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Capão Bonito (SP) - Desbravando o “coração” da Mata Atlântica

· são paulo

Se os extremos da Mata Atlântica são ecologicamente sensíveis, o que pensar sobre o “coração”? Para entender o que há de comum e diferente entre o estado original da floresta e suas ramificações nos pontos mais distantes, visitamos o local apontado por cientistas como o centro vital do bioma, onde está o maior e mais bem conservado remanescente. Partindo da capital paulista, a rodovia Castelo Branco cruza paisagens sobre as quais sobrou muito pouco de floresta, próximo à rota dos antigos bandeirantes que desbravaram o interior do Brasil. O desvio rumo às cidades de Itapetininga e Capão Bonito leva à estrada SP-181, no sentido do município de Ribeirão Grande. Pilhas de madeira estocada lado a lado no percurso, com o visual de plantios de eucalipto ao fundo, indicam a atividade que hoje ocupa o lugar da antiga mata nativa. Alguns quilômetros a diante, após placas de acesso ao Parque Estadual Intervales, as feições da paisagem mudam completamente.

Predominam os tons de verde de uma floresta alta e densa, pontilhada pelo roxo dos ipês e pelo prateado das embaúbas. Estamos na borda-norte do maior contínuo conservado de Mata Atlântica, no país. São cerca de 1,5 milhão de hectares que se estendem até a divisa de São Paulo com o Paraná, abrangendo um robusto complexo de parques, reservas particulares e outras áreas protegidas. Lá se localiza o Parque Estadual Nascentes do Paranapanema, criado em 2012 com mais de 1 mil fontes que nutrem esse importante rio paulista, responsável pelo abastecimento de cidades e cultivos agrícolas, geração de energia, transporte e atividades de recreação e lazer.

“Quando cheguei à região, vi caçadores carregando couro de onça nas costas, além de grande quantidade de palmito ilegal transportada por burros”, conta Alexandre Martensen, biólogo radicado na região para os estudos do mestrado, na Universidade de São Paulo, sobre os efeitos da fragmentação da floresta na fauna de aves. Como os resultados mostraram a necessidade de maior proteção daquela grande área de vegetação nativa, o pesquisador iniciou uma cruzada que culminou na criação do novo parque estadual, com 22 mil hectares. Com apoio da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, foram realizados levantamentos prévios sobre as espécies animais e vegetais. “Investigamos o ‘coração’ do bioma por todos os lados, para coleta de amostras no topo e ao pé da vertente litorânea das serras, como também nas porções mais interiores, até uma altitude de 600 metros”, relata o pesquisador.

Foram encontradas espécies novas para a ciência e quase 50 ameaçadas de extinção, entre as quais o macaco muriqui e a onça-pintada. Das 300 espécies de aves, 23 só habitam aquele pedaço da Mata Atlântica. No trabalho, os pesquisadores mapearam nascentes e cachoeiras – atrativos para o turismo no novo parque – e descobriram vestígios de quando os jesuítas exploravam ouro nos aluviões. Ao longo dos séculos, a floresta do Vale do Ribeira se manteve conservada porque o relevo acidentado dificultou o acesso e impediu o avanço da agricultura mecanizada. Atividades de baixa escala que causaram degradação da mata no passado foram abandonadas e a vegetação começou a se recuperar. Hoje a área é coberta por floresta em elevado grau de regeneração. “Falta ainda proteger uma fração importante, que abriga cavernas e foi excluída dos limites do parque devido à atividade mineradora, existente no entorno”, adverte Martensen.

Hoje no Laboratório de Ecologia de Paisagens da Universidade de Toronto, no Canadá, onde faz o doutorado, o biólogo se recorda: “Durante uma década, como um trabalho formiguinha de convencimento, os moradores se sensibilizaram pela causa da conservação e agora são aliados; passaram a proteger matas ciliares e enxergam melhor os benefícios de manter a biodiversidade”. Na área do parque, o município de Capão Bonito, um dos últimos de São Paulo com população predominantemente rural, recebe quase R$ 1 milhão por ano de ICMS Ecológico e terá o benefício ampliado em função das novas unidades de conservação.

Nesse grotão do interior paulista, de pequena produção agrícola, poucas indústrias e baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o parque estadual que protege as nascentes do rio Paranapanema engloba propriedades rurais centenárias utilizadas desde o início do século XX para criação de gado e, principalmente, retirada de madeira e palmito. “Qualquer árvore com mais de 20 centímetros de diâmetro vinha abaixo”, revela Antonio Meira da Silva, seu Toninho, 81 anos, antigo funcionário da Fazenda Sakamoto. A estrutura de uma velha serraria, situada logo após a porteira, já denuncia a atividade de outrora. Lá eram processadas espécies madeireiras como canelas-pretas e imbuias, além do eucalipto e do pinus, mais tarde plantados na área. Três vezes por semana, caminhões abarrotados de palmito partiam direto para o Ceasa, em São Paulo. A caça era uma prática comum. “Não havia polícia para segurar”, diz o morador, hoje dedicado à vigilância contra as ações predatórias. “O medo fala mais alto, porque agora há leis que proíbem roçar, cortar madeira e caçar”.

Seu Toninho e a mulher, Maria Francisca da Silva, exímios contadores de causos, vivem há 45 anos naquelas terras isoladas, longe da rede elétrica. A televisão fica guardada para economizar o óleo do gerador de energia. Luz, quase sempre, só de lampião. Apesar do acesso difícil nos caminhos de barro, normalmente percorridos em trator, cavalo ou moto, um velho e resistente fusquinha é guardado na garagem como relíquia. O casal desempenha o papel de guardião as nascentes do Paranapanema, que corre no quintal da casa como um filete d´água, antes de ganhar volume e desaguar 929 km à frente, no rio Paraná.

O “coração” da Mata Atlântica compõe alguns dos maiores pedaços que restaram de floresta, de 500 mil a 1,2 milhão de hectares, correspondentes a 10% do total de fragmentos do bioma. Nesse cenário, as atenções se voltam para os remanescentes mais interiores, a 12 km da borda da Serra de Paranapiacaba. Encravada na porção Sul do grande mosaico de unidades de conservação, uma segunda área estratégica está nos planos do governo estadual para a transformação em parque. Uma parte considerável é ocupada pela Fazenda Nova Trieste, no município de Eldorado (SP), com mata nativa em ótimo estado, palco de estudos científicos da ESALQ/USP que detectaram a presença de fauna exuberante, com mamíferos de médio e grande porte – onças-pintadas, cachorro-do-mato-vinagre e expressivo número de antas.

Com 33 mil hectares, a propriedade foi adquirida na década de 1950 por um grupo empresarial que tinha o propósito de usar a madeira em fornos para produção de aço. A partir do surgimento de novas técnicas industriais, a matéria-prima nativa foi substituída e o lugar escapou da degradação. Lá o palmito-jussara é hoje explorado por métodos de manejo sustentável, com impacto reduzido na floresta. Há vigilância contra o corte ilegal da palmeira e relação harmônica com comunidades quilombolas, incentivadas a fazer o extrativismo de plantas medicinais, identificadas por um projeto que alia pesquisa científica e conhecimento tradicional. A pequena produção de chá-mate, banana e plantas ornamentais é tradicional meio de sustento das famílias no Vale do Ribeira, onde a Mata Atlântica resiste às pressões do desenvolvimento econômico em São Paulo.

Qual a relação dessa realidade ambiental e social com a verificada nas demais regiões brasileiras onde estão as extremidades do bioma? Nas partes mais distantes, mudam o relevo, o tipo de solo, o clima e até as espécies da flora e da fauna, mais adaptadas a esse ou aquele ambiente. Dependendo do ponto de vista, há divergências no meio científico sobre o que devemos chamar de Mata Atlântica. O Decreto Federal 6660/2008, que regulamenta a Lei da Mata Atlântica, definiu o domínio territorial do bioma, com os diversos ecossistemas e formações florestais a ele pertencentes, para efeito de aplicação das regras de uso e incentivos à conservação. As referências sobre as diferentes paisagens são consideradas no monitoramento periódico por imagens de satélite.

Em meio à diversidade, as porções mais a oeste, leste, sul ou norte do bioma carregam algo em comum: a herança biológica de uma floresta original que se diferenciou nas regiões brasileiras em função de variáveis como clima e relevo, durante milhares de anos. O “coração” pulsante da Mata Atlântica é uma boa referência desse ponto de partida. O que lá acontece, apesar das distintas realidades no resto do país, não está totalmente dissociado da paisagem desenhada por suas ramificações. Assim como sintomas do coração humano permitem inferir sobre a saúde das extremidades do corpo, para onde o sangue é bombeado, também o núcleo central da Mata Atlântica poderia ser visto como indicador – simbólico que seja – da evolução do bioma como um todo.

A região vital e mais bem conservada da floresta serve de padrão comparativo para um entendimento sistêmico e abrangente; para o aprendizado sobre erros e acertos na perspectiva de não repetirmos nos rincões distantes a antiga história de agressões à biodiversidade, desencadeada na faixa litorânea desde os tempos da colonização portuguesa. Os tempos mudaram. A sociedade conectada em rede mobiliza esforços e ajuda a juntar as pontas da Mata Atlântica. Como diz Gilberto Gil, na canção “Parabolicamará”, “Antes mundo era pequeno; Porque Terra era grande; Hoje mundo é muito grande; Porque Terra é pequena; Do tamanho da antena; Parabolicamará (...) Antes longe era distante; Perto só quando dava; Quando muito ali defronte; E o horizonte acabava; Hoje lá trás dos montes (...)”

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A história de ocupação rumo ao interior

Após os ciclos econômicos da cana-de-açúcar e do ouro, o desmatamento aumentou consideravelmente para a floresta ceder lugar à expansão da cultura cafeeira, que mais tarde financiou o início do desenvolvimento industrial. A partir da Independência, em 1822, o Brasil adotou políticas econômicas que impulsionaram a exploração dos recursos naturais em nome da prosperidade. Terra farta, técnicas agrícolas rudimentares e trabalho escravo marcaram o principal eixo da busca por riquezas no Novo Mundo. Conforme análise do historiador José Augusto Pádua, no livro “Um Sopro de Destruição” (Zahar, Rio de Janeiro, 2004), a exploração da base natural do território, exuberante e de acesso fácil, “marcou o nascimento do Brasil como entidade política”.

