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Chuí / Rio Grande / Pedro Osório / Mostardas (RS) - Água a perder de vista

 

Livro Extremos da Mata Atlântica - Capítulo 4

 

· Rio Grande do Sul

Uma vasta planície, coberta por campos alagáveis, cordões de dunas e enormes lagoas costeiras frequentadas por numerosos bandos de aves migratórias em busca de um banquete. Peixes, crustáceos; uma riquíssima vida aquática. Água, muita água. Extensos arrozais se perdem no horizonte, um retrato da vigorosa produção do alimento que nutre metade da população do planeta e tem ali a sua fronteira de maior expressão, em território brasileiro. Sim, nos limites mais ao sul da Mata Atlântica, a famosa floresta de palmeiras, bromélias e árvores frondosas, típica de outros pontos do bioma, cede lugar a uma paisagem menos tropical e mais temperada, sujeita a rajadas de ventos frios como nas regiões europeias de onde vieram os imigrantes que povoaram aquele território de transição com o Pampa.

No extremo-Sul do país, mapas elaborados a partir de imagens de satélite mostram desenho de peculiar recorte, com destaque para uma península que se estende por 500 km até fronteira com o Uruguai. A paisagem multifacetada, ali observada, reflete a diversidade de fisionomias da Mata Atlântica e descortina um litoral bem diferente daquele emoldurado por serras e florestas. Da capital, Porto Alegre, são 219 km pelo entorno da Lagoa dos Patos até a cidade litorânea de Mostardas. De lado a lado, avistam-se pastagens e silos para a armazenagem de grãos, nas propriedades rurais. Após o Parque Eólico de Palmares, o povoado Solidão, estampando o colorido das roupas nos varais, conota o pacato estilo de vida naquela grande restinga, que não escapou dos impactos da exploração de seus recursos naturais ao longo dos séculos.

Em Mostardas, o traço da arquitetura com a marca da imigração europeia traduz o jeito conservador da sua gente, ligada às tradições e ao mesmo tempo assediada pelas novidades que chegam junto com os forasteiros, principalmente na temporada de veraneio. A resistência ao novo é quebrada, de certa forma, diante dos apelos ambientais: quem vive do arroz e do gado tem agora pela frente o dilema de rever conceitos, modernizar crenças e abrir maior espaço para atividades capazes de valorizar os recursos da natureza, como o turismo ecológico. O espaço para gado e grãos está cada vez mais restrito. Aos poucos, sem as amarras que deixavam de lado as questões ambientais, as atenções se voltam para o planejamento dos usos envolvendo o refúgio de vida silvestre que circunda a cidade, com potencial de movimentar a economia local e virar mais uma página da história de superações característica daquele pedaço longínquo da Mata Atlântica desde os tempos dos conflitos territoriais entre portugueses e espanhóis.

Na praça principal de Mostardas, próximo à igreja matriz, se localiza a casa onde funciona a sede do Parque Nacional Lagoa do Peixe, criado em 1986 para proteger um complexo natural de mata de restinga, praia, banhados, dunas, e lagoas de água doce e salobra, entre outros ecossistemas costeiros. A fauna – em especial, as aves migratórias – depende deles para desenvolver o seu ciclo vital. São ao todo 34 mil hectares protegidos ao longo da península da Lagoa dos Patos, reconhecida pela Convenção de Ramsar como uma das zonas úmidas mais relevantes do planeta e como sítio internacional para aves limícolas.

Expansão do pinus no parque nacional

De Mostardas, partimos rumo às áreas mais representativas daquela diversidade de paisagens, com objetivo de entender a importância biológica, os meios de vida no entorno, os usos públicos e as ameaças que rondam o parque, considerado posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Logo na entrada, uma preocupação: a presença de gado e de uma extensa floresta de pinus, espécie exótica utilizada principalmente para fazer móveis e gerar energia, plantada sobre dunas a beira-mar. Os plantios, iniciados há cerca de 50 anos, tiveram incentivos financeiros do governo federal e o parque nacional, quando criado, acabou incorporando uma parte deles dentro dos limites protegidos. A ameaça de impactos danosos é constante, em função do alto poder de disseminação das árvores invasoras, estranhas ao ambiente natural. Elas competem com a vegetação nativa, causando desequilíbrio ecológico.

