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Esperantina (PI) - ‘Quebradeiras de coco’ ganham fábrica para aumentar a renda

 

Alfabetização é base de um programa que recebe investimento de R$ 4,2 milhões

· Piauí

O município de Esperantina, no interior do Piauí, assim batizado por conta da devoção popular a Nossa Senhora da Boa Esperança, não poderia ter um nome mais sugestivo para refletir o atual momento de mudanças na relação entre geração de renda e meio ambiente. O apelo à santa deixa de ser o único caminho para dias melhores. Nesta que é uma das regiões mais pobres do país, florestas de palmeiras nativas avistadas ao longo das estradas guardam uma matéria-prima da biodiversidade que começa a mexer com a estrutura econômica e social: o coco do babaçu, fonte de alimento, carvão para energia e óleo vegetal para cozinhar, produzir sabão e fabricar cosméticos.

No povoado de Fortaleza, é dura a rotina das “quebradeiras de coco”, dedicadas a manter a tradição e conservar as palmeiras que garantem o sustento. Enquanto os homens estão na roça e as crianças na escola, as mulheres entram na mata para coletar os cocos maduros caídos no chão, ao pé das árvores. O fruto é quebrado nas residências para produção artesanal de azeite ou vendido para processamento nas indústrias. A tradição passa de mãe para filha naquele vilarejo, onde vivem cerca de cem famílias, hoje donas da terra. Antes de ser transformado em assentamento rural, o local foi palco de conflitos. “Éramos forçadas a vender o coco a preços injustos para o proprietário da terra e muitas vezes recebíamos como pagamento um vale para comprar comida na quitanda”, lembra a produtora Creusa Gomes. “Os coronéis só permitiam construir casas de palha, mais fáceis de serem derrubadas para desocupação”, completa.

Palmeirais foram cortados para instalação de pastagens e as extrativistas se viram obrigadas a ir cada vez mais longe na mata para obter o sustento. A espécie leva em média 10 anos para atingir seu auge de produção e permanecem produtivas por mais de 40 anos. Diante das ameaças à fonte de alimento e renda, a comunidade se mobilizou para mudanças. Já com a posse da terra, livres da exploração pelos “coronéis”, a primeira medida foi banir o corte dos cachos ainda verdes e colher apenas os frutos maduros. A prática antiga atrasava o crescimento da planta e, com apoio de técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), as extrativistas mudaram o método, sem prejudicar a tradição.

As mulheres catam apenas os frutos maiores e de melhor qualidade, deixando os demais no solo para germinar e garantir a renovação da espécie. “A colheita predatória e indiscriminada de todo coco encontrado nos babaçuais, sem técnica de manejo, é uma ameaça à espécie”, diz Rejane Tavares, da instituição alemã GTZ, em recente relatório que subsidiou novos mecanismos de extração e beneficiamento, com abertura de mercados. A ameaça está associada à venda do coco inteiro para fins energéticos e industriais, inibindo a extração da amêndoa, com aproveitamento das diferentes partes do fruto pelas comunidades.

Organizadas em cooperativa, as produtoras ganharam poder de barganha. “Hoje vendemos para quem paga melhor”, conta Francisca Rodrigues, 71 anos, que quebra coco desde criança e atualmente trabalha na mobilização das produtoras. “Cresci vendo o sofrimento dos pais em tempos onde a mulher não tinha vez”, recorda-se. Vendido hoje a R$ 2 o quilo, o babaçu gera renda mensal de R$ 600. Após a extração do azeite, a polpa serve como ingrediente de alto valor protéico que começa a ser adquirido pelo Programa de Aquisição de Alimentos, do governo federal. As cascas viram carvão para uso nas residências, padarias, olarias e indústrias de diversos ramos, como o alimentício, onde o insumo é empregado para o aquecimento de caldeiras.

A expectativa é elevar a renda em no mínimo 30%, a partir de uma fábrica em fase final de instalação com recursos da Fundação Banco do Brasil, capaz de processar 400 quilos do produto por mês. “Com o beneficiamento, podemos comercializar na entressafra, entre abril e setembro”, explica Francisca. Ela e as demais quebradeiras do assentamento se preparam para produzir 50 mil sabonetes de babaçu que serão fornecidos aos hotéis durante a Copa do Mundo de 2014 – iniciativa selecionada pelos ministérios do Turismo e do Desenvolvimento Agrário, no projeto “Talentos do Brasil”.

“Com o produto valorizado, os mais jovens se sentirão estimulados a continuar a tradição e evitar que os babaçuais cedam lugar ao pasto”, argumenta Francisca, sentada à frente de um cesto cheio de cachos. Entre um coco e outro que quebra, a produtora entoa cânticos: “Essa luta não é fácil, mas vai ter que acontecer/vamos quebrar as correntes do machismo e do poder”.

Em função da importância econômica da atividade, também os homens se integram à produção. “A venda do coco ajuda a comprar o alimento que falta na roça”, afirma Antônio Calixto, 57 anos, que no quintal de casa produz carvão de babaçu, vendido a R$ 2,50 a lata com dois quilos. “Sempre contamos com Deus, mas sabendo ler e escrever ele pode nos ajudar mais”, comenta Ângela da Conceição, 64 anos, quebradeira de coco desde a infância, recém-alfabetizada.

Retranca

Alfabetização abre oportunidades para extrativistas

A educação é fator estratégico para o balanço entre geração de renda e uso da biodiversidade. “Reduz a dependência, ajuda nas vendas e aumenta a segurança em fazer contas e lidar com o negócio, permitindo maior acesso a crédito bancário”, explica Aline Alencar, assessora técnica do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu. “É também uma questão de identidade, auto-estima e valorização”, completa Aline, informando que o analfabetismo atinge mais de 64% das produtoras cadastradas pela entidade, atuante na região de ocorrência dos palmeirais no Piauí, Maranhão, Tocantins e sudeste do Pará.

“Mudança de cultura só se resolve no longo prazo com aprendizado”, ressalta Jeferson de Oliveira, gerente de tecnologia social da Fundação Banco do Brasil, após a solenidade de formatura da segunda turma de quebradeiras de coco que se alfabetizaram. “A iniciativa facilita o acesso a programas do governo, como a venda de derivados do babaçu para a merenda escolar, com melhores preços em relação ao ofertado pelos atravessadores”, acrescenta Oliveira.

O Território dos Cocais Piauienses, como é conhecida a região, concentra projetos para a promoção do desenvolvimento econômico e social. Além da educação, do incentivo à organização das quebradeiras de coco e do beneficiamento do produto, o programa apoia hortas para produção agroecológica, apicultura e melhoria das estradas locais, totalizando investimento de R$ 4,2 milhões até o momento. Existem no local mais de 13 mil quebradeiras, distribuídas em 300 comunidades, com produção média de 26 quilos de amêndoas por semana.

“Com o desenvolvimento territorial, os desembolsos do governo para o Bolsa Família, que cobre 59% da população do Piauí, tendem a diminuir”, afirma Claiton Mello, gerente de mobilização social. O programa regional é conduzido em parceria com 13 municípios organizados em consórcio, com um comitê gestor que define as estratégias. “Precisamos sanar uma dívida de séculos”, diz o prefeito de Esperantina, Chico Antônio (PT-PI), lembrando que “muitos recursos financeiros já foram desperdiçados pelo tradicional esquema de assistencialismo, que não investiu na articulação social”. O desafio atual, segundo ele, é garantir a convivência harmônica dos babaçuais com o eucalipto que chega àquele pedaço do Nordeste para abastecer a indústria de celulose. Em função desta demanda, as terras se valorizam, recebendo empreendedores de outras regiões em busca do novo eldorado.

“A novidade não pode interferir na tradição produtiva das quebradeiras de coco”, adverte o prefeito, descendente de escravos que originaram a comunidade quilombola Olho d´Água dos Negros, naquele município. Como em muitos outros grotões nordestinos, a eletricidade chegou recentemente ao vilarejo – mas não há carga de energia suficiente para mover indústrias. A população, no total 60 famílias, vive do extrativismo do babaçu, da agricultura de subsistência e da criação de pequenos animais. Hortas com galinheiro instalado no centro do canteiro começam a gerar renda, dentro de um projeto que também zela pela preservação da cultura quilombola com o resgate de rituais que deixaram de ser praticados.

Publicada originalmente no Valor Econômico

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