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Bonito (MS) / Campina de Monte Alegre (SP) - O valor do eterno retorno

Turismo aposta na reciclagem de lixo para garantir a qualidade dos destinos e a sobrevivência dos negócios

· Mato Grosso do Sul

A cozinha da pousada Casa do Lago, em Campina de Monte Alegre, interior de São Paulo, produz muito mais que cheiros e sabores. Toda vez que coloca a mão na massa para fazer o quibe do famoso almoço árabe, a proprietária Diva Nassar separa as sobras da carne para alimentar os porcos na pocilga. Cascas de frutas e restos da jardinagem vão para o minhocário, onde se decompõem para virar adubo. Latas, vridros, garrafas plásticas e jornais são vendidos pelos funcionários para o caminhão da reciclagem. Potes de mel e geléia são reutilizáveis. E as caixas de suco e leite, as tampas de pizza e até o coador de café após o uso, encaminhados aos artesãos locais, deixam de ir para os aterros sanitários. Transformam-se em suvenires, peças de renda e sofisticados objetos de decoração. “Além dos visitantes, os próprios empregados assimilam e levam para suas casas essa cultura anti-desperdício”, explica Diva.

E assim surgem esperanças de novas atitudes e soluções contra uma ameaça que ronda o turismo: o lixo e seus efeitos no meio ambiente. Não é à toa que “reduzir”, “reaproveitar” e “reciclar” são verbos cada vez mais fortes no vocabulário da atividade turística – da hotelaria à aviação e cruzeiros em transatlânticos. Essas palavras compõem o código de ética da Casa do Lago e dos demais 48 estabelecimentos que fazem parte da Associação de Hotéis Roteiros de Charme, de norte a sul do país. Entre as iniciativas, a pousada Pedra da Laguna, em Búzios, Rio de Janeiro, recicla 100% de seus resíduos e trata o esgoto para reutilizá-lo na irrigação dos jardins. A renda com a venda dos materiais recicláveis reverte em benefício dos funcionários e a pousada economiza R$ 300 mensais que seriam gastos para transportar o lixo até o aterro sanitário da cidade.

Longe dali, na Chapada Diamantina, o Hotel Canto das Águas mostra que a reciclagem é um eficaz instrumento de educação ambiental, nos tempos em que o mundo se preocupa com as mudanças climáticas. No projeto Grãos de Luz, patrocinado pelo hotel, oficinas de arte, jogos e outras brincadeiras mobilizam os jovens a preservar o meio ambiente e a cultura popular. Reunidos em cooperativa, produzem papel reciclado para fazer cardápios, porta-retratos, lixeiras e sacolas mais ecológicas – alternativa aos sacos plásticos de supermercados que sujam ruas, matas e praias de muitos destinos turísticos.

Que o diga a pesquisadora Eduinetty Ceci de Sousa, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Especializada no estudo dos impactos ambientais na zona costeira, ela sentiu na própria pele os efeitos da poluição, ao visitar como turista as praias paradisíacas de Lagoa da Anta, em Alagoas. “Logo no primeiro mergulho, senti algo se enroscando entre minhas pernas. Não eram águas-vivas, mas sacolas plásticas”, conta Ceci, desapontada. Ela explica: “Esses e outros materiais são carregados até o mar pelos rios que banham cidades da vizinhança”. E diz que o problema poderia ser amenizado se cada um fizesse a sua parte – população, empresas e poder público.

Destinos turísticos se mobilizam

A história se repete em vários pontos do país, porque poucos municípios têm serviço abrangente de coleta seletiva, aquele que se destina a apanhar e encaminhar o lixo para reciclagem. “O número de cidades que fazem a coleta seletiva é crescente, mas ainda aquém do necessário”, afirma André Vilhena, diretor-executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre). “Quando a prefeitura não toma a iniciativa, os próprios empreendedores locais assumem a coleta seletiva e isso acontece principalmente nas cidades turísticas”, ressalta Vilhena. A razão é simples: encontrar um destino adequado para o lixo não é apenas uma urgência em favor da saúde e do bem-estar. É uma questão de sobrevivência do próprio turismo como negócio. Dados da Embratur mostram que o lixo está no mesmo patamar da violência entre os problemas que mais afugentam os turistas estrangeiros no Brasil.

De olho nesses números, as cidades de maior importância turística começam a se mexer. Em Bonito (MS), o caminhão da coleta seletiva recolhe o lixo reciclável três vezes por semana na porta das residências, hotéis e restaurantes. Os materiais, cerca de 30 toneladas mensais, vão para uma usina de processamento operada por 15 catadores reunidos em cooperativa. O restante dos resíduos gerados na cidade vai para um aterro sanitário – e não mais para lixões a céu aberto que existiam na beira das estradas de acesso a esse paraíso de águas cristalinas.

“A usina de reciclagem passou a ser atrativo para turistas, principalmente grupos de estudantes que chegam das grandes cidades em viagens educativas”, informa Waldemir Martins, coordenador do projeto. Jovens locais também visitam a cooperativa nas atividades escolares e hoje compreendem melhor a importância de separar do lixo os materiais que podem ser reaproveitados. E multiplicam a idéia em suas casas. “Em Bonito, a maioria dos empreendimentos que operam os famosos passeios de flutuação nos rios tem programas próprios de coleta e venda de materiais recicláveis, com benefícios para os funcionários e suas famílias”, revela Martins.

Maior consciência contra o lixo

“Cidades que vivem da ecologia precisam ter especial atenção contra o perigo do lixo”, enfatiza Israel Waligora, diretor da operadora Ambiental Expedições, que apoiou a criação da cooperativa de reciclagem em Bonito. “Disso depende o nosso negócio”, afirma Israel, também presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta). Em parceria com o Ministério do Turismo, a instituição lançará neste ano um programa socioambiental que reunirá 140 empreendedores desse setor em todo o país. A reciclagem será um dos focos centrais.

O fluxo em massa de visitantes aumenta a quantidade de lixo, causando transtorno em cidades que duplicam e até triplicam a população na alta temporada. De outro lado, o turismo tem o poder de despertar uma nova consciência para o problema, principalmente nos lugares onde a população depende dele para o sustento das famílias. “Os diferentes destinos recebem clientes cada vez mais críticos, que pressionam a busca de mudanças”, analisa Israel.

No ano passado, conta o empresário, os índios xavantes de Pimentel Barbosa (MT) mudaram a maneira de lidar com o lixo dentro de um projeto para começar a receber turistas. Desde os seus ancestrais, ao longo de 5 mil anos, os nativos despejavam os resíduos em lixões no entorno das aldeias. No passado remoto, eram ossos de animais, espinhas de peixe e outros restos orgânicos. Depois que os índios adotaram hábitos do homem branco, o lixo passou a conter plásticos, papéis, latas de alumínio e garrafas – e tudo continuava sendo jogado ao lado das aldeias como nos tempos antigos. Hoje a situação é diferente. Para receber visitantes, os índios mudaram a aldeia de lugar, melhoraram a sua aparência e começaram a coletar o lixo de uma maneira organizada. “Descobriram que o turismo é um caminho de ganhar dinheiro e valorizar sua cultura”, afirma Israel.

Hotéis educam o entorno

Os moradores do povoado Rio Quente, em Goiás, sabem disso. A maior parte da população trabalha nos hotéis, lojas e restaurantes que ali se instalaram para explorar as águas mornas que jorram de 19 minas nos riachos da região. São ao todo 6,5 milhões de litros por hora, que abastecem as piscinas do parque aquático do Rio Quente Resorts. “Para conservar essa maravilha, é preciso se preocupar com o lixo e com as condições de vida no entorno”, explica Manoel Carlos Cardoso, diretor de marketing do hotel. O principal instrumento para isso, neste caso, é um resíduo até pouco tempo atrás jogado no ralo: o óleo de cozinha das frituras. O produto, no total 50 mil litros por ano, é hoje fornecido pelo resort para uma associação comunitária, que o revende para fabricantes de sabão. O resíduo abastece também indústrias que o queimam para aquecer caldeiras e gerar vapor e energia. Ao todo, a comunidade fatura pelo menos R$ 15 mil por ano apenas com esse material que ganha um destino nobre.

“A lição deve começar pelos próprios empregados”, destaca Carlos Henrique Schmidt, do Plaza Itapema Resort & Spa, em Santa Catarina. Vendido para sucateiros, o lixo reciclável do hotel rende R$ 2 mil mensais, investidos na educação ambiental dos funcionários. Perto dali, na Pousada Ilha do Papagaio, em Palhoça (SC), o lixo é separado e transportado em barcos para a usina municipal de reciclagem, operada por cooperativas de catadores. Perto de 70% dos resíduos do hotel são reaproveitados. As folhas que sobram na preparação das saladas são úteis na produção de adubo e os restos de comida alimentam a criação de galinhas do hotel, de onde são obtidos os ovos orgânicos servidos no café da manhã.

“A referência ambiental é um diferencial cada vez mais forte para fidelizar clientes”, aponta Marcos Souza, coordenador de meio ambiente da Ilha do Papagaio e dono da consultoria Idea Consult, especializada em balanços socioambientais para meios de hospedagem. Ele diz que isso é ainda mais importante porque os hóspedes em geral abandonam suas práticas ambientalistas quando estão em viagem – mas valorizam quem zele por elas. Souza cita uma recente pesquisa da rede internacional de hotéis Element, segundo a qual 59% dos hóspedes deixam esse tipo de preocupação em casa. E 62% dizem que agem assim porque não precisam pagar mais por esse desperdício. “Isso leva a hotelaria a remodelar a forma de planejar e executar ações ambientais”, analisa Souza.

Grandes redes hoteleiras, como a Accor Hospitality, investem em projetos de reciclagem. No ano passado, 507 toneladas de plástico, papel, vidro e alumínio dos hotéis Sofitel, Novotel, Mercure, Ibis e Formule 1, na América do Sul, voltaram como matéria-prima para as indústrias. A renda é investida pelos próprios funcionários em atividades de lazer e educação. Trata-se de um estratégico atalho para mudar atitudes e preservar – um caminho balizado pela lógica dos vários “Rs”: o de repensar, recriar, replicar, recuperar, retornar, reencontrar, reagir. E quem antes torcia o nariz ao lidar com objetos jogados no lixo, agora encontram neles um grande valor.

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Aeroportos se preparam para reciclar

Jornais, revistas, restos de embalagens, potes, copos e talheres plásticos, entre os diversos resíduos descartados a bordo dos aviões e nos terminais de passageiros, começarão em breve a ser garimpados por catadores de materiais recicláveis. “Os aeroportos se preparam para cumprir o Decreto 5940, assinado pelo Presidente da República em 2006, que obriga todos os órgãos públicos a fazer a coleta seletiva do lixo em parceria com cooperativas”, informa Álvaro Valente, superintendente de meio ambiente da Infraero.

Em todo o país, a aviação gera em torno de 31 mil toneladas de lixo por ano – grande parte materiais que hoje tem valor econômico e podem ter um destino diferente dos aterros sanitários ou incineradores. Há dez anos, afirma Valente, a quantidade era o dobro da atual. “A simplificação dos serviços de bordo e o esforço das companhias aéreas em gerar menos resíduos dentro dos aviões explicam essa redução”.

Nos grandes aeroportos, o lixo é hoje levado para uma central de tratamento de resíduos, de onde é recolhido por empresas terceirizadas. A exceção são os materiais provenientes de regiões atingidas por epidemias, que precisam ser incinerados, segundo normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “No passado, tudo era destruído”, conta Valente, lembrando que hoje o reaproveitamento dos resíduos da aviação é tema de programas educativos em alguns aeroportos, como o de Curitiba, um dos pioneiros na reciclagem.

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Cruzeiros mais ecológicos

Gerenciar os resíduos dos navios, reduzindo riscos de poluição, é um dos principais desafios ambientais dos cruzeiros marítimos. O mercado se torna cada vez mais exigente em relação a esses cuidados. Em todos os navios da CVC, por exemplo, há programas de reciclagem de lixo e reaproveitamento de água. Latas, vidros e plásticos são separados e entregues em containeres para empresas terceirizadas no desembarque, no Porto de Santos. O lixo da cozinha é posteriormente incinerado.

A Costa Cruzeiros, que em 2007 transportou de mais de 1 milhão de passageiros em seus 12 navios, conseguiu nos últimos meses uma redução de 10% no volume de lixo gerado por passageiro e implantou um novo sistema para o descarte desses resíduos. A parte não-alimentar é desembarcada separadamente e enviada para reciclagem, mediante parcerias. Na Itália, Porto Rico e Hong Kong, por exemplo, a companhia tem acordo com o CIAL (National Consortium for the Recovery and Recycling of Aluminium) para o reaproveitamento das latas de bebidas. As iniciativas seguem a legislação marítima internacional que regula a poluição dos navios. E também se integram aos padrões do B.E.S.T. 4, sistema de normas de qualidade e responsabilidade social aplicado pela empresa.

Publicado originalmente na revista Host

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