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Calçoene - Escondidas na Floresta

Arqueólogos desenterram cidades perdidas no Amapá que garantiram ao Brasil a posse da região amazônica no século 19

Texto Sérgio Adeodato

A lavradora Conceição de Souza levou um susto quando descobriu que objetos, para ela estranhos e desconhecidos, apareciam na roça de mandioca da família, situada em meio à floresta amazônica do município de Santana, no Amapá. Eram louças portuguesas do século 18. A notícia da descoberta foi a senha para que arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco, que já haviam estado no Amapá fazendo escavações, voltassem à região. Caçadores de cidades antigas perdidas na floresta, os pesquisadores sabiam que poderiam encontrar algo importante ali: as ruínas da Vila Vistoza da Madre de Deus, povoado erguido como vários outros durante o período colonial na porta da Amazônia. O objetivo: ocupar as fronteiras mais distantes do Brasil e defendê-las contra a invasão de povos inimigos.

O município é isolado e de difícil acesso. Os arqueólogos saíram da capital, Macapá, e, após duas horas de viagem chegaram no cais do rio Vila Nova, já em terras de Santana. Acompanhamos a expedição, seguindo também de barco serpenteando a mata durante 30 minutos até chegar à casa de Conceição. Ali, encontramos a filha, Eliane, o marido dela, Carlos Gomes da Silva, e os filhos – gente curiosa com a movimentação de tantos forasteiros. “A vizinhança daqui não têm idéia do patrimônio histórico que se esconde em suas terras”, explica o arqueólogo Marcos Albuquerque, chefe do grupo de pesquisadores. Ele sabe que os achados serão importantes para resgatar uma parte da história do Brasil raramente ensinada nos livros escolares e desconhecida da maioria dos amapaenses.

Da casa de Conceição, com a ajuda de um mateiro, pegamos uma trilha que corta a roça de mandioca e um pedaço de floresta fechada. Quinze minutos depois, paredões de pedra cobertas pela vegetação marcavam o fim da trilha. Eram as ruínas da igreja que existia na antiga Vila Vistoza da Madre de Deus. “É incrível a emoção de encontrar no meio do mato os vestígios de uma cidade da qual só tínhamos referência através de documentos históricos”, disse Albuquerque. Ele conta que Vila Vistoza foi construída em 1767 pelo desembargador Feliciano Ramos Gusmão, por ordem do governador da então capitania do Grão-Pará e Maranhão, Fernando de Ataíde Teive.

A missão dos portugueses era defender a Amazônia contra incursões dos povos inimigos. Foram erguidas no local, às margens do rio Anauerapucu, que deságua do Amazonas, 112 casas de madeira. Anos depois, a população, vitimada por epidemias e insatisfeita com a dura vida na floresta, abandonou o povoado. Restaram as ruínas soterradas pelo tempo. Agora, os arqueólogos querem desvendar os detalhes arquitetônicos da igreja e encontrar o pelourinho, a casa de câmara e cadeia e toda a estrutura de uma cidade típica daquele período.

Mazagão brasileira

O mesmo trabalho já começou a ser desenvolvido em outra vila colonial, também encontrada pelos pesquisadores da UFPE no Amapá: o povoado de Mazagão. Nos últimos dois anos, foram desenterrados restos da igreja e nada menos que 58 esqueletos humanos. Eram personalidades ilustres do local que, de acordo com o costume, eram sepultadas no chão das igrejas, pois as famílias acreditavam que assim estariam mais próximas de Deus após a morte. As ossadas encontradas pelos arqueólogos foram guardadas em urnas funerárias. Em janeiro de 2006, o governo do Amapá fez o sepultamento com honras militares no cemitério da atual vila de Mazagão.

Além de defender as fronteiras, servindo de apoio logístico para Vila Vistoza, Mazagão teve uma outra função que a fez entrar para a história: o povoado foi erguido na selva por volta de 1770 para receber a população de uma cidade africana de colonização portuguesa que fugia do implacável cerco dos mouros. A Corte de Portugal deu à vila construída no Amapá o nome do lugar onde os imigrantes viviam, no Marrocos – Mazagão, hoje Jadida. Transferidos às pressas para o novo continente, os marroquinos e seus descendentes passaram a conviver com os perigos da floresta desconhecida. Atingidos por doenças, precisaram migrar para lugares de vida mais saudável.

Vila Vistoza e Mazagão fazem parte do grupo de cerca de 60 povoados construídos entre 1755 e 1759 como parte da estratégia do rei D. José I, implantada pelo marquês de Pombal, para consolidar as novas fronteiras do território, redefinidas pelo Tratado de Madrid, firmado em 1750 entre Portugal e Espanha. “São obras de engenharia incríveis para o período e as condições tão adversas”, comenta a pesquisadora Beatriz Bueno, da Universidade de São Paulo, especializada no assunto. “Para demarcar as fronteiras e localizar as vilas, os mapas eram confeccionados mediante a observação de eclipses das luas de Júpiter.”

