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Belém (PA) - Vitrine da Floresta

Nos últimos anos, Belém ganhou charme e ar cosmopolita

· Pará

Dona Cheirosinha prepara ervas para tudo que é mandinga. Ajuda a “buscar quem está longe” e faz “chorar nos meus pés”. Também cura doenças, embeleza a pele, revitaliza os cabelos. Dá o vigor da catuaba. E a energia do pau-ferro com semente de guaraná. Elizabeth Costa, 60 anos, aprendeu com a avó os segredos das plantas medicinais que crescem na Amazônia. Orgulhosa, faz palestras em universidades, orienta indústrias de cosméticos e até conheceu de perto o Presidente da República. Tornou-se famosa. É visitada por atores globais e celebridades. Mas, de uns tempos para cá, uma nova clientela -- exigente e não menos glamourosa -- chega à procura de experiências exóticas sem abdicar o conforto. São turistas de um perfil diferenciado, aqueles que descobrem Belém, a capital do Pará, como um destino de avanços na qualidade. “E a vontade é fazer banhos com ervas para que voltem sempre”, despacha a ervateira, ciente sobre o poder dos visitantes em propagar uma nova imagem sobre a cidade e a região.

Nos últimos anos, Belém ganhou ar cosmopolita e charme, com status que vai muito além de uma capital que reflete a destruição das árvores e do meio ambiente, comum das cenas da televisão quanto o tema é Amazônia. A metrópole paraense é um espelho da floresta e sua riqueza natural, colorido pela modernidade. Compõe um cenário que alia vanguarda cultural a hábitos tradicionais e um rico patrimônio histórico, herdado dos ciclos econômicos que marcaram a ocupação da mata ao longo dos séculos.

Na paisagem urbana, destaca-se a grande quantidade de mangueiras. Só no centro da cidade são 9 mil dessas árvores, trazidas há mais de 100 anos da Índia para alimentar a população da periferia. Agora estão tombadas como bem cultural. “Ainda hoje comemos manga com farinha como sobremesa típica”, conta o guia turístico Marco Romero. “Entre dezembro e fevereiro, quando as mangueiras estão carregadas, é comum andar nas calçadas olhando para cima para não ser alvejado e, por conta desse risco, o seguro dos automóveis é caro”, completa Romero, acentuando no sotaque o pronome “tu”, típico do linguajar paraense.

O verde chama atenção também pela exuberância dos parques, como o Bosque Rodrigues Alves com seus 15 hectares em estilo paisagístico francês na zona central da cidade, retrato da “belle epoque” da borracha, no século XIX. No Parque Mangal das Garças, na orla fluvial, está o maior borboletário da América do Sul. Não muito distante, o parque zôo-botânico do Museu Emílio Goeldi reúne amostras importantes da vida silvestre, das onças às árpias, recebendo 3 mil visitantes por mês. “O local é uma réplica da floresta amazônica e, atualmente em obras, tem o desafio de melhorar a recepção aos turistas”, ressalta o biólogo Antonio Messias Costa, responsável pela conservação dos animais.

Além das chuvas que quase religiosamente despencam nos finais de tarde para devolver água à floresta, Belém é conhecida por sediar uma das mais antigas e conhecidas festas religiosas do país: o Círio de Nazaré, que recebe em outubro cerca de 60 mil turistas, sem contar os romeiros vindos do interior para pagar promessas. Existente há quase 300 anos, a tradição reúne 2,5 milhões de pessoas e inclui promissões fluviais, seguidas por centenas de barcos.

No cais do porto, à beira da Baía de Guajará com suas 43 ilhas emolduradas por um por do sol avermelhado, a profusão de pequenas embarcações revela o principal meio de transporte entre as cidades amazônicas. De lá zarpam barcos rumo à Ilha de Marajó e outros balneários, além de passeios para navegação com show folclórico ao ritmo do carimbó e vista panorâmica de Belém com suas principais edificações históricas.

Uma dos mais importantes é o Teatro da Paz, recém-restaurado, palco de um concorrido festival de ópera realizado todos os anos, em setembro. Ao lado do Forte do Presépio, erguido em 1616 no exato local onde Belém foi fundada, está o Museu de Arte Sacra, que abriga imagens religiosas raras, tendo ao lado a Igreja de Santo Alexandre, construída em 1719 pelos jesuítas com mão de obra indígena. Os monumentos compõem um circuito histórico-cultural, que inclui o Museu Militar, instalado dentro de uma corveta da Marinha, ancorado à frente da Casa das Onze Janelas -- um casarão antigo reformado que pertencia à antiga fortificação e hoje abriga um restaurante com vista para o rio.

No antigo presídio São José, remodelado e revitalizado, funciona hoje o Pólo Joalheiro. Além de observar ourives trabalhando nas jóias, o visitante pode comprá-las nas lojas instaladas na área ou conhecer a saga que envolve a extração de ouro e pedras preciosas, contada no museu. “O lugar, antes covil de ladrões de galinha, hoje patrimônio de jóias, uma das mais importantes atividades econômicas do Pará”, diz Carmem Macedo, gerente de eventos. No saguão do prédio erguido no século XVIII, um gigantesco cristal de 2,5 toneladas, forjado pela natureza há 500 milhões de anos no Vale do Araguaia, enche os olhos. No acervo, por entre diversas peças de ouro da região do Tapajós, algumas relíquias ocupam lugar nobre, como o muiraquitã -- amuleto de índios para proteção na caça e pesca.

Destacam-se também fornos primitivos e cerâmicas de 3 mil anos, um tesouro que.contém peças originais esculpidas pelos marajoaras, antigos povos que habitaram o Pará. Seus grafismos vararam o tempo. A cidade de Icoaraci, na região metropolitana de Belém, é reduto de artesãos que perpetuam a velha arte indígena. No fundo das casas, abertas aos visitantes, esculpem variados objetos -- potes, jarros, vasos, pratos, bandejas, enfeites -- para venda em suas lojas, atração dos roteiros turísticos na capital paraense. “Precisamos envolver os mais jovens para a tradição não morrer”, alerta José Anísio da Silva, reconhecendo o valor do turismo nesse desafio.

Além da arte indígena, Belém preserva uma infinidade de aromas vindos da floresta e muitos, muitos sabores. No popular mercado Ver o Peso, tradicional vitrine amazônica, vende-se desde artesanato de palha a CDs de tecnobrega -- ritmo bastante apreciado na região. Mas, por entre centenas de barracas, as iguarias regionais chamam mais a atenção. Atraem pelos olhos, pelo cheiro e, principalmente, pelo paladar. Por entre corredores estreitos, mulheres quebram com afiados facões a castanha-do-Pará. Outras limpam camarões e algumas batem o açaí, servido com peixe frito e farinha -- e nada de granola e banana, como acontece nas grandes capitais do país que importaram da Amazônia o hábito de buscar nesse fruto a energia para uma vida saudável. Bem próximo do mercado atracam durante a madrugada típicos barcos que trazem da floresta o açaí fresquinho, vendido no cais com preços anunciados e disputados na base da gritaria, como na Bolsa da Valores.

Vale a pena acordar antes do sol raiar para assistir ao ritual. E também desvendar curiosidades, como as garrafas contendo um líquido amarelo com pedados de folha verde. “É o tucupi, extraído da mandioca”, revela Maria Ribeiro Rocha. Ela dá a receita: “após descascar a mandioca, a gente lava bem, rala, coloca dentro de um tamburão com água e espreme no tipiti”. O tipiti é uma espécie de peneira de palha indígena com forma de cilindro, que retém a massa da mandioca e deixa passar um caldo para dentro de um tamburão. A parte amarela que fica sobre o líquido, semelhante a uma coalhada, é escorrida e fervida por uma hora, recebendo por fim temperos como alho, chicória e sal.

Está pronto o tucupi, com o qual o paraense faz inúmeros pratos. O mais famoso é o tacacá, servido nos fins de tarde em várias esquinas da cidade. Parada obrigatória é a barraca em frente ao Colégio Nazaré, na avenida do mesmo nome, uma das mais tradicionais de Belém. No local, há 40 anos, dona Maria do Carmo dos Santos prepara a exótica iguaria. “Comecei lavando roupa para fora, mas hoje o tacacá me dá tudo na vida”, revela a quituteira, procurada por turistas que chegam de várias partes do país ávidos por experiências exóticas. “O segrego é usar ingredientes de ótima qualidade, como camarão e o jambu -- uma folha que dá uma leve dormência nos lábios quando ingerida”.

Sem esquecer a tradição popular das barracas que ganharam mais organização e limpeza e encantam visitantes, Belém investiu na arquitetura moderna e sofisticada para acolher as relíquias que dão água na boca. Revitalizado, o prédio de antigos armazéns portuários, antes foco de degradação urbana, é hoje pólo de alta gastronomia. Na Estação das Docas, como o lugar é chamado, uma plataforma sob o telhado funciona como palco móvel de música ao vivo, percorrendo pelo alto os diferentes restaurantes. Em ambiente luxuoso, lá funciona uma fábrica artesanal de cerveja com aroma de bacuri e, entre outras atrações, uma cefeteria com 40 opções de tapioca. A sorveteria Cairu, patrimônio da cidade, serve sabores a partir de frutas em todo o país só encontradas em meio à floresta amazônica, como o uxi e a bacaba. São ao todo 60 opções, como sorvete de castanha-do-Pará com doce de cupuaçu, murici e bacuri. “Como ponto turístico ganhamos a aprovação dos forasteiros e abrimos franquias em outras cidades do país”, festeja a proprietária Vera Saium.

Já o restaurante Lá em Casa começou décadas atrás na garagem do proprietário e hoje é referência internacional de charme na Estação das Docas, oferecendo no cardápio uma degustação de haddock paraense e pirarucu no tucupi. Pratos populares ganharam versão chique, como a maniçoba -- elaborada com folhas moídas da mandioca, cozidas durante vários dias, acrescidas de carnes diversas como uma feijoada selvagem. O chef Paulo Martins, 37 anos à frente do restaurante, afirma: “é uma reverência à globalização da Amazônia”, um fenômeno que navega ao sabor de novos investimentos que mudam o padrão do turismo na capital paraense.

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