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Guarabira (PB) - Nos caminhos da Fé

Rico em misticismo, Brasil aposta no turismo religioso para gerar renda e abrir perspectivas de vida para a população

· Paraíba

Católico fervoroso, o empresário Márcio Chad, 48 anos, dono de lojas de CD em Aparecida do Norte (SP), recorreu à proteção da santa que inspirou o nome da cidade para ingressar com pé direito no novo ramo: o turismo. Após fazer um curso de pós-graduação em Hotelaria, o comerciante começou neste ano a construir um hotel de médio padrão para lucrar com a multidão de fiéis que visita o Santuário Nacional de Aparecida do Norte – o maior templo de devoção mariana do mundo. Projetado para ter 120 apartamentos, o hotel já foi “batizado” e ganhou o nome de Catedral, uma homenagem à basílica antiga da cidade, onde Márcio e a família assistem à missa todos os domingos. Segundo os preceitos da fé, a contar pelo nome tão ligado à religiosidade católica, o projeto tem tudo para dar certo. E a boa notícia chegou para o empresário antes mesmo de o edifício ultrapassar a primeira laje: “Fechamos a hospedagem dos cardeais que chagarão à cidade para participar do Celam, o Conselho Episcopal Latino-americano”. A presença já confirmada do Papa Bento XVI à reunião, entre 11 e 30 de maio de 2007, transformará Aparecida do Norte num formigueiro ainda maior de devotos.

A fé em Nossa Senhora Aparecida, a mais brasileira das virgens Maria, tornou a cidade a capital brasileira do turismo religioso. Excursões de romeiros chegam à região para pedir graças e pagar promessas, desde que três pescadores encontraram na beira do rio Paraíba do Sul, em 1717, a imagem daquela que hoje é a padroeira do Brasil. O número de visitantes, antes compatível com o tamanho da cidade, atingiu grandes proporções. Atualmente, Aparecida recebe a maior parte dos 12 milhões de brasileiros que viajam anualmente em busca de lugares sagrados, segundo pesquisa da Universidade de São Paulo. Nos últimos três anos, a quantidade de fiéis na cidade pulou de 6,5 milhões para 8,2 milhões por ano. Nos fins de semana de maior movimento, o número de turistas chega a 160 mil – quatro vezes e meia a população da cidade, de 36 mil habitantes. Como conseqüência, a zona urbana de Aparecida do Norte está se verticalizando. “Em cinco anos, foram inaugurados dezenas de novos hotéis e vários foram reformados”, afirma Reginaldo Leite, presidente da Associação Comercial e Industrial de Aparecida. Atualmente, o turismo religioso sustenta a cidade, que abriga mais de 100 fabriquetas de santinhos, terços e outros artigos católicos comprados pelos visitantes -- muitas delas de fundo de quintal.

A principal razão do significativo crescimento do turismo foi a super-estrutura de acolhimento dos fiéis montada nos últimos anos pela administração do santuário. Além de museus, salas de exposição e todo um sistema organizado de missas e auxílio espiritual, o santuário tem nada menos do que 1.050 banheiros e um shopping-center com 400 lojas e praça de alimentação – serviços que geram um faturamento de cerca de R$ 2 milhões por ano, sem contar com as doações dos visitantes à Basílica. “Como acolher bem também é evangelizar, tudo foi montado para que o romeiro se sinta satisfeito e retorne com mais pessoas”, explica o padre Hélcio Testa, administrador do santuário. Ele acrescenta: “A partir do nosso exemplo, na disputa pelos clientes, os empreendedores da cidade começam a melhorar os serviços, como restaurantes e hotéis”.

Mas há desafios. O principal deles é aumentar o tempo de permanência do romeiro na cidade, gerando maior faturamento. A maioria dos visitantes é de classe média-baixa, mora em regiões vizinhas e fica apenas um dia na cidade, sem pernoite, gastando em média R$ 15 por pessoa. Uma parcela de 20% do total de turistas permanece duas noites em Aparecida do Norte, hospedados nos 150 hotéis que ofertam 26 mil leitos na cidade. No caso desses visitantes de maior poder aquisitivo, além da diária dos hotéis, que na maioria dos casos inclui as refeições, o gasto por dia no comércio é de R$ 25 em média. A construção de um mega-estacionamento capaz de receber 6 mil carros -- além de 2 mil ônibus -- dentro do santuário está atraindo maior número de pessoas com maior faixa de renda.

Diversificar atrativos

“A tarefa agora é organizar novos atrativos na região, para que os fiéis estiquem a visita”, conta Marco Aurélio Rosas, do Serviço Nacional de Apoio à Pequena e Média Empresa (Sebrae). A instituição está articulando o poder público e os empreendedores locais para integrar Aparecida do Norte a outros santuários situados em municípios vizinhos, tornando a região um grande pólo de turismo religioso. Em Cachoeira Paulista, situada a 36 Km de Aparecida, a Canção Nova -- movimento que nasceu da Renovação Carismática da Igreja Católica -- recebe perto de 1,8 milhão de pessoas por ano. Mantém anfiteatro para shows e celebrações e estrutura de alimentação e hospedagem, que não é suficiente para acomodar as 70 mil pessoas que chegam para os encontros nos finais de semana. Muitos se hospedam em casas de moradores ou dormem em barracas de camping. Ali ao lado, em Guaratinguetá, a 6 Km de Aparecida, a atração é casa do frei Galvão e o museu que conta a vida do religioso, ao qual se atribui vários milagres. Cerca de 400 mil devotos chegam por ano à cidade para rezar e pagar promessas.

“Integrando as três cidades, chegaríamos a um número excepcional de 12 milhões de visitantes por ano”, destaca Rosas. Com base nesse cálculo, que tornaria a região o maior pólo de turismo católico do mundo, o Sebrae está trabalhando com parceiros para capacitar técnicos e gerentes e para criar estruturas de recepção aos turistas, como portais, acessos e sinalização. O projeto, segundo ele, é transformar igrejas e centros religiosos em atrativos turísticos, formatando roteiros que diversifiquem as opções em cada município. O ecoturismo é uma dessas novas vertentes. “Estamos acordando agora para esse potencial”, reconhece a historiadora Thereza Maia, responsável pelo Museu Frei Galvão. Depois que o religioso foi beatificado em 1998 pelo Vaticano, o lugar passou a receber milhares de fiéis que participam de novenas e experimentam a chamada “pílula do frei Galvão” – um minúsculo papel contendo uma oração, que é dobrado e ingerido pelos devotos na esperança de conseguir milagres. Por enquanto, o religioso tem o título oficial de beato. “Falta a comprovação de somente um milagre para ele ser finalmente canonizado e se tornar um santo”, ressalta Tereza. “Quando isso acontecer, vai estourar de gente por aqui”.

Efeitos santidade

Será o frei Galvão o primeiro santo brasileiro? Na Paraíba, os moradores torcem para que o título seja dado a outro religioso, o padre Ibiapina. A disputa pelo status de santo reflete o tamanho dos benefícios que o turismo religioso pode proporcionar. Os caminhos percorridos há 200 anos pelo padre na região do brejo paraibano, ao longo dos quais praticava caridade e passou a ser visto pelo povo como um santo, inspiraram o Sebrae a mobilizar parceiros para criar um roteiro de travessia nos moldes de Santiago de Compostela, na Espanha.

No percurso da caminhada, que dura três dias, os peregrinos cruzam cinco municípios, acompanhados por guias e um carro de apoio. A rota é toda sinalizada. A primeira atração, após 8,9 Km andando na Serra da Jurema, em Guarabira (PB), é a cachoeira do Roncador, de 30 metros. No segundo dia, os visitantes conhecem a reserva ecológica de Goiamunduba, atravessando bambuzais gigantes. No último dia, depois de caminhar 20 Km, os andarilhos chegam finalmente do Santuário de Santa Fé, construído pelo padre Ibiapina. Cada turista ganha um passaporte, que recebe oito carimbos comprovando a passagem pelos atrativos. “Além de gerar renda, o projeto eleva a auto-estima dos moradores locais, que são responsáveis pela manutenção das trilhas e se enchem de orgulho ao ver forasteiros seguindo os passos de um homem que consideram santo”, explica Isac Batista, dono da Mais Brasil Turismo, agência que opera o percurso.

Além do prestígio, as regiões que desejam ver seus líderes religiosos canonizados sabem que ter um santo pode significar bons lucros com o turismo. É o que acontece em Nova Trento, Santa Catarina, terra da Madre Paulina – religiosa canonizada em 2002. Os municípios que sonham com o privilégio de ter o primeiro santo brasileiro dizem que Madre Paulina, por ter nascido na Itália e imigrado para o Brasil quando jovem, não é uma santa genuinamente brasileira. Mas isso não importa para os moradores de Nova Trento. Depois que o Vaticano decidiu oficialmente elevá-la à condição de santa, o turismo explodiu na cidade, atraindo 7 mil peregrinos nos finais de semana.

Com a inauguração do Santuário de Madre Paulina, em janeiro deste ano, o número de visitantes duplicou, atrapalhando a tranqüilidade do pacato bairro periférico, de cultura tipicamente italiana, onde a religiosa vivia em contemplação. Lanchonetes, restaurantes, lojas de souveniers e outros negócios chegam ao local junto com os forasteiros. A cidade passou a ser o foco central de dois roteiros de turismo religioso, formatados com apoio do Sebrae e do Florianópolis Convention & Visitors Bureau. Em Santa Catarina, existem 22 santuários de peregrinação católica. “Com a falta de perspectiva no campo, o turismo gera renda e evita o êxodo de trabalhadores para a capital, Florianópolis”, ressalta Mirela Berendt, consultora do projeto.

Disputa das estátuas

Se alguns municípios almejam ter um santo, outros disputam entre si por um motivo inusitado: o privilégio de ter a maior estátua religiosa do país. A cidade de Canindé, no Ceará, promotora da maior romaria franciscana do mundo, todo dia 4 de outubro, inaugurou no ano passado uma estátua de São Francisco de 30,25 metros. O monumento ultrapassa os 30 metros de altura do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. E desbanca de longe a estátua do Padre Cícero, de 25 metros, localizada na cidade cearense rival, Juazeiro do Norte.

Situada na região do Cariri, Juazeiro recebe perto de 1,5 milhão de romeiros por ano. A maioria chega nos famosos caminhões paus-de-arara e dorme em barracas improvisadas ou em alojamentos da Igreja. Fora das temporadas de romaria, a fama religiosa da cidade atrai também visitantes de maior poder aquisitivo, que chegam de carro com a família. “Para esse público, estamos trabalhando roteiros alternativos, que envolve caminhadas na Floresta Nacional do Araripe e visita a uma das mais ricas em fósseis paleontológicos do país”, informa Edio Callou, do Sebrae na cidade do Crato (CE). Movido somente pela fé, o turista gasta em média R$ 50 por dia na região. Com os novos atrativos, o projeto é aumentar essa cifra para R$ 200.

“Pelos aspectos culturais e folclóricos, as tradições religiosas fazem parte do roteiro, mas o gancho é a cultura e o ecoturismo”, explica Arnaldo Werblowsky, diretor da Freeway, operadora nacional que lançará neste ano o destino Cariri. “Nos primeiros três meses, estimamos levar entre 220 e 280 passageiros”, calcula Arnaldo. É exatamente sob esse aspecto cultural que a promoção do turismo religioso vem sendo tratada pelo governo federal. “Novos roteiros vão surgir dentro do projeto de regionalização do turismo, no qual cada estado está preparando três produtos novos de qualidade internacional”, informa Caroline Juliani Campos, do Ministério do Turismo. Ela conclui: “O potencial é imenso, inclusive para atrativos não-católicos, mas é preciso criar a estrutura necessária”.

Diversidade de credos

Além das praias, dos monumentos históricos, da natureza e da cultura do povo, o Brasil é um país rico em misticismo. Dos místicos que buscam energia cósmica em Alto Paraíso (GO) aos romeiros que lotam as ruas de Belém no Cílio de Nazaré, a maior procissão do mundo, e as igrejas coloniais de Oeiras, no Piauí, são várias as manifestações que simbolizam essa riqueza de crenças e a tolerância religiosa tão característica do país. No Espírito Santo, por exemplo, o Mosteiro Zen do Morro da Vargem, situado no município de Ibiraçu, recebe 30 mil pessoas por ano interessadas em conhecer as práticas budistas e buscar a paz e a harmonia para reabastecer as energias e conviver melhor com a correria do cotidiano na grande cidade. Entre as atrações está uma caminhada espiritual de três dias por entre bosques de Mata Atlântica para buscar forças interiores através do contato com a natureza.

Em Salvador, os terreiros de candomblé e os mistérios das religiões afro-brasileiras, encantam turistas nacionais e estrangeiros. Muitos deles, como o Gantois, da famosa Mãe Menininha, são tombados pelo patrimônio histórico por perpetuar a religião, a música, a culinária e as danças trazidas pelos escravos negros. Nos arredores da cidade, a comunidade do Curuzu inaugurou no ano passado um roteiro de trilhas culturais nos quais os turistas podem visitar dois terreiros de candomblé e ver apresentações de ilê aiyê – com todo cuidado para que a religião não seja “folclorizada” nem deturpada pela presença dos visitantes. Com apoio do Sebrae, que ofereceu oficinas de planejamento turístico e da Faculdade de Turismo de Salvador, o projeto envolve 200 pessoas na comunidade e está ajudando a melhorar a estrutura do bairro – além da coleta de lixo mais cuidadosa, as ruas estão sendo pavimentadas e iluminadas.

Mas a rota do turismo religioso em Salvador pode não começar em nenhuma das supostas 365 igrejas da cidade ou em um terreiro de candomblé. O passo inicial pode ser no Largo de Roma, onde fica o Memorial Irmã Dulce. A religiosa, “o anjo bom da Bahia”, como é carinhosamente chamada pelos baianos, está em processo de beatificação pelo Vaticano. Atrás do exemplo de vida dos santos – e do caminho seguido por seus devotos – o turismo busca novos espaços. As oportunidades geradas por roteiros bem planejados podem mudar os destinos da vida em muitos lugares. Os exemplos começam a se multiplicar. É preciso acreditar: a fé remove montanhas.

BOX – Turismo religioso avança no mundo

O Vaticano estima que cada ano os centros de culto religioso do mundo recebem entre 220 e 250 milhões de visitantes, 60% a 70% cristãos. Somente na Europa, estima-se que cerca de 30 milhões de cristãos, principalmente católicos, fazem peregrinações nas férias ou em parte delas. O principal destaque é a Polônia, país no qual 7 milhões de pessoas – 15% da população – são fiéis das igrejas católica e ortodoxa e também praticantes do judaísmo e do islamismo que viajam em peregrinações. Os santuários cristãos no mundo atraem 25 milhões de peregrinos, sendo Roma e o Vaticano os principais. A maioria deles não tem estrutura de serviços necessária para receber bem os turistas, segundo o especialista Javier Salgado, da Universidade de Chihuahua, no México.

Entre os centros religiosos que têm turismo planejado, está o Santuário de Lourdes, na França. A cidade tem somente 15.300 habitantes e recebe por ano 5 milhões de visitantes de 150 países, que se hospedam em 270 hotéis e 13 campings. Nada menos que 400 empregados, sendo 280 fixos, trabalham na recepção dos turistas, além de 100 mil voluntários que atuam nas temporadas de peregrinação. Além desse santuário, o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, é um dos roteiros de turismo religioso mais famosos do mundo. Peregrinos percorrem o caminho há oito séculos, interessados na história do apóstolo Tiago. O trajeto possui mais de 1.800 edifícios históricos e representa para muitos um momento de reflexão e oração.

Com o passar dos anos, novos pólos religiosos se tornam atrativos turísticos da moda. Na Inglaterra, o best-seller Código da Vinci, de Dan Brown, criou um novo roteiro: uma caminhada por Londres para examinar os fatos que estão por trás da ficção. Por duas horas, os turistas visitam a histórica Temple Churche, onde ficava a sede dos Cavaleiros Templários, e a igreja de St. Bride’s, que abriga resquícios de uma estrada romana. Na Alemanha, depois que o cardeal Joseph Ratzinger foi nomeado Papa Bento XVI, há novos roteiros turísticos em Munique e Freising, cidades nas quais o atual chefe da Igreja Católica passou importantes momentos de sua vida.

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