Já naqueles tempos, a Amazônia era uma região muito cobiçada. A floresta, com sua rede de rios ligada aos Andes, servia de porta de entrada para os povos que pretendiam manter um pé na América. Inevitavelmente, o Amapá, localizado na foz do rio Amazonas, se tornou palco de conflitos. A região conviveu com a ameaça de invasão dos holandeses, ingleses e, principalmente, franceses – povos que já dominavam as vizinhas Guianas.

República de Cunani

Partindo de Macapá, rodamos 310 quilômetros em estradas cheias de lama para conhecer os curiosos vestígios de uma etapa desses conflitos, preservados até hoje no distante povoado de Cunani, município de Calçoene, no norte do Amapá. Cunani fica no coração do território considerado, entre 1841 e 1900, como zona neutra entre Brasil e França. Os conflitos ali começaram quando foram descobertas gigantescas jazidas de ouro no final do século 19.

De olho na riqueza do subsolo, um rebelde francês chamado Jules Gros, com apoio do governo da Guiana Francesa, reuniu aventureiros e, em 1885, fundou a República de Cunani, considerada por ele um país independente – nem francês nem português nem brasileiro. Para lá imigraram escravos fugitivos em busca de ouro. A “república” chegou a ter moeda e bandeira próprios, mas não ganhou a estrutura administrativa de um país e acabou não funcionando na prática. Isso não impediu que os atritos entre Brasil e França na região continuassem até 1900, quando – após uma batalha sangrenta - os dois países entraram em acordo para definir as fronteiras, com a mediação da Suíça.

A vila de Cunani é hoje reconhecida oficialmente como uma comunidade descendente de quilombo e guarda tradições dos antigos negros de origem francesa, como o batuque “zimba” que anima a festa de São Benedito, em dezembro. O som é produzido por um tambor feito com o couro da sicuriju, uma cobra encontrada na beira do rio que banha a vila e deságua próximo à praia do Goiabal, já no Atlântico, acima da Linha do Equador. Mesmo distante, o lugar recebe grande quantidade de sedimentos, despejada pela força do rio Amazonas. Extensos banhados pontilham a região, hábitat de garças, guarás e búfalos.

Hoje, poucos lembram a história dos franceses e da república independente. “Antigamente, as crianças não podiam participar das conversas dos adultos e por isso as histórias morreram com os mais velhos”, justifica a professora Rosimeire Macêdo, 40 anos. Mas os sinais da presença francesa ainda existem. Na igreja, a imagem de Santa Maria e o sino, com selo de fabricação em Nantes (1890), são herança dos estrangeiros. A ladainha de São Benedito é lida até hoje nas missas com texto que mistura latim e francês. E as telhas de muitas casas têm a marca Armand & Etienne, de Marselle, França.

Não há mais sinal de ouro e a população vive da roça, da pesca e da coleta de açaí e palmito. “Já fomos uma república, mas hoje somos pobres e vivemos isolados”, lamenta Osíris dos Santos, 74 anos, bisneto do coronel José da Luz, que veio do Pará no final do século 19 para ajudar a expulsar os franceses.

Caberá aos arqueólogos resgatar essa história perdida no tempo. Um dos focos do trabalho será a área que já foi ocupada pela igreja dos franceses, demolida no século 19. Conta-se que um túnel ali existente leva a um tesouro de peças sacras e objetos de ouro. Existia também um cemitério antigo, chamado Cemitério Senegal, até hoje não localizado. Jóias, miçangas, louças e potes de barro eram encontrados até bem pouco tempo pelos moradores nos quintais das casas, durante as chuvas. Provam que a Amazônia não esconde apenas riquezas minerais, muitas lendas e uma enorme biodiversidade. A floresta, desde os tempos em que os homens lá pisaram pela primeira vez, é também rica em história.

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Um herói chamado Cabralzinho

“Se grande foi o Cabral que nos descobriu, maior foi o que nos defendeu.” A frase ao pé da estátua de Francisco Xavier da Veiga Cabral, na praça central da cidade de Amapá (AP), exprime a fama do herói da luta contra os franceses na região. O valente baixinho, lutador de capoeira, comandou a luta dos luso-brasileiros na disputa do Amapá, no século 19. O clima de tensão na zona neutra, chamada Contestado Franco-Brasileiro, aumentou depois que os brasileiros prenderam o representante francês no território, em represália às restrições de acesso às jazidas de ouro.

Navios de guerra franceses aportaram na foz do rio Amapá com o objetivo de tomar a cidade e impor o domínio à região. Diz a história que Cabralzinho enfrentou um dos invasores na porta de casa. Sob fogo cruzado, atirou-se ao chão, aplicou um golpe de capoeira no inimigo, tomando-lhe a arma e utilizando-a para matá-lo à queima-roupa. A batalha resultou em massacre.

Após ingerências diplomáticas, a França concordou em assinar um tratado que colocava nas mãos de um terceiro país – a Suíça -- a decisão sobre os limites da fronteira. O veredicto final foi a favor do Brasil. Os conflitos na fronteira foram encerrados e Cabralzinho virou herói.

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