No caminho para a Lagoa do Pai João, observam-se “árvores de Natal” de diferentes tamanhos, espalhadas na paisagem, desde as mais jovens e pequenas às adultas, de maior porte. Em 2006, como resultado de uma Ação Civil Pública, a Justiça obrigou a retirada dos pinus de dentro e do entorno do parque, no raio de 3 km. Para as ações no interior da área protegida, foram assinados dois TAC entre empresas que exploram madeira e o Ministério Público.

Em complemento, o ICMBio realizou leilões para a extração do pinus em outros 350 hectares, correspondentes à área do parque com situação fundiária já regularizada como propriedade da União. A estimativa é eliminar a espécie invasora até 2020, mas a realidade é mais complexa do que se imagina. As primeiras licitações não tiveram interessados por conta dos altos preços por metro cúbico de madeira estabelecidos no edital. Para atingir seus objetivos, o governo federal foi obrigado a equiparar os valores aos praticados pelo mercado, além de exigir investimentos para o controle da indesejável regeneração do pinus, durante um determinado tempo, po r parte das empresas

No entorno do parque, as empresas seguem um plano de erradicação gradativa do pinus, no prazo de dez anos. “De nada adiantará se tirarmos a árvore da área e não fora dela”, adverte Fernando Weber, chefe da unidade de conservação. O controle contraria principalmente o interesse dos produtores que não possuem plantios próprios e recorrem ao pinus espalhado no parque e adjacências para extrair resina vegetal, vendida a indústrias de tintas e solventes.

“Sem a espécie invasora, a mata nativa cresce forte, mas é necessário monitorar o processo por pelo menos cinco anos”, diz Weber. Durante a regeneração da mata nativa, crescerão inicialmente as espécies pioneiras, como a capororoca, produtora de frutos que atraem pássaros. A fauna também sofrerá modificações. Se o ambiente alterado pelas árvores indesejáveis é mais propício a lebres, tatus, pombas e gaviões-carijós, na ausência delas irão proliferar espécies de animais mais próximas do que se vê na Mata Atlântica, como guaxinins, cachorro-mão-pelada e galinhas nativas.

Ao longo da estrada para o Balneário Talhamar, fragmentos de restinga livres de pinus, mas não do gado, acolhem aves como a garça cabeça-seca que observamos no banhado à procura de pererecas e pequenos peixes. O cisne pescoço-preto e o pato coscoroba também estavam por lá. Nos campos de pastagens, flagramos a esperteza dos gaviões carcarás que se dedicavam a levantar os tufos de estrume do gado com as patas para a captura de apetitosas larvas.

No percurso dentro da restinga, encontramos espécies vegetais adaptadas a solos arenosos com alto teor de salinidade, como a margarida-da-praia, muito presente com suas pequenas flores amarelas, e a espartina. Há áreas cobertas por arbustos espinhosos e cactos e, na mata mais encorpada, vicejam figueiras, cambuís, canelas e palmeiras de jerivá, as últimas que resistiram na região. Juncos e gramas brancas crescem nos banhados, frequentados por lontras e jacarés-do-papo-amarelo, os únicos predadores das capivaras que ali chegam para comer, matar a sede e se refrescar. Se as dunas são morada de tuco-tucos ou ratos-de-pente, roedores que cavam galerias subterrâneas como abrigo, as lagoas de água salobra estão repletas de invertebrados e peixes – “iguarias” para aves vindas de várias partes do continente para ganhar peso e seguir viagem até o local de reprodução.

Refúgio para aves migratórias

Das 279 espécies de aves até hoje catalogadas no parque, 45 são migratórias. Do Chile e Argentina, chegam flamingos e batuíras-de-coleira-dupla e de peito-de-tijolo. Da América do Norte, além de batuíras e trinta-réis, provêm principalmente maçaricos, divididos em mais de dez espécies, como o de papo-vermelho, em perigo de extinção. Exibindo diferentes padrões de cores, plumagens e tamanhos, as aves compõem um cenário de beleza inigualável quando chegam ao Rio Grande do Sul, anualmente, entre outubro e março. O visual inspira o famoso festival de observação de aves, organizado pelo município de Tavares, também inserido no parque nacional. O evento mobiliza parte considerável dos 20 mil visitantes que a unidade de conservação recebe por ano, com parcela expressiva de estrangeiros.

