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Canindé de São Francisco (SE) - A segunda vida de xingó

Vila construída para abrigar os operários que ergueram a usina hidrelétrica é transformada em laboratório no semi-árido nordestino
 

· Sergipe

A vila operária erguida no vale do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, estava condenada a transformar-se numa cidade fantasma em setembro de 1997. O lugarejo abrigava os 9 mil trabalhadores que construíram a Usina Hidrelétrica de Xingó e ficou sem função após a conclusão da obra. Graças à ciência, contudo, a vila está agora encontrando um novo destino. As 100 casas e 7 mil acomodações nos alojamentos, antes desocupados, começaram a receber os novos inquilinos: pesquisadores de dez instituições científicas, a maioria do Nordeste, que estão migrando para aquela parte do semi-árido quente, seco e pobre. Na bagagem, levam o aparato técnico necessário para conduzir trabalhos de pesquisa e educação capazes de fixar o homem à terra e desenvolver economicamente a região.

No local da antiga sala de reuniões e auditório, que antes servia à diretoria da Companhia Hidrelétrica do São Francisco em Xingó, está sendo instalado um herbário para a preservação da flora típica da caatinga. Atualmente, 28 alunos e professores de uma escola técnica da vila são treinados por cientistas das universidades federais de Pernambuco e Alagoas para a coleta das plantas nativas. Muitas das 900 espécies da caatinga, algumas ameaçadas de extinção, têm grande valor econômico, como os cactos floridos, que abastecem floriculturas e colecionadores no exterior.
"Estamos medindo todo o potencial da caatinga", diz a bióloga Dilosa Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A meta desse programa de biodiversidade é promover o reflorestamento das áreas devastadas pela obra da hidrelétrica e explorar economicamente as plantas.
Trinta pesquisadores de sete instituições estão envolvidos no trabalho. Ao todo, 382 cientistas atuarão em Xingó em atividades que vão da instalação de fontes alternativas de energia, como a eólica e a solar, à criação de peixes em cativeiro. Uma fundação científica de cunho social que reúne empresas, universidades e organismos internacionais está sendo criada para fixar na região a mão-de-obra especializada. "O desenvolvimento regional, que trará novos negócios, absorverá boa parte desses pesquisadores, cuja renda não dependerá somente do governo", explica Moisés Aguiar, coordenador do Programa Xingó.
A iniciativa custará ao governo R$ 22 milhões. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aprovou, em setembro, as primeiras 132 bolsas de pesquisa destinadas aos que se dispuserem a trabalhar na região. Desse total, 23 são para cientistas que passarão a residir na Vila Xingó - parte dela situada na cidade de Canindé de São Francisco, em Sergipe, e parte em Piranhas, Alagoas, no outro lado do Rio São Francisco.
Alguns bolsistas não esperaram pela liberação do restante das bolsas e foram para Xingó em troca de moradia e comida. "Está valendo a pena", diz Fagner Correa, 24 anos, aluno de medicina veterinária da UFPE. Seu trabalho é ensinar pequenos produtores rurais e trabalhadores sem-terra a produzir subprodutos do leite de cabra, como doces e queijos.
Com a ajuda dos cientistas, duas comunidades rurais isoladas receberam sistemas de captação de água por meio de energia solar, beneficiando 2 mil pessoas. Recentemente, 140 técnicos de Sergipe, da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte foram treinados em Xingó. De volta a seus estados, estão instalando sistemas de eletrificação em prédios comunitários usando energia solar.
A tecnologia, aos poucos, atrai o sertanejo. No Laboratório de Arqueologia, ex-pescadores e ex-agricultores são agora técnicos em tratamento de relíquias pré-históricas. "Antes escavávamos a terra para plantar e hoje fazemos isso para descobrir tesouros arqueológicos", conta Messias de Souza. Ele e outros 43 técnicos e desenhistas, todos nascidos na região, ajudam os cientistas a estudar o maior e mais completo cemitério arqueológico do Brasil, encontrado nas margens do São Francisco antes do enchimento do lago de Xingó. Ao todo, foram coletadas 55 mil peças, entre elas, 193 esqueletos humanos.
"Estamos iniciando as escavações no sentido da foz do São Francisco para descobrir definitivamente como nossos antepassados ocuparam o Nordeste", revela a arqueóloga Cleonice Vergne, da Universidade Federal de Sergipe. Para isso, ela conta com o auxílio de um importante profissional: o topógrafo Adnilson Freire de Carvalho, que trabalhou na construção da hidrelétrica e hoje desenha todos os passos da ocupação do homem ao longo do rio.

Sérgio Adeodato, de Xingó

Mudança na paisagem
Região ganhou alternativa de lazer com o lago formado pela represa de Xingó
Resultado da construção da represa, o lago de Xingó, de tamanho equivalente a 1,5 milhão de piscinas olímpicas, criou uma alternativa de lazer. Os cânions do Rio São Francisco, antes perigosas corredeiras, tornaram-se navegáveis. A paisagem agora recebe catamarãs que fazem passeios turísticos servindo a bordo quitutes como o pitu, crustáceo típico da região.

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