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Campina Grande (PB) - O charme do algodão colorido

Apelo social e ambiental conquista espaços nas vitrines internacionais da moda

· Paraíba

O showroom exibe para venda uma farta e criativa coleção de roupas e acessórios, redes de dormir e até brinquedos de pano. As vitrines daquele endereço de Campina Grande (PB) seriam como as de uma loja de moda qualquer não fosse um importante detalhe: os produtos lá expostos foram confeccionados com tecido de algodão que já nasce colorido, cultivado por pequenos produtores paraibanos como fonte de renda complementar às tradicionais atividades, como a roça de mandioca e a criação de gado e bode em meio à Caatinga.

Lá funciona a sede da Coopernatural, cooperativa que reúne artesãos, consultores técnicos e microempresários do setor têxtil e de confecções, com objetivo de ocupar espaços do comércio justo entre compradores que valorizam o produto orgânico, sem aditivos químicos e tingimentos. Isso sem falar da maior economia de água nos processos desde o cultivo da planta, que não exige irrigação.

“O algodão colorido tem o selo de ‘indicação geográfica’, para que se perpetue como identidade cultural do Estado, sendo a cooperativa a referência da produção”, ressalta a diretora, Maysa Gadelha. A entidade compra a pluma dos lavradores, manda para fiação e tecelagem (onde é feita a malha), elabora o design e depois comercializa o produto final confeccionado pelos cooperados.

A Paraíba já foi o maior produtor brasileiro do chamado “ouro branco”, ciclo econômico que entrou em declínio com a praga do bicudo. Uma nova

história para o algodão começou há 15 anos, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) concluiu experimentos e forneceu 300 quilos de pluma colorida para fiação na Coteminas, indústria de grande porte localizada no município. Diante do sucesso, a cadeia produtiva começou a ser estruturada, partindo do zero. Abriam-se, assim, oportunidades de bons negócios para um produto nativo que existe há milênios na natureza, mas era desprezado como uma “anomalia”. O processamento industrial de seus fios nas tecelagens pode contaminar o maquinário com cores diferentes da branca, o que se constituía num importante impeditivo.

Desde o início, o negócio se propôs a vencer barreiras técnicas e voltou-se à exportação, integrado à carteira de serviços da Apex-Brasil, com foco no comércio justo e solidário, tendo o artesanato como principal produto. Com a crise internacional de 2008, as vendas lá fora caíram e a estratégia centrou-se no mercado interno. No entanto, mudanças no perfil do turista brasileiro fizeram a cooperativa planejar a retomada dos negócios no exterior, agora com e-commerce e ênfase no vestuário com atributo de sustentabilidade – o que motivou a sua participação nas oficinas do ICV Global.

“A partir da iniciativa, profissionalizamos nosso setor de exportação e fizemos adequações nas coleções de roupa, seguindo padrões exigidos no mundo”, conta Maysa. Estão nos planos a construção de uma nova sede para se juntar a cooperativas que trabalham outros produtos e o desenvolvimento de novas tonalidades para o algodão colorido naturalmente, hoje vendido nos tons “topázio”, “rubi”, “verde” e branco. Além disso, a expansão está vinculada à melhoria da qualidade de vida no campo: “produtores familiares começarão a plantar o algodão porque o caroço da planta é uma riquíssima fonte de proteína para compor a ração animal, principalmente em períodos de seca severa, como o atual, quando as pastagens estão esturricadas”.

Na comunidade de Catolé da Boa Vista, até a roça de palma, cactácea cultivada para alimentar o gado, murchou. Há três anos não chove o suficiente para a manutenção das vacas e para a produção do leite com o qual é produzido o queijo coalho, principal atividade econômica da região. Diante das novas perspectivas de exportação pela Coopernatural, o algodão colorido entrará em cena como uma renda extra – e também como uma solução para o gado não morrer de fome. “Sem chuva nada acontece por aqui, meu filho”, afirma José Pereira Irmão, o Zé Pequeno, presidente da cooperativa local de produtores de leite.

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