a ajuda dele, enviamos uma mensagem para o grupo que fugiu do acampamento, avisando que não éramos do Ibama. Três horas depois, os homens chegaram, pacíficos. No total, eram quatro. “Não vou matar minha família de fome”, argumentou o ex-cortador de cana Cícero Joaquim de Oliveira, 50 anos, que mora em Barra Nova, próximo a Maceió, e viajou mais de 100 Km para capturar os crustáceos nos manguezais do rio Camaragibe. “A poluição das usinas de açúcar acabou com os caranguejos na minha região”, afirmou Oliveira, que antes de ir para o mangue tentou sobreviver vendendo sorvete nas praias, sem sucesso. Três de seus sete filhos o acompanham na aventura de lama e, pior, uma infinidade de insetos vorazes. O mais velho, José Aílton, 23 anos, era caseiro, mas ficou desempregado. O mais novo, José Vilson, 16, nunca tinha pisado num mangue e largou a escola para fazer companhia ao pai nas viagens que duram 15 dias, após as quais é possível arrecadar R$ 700 com a venda dos animais para consumo em bares e restaurantes.

“A brusca diminuição da quantidade de caranguejos em vários pontos do litoral do nordeste está promovendo a migração de catadores para os poucos locais onde esses crustáceos ainda são abundantes”, afirma o pesquisador Emanuel Roberto Botelho, do Centro de Pesquisa e Gestão dos Recursos Pesqueiros do Litoral Nordeste (Cepene), do Ibama. A migração, segundo Botelho, tem gerado muitos conflitos e problemas sociais entre os nativos e os homens que chegam para explorar os recursos da localidade. Recentemente, em Porto da Mata (AL), os caranguejeiros atearam fogo a uma jangada de nômades provenientes de Rio Formoso (PE). Em Barra do Serinhaém (PE), houve até caso de morte em manguezais que viraram terra de ninguém, onde vale a lei do mais forte.

Resta, para muitos trabalhadores do mangue, a fé na proteção dos santos – que não faltam, aliás, no santuário da comunidade de pescadores montado na beira da praia de Barra de Camaragibe, com imagens de Santo Antônio, São José, São Benedito, São Pedro e São João Batista. Dentro do oratório, uma jangada com as velas em verde-amarelo, ornadas com o emblema da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), indicam a maior paixão dos caranguejeiros quando estão longe da lama. “É preciso rezar para trabalhar no mangue”, ressalta Benedita dos Santos, 58 anos, que parou de pegar caranguejos com receio dos forasteiros. “Muitas mulheres estão desistindo da profissão”, conta Benedita, que ensinou a ofício aos filhos e hoje do que eles coletam nos manguezais para sobreviver.

O problema se agravou com a mortandade do caranguejo-uçá, detectada por pesquisadores desde 1997 em todo o litoral entre o Rio Grande do Norte e a Bahia. No município baiano de Cairu, o fenômeno atingiu entre 90% e 95% dos crustáceos no começo de 2004. Em bares de Recife, em Pernambuco, chegou-se ao absurdo de ser consumir crustáceos capturados na Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro. Diante dos primeiros sinais de algo errado acontecia nos manguezais nordestinos, o Ibama uniu-se a outros centros de pesquisa para diagnosticar as causas e propor soluções. “Trata-se de uma contaminação provocada por um protozoário que vive na natureza”, afirma o zoólogo Sérgio Bueno, da Universidade de São Paulo (USP). Ele adverte que os estudos, hoje paralisados, precisam continuar para saber se existem fatores naturais que favorecem a proliferação desses organismos. A contaminação microbiológica dos caranguejos, também comprovada pelo pesquisador Antônio Ostrensky, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), derrubou a suspeita de que o problema estaria sendo causado diretamente pelos diversos projetos de criação de camarão em cativeiro que pontilham a costa do nordeste. O assunto gerou polêmica. Em Sergipe, onde a mortandade de caranguejo-uçá foi muito grave, o Ministério Público estadual chegou a entrar com processo contra a instalação de novos viveiros de camarão. O governo sergipano reformulou o programa de apoio a esses empreendimentos, para reduzir riscos de impactos ambientais. “Após entender as causas do fenômeno, o projeto é repovoar os manguezais sergipanos com novos caranguejos”, revela Ostrensky.

O despejo dos efluentes dos viveiros de camarão, alguns clandestinos, tem causado dores de cabeça ao coordenador da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, zona que preserva Mata Atlântica, manguezais e um extenso banco de corais na faixa costeira de 13 municípios alagoanos e pernambucanos. “O mangue é berçário de espécies marinhas que vivem nos recifes de corais”, afirma Fernando Acioli, diretor da área de preservação. Há outros vilões. As usinas de açúcar, ainda hoje a maior atividade econômica do litoral de Alagoas e Pernambuco, somente nos últimos cinco anos vêm implantando sistemas de controle de rejeitos poluentes. “Mas continuam desmatando as margens dos rios, atingindo os manguezais”, lamenta Acioli. A especulação imobiliária e a expansão das cidades costeiras também preocupam. Em Tamandaré, no litoral-sul de Pernambuco, lavradores do Assentamento Coqueiral/Brejo, do MST, situado na beira de manguezais, passaram a explorar os caranguejos para complementar a renda. Mas a captura é predatória, conforme admite o presidente do assentamento, Severino Nazareno, 45 anos: “Para tornar a pesca mais fácil e rápida, há pessoas que jogam no rio veneno contra carrapatos usados no gado, fazendo os camarões pularem fora d’água”.

Na localidade de Barra de Serinhaém (PE), favelas estão se formando nas portas dos manguezais, agrupando grandes contingentes de pessoas que não encontram emprego e vão buscar o sustento na natureza. São centenas de catadores trabalhando numa área cada vez mais reduzida, ganhando no máximo o equivalente a um salário mínimo mensal. “A fartura acontece no período de reprodução, quando os caranguejos saem das tocas e vagam desnorteados nos mangues atrás das fêmeas”, afirma o catador José Hamilton do Nascimento, 42 anos. Ele denuncia: “muitos só pegam fêmeas ovadas, preferidas pelos bares”. Devido a abusos deste tipo, pesquisadores do Ibama propõem a adoção de medidas para tornar sustentável a captura do caranguejo, responsável pelo sustento de milhares de famílias. Uma das estratégias será tornar mais rígido o controle do comércio do crustáceo, evitando situações como a do restaurante cearense Chico do Caranguejo, um dos mais famosos da Praia do Futuro, em Fortaleza. O estabelecimento compra os caranguejos em Parnaíba, no Piauí, região onde a iguaria ainda existe em grande quantidade. Durante os 450 Km de viagem, segundo informações do Ibama, 40% dos caranguejos não resistem e morrem. Mesmo com essa perda, o animal -- comprado dos caranguejeiros por R$ 0,25 a unidade e revendido a R$ 3 no restaurante – continua gerando bons lucros.

Box – Vida de marisqueira

Todas as segundas e quintas-feiras, às 2h da madrugada, a marisqueira Amara Martiniana da Silva, 57 anos e mais 17 mulheres de Barra de Serinhaém, litoral-Sul de Pernambuco, embarcam em duas precárias Kombis rumo aos manguezais de Pau Amarelo, em Olinda, numa viagem de 110 Km. Elas são especialistas na captura de aratus, crustáceos parentes do caranguejo, bastante apreciados pela culinária regional. O animal desapareceu dos manguezais situados no fundo dos quintais de suas casas e a solução foi viajar para longe em busca do principal meio de sustento de suas famílias. “Chegamos às 5h da manhã, trabalhamos no mangue e retornamos às 20h, porque à noite é mais fácil escapar da fiscalização nas estradas”, revela Amara.

Na captura do aratu, diferente do caranguejo-uçá, as mulheres sobem nos galhos mais altos das árvores no manguezal e de lá pegam o animal usando uma varinha com isca. “Enfrentamos picadas de insetos e o perigo das cobras”, afirma Amara, que depende do mangue para sustentar sete de seus 15 filhos. “Gastei os melhores anos da minha vida puxando lama”, lamenta a marisqueira, dedicada ao ofício desde os 7 anos de idade. “Não há outro trabalho por aqui”, justifica. Quando não estão nos manguezais, as mulheres catam a carne dos mariscos para vender na feira, nos finais de semana. Nos tempos bons, conseguem ganhar até R$ 80 por semana, sendo R$ 22 gastos no aluguel da Kombi.

Box – Berçários de riquezas

O Brasil tem a segunda maior área de mangue mundo, com mais de 1 milhão de hectares, situados ao longo de toda a faixa litorânea, da Foz do Rio Oiapoque, no Amapá, à foz do Rio Araranguá, em Santa Catarina – 80% deles estão na região nordeste. São ecossistemas que ficam nas zonas de estuários, áreas de transição entre os ambientes marinho e terrestre, habitados por espécies vegetais resistentes à salinidade. As árvores, no total de sete espécies, podem atingir 20 metros de altura. Formam um ecossistema rico em biodiversidade, como bromélias, orquídeas e grande número de algas microscópicas, que estão na base da cadeia alimentar de muitos animais -- peixes, crustáceos e moluscos, a maior parte de valor comercial. Em um centímetro quadrado de manguezal podem existir 200 mil microalgas. Apesar de serem protegidos por lei desde 1983, os manguezais brasileiros diminuíram 46,4% nos últimos 14 anos, segundo levantamento da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Originalmente publicado na revista Horizonte Geográfico

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