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Cantagalo (RJ) - Indústria de cimento começa a usar lixo urbano como combustível

· Rio de Janeiro

O município de Cantagalo, região serrana do Rio de Janeiro, se destaca por abrigar jazidas de calcário e um dos mais vigorosos pólos cimenteiros do país, principal fonte local de empregos e receita com impostos. Os fornos que produzem a matéria-prima básica para a superaquecida construção civil geram riquezas. De uns tempos, na busca por menor impacto ambiental, também se apresentam como solução para um dos mais graves problemas da cidade, ao utilizar como combustível os resíduos domésticos que vinham sendo despejados em lixões. Com um detalhe vantajoso: materiais que não se transformam em energia, como metais, cinzas e outras partículas, são incorporados pelo cimento, sem descarte no ambiente.

A lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010, permite a queima energética como solução para o lixo das cidades. A Resolução 1990 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) regulamenta a prática para evitar a poluição atmosférica. “Investimos R$ 30 milhões para reduzir perdas e aumentar a eficiência no processamento do que é jogado fora pela população”, informa o engenheiro Alexandre Magno Duarte, gerente da Laferge Brasil. O projeto é aplicar mais R$ 2 milhões na compra de um triturador de resíduos de grande porte e mais o triplo desse valor na estrutura para a operação da logística, dobrando de 30% para 60% a capacidade de uso desse insumo. “Mobilizaremos as demais fábricas de cimento do município para o abastecimento conjunto”, revela o engenheiro. Além da Laferge, operam na região a Holcim e a Votorantim, responsáveis pela produção de 1 milhão de toneladas por ano, atendendo 90% do mercado fluminense.

É uma questão estratégica. Hoje os fornos são alimentados principalmente por coque, combustível fóssil importado, oriundo do petróleo. “O uso do lixo urbano pelas cimenteiras tende a aumentar, porque os resíduos industriais, hoje mais utilizados, deverão diminuir em quantidade e poder calorífico, a partir do controle imposto pela nova lei”, explica Duarte. Ao mesmo tempo, “as normas obrigam o fim dos lixões em quatro anos, o que elevará a escala de materiais disponíveis para reaproveitamento”. O engenheiro completa: “o lixo das cidades manterá nosso negócio sob o ponto de vista sustentável”.

O desafio é aumentar a eficiência no aproveitamento do lixo, cujo poder energético é em média quatro vezes inferior ao do coque. Nas baias de “combustíveis” que abastecem a fábrica é possível identificar a matéria-prima: restos de plástico, papéis e até notas de dinheiro fora de uso, encaminhadas para destruição pela Casa da Moeda. Lá também são incineradas drogas apreendidas pela Polícia Federal e também areia contaminada por óleo, encaminhada pela Petrobras. Há negociações para o uso energético das sobras industriais do pólo de lingerie existente na cidade vizinha de Friburgo (RJ).

Antes de ir para os fornos, o lixo doméstico é processado na usina de triagem operado pela empresa de coleta Otilix, contratada pela prefeitura para a limpeza urbana. Após a separação, papéis, garrafas plásticas, vidros e latas são vendidos para sucateiros e a parte orgânica se transforma em adubo para produtores agrícolas. O rejeito – ou seja, o material de difícil reciclagem -- é reservado para trituração e posterior envio à fábrica de cimento, que absorve quase um quarto do resíduo da cidade. “Para o aterro, só levamos fraldas descartáveis”, revela Francisco Antonio dos Santos, secretário de Meio Ambiente, lembrando que o relevo montanhoso do município é inadequado para se enterrar corretamente o lixo.

“Antes do projeto jogávamos tudo em terreno baldio e o Ministério Público cobrou uma solução”, conta o prefeito Guga de Paula (PP-RJ). No total, R$ 90 mil foram investidos na usina de reciclagem. A prefeitura gasta R$ 134 mil para a coleta e separação de 220 toneladas mensais de lixo, gerando 40 empregos, sem a participação de cooperativas de catadores. “Fui pressionado por empresas que lucram recebendo lixo em aterros de municípios da região, a um custo bem inferior”, revela o prefeito.

“O aproveitamento do lixo urbano para cimento é um projeto-piloto, único em desenvolvimento na América do Sul, que será replicado em outras regiões do país”, afirma Mario William Ésper, gerente de relações institucionais da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), que reúne 44 fábricas espalhadas pelo país. Dessas, 37 são licenciadas pelos órgãos ambientais para coprocessar resíduos, no total de 2,7 milhões de toneladas ao ano.

Ele diz que a atividade ganhará escala quando a fábrica da Votorantim em Sorocaba (SP) iniciar a captura de aproximadamente 500 toneladas diárias de lixo hoje levadas para o aterro sanitário municipal, já saturado. “O projeto, que está na fase de estudos de viabilidade, deverá formatar um arranjo produtivo envolvendo catadores, fábricas de cimento, recicladoras e prefeituras da região”, explica o executivo.

A atividade está sendo discutida em um dos grupos temáticos de trabalho criados pelo governo para implantar a legislação sobre resíduos. “Atualmente, metade do volume coletado no país vai para lixões e uma parte significativa poderia substituir combustível não renovável na produção de cimento”, argumenta Ésper. “Incentivos são necessários para a modernização do parque industrial com equipamentos mais eficientes na recuperação energética”. No caso dos resíduos industriais, acrescenta ele, “há um grande passivo a ser resolvido pelas empresas, que a partir da nova lei precisam elaborar planos de descarte e adotar novas práticas para receber a licença ambiental”.

De acordo com dados da ABCP, 90% dos pneus fora de uso no Brasil são destinados aos fornos, com aproveitamento da trama de aço na composição do cimento. “O potencial seria bem maior, se houvesse mais eficiência na coleta do resíduo”, afirma Ésper. A norma brasileira determina que cada novo pneu produzido resulte na destruição de um antigo, mediante certificado de comprovação emitido por quem os reaproveitou. Em 2010, as indústrias de cimento processaram 32 milhões de pneus, com receita de R$ 50 por tonelada.

O setor cresceu 6,2% no ano passado, embalado pelo aumento do consumo no país, e os avanços na reciclagem têm o potencial de melhorar os padrões do setor no cenário climático – números que já retratam no Brasil uma realidade mais confortável do que na maioria das regiões do planeta. A indústria nacional de cimento gera 30% menos dióxido de carbono do que a média da América do Norte, segundo dados do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). As emissões são inferiores também em relação à Europa e à China, que usa em larga escala o carvão mineral como combustível.

Publicado originalmente no Valor Econômico

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