Durante 100 anos, entre 1788 e 1888, quando a produção de café atingia 10 milhões de sacas, foram derrubados 7,2 mil km² de Mata Atlântica. O cálculo consta no livro “A Ferro e Fogo – A História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira” (Companhia das Letras, 2007), escrito pelo brasilianista americano Warren Dean, da Universidade de Nova York. No Rio de Janeiro, o impacto nas nascentes causou severa escassez de água e levou o imperador D. Pedro II a ordenar o fim do plantio e a desapropriação das fazendas de café para a recuperação do ambiente degradado na área que hoje constitui a Floresta da Tijuca.

O avanço da devastação da Mata Atlântica inspirou a militância de José Bonifácio (1763-1838), considerado o primeiro crítico das questões ambientais no Brasil, para quem havia uma relação direta entre economia escravista e destruição da natureza. Mas mesmo após a abolição da escravatura a lógica predatória dos “barões do café” permaneceu vigente com a chegada dos imigrantes europeus, a nova força de trabalho. Do Rio de Janeiro, o café se expandiu para o Vale do Paraíba e atingiu novo apogeu no interior paulista até encontrar ótimas condições de clima e relevo em Minas Gerais. O que ficou para trás, com a exaustão dos solos e a decadência da produção, foi derrubado junto com as árvores para a criação de gado.

BOX 2

Os segredos do conhecimento tradicional

O trabalho de desbravar os cantos mais distantes da Mata Atlântica e achar espécies da fauna e flora ainda desconhecidas pela ciência não seria possível sem a experiência de homens que conhecem a floresta como ninguém: os mateiros. No Piauí, norte do bioma, o domínio do guia João Leite sobre os segredos da vegetação na transição com a Caatinga foi decisivo para o sucesso da expedição de cientistas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo em busca da fauna que se diversificou para sobreviver naquele ambiente hostil.

É o caso, por exemplo, da tartaruga Mesoclemmys perplexa, que existe no entorno mais seco, mas necessita da água, abundante nos vales com floresta. O animal está entre as novidades recentemente descritas na região, assim como a descoberta de quatro espécies de lagartos.

No Vale do Ribeira, interior de São Paulo, as investidas dos cientistas para os levantamentos necessários à criação do Parque Estadual das Nascentes do Paranapanema tiveram a preciosa ajuda de Marcos Souto, morador local que antigamente caçava com o pai e o avô e hoje, como dono de camping, depende da conservação da natureza para retirar o sustento. O conhecimento tradicional é aplicado para encantar turistas nas trilhas de acesso para cachoeiras.

Graças a outro mateiro, Matias de Queirós, cujo avô tomava conta de um antigo pouso tropeiro na região, os biólogos identificaram em apenas dez dias 42 espécies de anfíbios, três delas novas para a ciência. Algumas das mais raras foram descobertas num lago encravado na floresta densa, apontado pelo morador como local habitado por muitos sapos. O resultado é importante diante das estimativas de que as populações de anfíbios deverão diminuir sensivelmente em razão das mudanças climáticas previstas para ocorrer no bioma nas próximas décadas.

Referências/hiperlinks

Serviços ambientais

Benefícios prestados pelos ecossistemas, essenciais para a manutenção da vida na Terra, como a produção de oxigênio, a regulação do clima, a provisão de água limpa, polinização de cultivo de alimentos, fertilização do solo e controle de erosão, entre outros.

Hotspot

Área prioritária para conservação, com expressiva biodiversidade e alto grau de ameaças. É considerada Hotspot uma área com pelo menos 1.500 espécies endêmicas de plantas e que tenha perdido mais de 3/4 de sua vegetação original.

Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica

Reúne dados que permitem monitorar o desmatamento da Mata Atlântica e a situação dos seus ecossistemas associados. Elaborado a cada dois anos a partir de imagens de satélite, o mapeamento apresenta os fragmentos mais ameaçados e os que se recuperam, em diferentes estágios de regeneração. O trabalho gera conhecimento sobre impactos, identifica conflitos de uso da terra e auxilia a gestão da biodiversidade.

Matas secas

Tipo de vegetação que não está associada à presença de água e tem predomínio de árvores que perdem as folhas durante a estação seca. É protegida pela lei da Mata Atlântica, que a considera como Floresta Estacional Decidual.

ICMS Ecológico

Mecanismo tributário que transfere aos municípios um incremento de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), com base em critérios ambientais estabelecidos por leis estaduais, como a existência de unidades de conservação no território.

Serra de Paranapiacaba

A Serra de Paranapiacaba, “montanha que detém o mar” no vocabulário tupi, abriga um “continuum ecológico” reunindo seis unidades de conservação na região da Serra do Mar, ao Sul de São Paulo, com destaque para o Parque Estadual Intervales, com 417 km².

Fragmento do livro Extremos da Mata Atlântica, publicado pela Fundação SOS Mata Atlântica

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