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Cratéus (CE) - A caatinga vive

 

Riqueza da biodiversidade na “terra de ninguém” entre o Piauí e Ceará derruba mitos sobre o semi-árido

Alguns chamam o lugar de “terra de ninguém”. Outros, ironicamente, de “Pió-cerá”. Existe um pedaço do Brasil, na divisa do Piauí com o Ceará, onde os marcos de fronteira nada valem. São contestados desde o século 19. Trata-se de uma antiga e até hoje polêmica área de litígio entre os dois estados, no total de 3 mil km², situados ao longo da Serra da Ibiapaba. Em local tão isolado, o poder público está ausente e os habitantes não arriscam afirmar se moram em terras piauienses ou cearenses – nem sabem, por isso, a quem reclamar pela dureza da vida numa região onde escolas, hospitais e saneamento são raros. Não há empregos. Para sobreviver, é preciso plantar milho e feijão, queimando e derrubando árvores. Mas há quem tenha esperança.

“Queremos que o lugar tenha um destino diferente”, afirma Rogério Aguiar, 15 anos, um dos 95 estudantes que participam do programa de educação ambiental Natureza Jovem, apoiado na região pelo Instituto Unibanco. “Em local tão isolado, o incentivo à educação faz muita diferença, aliando conservação ambiental com alternativas de subsistência”, destaca Tomas Zinner, presidente do Instituto. As atividades beneficiam a população de cinco vilarejos do entorno da Reserva Natural Serra das Almas, no município de Crateús, ao pé das montanhas que são foco da disputa territorial (leia o que é o projeto na página 44). A reserva é mantida pela Associação Caatinga, organização não governamental do Ceará que desenvolve projetos de preservação da caatinga.

No povoado de Ibiapaba, Lauro Rodrigues de Souza, 25 anos, costumava usar colares de chocalho de cascavel. Não usa mais, para preservar a espécie. Hoje, fala aos moradores sobre as questões de meio ambiente e desenvolve versos de cordel, que foram reproduzidos nessa reportagem. “Por questão de sobrevivência, a tradição sempre foi caçar e cortar a mata para plantar. Isso, hoje, precisa ser feito de maneira menos agressiva”, ressalta Lauro.

“É impressionante ver jovens que antes caçavam passarinhos hoje defendendo a fauna e concorrendo entre si para participar do projeto”, afirma Nilton Carvalho, do Instituto Unibanco. Eles participam de oficinas e mini-cursos de capacitação, como o cultivo de plantas medicinais da caatinga, visando gerar renda e aumentar a auto-estima. No lugarejo Barro Vermelho, Catiane Rodrigues, 15 anos, luta contra o lixo e o desmatamento. Nas oficinas de reciclagem, aprendeu a fazer bichos com garrafa PET – um artesanato que poderá ser uma alternativa de renda. “Se nada fizermos, a caatinga vai virar um deserto”, afirma Catiane.

A advertência da garota reflete um problema atual. É preciso buscar alternativas de renda para diminuir o ritmo da destruição. No sertão, a natureza árida é, à primeira vista, inóspita. Mas só à primeira vista. Muitas vezes simbolizada por cactos cheios de espinhos e leitos de açudes sem água rachados pelo sol, a caatinga abriga grande biodiversidade. Sim, a vida reina em paisagens quase desérticas, especialmente nos maciços que separam o Piauí do Ceará. Tanto assim, que essa região foi classificada como de importância biológica muito alta no mapa das zonas prioritárias para a preservação da caatinga, elaborado pelo Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (Probio).

além dos mandacarus

A caatinga possui 148 espécies de mamíferos, dos quais 10 só existem nesse bioma, além de 185 de peixes, 154 de répteis e 348 de aves, algumas muito ameaçadas, como a ararinha-azul-de-lear. Na região, foram identificadas pelo menos 932 espécies de plantas, sendo 380 exclusivas. O acervo vai muito além dos mandacarus, dos angicos, dos pau-d’arcos e dos xique-xiques. Como a caatinga é pouco estudada e conhecida, o tamanho dessa riqueza é muito maior do que se imagina.

Estigmatizada pela pobreza do sertanejo vítima da seca, a caatinga é um lugar cercado de mitos, que começam a ser derrubados. Os livros escolares quase sempre a tratam como um ecossistema homogêneo, pobre em espécies e pouco alterado pelo homem. “Não é nada disso”, afirma o biólogo José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente da ONG Conservação Internacional, coordenador do mapeamento da região. “A biodiversidade local é muito rica e importante, com espécies que só existem ali e não sobrevivem em outros ecossistemas.”O bioma cobre 70% de toda a área do Nordeste e é o terceiro mais degradado do país, perdendo somente para a mata atlântica e o cerrado. Sofre a pressão de 28 milhões de habitantes, que desmatam 400 mil hectares por ano. Os vilões principais são as queimadas para implantar cultivos agrícolas e a retirada de lenha para os fornos residenciais e industriais. Apesar das ameaças, só 2% da caatinga está totalmente protegida na forma de parques e reservas.

“Os desafios são grandes”, ressalta Philip Reed, da Associação Caatinga, coordenador dos projetos educacionais na Reserva Natural Serra das Almas. “Em locais onde as queimadas fazem parte da tradição agrícola, o processo de mudança é lento.”

No percurso até a reserva, descobrimos sinais dessa dificuldade. Na estrada de acesso àquelas montanhas, o caçador Cleiton Silva, 18 anos, pedalava a bicicleta com espingarda no ombro. No bolso, ele tinha uma avoante, pomba silvestre degustada como petisco nos bares do sertão nordestino. Em contraste, no Assentamento Xavier, onde o rapaz vive, os lavradores se preparam tecnicamente para adotar sistemas de agrossilvicultura, associando os cultivos agrícolas às espécies da caatinga, preservando o ecossistema.

Continuamos a viagem ao coração da zona de litígio entre o Piauí e o Ceará – a maior das 11 áreas de disputa existentes no país. Tudo começou em 1880, quando, após décadas de disputa, o Ceará cedeu ao Piauí um pedaço do seu litoral para que o vizinho construísse um porto. Em troca, recebeu uma área de sertão que abriga o município de Crateús, a 340 km de Fortaleza. Mas o decreto que sacramentou o negócio não definiu com clareza a linha divisória entre os dois estados. E assim a pendenga se arrasta até hoje.

A linha no meio da casa

Os mapas escolares e rodoviários permanecem mostrando duas linhas de divisa entre os estados – uma “segundo” o Ceará e outra “segundo” o Piauí. E povo da região continua vivendo situações inusitadas. Na vila de Oiticica, os moradores se guiam pela duvidosa placa de divisa instalada à beira da linha-férrea. A sinalização, segundo moradores, foi retirada de outro local e instalada ali, não se sabe porquê. A linha divisória passa bem no meio da casa do aposentado piauiense Francisco Ferreira Lima, o Chico Pequeno, 68 anos. “Para cruzar, basta abrir a porta da sala e ir para a varanda”, conta.

Perto dali, a cidade de Poranga (CE) guarda surpresas. Na casa de Aderaldo Gomes, 45 anos, existe uma rara coleção de artefatos líticos em pedra polida, usados por povos antepassados. “Elas afloram à superfície, quando os lavradores roçam a terra”, afirma Gomes. A região é cheia de mistérios. No vilarejo de Pitombeira, um dos mais isolados e pobres da área de litígio, os paredões das colinas escondem pinturas rupestres, gravadas ali há milhares de anos pelos antigos índios Kalabaça. Do topo dos penhascos, avista-se a imensidão da caatinga ainda desconhecida. Mas a riqueza do patrimônio natural contrasta com a pobreza dos atuais moradores, sem alternativas diante do solo já degradado e improdutivo. Mudar essa realidade é o grande desafio.

BOX

Esperança no alto da serra

A Reserva Natural Serra das Almas, uma propriedade de 5.646 hectares, foi adquirida com o dinheiro doado pelo empresário americano Sam Johnson, que desejava destinar um pedaço da caatinga à preservação. A idéia nasceu depois que seu pai, Herbert, cruzou a linha do Equador a bordo de um pequeno avião, em 1935, e aterrissou no Ceará. Procurava palmeiras de carnaúba, comuns naquela parte do nordeste, das quais pudesse extrair a matéria-prima para fabricar cera. O filho Sam, herdeiro da multinacional, se encantou pela caatinga, ao visitar a região em 1998, quando refez a antiga viagem do pai.

A reserva reúne uma amostra significativa dos 12 diferentes tipos de paisagem da caatinga - matas secas, carrascos e lajeiros, entre outros. Com apoio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), foi realizado um inventário biológico e um plano de manejo da propriedade, transformada em Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN). O estudo identificou 200 espécies de aves. Foram também encontradas 194 espécies de flora. A reserva funciona com um laboratório vivo para vários trabalhos de pesquisa, como o que resultou no livro Aves da Caatinga, da cientista Gerda Maciel, lançado em 2004. O objetivo é desenvolver ali um modelo de preservação a ser repetido em outras regiões.

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