Return to site

Camacan - Paraíso das Mariposas

Serra Bonita abriga uma das mais importantes coleções biológicas do mundo, mantida por um pesquisador que se refugia na Mata Atlântica e compra florestas para salvá-las da destruição.


Em meio a um raro pedaço do que restou de Mata Atlântica, na Serra Bonita, município de Camacan, Sul da Bahia, existe um acervo extraído da natureza e guardado como relíquia -- história de toda uma vida. Com habilidade de um micro-cirurgião, o apaixonado cientista Vitor Becker, 64 anos, usa alfinetes e pinças para manusear delicadas peças conservadas dentro de dezenas, centenas de gavetas. Para ele, o lugar é como um santuário, um espaço de acesso restrito. Só ele e a mulher, a pedagoga Clemira Ordonez Souza, têm as chaves. Não é para menos. O recinto, climatizado e mantido livre de pragas, preserva algo importante para os estudos sobre a conservação da vida silvestre: 25 mil espécies de mariposas entre as 30 mil descritas até hoje pela ciência nas florestas tropicais de todo o planeta.

A coleção é reconhecida internacionalmente como uma das mais completas do mundo para mariposas neotropicais, atrás das existentes nos museus de História Natural de Londres e de Washington. “É resultado de uma paixão”, diz Becker, sem esconder uma ponta de ciúmes quando alguém não-autorizado se aproxima para tocar nas peças da coleção. A preocupação se justifica: lá está, por exemplo, a maior mariposa do mundo, a bruxa-negra, com seus tons de marrom para camuflagem nas árvores. Ela divide espaço com outras minúsculas, como o bicho-mineiro-do-café, mariposa que tem quase o tamanho de uma mosca e é encontrada nas regiões cafeeiras de toda a América.

O cientista abre com cuidados as gavetas e mostra: “essa aqui, é da Guatemala, e essa outra mais escura, da Costa Rica”. E há milhares de espécies brasileiras, algumas só existentes naquele pedaço de Mata Atlântica onde o cientista vive. “Hoje enviamos amostras para o exterior e os cientistas não precisam mais cruzar o Atlântico para estudar as nossas mariposas”, conta o pesquisador. Orgulhoso desse feito, resultado de 38 anos de pesquisas e expedições na natureza, Becker tem trabalhado para realizar dois sonhos. O primeiro, já uma realidade, é abrir as portas do “santuário” para que os cientistas possam entender o comportamento dessas espécies e, assim, protegê-las. Com esse objetivo, para dar suporte ao trabalho científico, Becker lançou mão de economias e construiu uma confortável estrutura com salas de estudo, laboratórios, biblioteca e alojamento de bom nível, cercado pelo verde da floresta – um imenso laboratório vivo para pesquisas.

O segundo sonho, revela o cientista, é salvar o ambiente natural habitado pelas mariposas, ou seja, a Mata Atlântica, um dos biomas ecologicamente mais importantes do planeta. Não é por acaso que Becker, nessa batalha contra a destruição das árvores, centra forças na Serra Bonita. Por reunir matas de maior altitude, com clima ameno e alto grau de umidade, o lugar é considerado um dos refúgios mais prodigiosos em biodiversidade desse bioma. É um reduto de mariposas. Estima-se que ali existam mais de 5 mil dessas espécies, além de aproximadamente outras 10 mil de borboletas, suas parentes mais próximas. E o mais importante: perto de 20% delas ainda são desconhecidas pela ciência, de acordo com estimativa do cientista.

Termômetros da biodiversidade

Essa profusão de mariposas indica o tamanho da riqueza biológica, especialmente da flora. Explica-se: na fase de lagarta, a maioria das espécies de mariposas, como também acontece com as borboletas, se alimenta de uma única ou de poucas espécies de plantas. Portanto, quanto maior o número de espécies de borboletas e mariposas de uma mata, maior é a diversidade vegetal. Estima-se que existam na Serra Bonita pelo menos 800 espécies de plantas, algumas novas para a ciência. Apenas de samambaias, 200 já foram identificadas nessa região, principalmente nas partes mais altas. Esses locais preservam um tipo de Mata Atlântica que só existe hoje na Serra do Mar e da Mantiqueira, centenas de quilômetros ao Sul. Os cientistas querem agora entender o porquê e estudam o lugar como uma relíquia da última glaciação, há milhões de anos, quando muitas espécies da flora buscaram refúgio em ambientes de maior altitude.

Em ambiente de vegetação tão diversa, habitam pelo menos 180 espécies de aves, de acordo com inventário da organização científica BirdLife International. Dessas, 59 são endêmicas, ou seja, só existem ali e em nenhuma outra parte do mundo, e 27 correm real perigo de extinção, como é o caso do gravateiro-da-perna-rosa, recém-descoberto naquelas matas. Essa riqueza se assemelha à de outras áreas de Mata Atlântica próximas deli, no Sul da Bahia onde, em uma área equivalente a um campo de futebol foram encontradas 270 espécies de mamíferos e 454 de árvores, um recorde mundial. E não é preciso andar quilômetros em trilhas até lugares isolados na Serra Bonita para perceber essa efervescência da vida silvestre. Impressiona o número de beija-flores, perto de 20 diferentes espécies, que se aproximam e voam nas varandas do centro de pesquisa nos finais de tarde, ao lado dos laboratórios onde Becker trabalha.

Ao amanhecer, múltiplos pios e acordes dessas e das demais aves dão a medida de uma floresta em plena atividade – e estimulam uma caminhada mata adentro para novas descobertas. Nas duas trilhas que cortam a reserva, avista-se uma vegetação úmida com diferentes tons de verde, pontilhada de plantas com flores coloridas, habitadas por seis espécies de primatas, como o ameaçado macaco-prego-do-peito-amarelo, além de onças pardas, veados e tamanduás. “Lugar onde há muitas mariposas é um campo aberto para novos achados da fauna e da flora”, diz Becker.

O cientista descobriu o potencial da Serra Bonita, no começo da década de 90, ao buscar um refúgio para viver longe das grandes cidades e estudar as mariposas que tanto aprecia. A senha para a escolha do lugar mais propício a essa empreitada, além da importância biológica, foi um detalhe que muitos não dão importância: a presença de torres de telecomunicação. “Nesses locais, há estrada e caminhos de acesso já abertos, o que facilita em muito a nossa vida”, justifica o pesquisador.

A partir desse momento, se concretizava um projeto antigo, iniciado quando Becker, ainda universitário, montou uma coleção de mariposas e borboletas como trabalho final no curso de Agronomia. Quando se formou, já tinha guardadas 1 mil espécies – e queria mais. Decidiu então se especializar em Entomologia, a ciência que estuda os insetos. E enfrentou aventuras. Após defender a tese de mestrado na Costa Rica, comprou um carro velho e rodou durante quatro meses o continente americano para fazer novas coletas e aumentar o acervo. A idéia continuou viva, mesmo durante os 30 anos dedicados especificamente ao estudo de pragas agrícolas, como entomologista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Após a aposentadoria, resolvi fazer a minha parte para evitar a destruição do hábitat das mariposas”, conta Becker.

Comprador de floresta para conservação

“Nada adianta manter bichos em coleções mortas, se não fizermos nada para protegê-los na natureza”, explica o cientista, seguidor de uma rotina rigorosa de trabalho no campo. Todos os dias antes do sol raiar, sai na escuridão da floresta em busca de mariposas, utilizando luzes para ofuscá-las e capturá-las. Na última década, no entanto, um outro hábito ocupa o tempo do pesquisador: comprar terras com o único objetivo de salvar as espécies às quais tanto se dedicou ao longo da vida. Começou arrematando 1,5 mil árvores vivas, colocadas à venda por um proprietário rural para quem quisesse derrubar e comercializar a madeira. Usando o fundo de garantia do antigo emprego, Becker as adquiriu para conservá-las de pé – e, pouco tempo depois, conseguiu comprar todo o imóvel, equivalente a 300 campos de futebol. “O curioso é que a dica desse negócio foi dada por meu irmão, que trabalhava com madeira aqui na região”, conta o pesquisador.

Ao longo dos anos, Becker comprou novas áreas para tirá-las da mão dos madeireiros, somando até hoje 46 pequenas propriedades, na Serra Bonita. Juntas, compõem um mosaico de preservação, com 1,2 mil hectares convertidos em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). A área funciona como um escudo contra o desmatamento, hoje causado principalmente por plantações que substituíram o cacau, carro-chefe da economia regional até entrar em declínio, nas últimas décadas, em função da praga da vassoura-de-bruxa e dos preços baixos no mercado. Na cidade de Camacan, antes rica por conta da produção cacaueira, os sinais da decadência estão por toda parte – do comércio vazio aos casarões antigos abandonados.

Becker diz que atualmente há fila de proprietários querendo vender suas terras. São normalmente pequenos lavradores sem recursos para comprar áreas boas para o cultivo de cacau e que, na falta de opções, se tornaram donos das matas marginais, inadequadas para a agricultura. Por essa razão, se mantiveram bem conservadas. “Já idosos, esses agricultores pobres vendem as terras porque os filhos foram para as capitais em busca de emprego”, explica o cientista.

Condomínio de reservas

O projeto é, aos poucos, proteger toda área de 7,5 mil hectares da Serra Bonita. E isso se desenvolve por meio de um plano criativo: lotear a Mata Atlântica local para a instalação de um condomínio de reservas ecológicas privadas, administrado por uma organização não-governamental criada especialmente para isso, o Instituto Uiraçu. “Preservar um lugar assim tão ameaçado é um paixão”, afirma o empresário americano Steve Koltes, dono de três RPPNs na Serra Bonita. Ele considera esse novo modelo eficiente e sustentável: “é muito melhor conservar sendo dono de algo, do que unicamente doar dinheiro para projetos ecológicos”.

Koltes sabe que a região é estratégica para o trabalho de unir pedaços isolados de floresta, com objetivo de constituir o Corredor Central da Mata Atlântica. O desafio, perseguido por organizações de peso, como a Conservação Internacional e a SOS Mata Atlântica, é recompor uma faixa de vegetação nativa entre o Espírito Santo e o Recôncavo Baiano, essencial para conservar a biodiversidade nesse que é um dos biomas mais ameaçados do planeta. “Além de pesquisas biológicas, é preciso promover atividades econômicas não destrutivas”, adverte Jean François Timmers, coordenador da força tarefa do Ministério do Meio Ambiente para a criação e ampliação de unidades de conservação na Mata Atlântica da Bahia. Ele explica que o cacau tem a vantagem ecológica de ser cultivado à sombra da mata nativa, mantendo-a preservada. Por isso, “o desafio é tornar essa cultura agrícola mais valorizada e viável, diversificando os usos da floresta a associada a ela”.

A medida é urgente, porque apenas 6% da Mata Atlântica está protegida por lei na forma de parques e reservas ecológicas. Preservar vegetação nativa dentro das propriedades rurais, na forma de reservas privadas, é o caminho mais rápido tornar fazer o corredor de biodiversidade sair do papel. O exemplo da Serra Bonita, graças às mariposas e seus vôos rasantes na floresta, dá motivos de esperança.

 

 

BOX-

Um novo modelo de conservação

 

O uiraçu, também conhecido como gavião-real, maior ave de rapina do mundo, povoava há 20 anos atrás a Serra Bonita, no Sul da Bahia. Hoje já não existe mais. Mas, embora extinta, emprestou o nome ao instituto que coordena a salvação daquele pedaço de Mata Atlântica e da vida nela existente. Criado em 2001, o Instituto Uiraçu estabeleceu mecanismos para atrair novos proprietários rurais interessados em comprar terras com o único objetivo de conservá-las.

O modelo consiste na formação de um consórcio de florestas, todas transformadas em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), dentro de um sistema igual ao de um condomínio. O “síndico”, o Instituto Uiraçau, é responsável pela gestão e conservação das propriedades, e os compradores permanecem donos das terras. Não há limite máximo ou mínimo para o tamanho das áreas de floresta adquiridas – pode ser um único hectare, igual a um campo de futebol, ou até grandes extensões. O custo gira em torno de R$ 1.200 o hectare.

Cada proprietário contribui ainda com um valor de R$ 500 por hectare para compor o Fundo para Conservação da Serra Bonita. Esse recurso é aplicado para planejar, vigiar e criar infra-estrutura básica para o condomínio, incluindo projetos de pesquisa e educação ambiental. Até o momento, o conjunto de RPPNs engloba 1.200 hectares de Mata Atlântica preservada. Mais 500 hectares estão sendo adquiridos, em parte com apoio da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), a partir de verba da loteria nacional da Holanda. A meta é progeter todos os 7.500 hectares da Serra Bonita.

 

Publicado originalmente na revista Horizonte Geográfico

Em meio a um raro pedaço do que restou de Mata Atlântica, na Serra Bonita, município de Camacan, Sul da Bahia, existe um acervo extraído da natureza e guardado como relíquia -- história de toda uma vida. Com habilidade de um micro-cirurgião, o apaixonado cientista Vitor Becker, 64 anos, usa alfinetes e pinças para manusear delicadas peças conservadas dentro de dezenas, centenas de gavetas. Para ele, o lugar é como um santuário, um espaço de acesso restrito. Só ele e a mulher, a pedagoga Clemira Ordonez Souza, têm as chaves. Não é para menos. O recinto, climatizado e mantido livre de pragas, preserva algo importante para os estudos sobre a conservação da vida silvestre: 25 mil espécies de mariposas entre as 30 mil descritas até hoje pela ciência nas florestas tropicais de todo o planeta.

A coleção é reconhecida internacionalmente como uma das mais completas do mundo para mariposas neotropicais, atrás das existentes nos museus de História Natural de Londres e de Washington. “É resultado de uma paixão”, diz Becker, sem esconder uma ponta de ciúmes quando alguém não-autorizado se aproxima para tocar nas peças da coleção. A preocupação se justifica: lá está, por exemplo, a maior mariposa do mundo, a bruxa-negra, com seus tons de marrom para camuflagem nas árvores. Ela divide espaço com outras minúsculas, como o bicho-mineiro-do-café, mariposa que tem quase o tamanho de uma mosca e é encontrada nas regiões cafeeiras de toda a América.

O cientista abre com cuidados as gavetas e mostra: “essa aqui, é da Guatemala, e essa outra mais escura, da Costa Rica”. E há milhares de espécies brasileiras, algumas só existentes naquele pedaço de Mata Atlântica onde o cientista vive. “Hoje enviamos amostras para o exterior e os cientistas não precisam mais cruzar o Atlântico para estudar as nossas mariposas”, conta o pesquisador. Orgulhoso desse feito, resultado de 38 anos de pesquisas e expedições na natureza, Becker tem trabalhado para realizar dois sonhos. O primeiro, já uma realidade, é abrir as portas do “santuário” para que os cientistas possam entender o comportamento dessas espécies e, assim, protegê-las. Com esse objetivo, para dar suporte ao trabalho científico, Becker lançou mão de economias e construiu uma confortável estrutura com salas de estudo, laboratórios, biblioteca e alojamento de bom nível, cercado pelo verde da floresta – um imenso laboratório vivo para pesquisas.

O segundo sonho, revela o cientista, é salvar o ambiente natural habitado pelas mariposas, ou seja, a Mata Atlântica, um dos biomas ecologicamente mais importantes do planeta. Não é por acaso que Becker, nessa batalha contra a destruição das árvores, centra forças na Serra Bonita. Por reunir matas de maior altitude, com clima ameno e alto grau de umidade, o lugar é considerado um dos refúgios mais prodigiosos em biodiversidade desse bioma. É um reduto de mariposas. Estima-se que ali existam mais de 5 mil dessas espécies, além de aproximadamente outras 10 mil de borboletas, suas parentes mais próximas. E o mais importante: perto de 20% delas ainda são desconhecidas pela ciência, de acordo com estimativa do cientista.

Termômetros da biodiversidade

Essa profusão de mariposas indica o tamanho da riqueza biológica, especialmente da flora. Explica-se: na fase de lagarta, a maioria das espécies de mariposas, como também acontece com as borboletas, se alimenta de uma única ou de poucas espécies de plantas. Portanto, quanto maior o número de espécies de borboletas e mariposas de uma mata, maior é a diversidade vegetal. Estima-se que existam na Serra Bonita pelo menos 800 espécies de plantas, algumas novas para a ciência. Apenas de samambaias, 200 já foram identificadas nessa região, principalmente nas partes mais altas. Esses locais preservam um tipo de Mata Atlântica que só existe hoje na Serra do Mar e da Mantiqueira, centenas de quilômetros ao Sul. Os cientistas querem agora entender o porquê e estudam o lugar como uma relíquia da última glaciação, há milhões de anos, quando muitas espécies da flora buscaram refúgio em ambientes de maior altitude.

Em ambiente de vegetação tão diversa, habitam pelo menos 180 espécies de aves, de acordo com inventário da organização científica BirdLife International. Dessas, 59 são endêmicas, ou seja, só existem ali e em nenhuma outra parte do mundo, e 27 correm real perigo de extinção, como é o caso do gravateiro-da-perna-rosa, recém-descoberto naquelas matas. Essa riqueza se assemelha à de outras áreas de Mata Atlântica próximas deli, no Sul da Bahia onde, em uma área equivalente a um campo de futebol foram encontradas 270 espécies de mamíferos e 454 de árvores, um recorde mundial. E não é preciso andar quilômetros em trilhas até lugares isolados na Serra Bonita para perceber essa efervescência da vida silvestre. Impressiona o número de beija-flores, perto de 20 diferentes espécies, que se aproximam e voam nas varandas do centro de pesquisa nos finais de tarde, ao lado dos laboratórios onde Becker trabalha.

Ao amanhecer, múltiplos pios e acordes dessas e das demais aves dão a medida de uma floresta em plena atividade – e estimulam uma caminhada mata adentro para novas descobertas. Nas duas trilhas que cortam a reserva, avista-se uma vegetação úmida com diferentes tons de verde, pontilhada de plantas com flores coloridas, habitadas por seis espécies de primatas, como o ameaçado macaco-prego-do-peito-amarelo, além de onças pardas, veados e tamanduás. “Lugar onde há muitas mariposas é um campo aberto para novos achados da fauna e da flora”, diz Becker.

O cientista descobriu o potencial da Serra Bonita, no começo da década de 90, ao buscar um refúgio para viver longe das grandes cidades e estudar as mariposas que tanto aprecia. A senha para a escolha do lugar mais propício a essa empreitada, além da importância biológica, foi um detalhe que muitos não dão importância: a presença de torres de telecomunicação. “Nesses locais, há estrada e caminhos de acesso já abertos, o que facilita em muito a nossa vida”, justifica o pesquisador.

A partir desse momento, se concretizava um projeto antigo, iniciado quando Becker, ainda universitário, montou uma coleção de mariposas e borboletas como trabalho final no curso de Agronomia. Quando se formou, já tinha guardadas 1 mil espécies – e queria mais. Decidiu então se especializar em Entomologia, a ciência que estuda os insetos. E enfrentou aventuras. Após defender a tese de mestrado na Costa Rica, comprou um carro velho e rodou durante quatro meses o continente americano para fazer novas coletas e aumentar o acervo. A idéia continuou viva, mesmo durante os 30 anos dedicados especificamente ao estudo de pragas agrícolas, como entomologista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Após a aposentadoria, resolvi fazer a minha parte para evitar a destruição do hábitat das mariposas”, conta Becker.

Comprador de floresta para conservação

“Nada adianta manter bichos em coleções mortas, se não fizermos nada para protegê-los na natureza”, explica o cientista, seguidor de uma rotina rigorosa de trabalho no campo. Todos os dias antes do sol raiar, sai na escuridão da floresta em busca de mariposas, utilizando luzes para ofuscá-las e capturá-las. Na última década, no entanto, um outro hábito ocupa o tempo do pesquisador: comprar terras com o único objetivo de salvar as espécies às quais tanto se dedicou ao longo da vida. Começou arrematando 1,5 mil árvores vivas, colocadas à venda por um proprietário rural para quem quisesse derrubar e comercializar a madeira. Usando o fundo de garantia do antigo emprego, Becker as adquiriu para conservá-las de pé – e, pouco tempo depois, conseguiu comprar todo o imóvel, equivalente a 300 campos de futebol. “O curioso é que a dica desse negócio foi dada por meu irmão, que trabalhava com madeira aqui na região”, conta o pesquisador.

Ao longo dos anos, Becker comprou novas áreas para tirá-las da mão dos madeireiros, somando até hoje 46 pequenas propriedades, na Serra Bonita. Juntas, compõem um mosaico de preservação, com 1,2 mil hectares convertidos em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). A área funciona como um escudo contra o desmatamento, hoje causado principalmente por plantações que substituíram o cacau, carro-chefe da economia regional até entrar em declínio, nas últimas décadas, em função da praga da vassoura-de-bruxa e dos preços baixos no mercado. Na cidade de Camacan, antes rica por conta da produção cacaueira, os sinais da decadência estão por toda parte – do comércio vazio aos casarões antigos abandonados.

Becker diz que atualmente há fila de proprietários querendo vender suas terras. São normalmente pequenos lavradores sem recursos para comprar áreas boas para o cultivo de cacau e que, na falta de opções, se tornaram donos das matas marginais, inadequadas para a agricultura. Por essa razão, se mantiveram bem conservadas. “Já idosos, esses agricultores pobres vendem as terras porque os filhos foram para as capitais em busca de emprego”, explica o cientista.

Condomínio de reservas

O projeto é, aos poucos, proteger toda área de 7,5 mil hectares da Serra Bonita. E isso se desenvolve por meio de um plano criativo: lotear a Mata Atlântica local para a instalação de um condomínio de reservas ecológicas privadas, administrado por uma organização não-governamental criada especialmente para isso, o Instituto Uiraçu. “Preservar um lugar assim tão ameaçado é um paixão”, afirma o empresário americano Steve Koltes, dono de três RPPNs na Serra Bonita. Ele considera esse novo modelo eficiente e sustentável: “é muito melhor conservar sendo dono de algo, do que unicamente doar dinheiro para projetos ecológicos”.

Koltes sabe que a região é estratégica para o trabalho de unir pedaços isolados de floresta, com objetivo de constituir o Corredor Central da Mata Atlântica. O desafio, perseguido por organizações de peso, como a Conservação Internacional e a SOS Mata Atlântica, é recompor uma faixa de vegetação nativa entre o Espírito Santo e o Recôncavo Baiano, essencial para conservar a biodiversidade nesse que é um dos biomas mais ameaçados do planeta. “Além de pesquisas biológicas, é preciso promover atividades econômicas não destrutivas”, adverte Jean François Timmers, coordenador da força tarefa do Ministério do Meio Ambiente para a criação e ampliação de unidades de conservação na Mata Atlântica da Bahia. Ele explica que o cacau tem a vantagem ecológica de ser cultivado à sombra da mata nativa, mantendo-a preservada. Por isso, “o desafio é tornar essa cultura agrícola mais valorizada e viável, diversificando os usos da floresta a associada a ela”.

A medida é urgente, porque apenas 6% da Mata Atlântica está protegida por lei na forma de parques e reservas ecológicas. Preservar vegetação nativa dentro das propriedades rurais, na forma de reservas privadas, é o caminho mais rápido tornar fazer o corredor de biodiversidade sair do papel. O exemplo da Serra Bonita, graças às mariposas e seus vôos rasantes na floresta, dá motivos de esperança.

BOX-

Um novo modelo de conservação

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly