Return to site

Condeúba - Da mandioca ao sushi

Condenados à dureza na roça de mandioca e à falta de alternativas econômicas, jovens da pequena Condeúba, cidade próxima a Vitória da Conquista (BA), descobriram um caminho não convencional para mudar o destino de suas vidas. Trocaram rústicas enxadas por afiadas facas de fazer sushi em São Paulo, colocando no mapa do Brasil o pacato lugar onde nasceram -- hoje celeiro exportador de sushiman para restaurantes japoneses da maior cidade brasileira.

A saga severina de deixar o interior nordestino para ganhar a vida na metrópole, enredo que inspirou filmes e marcou ao longo das décadas a dinâmica populacional brasileira, ganha ares de globalização e modernidade. “Os primeiros chegaram na década de 1990, trabalharam como faxineiros em restaurantes, juntaram economias e hoje são donos do próprio negócio”, conta Luiz Flores, 34 anos, proprietário do Wakai Sushi, instalado em ponto nobre no burburinho do Baixo Augusta.

No rastro dos pioneiros, levas de jovens chegaram na esperança de uma vida melhor trabalhando nos empreendimentos dos conterrâneos. “Preferimos rapazes de lá por questão de confiança e outras vantagens, como a certeza da dedicação ao trabalho para ter sucesso em São Paulo”, explica Flores. Ele chegou em 1998, fez bico na prefeitura cadastrando moradores de favela para acesso à casa própria e trabalhou como pedreiro até conseguir vaga como ajudante de garçom num restaurante famoso, onde terminou como gerente e aprendeu os segredos para construir o patrimônio.

“Morava com sete amigos da minha cidade que também se aventuravam com sushi”, recorda-se Flores. Ele faz contas, com todo cuidado para não exagerar: “existem hoje em São Paulo pelo menos 40 restaurantes japoneses montados por pessoas de Condeúba, abringando hoje mais de 500 jovens da região”. Muitos, como Flores, lidavam com afazeres da roça. “Meus pais continuaram na lavoura, vendendo feijão, milho e outros produtos na feira”, conta o empresário, que -- muito longe do mar, no sertão -- conhecia quase nada sobre peixes, hoje sua principal matéria prima. Degustar peixes? “Só mesmo piaba viva, um pequeno peixe de rio que comia quando menino, porque diziam que fazia crescer”.

Seu sócio, Leandro José de Souza, chegou há seis anos em São Paulo, lavou prato e trabalhou de faxineiro em restaurante japonês. Deixou para trás a vida na roça, onde foi criado com13 irmãos sem energia elétrica, sobrevivendo da mandioca -- principal sustento dos moradores da região. É uma cultura agrícola por séculos associada à pobreza, mas que agora, mediante cooperativismo e apoio para melhorar a produção, pode se transformar em motor de geração de renda. “Os produtores adotam tecnologia e abrem mão de práticas tradicionais improdutivas”, atesta Dácio Filardi, consultor da Fundação Banco do Brasil, que já desembolsou R$ 7 milhões para a cooperativa regional - a Coopasub -- comprar veículos, receber assistência técnica e construir uma fábrica de fécula, derivado para uso alimentar mais valioso no mercado.

Com 20 mil habitantes, Condeúba é um dos municípios abrangidos pelo projeto. “Muita coisa mudou”, comemora Izaltiene Gomes, presidente da cooperativa, que reúne 2,3 mil pequenos produtores e vende biscoitos, tapiocas e outros alimentos para a merenda escolar, dentro do Programa de Aquisição Alimentar (PAA), do governo federal. O rendimento da produção aumentou um terço. Na comunidade Dantelândia, o agricultor Jacy Chagas, 65 anos, adota soluções ecológicas para fabricar farinha. Além dos fornos com tijolo refratário e grelha, mais econômicos em lenha e energia, o lavrador idealizou um processo que envolve pequenos tanques para purificar a manipueira -- a água tóxica gerada no beneficiamento da mandioca. Apesar do bom exemplo, a questão ambiental preocupa, porque a maioria das casas de farinha da região não tem qualquer controle. Utiliza lenha de mata nativa e mão de obra infantil.

O sushi, galinha dos ovos de ouro para quem abandonou a região, pode ser arma para reduzir a pobreza, quando os restaurantes japoneses de São Paulo lucrarem o suficiente para o investimento em projetos sociais e de geração de renda em Condeúba, onde o asfalto chegou não faz muito tempo. “Drogas e violência assustam a cidade”, afirma Vivian Flores, 28 anos, proprietária de dois movimentados restaurantes, nos bairros paulistanos de Moema e Vila Madalena.

Ela lembra a batalha da mãe, sua sócia, para enfrentar preconceitos e subir na vida. “Damos oportunidade de emprego para jovens baianos que queiram seguir um novo caminho”, diz Vivian. Mas adverte: “o mercado está saturado e já não há espaço para mais restaurantes japoneses em São Paulo”.

Em contraste com a realidade sertaneja, há caso de condeubenses que trocaram a mandioca pelo peixe cru, entre outras iguarias orientais, e hoje ostentam carros e apartamentos de luxo. E continua chegando gente de Condeúba em busca do eldorado, que agora se expande para o interior paulista.

Na capital, a maioria daqueles que largaram o interior nordestino para sonhar com o sucesso tem uma vida dura de trabalho. E são reconhecidos como vencedores, quando visitam a terra natal. Todos os anos, vans lotadas de sushiman, garçons e cozinheiros de restaurantes japoneses partem de São Paulo para os festejos de São João e Natal, em Condeúba. Reencontram as famílias, refazem planos. Para quem antes lidava com a rústica mandioca, o sushi é receita de bons tempos. Afinal, a palavra em japonês tem origem em dois ideogramas: “su” quer dizer “felicidade” e “shi” significa “presidir”.

Publicado originalmente no Planeta Sustentável

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly