Return to site

Bonito / Corumbá (MS) - Floresta dos vales encantados

· Mato Grosso do Sul

São 15 horas de uma tarde ensolarada em Corumbá, às margens do Rio Paraguai, Mato Grosso do Sul. O avião bimotor decola rumo à planície do Pantanal e depois a um complexo de morros com densas formações florestais, adjacente a ela. Lá está guardado o que restou de Mata Atlântica na sua parte mais ocidental. No início do sobrevoo, o comandante Firmo Borges, piloto experiente na região, aponta para pequenas serras cobertas por uma incomum vegetação seca, na vastidão pantaneira, e avisa: “basta uma faísca causada por raios para o fogo se alastrar”. Neste dia, após uma semana chuvosa, os riscos são menores. A fumaça que pinta o visual de cinza dá uma trégua em todo o percurso. Nos arredores da cadeia de montanhas, nosso destino final, o cenário é bastante nítido: tom prateado de rochas expostas pelo tempo se mistura ao verde de uma floresta alta e exuberante sobre elas.

Do alto, logo vem o devaneio sobre os estoques naturais lá guardados; sobre os bichos e o modo de vida naquele ambiente isolado. De repente, a aeronave mergulha para um rasante entre cânions e cachoeiras – uma bela, pouco conhecida e intrigante paisagem, desenhada por maciços calcários ricos em cavernas, abismos, condutores subterrâneos de água e nascentes que formam rios cristalinos serpenteando vales. A sensação é de descoberta frente um lugar de difícil acesso, desses nos quais só exploradores e admiradores da natureza costumam se aventurar.

No solo, a confirmação da beleza selvagem vista de cima. Mas também a constatação dos perigos que rondam o paraíso no qual acabamos de aterrissar. Um dia inteiro em trilhas e estradas dá a medida do quanto é importante organizar os usos de uma área de características únicas no país: o Parque Nacional da Serra da Bodoquena, na zona de transição entre Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Chaco.

São 77 mil hectares com cobertura vegetal em grande parte vigorosa, principalmente floresta estacional de árvores altas, como figueiras nativas, canelas e ingás. No entanto, uma parcela expressiva na beira dos rios apresenta baixo estado de conservação, porque por muito tempo serviu de acesso à extração seletiva de madeira. A atividade se concentrou nesses corredores devido ao relevo acidentando e de difícil exploração no restante da área. Em alguns pontos, a vegetação natural deu lugar a pastagens. O gado, atualmente, é a maior ameaça. Terras públicas são até hoje usadas por produtores que desejam criar um número de cabeças de gado maior do que suas propriedades podem suportar.

Antigas estradas no interior do parque nacional estão cobertas por capim-colonião. Próximo a uma nascente, o capim infestado por carrapatos indica a presença do gado que se aproxima para beber água e pastar. Naqueles campos, a brigadista Lina da Silva trabalha tão duro quanto os homens para fazer a capina e diminuir o risco de incêndios. “Viemos para cá porque fazendeiros telefonaram avisando sobre o fogo que se alastrou devido a queimadas”, conta Lina, filha de lavrador. “Ganhamos melhor salário debelando incêndio do que no trabalho com turismo ecológico”, diz.

Nas encostas e topos de morro, em solo de origem calcária, se situam as chamadas “matas secas”, caracterizadas por perder as folhas durante a estiagem, abrigando espécies como angicos e barrigudas. Há também savanas ou cerradões, bambuzais e campos de vegetação aquática nos banhados, onde as águas em circulação no ambiente são naturalmente recolhidas, filtradas e estocadas.

Um dos mais belos banhados está associado a um manancial que já chama atenção pelo nome: o rio Perdido. Ele tem a peculiar característica de “desaparecer” no buraco da rocha ao pé de um morro e continuar o seu curso no mundo subterrâneo até ressurgir à superfície cerca de 1 km adiante, na floresta, formando corredeiras e depois piscinas naturais de água verde-esmeralda, antes de desaguar num afluente do rio Paraguai. Na caminhada de meia hora até o local da ressurgência, observamos árvores de grande porte que resistiram à antiga exploração da área ou se regeneraram, próximas a cavidades no chão que podem dar acesso a cavernas desconhecidas.

Da cidade de Bonito (MS), onde se localiza a sede do parque nacional, seguimos a rota para assentamentos criados na década de 1980 em terras hoje dentro dos limites da área protegida. No local, a cachoeira Boca da Onça, a maior do estado, despenca de uma altura de 156 metros. É bastante procurada para prática de rapel. No local, os antigos lotes dos colonos, assentados após a desapropriação de propriedades que exploravam madeira, são hoje sítios de veraneio, terrenos de pousadas e balneários. Como sempre foi difícil plantar ou criar gado naquelas encostas rochosas íngremes, a maioria dos assentados vendeu as terras; os que ficaram na área trabalham atualmente em fazendas, arrendam pastos ou são servidores municipais.

O reino da harpia, a maior águia das Américas

Tomamos a estrada de barro para o Assentamento Canaã, um dos maiores da região. O caminho é pontilhado por aroeiras, árvores antigamente cortadas para fazer cercas e mourões. Próximo às moradias, a estrutura de mineradoras de calcário se destaca na paisagem, um tanto alterada naquele ponto do parque. Dentro e no entorno da área protegida existem 14 autorizações de pesquisa mineral, além de dezenas de requerimentos para prospecção, encaminhados ao governo federal.

Até então, após um dia inteiro de percurso, não tínhamos visto qualquer animal silvestre, apesar dos levantamentos que apontam a existência de uma fauna bastante rica. “Temos antas, lobinhos, jaguatiricas e tamanduás-bandeira, entre 35 espécies de mamíferos identificadas na área”, ressaltou na caminhada o chefe do parque nacional, Sandro Pereira, ao perceber o nosso desapontamento por ter encontrado apenas gado pelo caminho.

Mais uma hora de percurso e nenhum animal confirmava o que dizia o inventário. Já passava de 17 horas, quando veio a surpresa, na subida de uma trilha já no limite do assentamento com o parque, no lugar conhecido como Gruta do Natal. De repente, surge à nossa frente, bem alto no galho de uma árvore, um pássaro de grande porte, barriga branca, um longo topete e caudas com faixas cinzentas: a harpia, mascote da Serra da Bodoquena. A esplendorosa ave e seus ninhos são alvo de pesquisas e monitoramento permanente na região, onde provavelmente existem cinco casais da espécie. No entanto, nos últimos três dias, nenhum deles havia sido avistado nas matas pelos biólogos. Tivemos sorte.

Proprietários de terra mais conscientes abrem as porteiras para pesquisadores, mas muitos têm restrições a aventureiros que chegam para bisbilhotar a floresta. O território do parque nacional se sobrepõe a terras ocupadas por fazendeiros até hoje não indenizados pelo governo federal. Apenas 17% da unidade de conservação tem situação fundiária regularizada, sendo que as primeiras áreas particulares transferidas ao ICMbio foram compradas com recursos de compensação ambiental do Gasoduto Bolívia-Brasil.

“Existe hoje R$ 1,2 milhão disponível para aquisição de terras pelo governo, mas os proprietários querem um valor por hectare quase dez vezes maior em relação ao que foi ofertado”, conta Pereira. Uma esperança de solução para o conflito é o mecanismo, ainda a ser regulamentado, que permite a um proprietário se adequar à lei comprando “cotas de reserva legal” de quem tem sobras de floresta. Funcionaria assim: o fazendeiro que ocupa indevidamente o parque nacional seria remunerado por outro produtor que precisa compensar o déficit de reserva legal e se dispõe a pagar pela manutenção de área nativa em outra região. Assim, a terra ocupada por produtores dentro da área protegida passaria para as mãos do ICMbio, que não teria custos com desapropriação. “Diante da oportunidade, donos de terra antes avessos ao parque já o consideram um bom negócio”, diz o chefe da unidade de conservação.

“A efetivação do parque via compensação de reserva legal, para ceder o patrimônio ecológico à sociedade brasileira, é um caminho muito interessante”, avalia o proprietário Leôncio Brito Filho, representante do Sindicato Rural de Bonito no conselho da unidade de conservação. “O lugar é muito bonito e importante para pertencer a apenas uma pessoa; não devo ser o único dono, mas também não quero pagar sozinho”, afirma Leôncio, dono das fazendas Laudejá e Singapura – 3,5 mil hectares dentro do parque, na parte Sul, por onde passa o rio Perdido.

Enquanto a situação fundiária não se resolve, os perigos permanecem. A cana-de-açúcar, hoje disseminada sobre o planalto de Cerrado que bordeja a planície pantaneira, tem empurrado os cultivos de soja de lá para a porta da Serra da Bodoquena. Além disso, a proliferação de plantas invasoras, prejudiciais às nativas, é sempre uma preocupação. Isso sem falar da erosão que expõe rochas e faz “crescer pedra” na paisagem, como ocorre no Assentamento Guaiacurus. O processo de degradação é antigo. Acontece desde quando os colonos foram incentivados a desmatar para vender madeira e, ocupando a área com atividade produtiva, obter com maior facilidade o título de terra. Sem mata ciliar, sedimentos das margens são carreados para dentro dos rios, com risco de atingir grutas e modificar a qualidade e a transparência da água que mantém a biodiversidade e encanta adeptos do ecoturismo. Apesar do potencial, a atividade sofre o impacto até mesmo dos agrotóxicos que são aspergidos por aviões nos cultivos do entorno e danificam as paredes de um imponente complexo de cavernas, formado há 450 milhões de anos.

O ICMBio encomendou um amplo estudo de viabilidade econômica do turismo e dos possíveis benefícios gerados aos municípios vizinhos pelo fluxo de visitantes. O plano inicial é construir uma trilha de 1,3 mil metros na floresta, ligando o sumidouro à ressurgência do rio Perdido, cujas corredeiras serão abertas à atividade de canoagem. Haverá roteiro de 3 km para observação de aves, além da estruturação de uma travessia de longo percurso entre vales, de cerca de 30 km, para visitação a cavernas hoje de difícil acesso.

Proteção da área foi fruto de mobilização da sociedade civil

Mais de dez anos após a criação do parque nacional, a atividade turística começa a ser organizada, a partir da aprovação do plano de manejo, em 2013. “Foi um longo e difícil caminho de mobilização contra pressões e conflitos”, conta a pesquisadora Gláucia Seixas, superintendente executiva da Fundação Neotrópica. A entidade se articulou a partir de um movimento da sociedade civil que reuniu servidores de órgãos ambientais e parceiros em torno de uma causa: criar um parque para proteger a Serra da Bodoquena e sua fisionomia única, rica em água e remanescentes florestais.

Na época, já existiam ameaças como a extração de calcário das montanhas pontilhadas por cavernas e até retirada de madeira nativa – atividade que só arrefeceu após a Lei da Mata Atlântica, que restringiu o corte, em 2006. Apesar disso, a exploração madeireira continuou por algum tempo porque fazendeiros não indenizados após a criação do parque conseguiram autorizações para a derrubada de árvores, mediante liminares da Justiça.

“Logo de início, foram iniciadas ações para o desenvolvimento do entorno com menor pressão sobre o parque nacional recém-criado”, recorda-se Gláucia. Além da articulação entre instituições para a conservação daqueles ecossistemas, a pesquisadora se dedica à conservação do papagaio-verdadeiro, visado pelo tráfico de animais silvestres. Ela conta que “foi preciso despertar a consciência de que a floresta protegida na Bodoquena se tratava de uma reserva importante para o futuro e não simplesmente um mato sem utilidade”. Havia um argumento de peso: as nascentes da área nutrem rios de água cristalina com potencial de sustentar o turismo, que na época começava a se organizar e hoje é importante atividade econômica da região. Assim, a lógica se inverteu: a conservação da natureza passou a ser necessária para a garantia do padrão de qualidade dos atrativos, responsáveis por colocar o município de Bonito (MS), ao pé da Serra da Bodoquena, no mapa mundial do ecoturismo.

A região passou a se destacar como case em turismo sustentável, com adoção de regras para redução de impactos aos atrativos naturais. Em complemento, foram desencadeadas iniciativas inovadoras junto a produtores rurais para a manutenção dessas fontes hídricas – e também da Mata Atlântica que as protege. No projeto Formoso Vivo, iniciado no mesmo ano de criação do parque, 25 nascentes foram recuperadas a partir de Termos de Ajustamento de Conduta, junto ao Ministério Público. O trabalho teve como alvo a restauração de matas ciliares e reservas legais em propriedades da bacia do rio Formoso.

A iniciativa tornou-se referência nacional e logo depois foi replicada na microbacia de outro rio da região, o Anhumas, também de alta importância ecológica e interesse turístico, na Serra da Bodoquena. Finalizado no fim de 2013, o projeto consolidou a visão do turismo como promotor da conservação ambiental. E se desdobrou em propostas para a remuneração de produtores em função dos serviços ambientais prestados pela mata bem conservada, com aplicação dos recursos em compra de mudas, manutenção dos plantios e cercamento das nascentes para evitar o acesso do gado.

Dentro de uma atmosfera de maior consciência ambiental, cresceu o número de propriedades reconhecidas como RPPN, associadas aos remanescentes florestais mais a Oeste da Mata Atlântica. As áreas ajudam a formar corredores de biodiversidade para o trânsito da fauna, amortecem impactos de atividades produtivas e se somam ao esforço de conservação das áreas de proteção mantidas pelas três esferas de governo. Por entre nascentes e morrarias do município de Bodoquena (MS), a RPPN Cara da Onça, por exemplo, tem apenas onze hectares destinados à conservação, geração de conhecimento e turismo. Localiza-se às margens do rio Salobra, onde há cachoeiras, cânions e poços de mais de quatro metros de profundidade, com turbilhonamento da água. A área da reserva é pequena, mas estratégica – como muitas na região – para a conexão entre a floresta do parque e os remanescentes do entorno, no domínio da Mata Atlântica.

O Brasil é um dos países mais ricos em fauna aquática de água doce. Mas somente em poucas regiões, como a Bodoquena, é possível visualizar o mundo submerso com todo o seu esplendor de vida. Em solos predominantemente calcários, nascem rios cristalinos com transparência de 50 metros de profundidade – um mundo translúcido, onde tudo é possível ver, dificilmente encontrado em outras regiões brasileiras. E o cuidado com as matas ciliares, que conservam os recursos hídricos assim como os cílios protegem nossos olhos, é condição para que esse patrimônio beneficie as futuras gerações.

Os macacos que dão de comer aos peixes

A beleza da biodiversidade nas águas da Serra da Bodoquena serve de bandeira para uma compreensão mais completa dos ambientes aquáticos, para além da sua importância ao abastecimento humano. “Conhecer a fauna e seu território é a espinha dorsal para se pensar nos usos da área e na educação ambiental”, ressalta José Sabino, pesquisador da Universidade Anhanguera/Uniderp com vinte anos de experiência na região. Para ele, a baixa densidade populacional do entorno livrou os remanescentes de um maior desmatamento, mas a pressão de pequenas usinas hidrelétricas e do agronegócio é contínua. “A ruptura de ligações naturais entre a planície e o planalto afeta processos de piracema para a reprodução e é um risco para a fauna aquática”, adverte Sabino, ao lembrar que “a agenda de conservação do Pantanal precisa estar intimamente ligada à sua conexão com a Bodoquena”.

As interações da natureza escondem surpresas. Ao investigá-las no projeto “Peixes de Bonito”, o pesquisador descobriu que a pirapitanga, um dos mais comuns na região, come os frutos derrubados das árvores por macacos-prego, na beira dos rios, e segue o deslocamento deles para se alimentar. Mais ainda: pirapitangas e pacus, por exemplo, dispersam sementes pelas fezes em áreas alagadas e ajudam a replantar a floresta que vai servir aos primatas, reiniciando o ciclo. Nesse mundo de interações ecológicas que começam a ser conhecidas, três novas espécies de peixes foram descritas por Sabino: dois lambaris multicoloridos e um cascudo albino que vive em cavernas e só existe na Bodoquena, próximo às nascentes do rio Formoso.

Estimativas avaliam que cerca de 20% das 80 a 90 espécies de peixes provavelmente existentes na Bodoquena ainda não foram descritas pelos biólogos. Novas descobertas estão por vir, em região de alta importância ecológica, marcada por encontro de biomas e diferentes fisionomias florestais. “A floresta da Serra da Bodoquena mantem-se conservada porque está sobre afloramentos rochosos e não sobre terra boa para agricultura”, explica o pesquisador Geraldo Damasceno, do Laboratório de Botânica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, um dos especialistas que há mais tempo estuda a região.

A situação é diferente nos fragmentos de mata assentados sobre rochas no Maciço do Urucum, próximo a Corumbá (MS), já perto do rio Paraguai, onde há pressão da mineração de ferro. O quadro é agravado pelo impacto de práticas agrícolas inadequadas em assentamentos rurais, como o Taquaral e o Tamarineiro, vizinhos às áreas verdes do entorno da cidade. “No topo dos morros, as matas secas, que não inundam como a planície pantaneira, servem de refúgio para a fauna no período de cheia, mas correm alto risco de fogo”, afirma Carlos Padovani, pesquisador da Embrapa Pantanal.

As morrarias estão cobertas por vegetação que mistura espécies de Cerrado à flora característica de floresta estacional. Um destaque é o manduvi, árvore onde as araras-azuis constroem os ninhos. “O desmatamento e as queimadas são grandes ameaças”, adverte a pesquisadora Neiva Guedes, dedicada por muito tempo ao estudo e à conservação da espécie, que chegou à beira da extinção. Em vinte anos, o número de araras-azuis na região aumentou de 1,5 mil para 4,5 mil, graças ao trabalho de educação ambiental e do manejo dos ninhos. Centenas deles, construídos artificialmente com madeira no formato de caixas, foram colocados em propriedades rurais para suprir a falta de árvores com as cavidades naturais onde os ovos são depositados pelas aves. Várias caixas foram instaladas, por exemplo, nos campos de Porto Murtinho, um dos municípios mais a oeste do bioma Mata Atlântica. “Se no início a conscientização foi difícil, hoje ter ninhos artificiais é uma questão de status entre fazendeiros”, celebra Neiva.

Próximos dali, os remanescentes florestais da Bodoquena podem funcionar como corredores biológicos conectados às matas ciliares ao longo dos cursos d’água. De olho nesse potencial, cientistas tentam entender como aa fauna e a flora se modificam de um ambiente para outro. Em locais como a Serra de Maracaju, na borda Oeste do Pantanal, coberta por vegetação associada à Mata Atlântica, a maioria das aves são diferentes das que habitam o bioma próximo ao litoral. Prevalecem os bichos mais comuns no Cerrado e no Chaco Paraguaio.

A constatação é do ornitólogo Alessandro Nunes, um dos autores da lista de aves do programa Biota-MS. Das 623 espécies identificadas no Mato Grosso do Sul, 70 habitam a Mata Atlântica, nos fragmentos do sul e oeste do estado. Nos enclaves de matas de galeria, muitos dos quais arrodeados por Cerrado, o destaque é o beija-flor-preto e espécies que se alimentam de insetos e dependem do hábitat bem conservado para sobreviver. “A fragmentação impede a dispersão de aves que fogem das áreas de maior pressão das atividades humanas”, alerta o pesquisador. Para ele, as que buscam abrigo naquelas florestas sul-matogrossenses estão mais ameaçadas do que no restante do bioma.

A Mata Atlântica é bastante heterogênea e muda de paisagem à medida que se descola para o interior. Nesses pedaços de floresta mais distantes, alteram-se também as peculiaridades das questões sociais, da economia e até mesmo da geopolítica. No extremo do bioma perto do Paraguai e da Bolívia, há influências típicas de uma região de fronteira, como o tráfico de animais silvestres e o contrabando dos mais diversos produtos, entre eles agrotóxicos, já apreendidos pela equipe do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, situado a menos de 150 km da fronteira. O sinal de alerta está aceso, porque o parque encontra-se em área de superposição de duas Reservas da Biosfera – a do Pantanal e a da Mata Atlântica – e na borda existem extensas lavouras de soja e algodão.

Apesar de divididas em pedaços, aquelas florestas fronteiriças guardam um grande potencial para o desenvolvimento local a partir de um modelo econômico mais sustentável, capaz de contar uma nova história diferente para a região, que desperta para os novos tempos. Só agora, com o plano de manejo do parque nacional, os remanescentes repousados sobre os maciços da Bodoquena, até agora intransponíveis, poderão ser mais pesquisados, conhecidos e frequentados. Na expectativa do que está por vir, surge uma constatação: na sua porção mais interior, mesmo em local geograficamente isolado, a Mata Atlântica precisa ser valorizada e tão respeitada quanto no litoral, onde se localizam os centros do poder econômico e político do País.

Box 1

O isolamento da Serra do Amolar

No pedaço longínquo do Brasil onde o rio Paraguai separa o Brasil da Bolívia, a Serra do Amolar tornou-se palco de conflitos de uso dos recursos naturais envolvendo comunidades descendentes dos índios guató, povo canoeiro que habita o Pantanal há 8 mil anos. Tudo começou em meados da década de 1990, quando boa parte da área foi transformada em Reservas Particulares do Patrimônio Natural, restringindo atividades tradicionais, como a pesca e o extrativismo.

Sob o ponto de vista ecológico, as reservas teriam um papel importante na proteção daquele encrave florestal de feições únicas, formado por espécies de Mata Atlântica, Cerrado e até de Caatinga. No entanto, como as RPPN são de unidades de conservação de proteção integral, categoria em que não podem haver moradias e retirada de recursos naturais, a medida gerou um problema social . “Comunidades tradicionais acabaram expulsas, proibidas obter o sustento da natureza como faziam seus ancestrais”, conta André Luiz Siqueira, diretor da Ecoa, organização não governamental do Mato Grosso do Sul que mediou a questão no Amolar.

No início do ano 2000, o impacto às comunidades foi constatado durante expedições fluviais ao longo do rio Paraguai, entre os municípios de Cáceres e Porto Murtinho, até as regiões mais isoladas ao norte do bioma, só acessíveis por barco. O alerta da Ecoa levou o Ministério Público Federal e a Secretaria do Patrimônio da União a assegurar-lhes condições mínimas de vida, com saúde, escola e organização comunitária. Em paralelo, foi iniciada a negociação para o mapeamento e a retomada das áreas de usos tradicionais que tinham sido incorporadas às RPPN.

Com 84 km de extensão, a cadeia de montanhas da Serra do Amolar tem uma geografia ímpar, na borda-Norte do Pantanal, e está incluída no mapa dos remanescentes ocidentais sob o domínio legal da Mata Atlântica. O relevo mais alto funciona como refúgio para várias espécies que migram da planície pantaneira durante o período das cheias, pois a região corresponde a um dos trechos mais alagados do Pantanal. No passado, quando aquela parte da planície era bem mais seca, o ambiente propiciava a criação de gado, que convivia harmonicamente com as atividades dos povos tradicionais. Em função do avanço das águas em maior volume, a pecuária foi abandonada, as áreas degradadas tiveram alta taxa de recuperação e o lugar passou a ser destinado à conservação. O Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, por exemplo, foi criado na década de 1980 abrangendo terras de 81 antigas fazendas.

Em ambiente de maior harmonia, as famílias guató da Barra de São Lourenço, situada na foz do rio Cuiabá com o Paraguai, passaram a contribuir com a conservação da Serra do Amolar. “Após o conflito, os moradores voltaram e hoje integram a brigada de combate a incêndios”, diz Siqueira, ao lembrar o desafio atual: o ordenamento da pesca esportiva, com regras que evitem a atividade predatória e priorizem o uso comunitário.

BOX 2

Bodoquena aspira reconhecimento como geoparque

Os monumentos geológicos compõem a variada lista de atrativos oferecidos pela natureza na Serra da Bodoquena, com benefícios para o desenvolvimento local. O patrimônio aguarda o reconhecimento da Unesco para entrar no mapa global de geoparques qualificados para receber turistas, gerando oportunidades econômicas. “Iniciamos o caminho para montar a estrutura necessária e integrar essa rede”, afirma Afrânio Soares, diretor científico do Geoparque Bodoquena-Pantanal.

A área foi estabelecida por decreto pelo governo do Mato Grosso do Sul, em 2009, abrangendo 39 mil km², em treze municípios. Após estudos e mapeamento dos pontos de maior interesse, realizados pela universidade estadual e Serviço Geológico Brasileiro, a estratégia foi propor a criação de dois núcleos iniciais. Um deles se localiza em Corumbá, onde existem fósseis de 700 milhões de anos. Na Morraria do Puga, verificam-se blocos de rochas nos quais há evidências da teoria da “Terra Bola de Neve”, segundo a qual o planeta teria ficado totalmente coberto de gelo por determinados períodos.

O outro núcleo-piloto fica no município de Nioaque, que abriga sítios com pegadas de dinossauros no leito rochoso de um rio. O plano é construir geomuseu, anfiteatro e centro de visitação, além de instalar a sinalização das estradas. Uma unidade móvel divulgará a novidade em escolas, assentamentos rurais e terras indígenas da região, para a ideia ser apropriada pela comunidade.

“Para ter o selo da Unesco, precisamos seguir recomendações, principalmente viabilizar a gestão do território e ter estrutura de visitação e equipe técnica permanente”, ressalta Soares. No Brasil, apenas o Geoparque Araripe, no Sul do Ceará, faz parte da lista internacional, hoje composta por cerca de 100 áreas de todo o mundo. “O reconhecimento dá visibilidade; facilita a conservação do patrimônio, a cooperação para pesquisas e o acesso a recursos financeiros”, justifica o pesquisador.

O geoparque inclui, por exemplo, o Roteiro Histórico da Retirada da Laguna, com registros relacionados à Guerra do Paraguai. Entre as atrações, o Buraco das Araras, hoje bastante frequentado para a avistagem da ave, receberá estrutura para observação de geossítios e passará a ser procurado por turistas também pelo aspecto único da geologia. Já no Parque Nacional da Bodoquena, o destaque está nas “tufas calcárias”, estruturas que parecem “cachoeiras” formadas pela contínua deposição de carbonato de cálcio. A unidade de conservação tem registros de fósseis da megafauna que conviveu com o homem primitivo, entre 12 mil e 20 mil anos atrás. As grutas do Lago Azul e Nossa Senhora Aparecida foram tombadas pelo Iphan como Monumento Natural.

BOX 3

A terra dos “índios cavaleiros”

A Terra Indígena Kadiwéu, situada na cercania do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, guarda um expressivo pedaço de remanescente de Mata Atlântica, próximo ao rio Paraguai. São 530 mil hectares, área reconhecida como recompensa aos índios “guerreiros” pelo apoio às tropas brasileiras na Guerra do Paraguai (1864-1870). Hoje vivem lá 1,5 mil famílias, divididas em cinco aldeias, algumas também habitadas por índios da etnia terena e uns poucos quiniquinaua, outrora considerados extintos.

Os Kadiwéu vivem numa sociedade dividida hierarquicamente entre senhores e cativos. No passado, foram chamados de "os índios cavaleiros", devido ao vasto rebanho equino que possuíam e à admirável destreza na montaria. A adoção de um vestuário "country" pelos homens Kadiwéu da atualidade revela seu apego ao tradicional modo de vida associado ao uso e criação de cavalos.

Hoje a principal atividade é a criação de gado e cultivo de alimentos, além do artesanato produzido pelas mulheres que fazem pinturas geométricas no corpo e mantêm as tradições culturais. A relação com fazendeiros vizinhos nem sempre é pacífica – principalmente na época de cheia do Pantanal, quando o gado é levado para aquelas bandas, longe das águas. Focos de incêndio costumam ser detectados com frequência na terra indígena. As comunidades adotam métodos de roçado antigos, sem assistência e incentivo a práticas menos danosas.

Publicado originalmente no livro Extremos da Mata Atlântica, da Fundação SOS Mata Atlântica.

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly