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Campina Grande (PB) - Novas tecnologias racionalizam a irrigação dos cultivos agrícola

· Paraíba

Após tratamento, o esgoto da cidade de Campina Grande (PB) começará neste ano a irrigar com 20 mil litros por hora uma área equivalente a cinco campos de futebol com algodão, mamona e pinhão-manso. O local é o centro de experimentos que poderão ganhar escala e instaurar um novo modelo para o uso de água nos cultivos do semi-árido, onde é crítica a escassez hídrica, e também de outras regiões agrícolas do país que apresentam conflitos entre produtores rurais e diferentes atividades econômicas para o acesso a esse recurso natural.

“A estratégia é demonstrar a viabilidade econômica e ambiental da irrigação a partir dos efluentes domésticos”, explica a pesquisadora Vera Antunes, da Universidade Federal de Campina Grande. Estima-se que produtividade agrícola dobre mediante o uso dessa água residual contendo níveis mais elevados de nutrientes, como nitrogênio e fósforo -- o que contribui para reduzir e até eliminar o consumo de fertilizantes químicos. Além da vantagem econômica, completa Antunes, ao ser utilizado para irrigação o esgoto doméstico deixa de ser lançado indiscriminadamente no ambiente.

No caso de Campina Grande, será reduzido o despejo no Riacho Bodocongó, hoje uma vala negra a céu aberto apesar de alimentar a represa de Acauã, principal fonte de abastecimento da população. O local pertence à bacia hidrográfica do Rio Paraíba, receptor da transposição do São Francisco -- condição que exigirá medidas para a despoluição, visando o consumo pelas cidades do semi-árido atualmente sem acesso à água durante os períodos de seca.

“É preciso ampliar consideravelmente o aproveitamento da água de reúso a partir das estações de tratamento das médias e grandes cidades agrícolas do país”, defende Antônio Félix Domingues, coordenador de articulação da Agência Nacional de Águas (ANA), parceira do projeto na Paraíba. Ele lembra a recomendação das Nações Unidas para que a água potável, destinada ao consumo humano, não seja utilizada em atividades produtivas capazes de captar água de menor qualidade.

A produção de cana de açúcar já emprega tradicionalmente na irrigação a vinhaça, que é um resíduo orgânico industrial, resultado da fermentação. Para uso do esgoto sanitário como fonte, de acordo com Domingues, recomenda-se a aplicação no cultivo alimentos processados industrialmente, sem os riscos do contato com a água residual. O município de Hortolândia, interior de São Paulo, é referência nessa alternativa, ao tratar com baixo custo os efluentes da cidade para irrigar lavouras de café. “Ganham os cofres públicos e também o meio ambiente, porque a poluição poupa os rios”, argumenta o coordenador.

No Vale do Mesquital, região árida e pobre do México, país que irriga 350 mil hectares a partir do esgoto, camponeses servidos por essa fonte para manter as lavouras passaram a ter renda per capta superior a US$ 2 mil por ano. Em Israel, onde é intensa a escassez hídrica, grande parte da agricultura é abastecida por estações de tratamento.

“O governo é amplamente favorável a esse uso, previsto pelo Programa Nacional de Recursos Hídricos entre as medidas para gestão da oferta e ampliação da disponibilidade de água”, pondera Silvano Silvério, diretor de ambiente urbano do Ministério do Meio Ambiente. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos definiu no fim do ano passado limites e padrões para o consumo desse insumo nos setores agrícola e florestal, responsáveis pela maior demanda. “No Senado, tramita um projeto de lei para criação do Fundo Nacional de Água de Reúso, que tem o apoio do governo, apesar das polêmicas envolvendo a inconstitucionalidade dos fundos perante o receio de que engessariam o orçamento”.

A alternativa alia-se ao esforço para racionalizar a irrigação, responsável por 70% do consumo de água no Brasil. Existem no país apenas 4,5 milhões de hectares irrigados, com potencial de expansão para 30 milhões. “O assunto é estratégico diante da necessidade de se incorporar novas áreas, reduzir custo e aumentar eficiência para a competitividade brasileira em nível global”, analisa Alfredo Teixeira, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

A meta em análise na Secretaria Nacional de Irrigação, recém-criada pelo governo federal, é dobrar a área irrigada em quatro anos, com reflexos no aumento do mercado de máquinas e serviços para o setor, que movimenta em torno de R$ 1 bilhão por ano. Até 2030, de acordo com a ONU, o mundo precisará aumentar em 30% a produção agrícola, no rastro do alto crescimento do consumo chinês. De acordo com Teixeira, a produção brasileira deverá cobrir um terço dessa expansão, mas não poderá fazê-lo com impactos ambientais.

Os cultivos de arroz no Rio Grande do Sul são os maiores usuários de irrigação, responsáveis por quase um quarto de toda água consumida pela agricultura no país. Nas décadas de 1960 e 1970, eram necessários 5,7 mil litros de água para produzir um quilo do grão. O volume baixou para 2,4 mil litros entre 1980 e 1990 -- não o suficiente para impedir impactos graves como o assoreamento dos rios que afetou o abastecimento da população em municípios gaúchos. Hoje um quilo de arroz exige1 mil litros de água, resultado de intervenções no solo e diminuição de desperdícios.

Nas últimas três décadas, informa Teixeira, os sistemas de irrigação reduziram as perdas em três vezes, de 35% para 10%, graças a avanços tecnológicos. Na irrigação de precisão, em expansão no país, sistemas de sensores e satélites monitoram cultivos para fornecer a quantidade exata de água que a planta necessita. O método conquista espaço, uma vez que o uso racional está atrelado às exigências da certificação da agricultura -- mecanismo internacional de mercado que ganha força para a garantia da origem ambiental dos produtos.

“Mas a dificuldade para atender à legislação ambiental, incluindo a outorga para a água, e a restrita oferta de energia elétrica no campo explicam os baixos índices da agricultura irrigada no país”, reclama Marcelo Borges, diretor da empresa americana Valmont no Brasil. Com fábrica em Uberaba (MG), a companhia domina 50% do mercado nacional, tendo como carro-chefe a irrigação de precisão para o aumento da eficiência no uso de água -- tecnologia que absorveu US$ 100 milhões de investimentos pela matriz.

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