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Bonito / Campo Grande / Corumbá (MS) - O turismo que dá certo

 

Após anos de debate, o mercado se prepara para adotar práticas sustentáveis que evitam o esgotamento das atrações, geram benefícios sociais e garantem a lucratividade do setor a longo prazo

· Mato Grosso do Sul

O telefone celular não pára. A caixa-postal de e-mails está sempre lotada. No escritório, fixados na parede, quadros exibem tabelas de investimentos, datas e metas para as obras, que se avolumam. O empresário sul-matogrossense Eduardo Coelho, 48 anos, engenheiro civil com pós-graduação em marketing no exterior, decidiu trocar o stress do mercado financeiro e a desgastante tarefa de administrar os bens da família, por um projeto, presumidamente, mais tranqüilo: transformar em pólo de ecoturismo uma fazenda que ganhou do pai, ao pé da Serra da Bodoquena, Mato Grosso do Sul – onde, quando jovem, costumava mergulhar nos rios cristalinos para pescar dourados e pacus com arpão. O tiro saiu pela culatra. A tão almejada vida mais calma acabou ganhando um ritmo alucinante, porque Coelho – ao contrário de muitos fazendeiros da região -- optou por um caminho mais difícil, porém responsável: desenvolver no local um turismo de bases sustentáveis. A tarefa exige competência técnica, articulação política, boas relações com as comunidades locais e uma série de cuidados para que a atividade turística seja utilizada como maneira de conservar a natureza – e ainda seja financeiramente rentável e socialmente justa.

Foi preciso tomar fôlego. Para deslanchar o negócio, Coelho elaborou o zoneamento da propriedade no intuito de evitar impactos ambientais. Abriu trilhas sinalizadas, fez o inventário da fauna e flora, montou uma estrutura segura e confortável para receber visitantes e resolveu o destino do lixo. Depois, definiu regras de visitação e treinou mão-de-obra. Parte das terras, 307 hectares, foi transformada em Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN). Como resultado, o ecoturismo já representa 85% da receita financeira da tradicional fazenda de gado. E, assim, o passeio nos aquários naturais do Refúgio Rio da Prata é hoje um dos mais concorridos da região de Bonito (MS). Satisfeito com retorno financeiro, Coelho está investindo R$ 50 milhões na construção de um hotel com 14 bangalôs de alto padrão. E foi além: vendeu um apartamento de luxo em Campo Grande (MS) para comprar uma nova fazenda de ecoturismo aquático, a Estância Mimosa, em Bonito – negócio em contínua expansão, para o qual Coelho dedica espaços prioritários da agenda, ocupada também pelos compromissos da Associação dos Proprietários de RPPN do Mato Grosso do Sul, da qual é presidente. “Muitos me chamavam de louco”, recorda-se Coelho.

Enfim, a vida atribulada em local paradisíaco é rotina de quem opta pelo turismo sustentável, embora, no caso de Coelho, o processo esteja somente começando. Como uma bola de neve, o conceito ganhou efeito multiplicador em Bonito, lugar que vive uma explosão do turismo, mas enfrenta desafios. Somente o lago da Gruta Azul, a mais famosa, recebe 50 mil visitantes por ano e ninguém sabe ao certo se o ambiente suporta tanta gente. O saneamento básico é preocupante. A cidade não trata a maior parte do esgoto produzido pelas casas, pousadas e restaurantes, problema que deve ser solucionado com a nova estação de tratamento, que começa a ser construída no município com R$ 9 milhões da Petrobrás. A obra é um dos resultados da mobilização impulsionada pelas ações do promotor de justiça de Bonito, Luciano Furtado. Na primeira delas, no ano passado, o promotor decretou que a multa ambiental de R$ 150 mil paga por uma mineradora fosse investida na realização de um diagnóstico ecológico do Rio Formoso, o balneário mais visitado da cidade. Das 75 propriedades avaliadas, 60 apresentavam problemas ambientais. Na segunda fase do projeto, chamado de Formoso Vivo, com apoio da iniciativa privada, foram realizados estudos técnicos para a recuperação das áreas. “Agora estamos na terceira etapa, na qual as propriedades estão assinando termos de compromisso para recuperar florestas e criar reservas”, revela o promotor.

Bonito não quer repetir a experiência negativa de outros pólos turísticos nacionais, explorados de maneira predatória, com objetivos de curto prazo, até esgotarem suas potencialidades, caindo em decadência. No geral, o conceito de sustentabilidade no turismo significa preservar a galinha dos ovos de ouro: as atrações dos destinos, sejam culturais ou ecológicas. As práticas precisam ser de longo prazo e ter durabilidade, conforme preconiza a Organização Mundial do Turismo. Envolvem uma série de atividades, como conservação de energia e de água, tratamento de esgoto e preservação da fauna e flora. E isso deve estar intimamente atrelado ao alcance de bons índices de rentabilidade do negócio, respeitando e envolvendo as comunidades locais – na valorização da cultura tradicional, na geração de renda e, enfim, na elevação da auto-estima.

Nas décadas de 70 e 80, quando se começou a pensar em turismo sustentável no mundo, as iniciativas estavam muito reduzidas à defesa do meio ambiente. Atualmente, grandes operadoras mundiais estão sendo pressionadas por ONGs de cunho social e ambiental, para que desenvolvam uma visão ampla da exploração sustentável do turismo, sem esgotar os recursos dos diversos destinos. A iniciativa é importante porque hoje, quando se constrói um quarto de hotel, outras 57 cadeias produtivas são ativadas, convivendo atreladas com o turismo.

“Embora a fauna e flora tenham sido a preocupação inicial, com o tempo passou-se a perceber que o ser humano é no fundo a peça mais fundamental – seja como sujeito local, seja como visitante dos destinos turísticos”, destaca Luiz Felipe da Cruz, presidente do Instituto de Hospitalidade (IH), instituição que participa de projetos de implantação de práticas de turismo sustentável em vários pontos do país. Por intermédio da Odebrecht, grupo empresarial proprietário de terras na Costa do Sauípe, o IH foi contratado para capacitar recursos humanos e criar um processo inicial que tornasse o turismo na região sustentável no longo prazo. Quais as características daquela população? Como vivem? O que sabem fazer por tradição? Perguntas deste tipo orientaram uma pesquisa que culminou na organização e capacitação de 500 artesãos.Uma fábrica comunitária de cosméticos feitos com produtos regionais e uma farmácia de plantas medicinais estão sendo instaladas na região. “É um paradoxo vender água de coco engarrafada justamente na Costa dos Coqueiros, onde fica Sauípe”, observa Cruz.

Na opinião de Xavier Veciana, diretor geral do grupo SuperClubs, dono de empreendimentos da região, “é indispensável no Brasil um sistema mais rígido de planejamento do turismo pelos municípios, com programas de educação”. O executivo prepara o hotel Breezes, na Costa da Sauípe, para cumprir normas e receber a certificação em turismo sustentável em 2005. Hoje o hotel é o único da localidade certificado em normas internacionais de capacitação profissional e segurança e higiene alimentar, da Qualitur e série ISO 9001.

Marco importante para a implantação desta nova visão do turismo no país foi a criação do Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável (CBTS), em 2003, por iniciativa da WWF e SOS Mata Atlântica. O processo demorou quase três anos. Os debates, que tiveram participação de 330 representantes dos vários segmentos turísticos, definiram os princípios básicos do turismo sustentável. Mas não chegaram a um consenso sobre os indicadores capazes de mensurar os padrões do turismo sustentável, a base para se implantar um sistema de normas de certificação. A certificação é considerada importante para trazer mais responsabilidade e competitividade ao setor, ao funcionar como um selo que garante aos consumidores e ao trade em geral a qualidade sustentável os serviços prestados.

Em paralelo ao trabalhado do CBTS, após oito meses de consultas ao mercado, o IH concluiu neste ano as primeiras normas do Programa de Certificação do Turismo Sustentável (PCTS). O primeiro sistema de padrões está direcionado aos meios de hospedagem, envolvendo itens que vão da arquitetura, que precisa estar em harmonia com o lugar, ao consumo de energia e à geração de resíduos. O IH iniciou os trâmites na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), para transformar esse primeiro conjunto de regras em normas oficiais do Brasil. “A partir dos meios de hospedagem, chega-se aos serviços de transporte, alimentação, agenciamento e destinos”, afirma Cruz. Ele completa: “Num país como o Brasil, onde há grave desequilíbrio social, é complicado falar de turismo sustentável ou certificações, mas é preciso começar algum movimento nessa direção, criando experiências que possam servir de modelo”. José Augusto, um dos coordenadores do PCTS, reconhece que não basta fazer normas. “É preciso uma mudança de cultura, fazendo o mercado perceber que as vantagens competitivas das normas são maiores do que os investimentos que se precisa fazer para cumpri-las”, explica.

O consultor Mário Beni, professor da Universidade de São Paulo, critica: “certificar o turismo sustentável, uma atividade dinâmica e complexa, é uma tarefa ambiciosa e temerária”. Envolve sustentabilidade, não somente ecológica, mas econômica, social, cultural e política, não se restringindo aos estabelecimentos, mas também aos destinos. Ele arremata: “Até mesmo no Caribe, onde lucrativos clusters de empresas turísticas atuam em perfeita conexão, a sustentabilidade só existe nos outdoors, porque a inclusão social é um problema”. Em Galápagos, no Equador, onde há sistemas de certificação implantados, muitas atividades não são sustentáveis sob o ponto de vista econômico. “No Brasil, diante da crise dos últimos anos, as empresas hoteleiras estão no momento mais preocupadas em recuperar os prejuízos”, avalia Herculano Iglesias, diretor da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira.

Para Vinicius Lages, coordenador da Unidade de Desenvolvimento Setorial do Sebrae, “se não combinarmos o desenvolvimento econômico com a devida proteção dos ativos naturais e culturais, perderemos o mercado para outros destinos do mundo”. Um dos requisitos para se atingir a sustentabilidade no turismo é o grau de organização e comprometimento dos elos produtivos – ponto forte do projeto conduzido pelo Sebrae nas Serras Gaúchas. Em parceria com a Associação de Turismo da Serra Nordeste (Atuaserra), foram identificados 353 estabelecimentos em 24 municípios da famosa rota da uva e do vinho, aptos a participar do projeto aliando turismo, agronegócio e artesanato. Ao todo, 162 cursos de capacitação em várias áreas, com mais de 2 mil participantes, abriram novos horizontes aos empreendedores.

Como resultado, o número de empregos dobrou e 90% dos proprietários, na maioria pequenos, aumentaram a renda familiar. “O resgate da cultura local e a fixação do homem ao campo, com a criação de oportunidades para os jovens, reduziram o êxodo para as grandes cidades”, explica Márcia Ferronato, uma das coordenadoras do projeto. Nos últimos 4 anos, foram investidos na estrutura turística da Serra Gaúcha R$ 90 milhões, com geração de 20 mil empregos. A partir dessa base, a região será uma das contempladas pelos recursos do Prodetur Sul, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), destinados à recuperação ambiental, aperfeiçoamento a gestão e melhoria da qualidade dos serviços. Em dezembro, serão aprovados US$ 200 milhões para as Cataratas do Iguaçu, litoral de Santa Catarina, Serra Gaúcha e Bonito-Bodoquena. “A sustentabilidade dos destinos é essencial para nossos investimentos”, afirma Gerardo Martinez, responsável pelo Fundo Multilateral de Investimentos, do BID, organismo que apoiou financeiramente a elaboração das primeiras normas de certificação do IH.

No Pantanal, grandes organizações ambientalistas internacionais estão mobilizando comunidades, empreendedores e representantes do governo para implantar o que chama de “turismo responsável”.“O Pantanal é uma região de belezas cênicas e alta biodiversidade, mas carece de práticas de turismo que preservam o equilíbrio ecológico da região, principal atrativo do lugar para os mercados nacional e internacional”, afirma Sérgio Salvati, da WWF. A organização iniciou um projeto de parcerias na região com objetivo de produzir dados técnicos para subsidiar novos investimentos turísticos, envolvendo de forma mais eficiente as comunidades e empreendedores locais na busca de soluções. A diversificação das atividades, como a produção do vitelo pantaneiro orgânico, o chamado “boi verde”, é uma saída proposta para garantir a sustentabilidade econômica das fazendas, junto com o ecoturismo. É preciso uma nova postura dos empreendedores, porque a certificação sozinha não vai garantir a sustentabilidade”, completa Salvati. Necessita-se, na sua opinião, desenvolver modelos, como o projeto de ecoturismo que está sendo implantado pela WWF na fazenda comprada recentemente pelo Fundação Ecotrópica, no entorno do Parque Nacional do Pantanal, um dos refúgios mais bonitos e preservados da região.

“É lamentável como o conceito de ecoturismo foi banalizado e prostituído no Brasil”, reclama Mário Montovani, presidente da SOS Mata Atlântica. Enquanto o turismo como um todo cresce entre 2% e 3% ao ano, o ecoturismo, segundo dados da operadora TAM Viagens, vem crescendo 50%. “Os números mostram que a atividade virou um grande business e por isso é maior a nossa responsabilidade”, destaca Montovani.

Há, porém, algumas barreiras. “O conceito de turismo sustentável, amplo e de difícil aplicação, esbarra no baixo nível de conscientização do consumidor”, ressalta Alexandre Prado, da ONG Conservação Internacional (CI). Ainda são poucos os que concordam em pagar mais caro por um serviço diferenciado que não agrida a natureza e a cultura tradicional. Por isso, na opinião de Prado, o conceito continua restrito a nichos de mercado, como a observação de baleias e os turismos de aventura e científico. Ele analisa: “Grandes investidores da infra-estrutura turística, como bancos e fundos de pensão, estão mais interessados no retorno financeiro e na redução de despesas, do que nos aspectos ambientais e culturais”. Para garantir o sucesso do novo conceito, acrescenta Prado, “é preciso envolver os pequenos e médios empreendedores turísticos, que podem até simpatizar com a idéia da sustentabilidade, mas não têm recursos de investimento para mudar seus sistemas, tornando-os social e ambientalmente corretos”.

Ninguém discorda que o caminho é demorado, mas precisa ser iniciado. Na região de Caratinga (MG), a CI começou a desenvolver uma estrutura de turismo, com apoio das comunidades, no entorno de uma reserva particular habitada por uma importante população de muriquis, os maiores primatas das Américas. Projeto semelhante está sendo implantado em Santa Maria do Jequitibá (ES), onde essas espécies vivem em pequenas machas de mata preservadas. Começa-se criando um plano de manejo e uma estrutura para visitação, prevendo a participação da comunidade, que terá cursos de educação ambiental e será estimulada a se organizar e se capacitar para a prestação dos serviços. Depois, como efeito dominó, ganha-se a adesão do poder público, com ações sociais e obras de saneamento básico. Forma-se, assim, graças à preservação do macaquinho raro, uma cultura e um ambiente propícios a novos investimentos e oportunidades.

BOX – Mamirauá, modelo nacional

Quando o biólogo Marcio Ayres, falecido no ano passado, lutou para a criação de uma reserva ecológica no município de Tefé (AM), destinada a proteger os macacos uacari branco, ameaçados de extinção, não imaginava que área de preservação, hoje Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, 15 anos depois, se tornasse modelo nacional de ecoturismo sustentável. Com 11 mil km² de floresta, rios, lagos e ecossistemas que guardam espécies raras, Mamirauá seguiu a trilha do uso sustentado, principalmente extração de madeira, pesca e ecoturismo, como forma de garantir a preservação da natureza e, ao mesmo tempo, assegurar melhores condições de vida para as populações tradicionais.

O principal segredo é o manejo participativo, no qual todos os projetos de exploração econômica são conduzidos a partir de regras aprovadas na comunidade. Para o ecoturismo, iniciado em 1998, foi desenvolvido um planejamento turístico completo, priorizando ações de mínimo impacto sobre o meio ambiente. Foram realizados também estudos de viabilidade, identificação de atrativos e alternativas para geração de benefícios sócio-econômicos para as populações locais, incluindo a capacitação profissional e a organização comunitária, que culminou na criação da Associação de Guias e Auxiliares de Ecoturismo do Mamirauá (AGEMAM). A associação é responsável pelos serviços hoteleiros da Pousada Flutuante Uacari, que conta com 10 suítes e atendimento de alto padrão. Além dos atrativos naturais, como lagos e florestas ricas em biodiversidade – macacos, botos, jacarés e inúmeras espécies de aves – o roteiro inclui visitas às comunidades ribeirinhas, que utilizam e manejam os recursos naturais de forma sustentável e produzem artesanato.

Os resultados mostram que preservação ambiental e o desenvolvimento econômico não são oponentes, como se pensava tempos atrás. No aspecto ambiental, a partir dos cuidados previstos pelos planos de exploração sustentável, a quantidade de pirarucu, um dos mais importantes peixes comerciais da região, quadruplicou. O corte de árvores para plantio de pasto foi abolido e as madeireiras ilegais desativadas. No plano econômico e social, a renda das famílias aumentou 107% e a mortalidade infantil caiu 54%, desde que o projeto foi iniciado. A partir de 2002, o ecoturismo começou a gerar lucros, fazendo com que a atividade caminhasse por conta própria, sem recursos de ONGs ou governos. Em 2003, o ecoturismo gerou um excedente de R$ 60 mil – metade repartida entre as famílias das sete comunidades envolvidas no projeto e a outra metade reinvestida nos planos comunitários de manejo florestal. Mais R$ 64 mil foram arrecadados com a venda de artesanato e serviços turísticos. O ecoturismo em Mamirauá cresce em média 30% ao ano.

BOX – Práticas se espalham no mundo

A visão responsável de explorar o turismo sem destruir suas principais matérias-primas, os patrimônios naturais e culturais, começou a circular no mundo após a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, em 1972, em Estocolmo. O primeiro selo ecológico, o Anjo Azul, surgiu na Alemanha, naquele mesmo ano, destinado a rotular hotéis ambientalmente corretos. Marco maior foi a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, que estabeleceu os princípios norteadores da Agenda 21 – o plano de ação com metas ambientais aceitas em todo o mundo para o novo século. Com base nesses princípios, aconteceu em 1995, a 1a Conferência das Nações Unidas sobre Turismo Sustentável, nas Ilhas Canárias, na qual surgiram novos conceitos, como certificação ambiental e atuação responsável – o que culminou, no mesmo ano, com a criação do sistema de normas ambientais de nível global, a ISO 14000.

Segundo levantamento da Organização Mundial do Turismo (OMT), existem no mundo mais de 250 prêmios e selos que atestam produtos e serviços turísticos. Entre esses, 60 são programas de certificação, a maior parte (78%) voltados para serviços hoteleiros na Europa. Apenas 5% têm alcance internacional. Atualmente, vários países estão implantando seus sistemas de normatização para o turismo sustentável. Na América Latina, Costa Rica, Guatemala e Equador já possuem esquemas de certificação implantados. “Será um grande passo unificar sistemas hoje pulverizados”, afirma Ronald Sanabria, da Rainforest Alliance, coordenador da Rede das Américas para Certificação do Turismo Sustentável, criada no ano passado durante workshop na Costa do Sauípe (BA). A instituição apóia estudos de mercado, guias de boas práticas e catálogos de destinos turísticos sustentáveis, como o que está sendo preparado no Brasil pelo IH. “Os programas de certificação regionais precisam ter sustentabilidade financeira de longo prazo e, para isso, é indispensável buscar apoio internacional”, enfatiza Sanabria. Organismos ligados às Nações Unidas, como o United Nations Conference on Trade and Development (Unctad) e United Nations Environment Programme (Unep), promovem parcerias e projetos de capacitação rumo ao novo conceito de turismo.

ENTREVISTA – Charme responsável

A gentileza do atendimento personalizado, o bom gosto da decoração e o capricho do cardápio são normalmente os pontos que saltam aos olhos de quem se hospeda em alguns dos 40 hotéis e pousadas da associação Roteiros de Charme. O aconchego, típico desses estabelecimentos, esconde um rígido sistema de normas de qualidade, entre as quais a preservação do meio ambiente e o respeito às comunidades nativas são prioritários. As iniciativas não se restringem a reduzir resíduos e economizar água e energia. As ações ultrapassam os muros das pousadas, contagiando outros empreendedores, como vem acontecendo em Outro Preto (MG), onde a Pousada Mondego lançou na cidade o polêmico debate sobre o transporte de ônibus e caminhões nas frágeis e centenárias ruas de paralelepípedos. Mônica Borobia, diretora de meio ambiente da associação, explica como a ética ambiental e social pode ser ferramenta de bons negócios, como no exemplo do Hotel e Fazenda Rosa dos Ventos, de Teresópolis (RJ) que recebeu em 2004 o primeiro prêmio ambiental da renomada associação de hotéis Relais & Châteaux, sediada em Paris.

Host: O que falta no Brasil para maior adesão às práticas sustentáveis de turismo?

Mônica Borobia: Precisa-se de um processo de certificação confiável, voluntário e participativo, que permita o diálogo e a troca de experiências entre os atores de cada segmento. Há barreiras, como o alto grau da informalidade da atividade turística e a falta de informação e educação ambiental No entanto, é preciso entender que a certificação não é um fim, mas uma ferramenta para se atingir a sustentabilidade.

Host: Como a Roteiros de Charme tem tratado esse assunto?

Mônica Borobia: Investimos US$ 250 mil em recursos próprios, ao longo de 12 anos, em mais de 2 mil horas de trabalho de campo, para implantar nosso programa de responsabilidade ambiental e social. Como resultado, em janeiro deste ano firmamos memorando de cooperação com a United Nations Environment Programme (UNEP), através de seu Programa de Turismo, sediado em Paris. Neste projeto, estamos implementando, avaliando e monitorando boas práticas ambientais em mais de 50 hotéis e pousadas, situados em diversos ecossistemas. Em 1999, já tínhamos implantado o Código Voluntário de Ética e de Conduta Ambiental para meios de hospedagem, desenvolvido pela associação em parceria com o UNEP.

Host: Como garantir o quesito da sustentabilidade social da atividade turística?

Mônica Borobia: Educação e capacitação de recursos humanos é um dos pilares essenciais do nosso negócio. Em nossa experiência, fica claro que um empreendimento, para atuar de forma sustentável, necessita estar engajado em minimizar os impactos ambientais de sua operação e estar compromissado não só com os aspectos sociais relativos aos funcionários e suas famílias, como também das comunidades do destino turístico onde opera. Não há verdadeira sustentabilidade num hotel que funciona como perfeito paraíso, enquanto fora de suas paredes reina o caos.

Host: Que resultados concretos os associados têm obtido?

Mônica Borobia: Atualmente 80% dos hotéis associados estão localizados em ecossistemas frágeis, como a Mata Atlântica. Nesses locais, apoiamos projetos geradores de benefícios sociais e ambientais, como reflorestamento com espécies nativas, inventário de fauna e flora e desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis, a exemplo da maricultura e cultivos orgânicos. Além disso, promovemos o uso racional dos solos e a redução de resíduos e estimulamos a conscientização ambiental dos funcionários e a adoção de padrões de consumo responsável pelos hóspedes.

Publicado originalmente na revista Host

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