“A atividade turística poderia ser bem mais expressiva e gerar mais benefícios”, admite Weber, ao lembrar que o plano de manejo do parque foi homologado em 2004, após quatro anos de elaboração. E ainda pode demorar para sair do papel. A partir de 2016, o plano de usos será revisto para se adequar à nova realidade da unidade de conservação, após o processo de regularização fundiária ser concluído. Cerca de R$ 25 milhões (recursos de compensações ambientais) foram aplicados na desapropriação de áreas ocupadas por produtores rurais e comunidades de pescadores, totalizando 20 mil hectares – metade do território do parque, onde hoje 5 mil cabeças de gado, búfalo e ovelha convivem indevidamente com flamingos e maçaricos.

Weber lamenta: “O município de Mostardas se apegou ao arroz, pinus e pecuária como atividade econômica e ainda não enxerga o parque como fonte de renda”. A área é vista mais como entrave do que como solução para o desenvolvimento. A esperança de mudanças está no repasse de R$ 2 milhões, referentes à compensação ambiental pelos impactos de um empreendimento energético, dos quais R$ 600 mil estão previstos para a sinalização do parque nacional, construção de pórticos, centro de visitantes e trilhas, bem como para o sistema de rádio-comunicação. “O desafio é fazer o uso do parque ir além da observação de aves, com promoção de esportes aquáticos”, afirma Weber.

De Mostardas, são 138 km de restinga beirando o mar até a barra da Lagoa do Peixe, de onde é possível atravessar a bordo de balsas para a cidade de Tavares, do outro lado. Periodicamente, máquinas abrem artificialmente a lagoa para a troca de água com o mar. A medida favorece a renovação hídrica e o povoamento por grande quantidade de organismos marinhos, camarões e peixes, formando um refúgio rico em proteína bastante procurado por aves e pescadores. Só os moradores de comunidades tradicionais cadastradas podem lançar redes de pesca e anzóis para usufruir de tamanha fartura. Por outro lado, com a abertura da barra, o escoamento da água da lagoa para o mar expõe pastagens antes submersas, para a alegria dos criadores de gado – atividade permitida no parque, desde que não haja aumento do número de animais.

Na estação seca, a barra da lagoa é naturalmente fechada pelo movimento da areia das dunas, transportada pelo vento Nordeste. De certa maneira, as plantações de pinus influenciam o assoreamento. Há dois processos em curso. Por décadas, o sedimento dos solos alterados pelas plantações da espécie invasora foi carreado pela chuva para dentro de lagoas menores, que foram drenadas para a Lagoa do Peixe. Por outro lado, o pinus serve de barreira para o vento e para a areia por ele transportada, contribuindo com a manutenção mais prolongada daquele ambiente lagunar piscoso.

No início do percurso até a barra, conhecido como Trilha das Dunas, se localiza o Balneário Mostardense, com bares e restaurantes bastante frequentados no verão. Mais à frente, na linha costeira do Atlântico, está o antigo Farol de Mostardas. No caminho, notam-se acessos construídos de forma irregular e não planejada sobre dunas para permitir o trânsito na estação chuvosa, com risco de impactos ambientais negativos.

Na região, a faixa de praia é palco de um cuidadoso trabalho de monitoramento da fauna marinha. A cada 15 dias, pesquisadores e técnicos do ICMBio percorrem 35 km a beira-mar para a contagem de pássaros e outros bichos como tartarugas e leões marinhos. Além do registro da localização por GPS, os animais são fotografados, têm sexo e espécie identificados e são marcados por um spray. Os indivíduos com doenças ou ferimentos são levados para quarentena. Milhares morrem devido a diferentes causas, inclusive a pesca predatória. Os fiscais apreendem cerca de 150 redes por ano, empilhadas no pátio da sede do parque, ao lado de veículos de vigilância que já não têm conserto e viraram sucata.

Torres de energia eólica avançam na borda do parque e ameaçam o trânsito de aves que chegam em bandos após milhares de quilômetros de voo de uma ponta a outra do continente. “Apesar de estarmos no limite territorial do país, sofremos as pressões verificadas nas zonas mais centrais e populosas da Mata Atlântica, pois somos vizinhos de uma capital, Porto Alegre, e temos a sede de dois municípios no interior da área protegida”, avalia Jordano Lopes, técnico do ICMBio encarregado da visitação ao parque. O servidor adverte para o perigo do “estrangulamento” causado pela expansão urbana. Mas enche os olhos de felicidade quando abre a funpage da Lagoa dos Peixes nas redes sociais e depara com o post de um internauta falando sobre “congestionamento”. Não de carros e caminhões como nas metrópoles, mas de aves, milhares delas, que disputam precioso espaço naqueles banhados do extremo-Sul.

Uma viagem ao longínquo paraíso ecológico do Taim

Do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, seguimos rumo aos mais distantes fragmentos do bioma Mata Atlântica, os últimos próximos à fronteira com o Uruguai. Partindo da cidade de Rio Grande, a BR-471 leva em linha reta ao município de Chuí, ponto extremo do mapa brasileiro, ao Sul. “Rota dos campos gerais”: a sinalização da rodovia nos prepara para o visual da paisagem à frente. Ao longo do caminho, uma sequência de avisos cria certo suspense em torno de uma área ecologicamente especial: “O Taim é belo. Ajude a protegê-lo”. Mais adiante no percurso, outra mensagem aos motoristas dá ideia sobre a biodiversidade que os espera: “Animais, risco de acidentes”. Até que uma terceira placa reforça a necessidade dos cuidados: “O Taim é belo. Não jogue lixo na estrada”.

Assim, impulsionados pela curiosidade de placa em placa, chegamos ao Km 98, onde se destaca na imensa planície uma estrutura bem cuidada de escritórios, auditório, alojamentos e garagem com quadriciclos, camionetes 4X4, botes, lanchas e trailers. Estamos na sede da Estação Ecológica do Taim, área de proteção integral de grande relevância ambiental devido à diversidade de ecossistemas regidos pela água. Parte nobre das instalações está reservada ao clube “Os banhadeiros”, onde fazendeiros que produzem naquele extenso banhado costumam se reunir à frente de uma churrasqueira, como nos tradicionais rincões gaúchos. Questões ecológicas são hoje mais frequentes na roda de conversa. O tema, aliás, domina uma divertida exposição de charges, instalada no aposento do lado, como reforço ao trabalho de educação ambiental desenvolvido na região.

A invejável estrutura funciona como quartel-general para o planejamento e tomada de decisões sobre o futuro daquele estratégico ambiente natural. São campos, lagoas, praias lagunares e marinhas, pântanos e dunas, inseridos numa planície costeira desenhada pelo avanço e recuo do nível do mar, em três diferentes ciclos evolutivos, há milhares de anos, formando ambientes com solos ricos em nutrientes para a fauna.

Na sala de comando, o chefe da unidade, Henrique Ilha, despacha: “O banhado do Taim, com 20 mil hectares, é um relicto de antigos caminhos das águas e todo esforço é para mantê-lo vivo”. Ele aponta no mapa a Lagoa Mangueira, formada há cerca de 5 mil anos, hoje alvo de conflitos pelo uso do recurso hídrico. O manancial garante a vida silvestre na estação ecológica e ao mesmo tempo serve à maior província de arroz do país, com 30 mil hectares de cultivos. “O trabalho exige diálogo e maior entendimento de que a produção agrícola é legítima e pode ser conciliada à conservação”, observa Ilha.

A captura de água por bombeamento para os arrozais pode deixar a lagoa em nível crítico, com riscos de incêndios e impactos para a flora e a fauna. Com o aumento da produção nas últimas décadas, o problema agravou-se ao ponto de exigir a união de forças em torno de um método eficaz de controle. Inicialmente, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande monitoraram o nível das águas de modo a calibrar a melhor situação para o suporte dos ecossistemas. Qual o padrão mínimo da lagoa para se garantir a manutenção de cisnes, capivaras, peixes e outras espécies animais e vegetais em condições saudáveis? As informações foram somadas aos dados da previsão metereológica, resultando na criação de um modelo matemático destinado a calcular o volume de água disponível a ser repartido entre os produtores para abastecimento dos arrozais. Uma régua de nível com alarme avisa quando a situação chega ao limite e exige o racionamento.

O chefe do parque recorda a longa negociação de quatro anos com os arrozeiros que se mostravam resistentes ao controle. Como estratégia para um acordo que evitasse o pior – ou seja, a escassez hídrica – a primeira medida foi resolver a situação irregular de todos os produtores, beneficiando-os com licença e outorga de uso da água. Em consequência, o debate ocorreu em ambiente de maior confiança até culminar nas regras e limites de captação do recurso hídrico. O processo interrompeu a tendência de êxodo de produtores insatisfeitos para as cidades e a chegada de outros que loteiam a terra antes produtiva para transformá-la em sítios de lazer, às vezes utilizados como base para caça.

“A aproximação com a sociedade é a única salvação à vista”, adverte Henrique Ilha, para quem a conservação precisa ser vista como uma vantagem pelo produtor. Quem tinha receio, hoje demonstra orgulho e motivação para dar novos passos no sentido da conservação dos recursos. A experiência com o controle da água abriu caminho para a união em torno de outra questão primordial: a ampliação da estação ecológica. A confusão sobre os limites acompanha a área desde a sua criação, em 1986. A delimitação inicial, com 11 mil hectares, excluiu terras da União ocupadas por produtores. Em 2003, o Taim foi ampliado para 115 mil hectares, dez vezes maior em relação ao tamanho original, abrangendo inclusive maciços de pinus, com o projeto de mais tarde fazer a desapropriação. No entanto, devido aos vários interesses em jogo, a expansão da área gerou polêmica jurídica e acabou derrubada no Supremo Tribunal Federal.

O imbróglio colocou em risco as ações do governo para conservar a região. Os conflitos se acirraram, até que em 2008 iniciou-se um processo de construção coletiva para a definição de novos limites. Um novo mapa foi elaborado a partir de critérios negociados por mais de três anos no âmbito do conselho gestor da unidade, do qual integram 29 associações, proprietários rurais, indústrias e outras organizações. Após a tentativa de vários desenhos, o grupo chegou de forma participativa a uma versão final dos limites, com um total de 32,8 mil hectares, três vezes maior em relação à área inicial, incluindo 8 mil hectares de terras privadas que deverão ser compradas pelo governo.

Uma zona de amortecimento de 70 mil hectares foi criada para a redução de impactos gerados no entorno. O lugar é cenário de estudos da Embrapa para a garantia de uma produção rural mais sustentável e próspera, permitindo que aquele refúgio natural seja mais valorizado, quando protegido. Uma iniciativa foi a criação do selo de origem geográfica “Produto do Taim”, para diferenciar no mercado o arroz orgânico produzido com impacto reduzido nessa região de importância ecológica – ideia que deverá ser replicada na pecuária.

As maiores e mais remotas lagoas do país

A Estação Ecológica do Taim está situada entre o Oceano Atlântico e a Lagoa Mirim, a segunda maior do país, depois da Lagoa dos Patos. Ambas estão naturalmente conectadas pelo Canal de São Gonçalo, de 62 km. É uma vastidão plana e úmida. Da sede da unidade, partimos em expedição para o miolo da área protegida, coberta basicamente por vegetação de várzea. Remanescentes florestais de restinga são muito pequenos e pontuais. Na BR-471, logo à frente do prédio do ICMbio, encontramos tubulações de drenagem utilizadas no passado para escoar a água e permitir a produção de arroz, na estação de cheia – ou então irrigar a lavoura, no período seco. O projeto atual é transformar a antiga casa de bombas, hoje desativadas, em centro de visitação.

Na paisagem ao lado, chama atenção um extenso canal que corre paralelo à estrada. Formou-se pela retirada de sedimentos durante a construção da rodovia, há 30 anos. A obra, executada sobre uma barreira natural que regulava o fluxo hídrico, alterou o equilíbrio de cheias e vazantes, o que exigiu intervenções permanentes para reduzir os impactos. Pelo projeto inicial, a água acumulada no canal, hoje vivenda de jacarés-do-papo-amarelo, seria drenada para um projeto de reforma agrária, que acabou não vingando.

Tomamos uma via secundária de barro e chegamos à base Nicola, uma das quatro que dão apoio ao monitoramento e fiscalização da área, principalmente contra pesca, caça e fogo. A estrutura também serve às pesquisas científicas. Mais de 40 delas são conduzidas no Taim, com destaque para a descrição da fauna. Há muito a descobrir, por exemplo, no campo dos anfíbios: até o momento, apenas 21 espécies foram catalogadas, além de 63 de répteis e 40 de mamíferos. As aves totalizam 236 espécies, como o cisne branco, que tem ali seu maior local de concentração no Brasil.

As pressões exercidas pelo trânsito de carros e outras atividades na faixa de praia empurram populações de aves, principalmente as migratórias, para refúgios no interior do continente. No entanto, essas áreas mais interiores sofrem a ameaça do impacto da produção agrícola, das pastagens e das plantações de pinus e eucalipto. Não longe no nosso caminho, a estrutura de uma serraria abandonada é resquício de um antigo e vigoroso polo madeireiro que processava madeira de árvores de pinus cultivadas no entorno da estação ecológica. Hoje esses plantios florestais são obrigados a seguir regras e as empresas estão sendo mobilizadas para compensar os danos, mediante o cultivo de mudas de vegetação nativa.

No percurso, em meio a esse complexo hídrico, chamado por alguns de “Pantanal gaúcho”, atingimos a Lagoa das Flores, com margens ornamentadas por bromélias avermelhadas, e também as Dunas do Getúlio, onde a paisagem muda de desenho ao sabor dos ventos e do ir e vir das águas. “Elas regem a produção e a vida por aqui”, ressalta Hamilton Fernandes, analista ambiental do ICMBio que no passado trabalhou na irrigação da lavoura de arroz e hoje se dedica à fiscalização da área protegida. “O Taim se conservou porque antes da sua criação havia pouco interesse para a produção no banhado, um lugar distante, de difícil acesso e solos ruins”, afirma. Quando as novas tecnologias produtivas chegaram para corrigir problemas e viabilizar os arrozais, a unidade de conservação já estava decretada. “A preocupação agora é a exploração de petróleo”, adverte Fernandes, ao citar projetos de prospecção já existentes na região.

A criação da Estação Ecológica não conseguiu reverter totalmente os impactos do passado em relação à pesca e ao consumo do recurso hídrico. Na Lagoa Mirim, adjacente ao Taim, seus mais de 3,4 mil km² de beleza cênica camuflam manchas deixadas por uma longa história de uso predatório. “Era um lugar de muita fartura de peixes como traíras e pintados”, recorda-se Sérgio Silva, fiscal do ICMBio responsável pela vigilância da pesca. O atual processo de decadência pesqueira no entorno demonstra a importância da conservação do banhado dentro da área protegida como fonte primária de recursos para o homem e para a vida silvestre.

Às margens da lagoa, um tradicional povoado de pescadores, a Vila Capilha, é um balneário com praia lagunar de 200 metros de largura ao lado de silos de arroz, árvores de eucalipto e gado que pasta na beira da água. No lugar há registros de 18 espécies de aves migratórias originárias da América do Norte, como o batuiruçu e o maçarico-de-papo-vermelho. “Os antigos dizem que tudo aqui era coberto por vegetação nativa”, afirma Sérgio, quando, de repente, o toque da chamada do seu celular reproduz o canto de um pássaro. Bem que poderia ser algum desses migratórios ou nativos da região. “Mas o canto é do capitão-do-mato, uma ave amazônica”, revela Sérgio, desapontado pela escolha do som estranho àquele ambiente natural.

Ao longe, avistamos o farol da Ponta Alegre, hoje desativado, construído no começo do século XX para orientar a intensa navegação de vapores na Lagoa Mirim. No cenário lagunar a perder de vista, a ilha Taquari, pertencente à área do Taim já na divisa com o Uruguai, é um dos locais do país mais ermos e desconhecidos pela ciência. Formado por dunas, alagadiços e mata, o refúgio é visitado uma vez por semana pelos fiscais do ICMBio e, em 2013, recebeu a primeira expedição científica destinada a desvendar a flora e a fauna. Lá existem lagartos, tatus e capivaras, que estão por toda parte na unidade de conservação. No período de cheia mais intensa, os animais deixam o banhado e vão para a estrada, com risco de atropelamento.

Na base Santa Marta, utilizada como apoio à fiscalização à beira da Lagoa Mangueira, as capivaras encontram um ambiente de tranquilidade para se alimentar e se reproduzir. “Elas reconhecem os veículos do ICMBio, se sentem protegidas e não fogem quando passamos por perto”, conta Sérgio, ao lembrar que a reação é bem diferente quando carros estranhos se aproximam. O medo se justifica: além do capim natural dos banhados, as capivaras comem as plantações de arroz, para desespero dos fazendeiros, nem sempre compreensivos em relação a esse apetite.

Na entrada da base de fiscalização, silos de armazenagem de arroz dentro de uma das fazendas de maior produção do país indicam o tamanho da ameaça. “Nosso hábito diário do sagrado arroz com feijão está diretamente relacionado ao futuro desses ecossistemas”, diz Sérgio. “A carne também é vilã”, completa o fiscal, apontando o eucalipto à margem da estrada, plantado para abrigar o gado durante o rigor do inverno. Ao lado da casa onde funciona o alojamento dos fiscais, há pilhas de redes de pesca apreendidas: “Muitos se aventuram dentro da área protegida, porque o peixe já rareou lá fora”.

A Lagoa Mangueira se estende paralelamente à rodovia e ao oceano até o Chuí, ponto-extremo onde predomina a vegetação de várzea e restinga. A paisagem inóspita e solitária é frequentada ocasionalmente pelos amantes de aventura offroad. Nos restaurantes da estrada, gaúchos vestidos a caráter com bombachas conservam antigas tradições. Berço da colonização do Rio Grande do Sul, a região guarda marcos de pedra que delimitavam os Campos Neutrais – “terras de ninguém”, áreas neutras sem presença militar de Portugal ou Espanha, durante o litígio que culminou no tratado de Santo Idelfonso, em 1777. Ao longo dos séculos, o isolamento ajudou na formação de uma cultura própria, às vezes marcada pela resistência ao poder de um governo central e por um expressivo apego a terra – uma espécie de orgulho que, mais recentemente, tem se direcionado para a conservação ecológica.

BOX 1

As lagoas costeiras estão secando e virando pântanos

As lagoas costeiras compõem um ambiente extremamente sensível e complexo, de transição ecológica e trocas genéticas entre os ecossistemas marinhos e terrestres. São áreas que protegem a costa contra inundações e processos erosivos, produzem nutrientes, filtram substâncias poluidoras e servem de hábitat para a biodiversidade, que muitas vezes sustentam economicamente a população local. No entanto, muitas lagoas expõem diversos conflitos de uso – principalmente quando próximas a grandes centros urbanos – e estão entre os ambientes naturais mais susceptíveis aos impactos das mudanças climáticas.

Em Alagoas, a profundidade média da Lagoa de Mundaú, uma das maiores do país, é de apenas 1,5 metro. Em média, é perdido 1 centímetro por ano devido à erosão das margens dos rios que a nutrem. “Em todo o mundo, as lagoas estão ficando naturalmente mais secas, transformando-se em banhados e zonas pantanosas, e a ação do homem acelera o processo”, afirma o professor Alöis Schafer, da Universidade de Caxias do Sul, coordenador de um projeto de diagnóstico de impactos e educação ambiental para esses ecossistemas, em 19 municípios do litoral gaúcho. Para o pesquisador, “é preciso uma plano para harmonizar a conservação desses ambientes costeiros com as atividades econômicas, principalmente a produção agrícola”.

A Lagoa dos Patos, a maior do Brasil, recebe poluentes de Porto Alegre e do rio dos Sinos e fornece água para irrigação do arroz que todos comemos. O assunto é debatido nas escolas da região: “disseminar o conhecimento sobre as lagoas é essencial para as decisões políticas que influenciam muita gente”. Estudo do Ministério do Meio Ambiente identificou 164 áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade nas zonas costeira e marinha. Cinquenta foram consideradas “insuficientemente conhecidas” e 18 são de recuperação mais urgente, compreendendo regiões metropolitanas, lagoas e baías.

BOX 2

“Quem é vivo sempre aparece”

Ex-pescador artesanal em Mostardas (RS), Fabiano José de Souza integrou-se ao trabalho de conservação, formou-se em Biologia e hoje coordena o censo das aves no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, um trabalho que ele próprio idealizou. “Uma área protegida criada em função dessas espécies migratórias precisava ter um monitoramento contínuo sobre elas, até porque a observação da biodiversidade ajuda a movimentar a economia dos municípios”, justifica o biólogo, hoje cursando pós-gradução em gestão e educação ambiental.

“Com a maior conscientização, aumentou o número de espécies que fazem ninho dentro do parque”, comemora o rapaz, orgulhoso ao mostrar fotos de aves adultas com filhotes. No passado, a realidade era bem diferente: “moradores locais pegavam ovos para comer ou vender ao tráfico de animais silvestres”. Sem fiscalização, o problema quase causou o desaparecimento de espécies como as carquejas, pretas de bicos amarelos, que tinham ovos comumente roubados quando as lagoas secavam, nos períodos de estiagem.

O assoreamento causado pela dispersão de pinus, nos últimos 40 anos, é um agravante adicional. Apesar desses e de outros perigos, o parque é frequentado por aves vindas de longe, principalmente do Hemisfério Norte. “Espécies em declínio populacional no mundo, como o maçarico-de-papo-vermelho, têm se mantido em igual número na região”, informa Fabiano. Cinquenta e cinco espécies fazem ninhos no parque nacional. “Já identificamos, no mês de julho, 800 aves que naquele período deveriam estar nidificando no Hemisfério Norte, mas se sentiram instintivamente mais seguras em fazê-lo por aqui”.

As descobertas não param por aí. Em 2013, os cientistas identificaram uma espécie nunca verificada no Brasil: o belíssimo ganso-de-magalhães, que migra do Chile e Argentina, de plumagem marrom com traços brancos. O achado foi possível graças à preciosa informação fornecida por um pescador, Edvaldo Bernardino dos Santos, que ganhou um certificado de reconhecimento pela descoberta. “Quem é vivo sempre aparece”, diz o guardião das aves na Lagoa dos Peixes.

BOX 3

A floresta que separava o Brasil do Uruguai

Quem trafega pela BR-116, cerca de 350 km ao sul de Porto Alegre, se surpreende com o verde de uma mata nativa que desponta ao lado de maciços de eucalipto, em meio a uma região de paisagem já bastante alterada por pastagens e produção agrícola. Imagens de satélite apontam a existência de um denso remanescente florestal no formato de um cordão ao longo do curso de um rio. Com mapas em mãos, chegamos à cidade de Pedro Osório (RS), separada da sede do município vizinho, Cerrito (RS), apenas por uma ponte férrea. Sob ela corre o rio Piratini, que no século XIX separava o território brasileiro do uruguaio, antes dos tratados que definiram os limites atuais, mais ao sul.

Na mata ciliar funciona um camping público, mantido pela prefeitura, com trilha e área de lazer para piqueniques. O local é palco de ações educativas para a conservação ecológica. A placa mostra a preocupação com os impactos ambientais: “Proibido cortar árvores nativas”. “Só nós sabemos o que sofremos com a enchente de 1992, que destruiu toda a cidade, ficando de pé apenas a ponte”, diz Ana Beatriz Pintado, professora da escola municipal. O assoreamento, causado em municípios vizinhos de intensa atividade agrícola, como Santa Maria (RS), é um problema que só pode ser combatido com a manutenção da floresta, para evitar a erosão das margens. “Para a cidade, em meio a uma vastidão de campos com gado e eucalipto, uma pequena mata significa muito”, diz a professora.

Antes de desaguar nos banhados da Lagoa Mirim, o Piratini sofre também com a extração de argila para olarias, cujos fornos no passado eram abastecidos pela madeira da Mata Atlântica. Hoje a lenha vem do eucalipto. O trecho fluvial que cruza a pacata zona urbana de Cerrito guarda ruínas de antigas fábricas de telhas e tijolos. A tradicional atividade está representada no brasão do município, cuja economia é também sustentada pela produção leiteira e cultivo de pêssegos e milho em pequenas propriedades.

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