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Corumbá / Jardim / Miranda (MS) - Pantanal pede socorro

 

Empresários, ambientalistas e população se unem para enfrentar as ameaças que pairam sobre o delicado equilíbrio do ecossistema pantaneiro

· Mato Grosso do Sul

O casamento do comerciante Lauro Barbosa de Sousa, 42 anos, dono de uma farmácia em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, quase acabou quando ele decidiu gastar R$ 68 mil na aquisição de uma fazenda improdutiva, cheia de mato e paredões de pedra, em vez de comprar para a mulher o tão sonhado automóvel. Antes de tomar a decisão, Lauro viveu um drama íntimo, dividido entre a garantia da paz familiar e o futuro de um raríssimo casal de gaviões-de-penacho, aves que correm o risco de extinção e fazem seus ninhos nas árvores da terra que pretendia comprar. “Decidi reservar um pedacinho do planeta para que esses bichos se salvem”, conta. Filho e neto de caçadores, ele agora lidera uma nova responsabilidade da família e de muita gente da região – a de preservação do Pantanal.

Ao lado do comerciante, exploramos os refúgios dessa reserva ecológica particular, de acesso restrito, onde não há qualquer tipo de exploração econômica. Caminhamos entre arbustos espinhentos, tendo Lauro à frente, com facão em punho, abrindo passagem na mata. Escalamos penhascos para chegar ao refúgio dos gaviões. Após uma hora de caminhada, ele chamou a atenção para um riacho, cujas águas, antes cristalinas, estão manchadas pelo barro vindo da fazenda vizinha, onde o proprietário desmatou as áreas da nascente. “Esse patrimônio levou milhões de anos para se formar e não pode ser destruído em tão pouco tempo”, afirma o comerciante, desolado. “É preciso denunciar e unir esforços a favor da natureza.”

Lauro Barbosa de Sousa não é o único empresário a comprar terras pensando na preservação da natureza. Gigantes mundiais da conservação ambiental, como a WWF (Fundo Mundial para a Natureza), a WCS (World Conservation Society) e a Conservação Internacional unem-se a latifundiários dispostos a executar projetos econômicos sustentados ou compram grandes extensões de terra com o objetivo de preservar espécies e desenvolver o ecoturismo. Quem diria, há quinze anos, que isso um dia pudesse acontecer? Há sérias razões para isso. O Pantanal pede socorro. Maior planície inundável do planeta, com 230 mil km2 de extensão, trata-se de um grande berçário e refúgio de biodiversidade. Compete com as savanas africanas em termos de concentração de aves, mamíferos e répteis. Das 25 espécies de carnívoros existentes no Brasil, 21 habitam o Pantanal. Para lá convergem espécies de fauna do cerrado e da floresta amazônica em busca de zonas úmidas, mas poucas estão protegidas em áreas de preservação ambiental.

Fim do sossego

Mesmo explorado há mais de dois séculos, a região vinha escapando da destruição em larga escala, ao contrário de outros biomas brasileiros. Graças a suas características, era difícil construir estradas em áreas alagadas e a prática de pecuária extensiva com o uso de pastagens nativas favorecia a preservação. A realidade mudou nos últimos anos. “A expansão das fronteiras agrícolas e a divisão dos latifúndios em propriedades menores, típica do processo de sucessão familiar como garantia de terra às novas gerações, colocam em risco todo o Pantanal”, afirma o biólogo Carlos Padovani, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias), em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Nas fazendas menores, os lucros dos pecuaristas com o uso das pastagens naturais diminuíram. Passaram então a desmatar para plantar pastos não-nativos, como a braquiária, agressiva ao solo, que já cobre 30% da planície pantaneira.

Em 2003, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectou mais de 55 mil focos de queimadas no Pantanal, 20% mais que no ano anterior e o dobro em relação a 2000. O desmatamento, que causa erosão do solo e entope os rios com sedimentos, é uma das maiores ameaças à região. “Há grande risco de o Pantanal secar”, adverte Padovani. Entre 1900 e 2000, o tamanho da área desmatada por ano aumentou duas vezes e meia. Só a Fazenda Cristo, localizada no município de Miranda, Mato Grosso do Sul, desmatou ilegalmente, em 2004, 7 mil hectares para plantar arroz, com uso de agrotóxico, segundo o Ibama. A propriedade foi multada pelos fiscais. O mesmo ocorreu com uma das propriedades do reverendo Moon, líder de um dos maiores conglomerados evangélicos do mundo, que desmatou nascentes de rios em Miranda. Moon é dono de um complexo de dez fazendas no Pantanal, onde pretende investir R$ 50 milhões na construção de um hotel de luxo. Mas a polícia florestal não pode fazer muito. São apenas 360 homens para vigiar toda a região.

Teme-se, acima de tudo, as atividades que interrompem o ciclo das águas, o equilíbrio entre as estiagens e as enchentes, que regulam a vida biológica no Pantanal. “Impedir esse processo natural seria desastroso”, adverte o engenheiro agrônomo José Maria Cardoso, vice-presidente da Conservação Internacional, entidade ambientalista com sede em Washington, Estados Unidos, e atuação em vários países. Entre as várias soluções para manter o equilíbrio pantaneiro, a mais forte é a criação de um grande corredor de biodiversidade, capaz de fazer a conexão de áreas verdes preservadas entre o Pantanal e o planalto que o margeia, onde está localizada a zona de cerrado e as nascentes dos principais rios que abastecem a região. O corredor facilitaria o trânsito de animais entre os dois biomas, aumentando a oferta de alimentos e o tamanho dos habitats para reprodução, além de promover a troca genética indispensável à preservação das espécies. Para manter de pé essa faixa contínua de vegetação, é preciso envolver a população, as prefeituras e empresários interessados em desenvolver projetos sustentáveis.

A reação das ONGs

No aeroclube de Aquidauana, cidade situada a 130 quilômetros de Campo Grande, pegamos um avião monomotor rumo à Fazenda Rio Negro, quartel-general da Conservação Internacional no Pantanal. Após 35 minutos de vôo sobre a imensa planície, desenhada por mosaicos de alagados, matas de galeria, rios, cerrados e campos a perder de vista, aterrissamos na principal base de pesquisas do corredor de biodiversidade. Com a decadência da pecuária extensiva, a propriedade foi comprada, na década de 1980, por US$ 2 milhões, pelo mega-empresário americano Gordon Moore, dono da multinacional de informática Intel. Depois foi doada à Conservação Internacional para o desenvolvimento de projetos de preservação ambiental.

São 7.700 hectares de terra, nos quais só é possível chegar de avião ou por uma precária estrada de barro, só transitável durante a estiagem. O isolamento é perfeito para a sobrevivência de jacarés, capivaras, filhotes de lobos e veados, que avistamos em poucos minutos de um safári ecológico para reconhecimento da área. O local exibe os tipos de refúgios ecológicos mais representativos do Pantanal, como lagoas, salinas, pradarias e matas.

O antigo casarão da fazenda, de 1898, famoso por ter servido de cenário para a novela Pantanal, da extinta Rede Manchete, é hoje uma pousada de ecoturismo. Essa atividade banca os gastos com a estrutura da propriedade e de uma estação de pesquisas, que aloja cientistas envolvidos em projetos ambientais. Cerca de duzentos cientistas participam dos estudos de campo para a implantação do corredor de biodiversidade. Fazem inventários de espécies de fauna e flora, avaliam a qualidade das águas e mobilizam fazendas e cidades vizinhas para preservar o Pantanal.

Com 800 quilômetros de extensão, a faixa do corredor Pantanal-Cerrado envolve até agora 20 municípios de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás. Os focos principais são as bacias dos rios Taquari, Negro e Miranda, maiores fornecedores de água do Pantanal. As prefeituras da região estão sendo equipadas com sistemas de geoprocessamento, capazes de mapear as manchas verdes e as áreas de maior risco de degradação por meio de imagens de satélite.

No município de Nioaque, a 169 km de Campo Grande, o técnico agrícola Alexandre Ferro, 25 anos, com dinheiro do próprio bolso, percorre de motocicleta 3 mil quilômetros nas cabeceiras dos rios para detectar áreas de risco, imperceptíveis nas imagens de satélites. Acompanhamos o técnico nas estradas que bordejam a Serra da Bodoquena, no Mato Grosso do Sul, caminho dos antigos bandeirantes, desbravadores que romperam fronteiras em busca de ouro. Chegamos às reservas indígenas dos terena e atikun, onde Ferro orienta os nativos sobre o cultivo de algodão orgânico e a recuperação do solo das plantações de feijão. Evita-se assim a tradicional prática de desmatamento para ocupar áreas mais férteis.

Engajamento

O cacique Nélio Marques, 60 anos, líder de uma comunidade de 272 famílias, admite: “Já destruímos o suficiente, agora e hora de tomar cuidado.” O índio quer evitar o destino de aldeias vizinhas, onde os índios sofrem de depressão e ocorrem casos de suicídio, causados, entre outros fatores, pela falta de alternativas de subsistência. Bem perto dali, no cenário de sangrentas batalhas da Guerra do Paraguai, no século 19, Joaquina de Souza Gonçalves, que diz ter 119 anos, 497 netos, bisnetos e tataranetos, é matriarca de uma comunidade negra isolada, na Colônia São Miguel. Dona Joaquina não entende a palavra ecologia. “Sei o que é isso não, meu filho.” Mas, acostumada aos uivos dos lobos-guarás e aos pios das araras, ela ensinou aos descendentes como explorar os recursos da mata e do cerrado sem destruí-los.

O sucesso do corredor ecológico depende do engajamento das comunidades, sobretudo aquelas que tradicionalmente exploram os recursos da biodiversidade. “Criar o corredor não significa engessar as atividades produtivas”, explica Mônica Harris, da Conservação Internacional. “Além do envolvimento do poder público, é preciso atrair fazendeiros para soluções ecologicamente sustentáveis.”

Menos de 1% do Pantanal e 2% do cerrado brasileiro são protegidos por lei, como reservas ecológicas ou parques nacionais. A maior parte é constituída de propriedades privadas. Conscientizar os fazendeiros para que eles transformem pelo menos parte de suas terras em áreas de preservação permanente é um dos desafios do projeto. No Pantanal, já existem 17 propriedades com o título de Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN), o bioma com maior extensão de terras particulares conservadas. São áreas em bom estado de conservação, abertas a projetos ambientais e de desenvolvimento sustentável, registradas pelos donos como reservas ecológicas em caráter perpétuo.

A conservação ambiental começa a ser vista pelos fazendeiros como única alternativa econômica. Quando jovem, o engenheiro civil Eduardo Coelho costumava freqüentar o Rio da Prata, no município de Jardim, Mato Grosso do Sul, para mergulhar e pescar dourados e pacus com arpão. Seu pai, um dos maiores latifundiários do país, acabou comprando uma fazenda cortada pelo rio, para criar gado e garantir o lazer ecologicamente questionável dos filhos. Com pós-graduação em marketing no exterior e acurada visão empresarial, Coelho administrava os bens da família até dez anos atrás. Decidiu trocar o estresse do mercado financeiro pelo desafio de fazer da fazenda um pólo de ecoturismo. Elaborou o zoneamento da propriedade para evitar impactos ambientais, iniciou o inventário botânico, abriu trilhas ecológicas, passou a controlar a qualidade da água do rio e transformou uma área de 307 hectares, perto das nascentes, em RPPN.

“Os outros fazendeiros me chamavam de louco, diziam que isso era jogar dinheiro fora”, recorda. Hoje, o Refúgio Ecológico Rio da Prata, onde se pode fazer um passeio a nado por águas cristalinas e avistar peixes coloridos, está entre as mais concorridas atrações do pólo de ecoturismo de Bonito. Os visitantes representam 85% da receita financeira da fazenda. No local, começará a ser construído um hotel cinco estrelas com 24 apartamentos. Coelho vendeu um apartamento luxuoso em Campo Grande para comprar outra propriedade banhada por rio de água cristalina, a Estância Mimosa, de 420 hectares.

Com o sucesso, o fazendeiro atraiu seguidores. A maioria dos vizinhos também criou áreas de preservação permanente. Como presidente da Associação dos Proprietários de RPPN do Mato Grosso do Sul, Coelho luta para proteger o entorno das reservas particulares, melhorar a fiscalização, que é de responsabilidade do governo federal, e mobilizar os latifundiários para a idéia de preservar. Uma de suas prioridades será promover mais pesquisas científicas. Em local de tamanha biodiversidade, a todo momento, os especialistas se deparam com surpresas. A última foi o peixe Moenhkausia bonita, um tipo desconhecido de lambari descoberto este ano por biólogos da Universidade de São Paulo no rio Baía Bonita.

A poucos quilômetros dali, também em Jardim (MS), Modesto Sampaio, 63 anos, a mulher e os dois filhos estão preparando a documentação para transformar em RPPN um inusitado refúgio ecológico. Trata-se de uma cratera de 160 metros de diâmetro e 120 metros de profundidade, onde vivem 50 casais de araras vermelhas que fazem ninhos nas fendas dos paredões. No lago formado pela água da chuva no fundo da cratera, vive um solitário casal de jacarés, que come os próprios ovos para sobreviver. “O buraco era usado por justiceiros como local de desova de cadáveres”, revela Modesto. “Quando cheguei aqui para criar gado, em 1986, não sabia o que estava comprando. As araras haviam sumido devido ao barulho da estrada. Depois que o local foi isolado, elas voltaram. O proprietário abriu as porteiras para os visitantes e passou a faturar em torno de R$ 800 por dia. “Muito melhor que boi”, garante.

Idéias se multiplicam

A The Nature Conservancy investiu R$ 1 milhão há dez anos na compra de três propriedades no entorno do Parque Nacional do Pantanal, ex-reduto de pecuaristas. As fazendas, num total de 55 mil hectares, receberam neste ano o título de RPPNs. Somam-se aos 135 mil hectares do parque, formando um complexo de áreas protegidas que incluem lagoas, matas, cerrado e as morrarias da Serra do Amolar, no Mato Grosso. A Ecotrópica, ONG brasileira responsável pela administração dessas reservas, está abrindo a área para pesquisadores e começará ainda este ano atividades de ecoturismo, com apoio da WWF. Os recursos para a manutenção, R$ 18 mil mensais, são doados por empresas brasileiras.

Outro grupo, do qual faz parte o fazendeiro João Idelfonso, proprietário da Fazenda Aguapé, em Aquidauana, procura outra opção. Ao todo, 137 fazendeiros participam do projeto Parque Regional do Pantanal, com apoio do governo francês, e defendem o uso econômico e sustentável dos recursos naturais, inclusive animais silvestres, como alternativa à pecuária tradicional. Para eles, é a única forma de garantir a preservação. “Ninguém vai querer matar a galinha dos ovos de ouro”, afirma Idelfonso, que hoje fatura mais com o ecoturismo do que com o gado e não gosta de lembrar os tempos que matava onça para mostrar como troféu.

O projeto tem 2 milhões de euros da World Conservation Society. Além de transformar as casas-grandes em pousadas, as fazendas começam a produzir o vitelo orgânico pantaneiro, alimentado somente com pasto nativo. Tendo esse selo de qualidade, o animal vale no mercado quase o dobro do vitelo comum, mantido com ração ou outros tipos de pastagem. Cinco propriedades do grupo começaram o manejo de animais silvestres, como o porco-monteiro, um tipo de animal peludo e selvagem, característico do Pantanal. No passado, esses porcos eram criados em cativeiro, mas passaram à condição de silvestre depois de soltos na natureza pelos proprietários que fugiram das fazendas durante a Guerra do Paraguai. Os fazendeiros pretendem fazer o mesmo com a capivara, o cateto e o jacaré. Enquanto isso, investem em escolas de ensino básico, onde os alunos aprendem, além das disciplinas tradicionais, a aproveitar o contato com a natureza e os sistemas produtivos das fazendas.

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Ameaças de vários lados

A viagem pelo rio Taquari, no Mato Grosso do Sul, é desoladora. Voçorocas e enormes bancos de areia impedem a navegação pelo rio agonizante. Na década de 80, o Taquari era uma das mais preciosas fontes de água do Pantanal. Hoje, é o símbolo das agressões ambientais à região, causadas pela expansão das fronteiras da agropecuária. Cerca de 28 mil km2 da parte mais alta da bacia, situada no planalto, estão sendo assoreados. No passado, pelo cultivo de arroz. Hoje, pela pecuária extensiva que promove queimadas e exige o plantio de pastagens exóticas. O pisoteamento do gado abre sulcos no terreno pobre, susceptível à erosão. Com as chuvas, todo o sedimento é levado para o rio, que corta quase todo o Pantanal e vai desaguar no rio Paraguai.

Os sedimentos estão entupindo o rio e fazendas que antes tinham áreas mais secas, para onde o gado era deslocado no período das cheias, estão agora permanentemente debaixo d’água. Os peixes sumiram e a área de navegação diminuiu. O problema começa a atingir o rio Paraguai, o maior do Pantanal. Perigo maior é a navegação para escoamento da produção de soja e minério de ferro. O projeto de criação de uma hidrovia, que exigiria a retificação do curso de canais, a redução da sinuosidade dos rios e a derrubada de encostas, foi engavetado pelo governo federal, após o protesto dos ambientalistas.

Mas a região ainda sofre com o esgoto lançado sem tratamento. Em Cuiabá, o rio que cruza a cidade expõe ilhas formadas por lixões. Os índice de agrotóxicos, medidos pela Embrapa, está no limite do aceitável. Os riscos vão além. As barragens das usinas hidrelétricas, como a de Manso e Piqueri, normalizaram a vazão do rio Paraguai e interromperam o ciclo de enchentes e estiagem, que determinam a riqueza do Pantanal.

Texto legenda 1

Amadeu Barbosa Ferreira, piloto

“Troquei o transporte de garimpeiros na Amazônia pelo ecoturismo no Pantanal. A floresta é exuberante, mas perigosa. Peguei malárias dez vezes. Não tinha apoio em caso de pane no avião. Durante os 12 anos de serviço no garimpo, perdi uns cem colegas, mortos em acidentes aéreos. A ganância dos garimpeiros, além de poluir os rios com mercúrio, obriga o piloto a levar peso além do limite. Aqui no Pantanal, transporto visitantes que têm consciência ecológica. Tenho orgulho de participar de projetos ambientais, dando apoio logístico para se chegar a lugares distantes e isolados, onde não há estradas.”

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Pedro da Costa, guia ecológico

“Trabalhava na fazenda Rio Negro, tocando gado e dirigindo trator. Naquela época, eram 10 mil cabeças. Hoje são apenas 80, porque a fazenda optou pelo ecoturismo e a preservação ecológica. Tudo começou quando a casa-grande e arredores foram cenário da novela Pantanal. Trabalhei um ano pilotando o barco da equipe da novela. Me sentia tão famoso como os atores. Hoje, lido com ecoturistas e pesquisadores, conheço pessoas do mundo todo e tenho oportunidade de aprender. As gorjetas costumam ser boas. Antes, como vaqueiro, ganhava um salário mínimo, sem carteira assinada. Hoje, sou registrado e chego a faturar R$ 500 por mês.”

Box 2

Ninhais por toda parte

A expedição começa cedo, por volta das 5 da manhã. O café é servido ainda no escuro, antes do sol nascer. O grupo parte para a mata equipado: binóculos, chapéu, repelente, água, caderno de anotações, gravador, microfone, fitas, minidisc, luneta, tripé, câmera digital, laser point, espelho, livro de identificação de espécies. Sua missão é encontrar novos lifers, espécies de aves avistadas pela primeira vez no mundo.

O Pantanal é pródigo em emoções desse tipo, especialmente ao longo da Transpantaneira, estrada que liga Cuiabá ao sul do Mato Grosso, cortando 150 km de planície inundável, influenciada pelos ecossistemas da floresta amazônica e cerrado. É grande ali a quantidade de hábitats e ninhos de aves. No total, são 400 espécies, algumas só avistadas nessa parte do Brasil, como a arara-azul-grande, o chororó-do-Pantanal e o becuá-do-Pantanal.

Pode-se observar 130 espécies de aves no Pantanal por dia. Os observadores, orientados pelo Pantanal Bird Club, com sede em Cuiabá, organiza suas expedições pela manhã, quando a temperatura é mais amena e as aves estão mais ativas, procurando alimento e defendendo seu território. Quando avista uma, o guia pára e assobia. A ave e seus sons são registrados. O grupo retorna para o almoço e volta o final da tarde para observar mais espécies, agora de hábitos noturnos.

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A polêmica dos jacarés

É possível avistá-los em praticamente todas as poças d’água. Há registros de locais onde existem 150 animais por quilômetro quadrado. Jacarés não faltam no Pantanal, o local com a maior densidade desses animais em todo o mundo. A quantidade é tanta que proprietários rurais, biólogos e ambientalistas se perguntam se não estaria havendo um desequilíbrio ecológico na região. Está na hora de permitir novamente a caça, proibida desde 1967?

“Esta não é a melhor solução”, afirma Marcos Coutinho, responsável pelo projeto Jacaré do Pantanal, do Ibama. Ele defende a criação em sistemas abertos, nos quais os jacarés são levados para entrepostos de abate dentro das normas sanitárias. “Abater os animais a tiros, sem controle, deprecia o valor da carne no mercado”, diz. O Ibama desenvolve novas tecnologias de criação em cativeiro para evitar a alta mortalidade dos animais com até um ano de vida e tornar o negócio economicamente viável.

A criação de jacarés no Brasil ocorre desde 1990, quando o Ibama regulou a atividade. Os ovos deveriam ser coletados na natureza e os filhotes criados em cativeiro. Nos anos seguintes, os criadouros chegaram a ter 200 mil jacarés. Entre 1994 e 1996, houve a desativação do setor, que voltou a crescer em 2001. Hoje, existem cinco criadouros em funcionamento no Pantanal.

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Pesquisa de morcegos

O apelido de Batman denuncia a maior paixão do biólogo George Camargo: morcegos. Seu principal campo de trabalho são as matas da Fazenda Rio Negro, onde comanda expedições para contar e identificar as espécies existentes no Pantanal. O assunto desperta interesse internacional. Durante um ano e meio de pesquisa, Camargo contou com o apoio de 70 voluntários vindos da Inglaterra, Estados Unidos, Finlândia e outros países, arregimentados pelo Earthwatch Institute. Até o momento, já coletou 690 morcegos, identificando 25 espécies diferentes, entre vampiros (que se alimentam de sangue), carnívoros (comem morcegos menores e pequenas aves), frutíferos e insetíferos. “Esses animais desempenham um papel importante na natureza, ao polinizar espécies de plantas, dispersar sementes e manter a população de insetos em equilíbrio”, diz.

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De olho nas onças

A bióloga Paula Ferro, franzina e corajosa nos seus 26 anos, percorre fazendas em busca de pegadas de onças, carcaças e qualquer sinal da presença desse felino. Seu objetivo é mapear a distribuição geográfica do animal no Pantanal. Com base nas informações, os fazendeiros ligados ao Parque Regional do Pantanal, fazem o deslocamento do gado e evitam o ataque. “Em vez de matar o predador, a ideia é fugir dele”, afirma a bióloga.

Além de Paula, a pesquisadora Marion Marcondes, cavalga nos arredores de 14 propriedades rurais próximas da Fazenda Rio Negro, para identificar os fatores que podem intensificar os ataques das onças. Seu desafio é conscientizar os fazendeiros que tentam se livrar dos prejuízos com esses animais, usando cães de caça, fogo e espingardas. No futuro, a idéia é capturar e redistribuir as onças para regiões de menor risco. Para evitar a matança, o programa Onça Social, coordenado pela Conservação Internacional, indeniza proprietários rurais que comprovem a perda de gado devido ao ataque dessas predadoras. O dinheiro é revertido para a assistência à saúde e programas de educação ambiental nas fazendas.

Box 6

O colecionador de aranhas

Quando menino, o biólogo catarinense Josué Raizer tinha o estranho hábito de colecionar aranhas vivas, alimentadas com moscas e grilos. Hoje, aos 32 anos, o pesquisador aprendeu a coletar e classificar as espécies de aranhas do Pantanal, tarefa importante para entender como elas ajudam a manter o equilíbrio ecológico na região. “Esses insetos são ótimos indicadores da qualidade ambiental, e alguns se deslocam por muitos quilômetros, flutuando no ar, sendo importantes para a manutenção da biodiversidade no corredor Pantanal-Cerrado”, diz. Ao todo, 25 mil aranhas de 252 espécies foram coletadas na natureza.

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A volta das araras-azuis

Há 14 anos, a bióloga Neiva Guedes encantou-se com as araras-azuis do Pantanal, ao saber que estavam em extinção e pouco se conhecia sobre elas. Com apoio de organizações ambientalistas e empresas, partiu para o campo, sendo a primeira pesquisadora a encontrar ninhos e monitorar cada etapa da vida dessas aves. Hoje, Neiva lidera uma equipe respeitada internacionalmente, em trabalho permanente de campo. No período de reprodução, entre julho e março, os ninhos, ovos e filhotes são monitorados. No restante do ano, o grupo recupera refúgios naturais das araras-azuis, constrói ninhos artificiais e garante a sobrevivência da espécie.

Atualmente, existem 544 ninhos em estudos no Pantanal, sendo 198 artificiais, envolvendo 45 fazendas. A população das aves cresceu e expandiu-se para territórios de onde antes haviam desaparecido. “Com o intenso trabalho de educação ambiental que fazemos, a população ajuda a preservar os ninhos”, afirma Neiva.

Box 8

O que é o Pantanal

O Pantanal é a maior planície inundável do planeta. Nos seus 230 km2, abriga paisagens variadas, como campos, alagados e matas com influência da floresta amazônica, cerrado e mata atlântica. A extensa área, com altitude entre 80 e 150 metros, está circundada por planaltos escarpados e terras mais altas de cerrado. Há 60 milhões de anos, o Pantanal era uma região elevada, formada pelo mesmo processo que originou a Cordilheira dos Andes. Ao longo do tempo, a área sofreu rupturas geológicas, com rebaixamento de blocos tectônicos, dando origem à depressão pantaneira.

As inundações ocorrem porque o rio Paraguai, responsável pelo escoamento das águas que banham a planície, tem baixa declividade. As águas, que acabam represadas, regem a vida na região. Fauna e flora dependem dos ciclos de cheias e secas. Nas enchentes, que se iniciam em janeiro e atingem seu ponto máximo em maio, as águas formam baías, lagos e corixos. Na seca, de junho a dezembro, o solo se enriquece de nutrientes depositados pelas águas.

Publicado originalmente na revista Horizonte Geográfico

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