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Iranduba (AM) - Comunidades expandem negócios na floresta

· Amazonas

Comunidades expandem negócios na floresta

Até pouco tempo atrás, derrubar indiscriminadamente árvores sendo refém dos preços impostos por madeireiros ilegais era questão de sobrevivência na comunidade do Tumbira, a duas horas de lancha de Manaus, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro. A realidade mudou, quando os ribeirinhos começaram a receber auxílio financeiro para não desmatar, aprenderam novas técnicas extrativas e perceberam que é mais vantajoso no longo prazo produzir com menos impacto na floresta. Na ilegalidade, o metro cúbico de madeira era vendido por R$ 150. Hoje vale R$ 500, o que dá em torno de R$ 6 mil por produtor ao ano, além da renda obtida por outras atividades. “A maior valorização ajuda a fixar na floresta jovens que tradicionalmente sonham trabalhar no pólo industrial da Zona Franca de Manaus”, conta José Roberto Nascimento, presidente da associação que agrupa as diversas comunidades da reserva, onde 14 planos comunitários de manejo florestal foram aprovados pelo órgão ambiental.

As transformações se irradiam a partir da escola, que no próximo ano formará a primeira turma do ensino médio, fornecendo educação formal adaptada à realidade e às necessidades locais. “No passado, sem outros caminhos, quem completava 14 anos se tornava automaticamente extrator ilegal de madeira”, afirma a diretora, Izolena Garrido.

“A base de tudo é a organização social e a educação”, explica Virgílio Viana, presidente da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), mantenedora da reserva dentro de um modelo de planejamento participativo e de pagamento por serviços ambientais, conhecido como “bolsa-floresta”. Cada mãe de família recebe um cartão de débito no valor mensal de R$ 600 mediante compromisso de manter a floresta em pé. Há recursos que se destinam às atividades das associações de moradores e à produção sustentável – como madeira, peixe, frutos e mel -- e melhoria da saúde, transporte e educação, com projetos e prioridades de investimento definidos pela comunidade.

Nas atuais 15 unidades de conservação estaduais que administra, a FAS investiu no ano passado R$ 7,5 milhões, abrangendo as diferentes modalidades de recursos. O valor repassado às famílias, R$ 4 milhões em 2010, teve como origem os dividendos de um fundo permanente de manutenção, que acumula R$ 70 milhões – doação do governo do Amazonas, Banco Bradesco e Coca-Cola Brasil. Mais de 90% do orçamento para manutenção dos projetos é coberto por empresas e pelo BNDES, através do Fundo Amazônia. O governo estadual participa com apenas 6,5%. “O programa é mantido no contexto de inquietude que envolve a morosidade do governo e a urgência da agenda ambiental do clima”, ressalta Viana, para quem não há fórmula mágica para se conciliar geração de renda e conservação da biodiversidade. “Precisamos ser pragmáticos e na maioria das vezes a solução está em iniciativas de pequeno porte, nem sempre compatíveis com a estrutura do governo, voltada para grandes projetos”, argumenta Viana.

Aos poucos, a partir da educação melhor estruturada e da injeção de recursos para aumentar a renda, surgem no interior da floresta clusters de pequenos negócios. Na reserva do rio Negro, o morador Roberto de Mendonça, que antes extraía madeira ilegal, é pago para não derrubar árvore e gerencia uma pousada. O proprietário da casa onde funciona o estabelecimento, José Garrido Filho, tinha um estaleiro no qual por 60 anos construiu barcos regionais com madeira de lei. “É uma mudança de paradigma”, diz o professor Claudilon Silveira, mais conhecido como “passarinho” por imitar o som de mais de 40 aves. No início, diz ele, houve resistência ao novo modelo de gestão, no qual os alunos desenvolvem atividades produtivas na escola. “Mas as famílias que não acreditavam no sucesso da iniciativa mudaram de opinião quando viram a primeira produção da horta comunitária em suas mesas”.

Não muito longe, na Área de Proteção Ambiental do Rio Negro, onde a comunidade indígena é visitada uma vez por semana por navio transatlântico de turismo, as mulheres montaram um restaurante. No local, em parceria com a Samsung, está sendo instalado um novo núcleo de educação para a sustentabilidade da floresta, que recebeu equipamentos de informática, televisores, refrigeradores, câmeras digitais e telefones celulares, beneficiando 15 comunidades.

Com maior organização e estrutura de produção, as comunidades obtêm melhores preços. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma, a primeira a ingressar no novo modelo de pagamento pela manutenção da floresta, em 2008, o valor da castanha aumentou de R$ 4 para R$ 20 a lata de 12 quilos, graças a novos sistemas de secagem, logística e armazenamento. No momento, estrutura-se a cadeia do pirarucu, um dos mais tradicionais e apreciados peixes amazônicos, cujo preço em dois anos aumentou de R$ 2 para R$ 5,50 o quilo. A produção é vendida ao Grupo Pão de Açúcar, que neste ano comprou 35 toneladas – sete vezes mais que a primeira aquisição, em 2010.

Em regiões distantes da rede elétrica, o negócio com produtos perecíveis exige inovação para a garantia de refrigeração. No interior da floresta, fábricas de gelo são mantidas por geradores a diesel -- fonte que emite carbono e frequentemente apresenta problemas de manutenção. Como solução, no Juma, uma turbina hidráulica flutuante de tecnologia alemã está sendo instalada para aproveitar energeticamente a força do rio. A questão energética é estratégica nas comunidades que mudam o padrão de vida. Com a geração de renda, é maior o acesso a bens, como eletrodomésticos – o que implica no aumento da demanda por eletricidade nas residências.

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