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Ilhéus - A ressurreição do cacau

Cultivos da Bahia adotam novas técnicas e melhoram o convívio do cacau com a Mata Atlântica para abastecer fábricas de chocolate que exigem padrões ambientais

 

“O Doutor não era doutor, o Capitão não era capitão. Como a maior parte dos coronéis não era coronéis. Poucos, em realidade, eram os fazendeiros que nos começos da República e da lavoura haviam adquirido patentes de coronel da Guarda Nacional... A cultura do cacau dominava todo o sul do Estado da Bahia, não havia lavoura mais lucrativa, as fortunas cresciam, crescia Ilhéus, a capital do cacau ...”. (Jorge Amado, em “Gabriela Cravo e Canela”)

 

Os livros escolares ensinam que a cultura cacaueira marcou a história econômica e social da Bahia. Mas foram os romances de Jorge Amado, traduzidos para diversos idiomas e adaptados para minisséries e novelas na TV, que tornaram cenários e personagens desses tempos áureos conhecidos no resto do país e do mundo. “A luta do cacau tornou-me um romancista”, dizia o escritor, inspirado nos enredos de poder, paixão e riqueza proporcionados por esses frutos polpudos e suas amêndoas, com as quais as indústrias fabricam um dos alimentos mais apreciados no mundo: o chocolate. A sua obra literária traz lembranças, registros de uma época que passou e agora ressurge revigorada. Ao longo de quase três séculos, o cacau conviveu com a Mata Atlântica, sofreu pragas devastadoras, amargou um longo período de decadência e hoje volta a se expandir com práticas agrícolas modernas e cuidados socioambientais. O modelo é bem diferente do praticado pelos antigos coronéis. E a razão é simples: atualmente, quem dá as ordens são os consumidores, especialmente aqueles que pagam mais caro para degustar chocolates e suas delícias sem culpa por estar contribuindo para a devastação do planeta.

Da cidade de Ilhéus, litoral baiano, percorremos a BR 101 na rota das antigas fazendas de cacau para conhecer as atuais transformações. À beira da rodovia, no município de Maraú, um casarão de pedra chama a atenção. Sinal dos novos tempos: com vista para um maciço de cacauais por entre a mata nativa, a antiga casa-grande onde morava o coronel e sua família funciona atualmente como restaurante e pousada. “Chegamos a produzir três vezes mais cacau do que hoje”, conta o funcionário Ronaldo de Jesus Silva, que viveu a época do apogeu. Ele completa: “com a crise, tivemos que nos adaptar e hoje estamos lutando para salvar o que restou”.

Silva se refere às praga que, na década de 1990, quase dizimaram os plantios de cacau na Bahia. Para entender esse impacto, é preciso recuar ao começo da história dessa cultura agrícola no País. Originário da América Central e dos países amazônicos, onde foi explorado desde os tempos das antigas civilizações indígenas, o cacaueiro começou a ser cultivado no Brasil em 1679, no Pará. Chegou à Bahia em 1746, no município de Canavieiras, adaptando-se muito bem ao clima, solo e relevo, aproveitando a sombra das árvores maiores da Mata Atlântica para crescer e produzir frutos. Graças a esse produto agrícola, afeito a um ambiente rico em água e protegido do vento e do sol para render lucros aos fazendeiros, exemplares importantes de árvores nativas, como cedro e jequitibá, foram poupados da destruição.

O pesadelo da vassoura-de-bruxa

Ao longo da BR 101, no sentido de Itabuna, cidade onde nasceu Jorge Amado, a paisagem verde comprova essa preservação. Mas não esconde um capítulo trágico dessa história: a chegada de um inimigo voraz, a vassoura-de-bruxa. Trata-se de um fungo que já existia no final do século 19 nas florestas do Suriname, norte da América do Sul, e depois atingiu os demais países amazônicos. Naquela região, o fungo não causou destruição porque os plantios eram dispersos. No entanto, quando chegou à Bahia, em 1989, encontrou alta densidade de árvores e todas as condições para se espalhar e se tornar devastador.

A produção de cacau despencou de 416 mil para 96 mil toneladas anuais, as exportações diminuíram à terça parte e o Brasil caiu de segundo para sexto do mundo nessa cultura agrícola. Como resultado, muitas fazendas foram abandonadas e a floresta foi cordada para a venda de madeira e cultivo de pastagens. Milhares de trabalhadores perderam o emprego e o êxodo rural fez surgir favelas em cidades litorâneas, como Porto Seguro, que trocaram o cacau pelo turismo como principal meio de sustento. Até hoje a questão sobre como a praga invadiu os cultivos baianos é polêmica. Alguns dizem que o fungo chegou junto com caminhões de madeira da Amazônia; outros, como divulgado no noticiário da época, suspeitam de sabotagem por razões políticas.

À vassoura-de-bruxa se somaram a crise de preços no mercado internacional, a falta de crédito para os produtores, a concorrência com os países africanos e as mudanças no clima, que se tornou mais seco. A cultura agrícola tão tradicional da Bahia estava em ruínas. Com um agravante: os coronéis -- e também seus filhos, na sucessão familiar -- não tinham o hábito de cuidar dos plantios com critérios técnicos. Mudanças foram necessárias para evitar a morte de um sistema econômico que sustentava gerações. Os fazendeiros abriram mão de dogmas e se modernizaram. Plantaram variedades de plantas geneticamente mais produtivas e resistentes às pragas e adotaram métodos eficientes para manejar as árvores que sombreiam o cacau.

Cacau aposenta coronéis

É o que acontece na fazenda Vale do Juliana, no município baiano de Igrapiúna, 160 km ao norte de Ilhéus. “Vista sob o aspecto positivo, a vassoura-de-bruxa ajudou a mudar a realidade, transformando coronéis em executivos”, afirma Paulo Sérgio Santos, diretor da propriedade, ligada ao Grupo Odebrecht. Na fazenda, o cacau é a base de um modelo de desenvolvimento sustentável. Todas as plantas dessa espécie foram substituídas por clones imunes à vassoura-de-bruxa, protegidos sob as copas da Mata Atlântica, que cobre 70 % da área, e também por seringueiras, exploradas para a extração de látex. Em paralelo, crescem os plantios de pupunha, o palmito nativo da Amazônia que chega às florestas litorâneas para diversificar as alternativas econômicas. Com mais opções, os produtores não precisam apelar para atividades que derrubam a floresta.

Além de escola, assistência social e outros benefícios, cada família ganha uma casa e uma gleba igual a oito campos de futebol para cuidar e explorar, sendo dona de 50% da produção agrícola. “Caminhamos com as próprias pernas”, diz Egnaldo de Jesus, ao trocar o trabalho nos seringais e pela colheita do cacau, que lhe garante R$ 1 mil mensais.

Manter reservas legais de floresta, recuperar nascentes, destinar corretamente o lixo e zelar pela segurança dos trabalhadores passou a ser rotina na fazenda. Como resultado dessas boas práticas, o cacau ganhou um novo status: pela primeira vez no país recebeu o selo socioambiental Rainforest Alliance. Reconhecido como um dos mais importantes do mundo, o certificado garante a origem do produto agrícola, com a certeza de que foi cultivado mediante cuidados para não agredir o meio ambiente e as comunidades. O selo é concedido após auditorias que verificam a aplicação as normas no campo, trabalho que no Brasil é conduzido pelo Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola).

Ao seguir regras, a produção agrícola melhorou; o cacau ganhou valor e conquistou compradores estrangeiros que exigem padrões socioambientais. A idéia se multiplica na região. “O cacau pode resgatar a hegemonia”, diz Jair Macedo, diretor do Grupo Cantagalo, proprietário de fazendas próximas a Itabuna que se preparam para ganhar o selo Rainforest. Os pés de cacau, segundo ele, produzem hoje cinco vezes mais que duas décadas atrás. A estratégia é investir na qualidade. “Nos tempos dos coronéis, os lucros eram aplicados para comprar mais terras e aumentar o status e poder -- e não para cuidar das fazendas”, compara Macedo.

A estratégia do chocolate de luxo

Hoje a situação é diferente. “Quando comemos um chocolate, podemos saber de qual região e estado brasileiro, de qual fazenda e até de qual árvore veio o cacau nele utilizado”, completa Eimar Sampaio, diretor da fazenda M.Libânio, no município baiano de Guandu, também interessada em ter o selo socioambiental. A propriedade tem 800 mil plantas cadastradas em seu banco de dados. “Existe luz no fim do túnel”, diz Sampaio, informando que os produtores estão aperfeiçoando a planta para o fruto adquirir teor de gordura e sabor adequados à fabricação de chocolates finos, mais requintados que os comuns. “Além da qualidade, são os critérios ambientais que tornam viável o ressurgimento do cacau, inclusive sob o aspecto econômico”, avalia Patrícia Moles, diretora da Delfi Cacau Brasil, multinacional de Singapura dona de uma fábrica em Itabuna que beneficia e vende o cacau brasileiro para o resto do mundo.

Na região de Ilhéus e Itabuna, o chamado Baixo-Sul da Bahia, as fazendas cacaueiras ocupam o interior e o entorno da Área de Proteção Ambiental (APA) do Pratigi. O lugar teve a Mata Atlântica reduzida pela metade, resultado da crise do cacau e do corte ilegal de madeira, e agora pretende ser modelo de uso sustentável. Piscicultura, extração de piaçava e palmito, geração de energia por micro-hidrelétricas e pequenos cultivos se somam para mudar a realidade nessa que é uma das regiões mais pobres da Bahia. Com verba da Fundação Odebrecht e Banco Interamericano de Desenvolvimento, a APA tem uma estrutura invejável: uma estrada-parque de 45 km cruza todo o mosaico de preservação e interliga comunidades rurais evitando ao máximo os impactos. A sede da unidade de conservação, inaugurada em 2008 no alto de uma montanha com vista para os cacauais, tem centro de visitantes, auditório, restaurante e treze confortáveis casas que servem de alojamento.

“Queremos envolver as comunidades na retomada do cacau em equilíbrio com o meio ambiente”, explica Humberto Miguez , coordenador da APA. A medida se justifica, porque grande parte do que restou de Mata Atlântica se localiza na região cacaueira. Recentes estudos comprovam que cerca de 19 milhões de árvores foram preservadas neste pedaço do território baiano em função do convívio entre cacau e floresta nativa -- sistema de agrossilvicultura conhecido como cabruca. O nome se origina do verbo “brocar”, que significa roçar a mata, cortar arbustos para plantar cacau. Cerca de 70% dos atuais 560 mil hectares de cacauais se enquadram nesse modelo. A parte restante cresce sob plantios homogêneos de árvores trazidas de outras regiões, como a eritrina, de origem australiana.

A harmonia entre cacau e Mata Atlântica

“A cabruca é importante para conservar a água e o solo, ajuda a unir pedaços de mata para formar corredores de biodiversidade e cria condições para a sobrevivência da fauna e da flora”, explica o engenheiro florestal Dan Érico Lobão, do Ceplac (Centro de Pesquisas do Cacau), onde foram desenvolvidas as variedades de cacau resistentes a pragas. As cabrucas abrigam mais de 200 espécies arbóreas, incluindo 80% do pau-brasil nativo que sobrou no litoral brasileiro. Mudas dessa espécie estão sendo plantadas na região para enriquecer a mata que protege o cacau e fornecer madeira para a principal atividade que usa o pau-brasil, a fabricação de violinos. “Não podemos estragar esse patrimônio genético com a exploração inadequada do cacau”, adverte Lobão.

O pesquisador teme os impactos de uma nova febre da cacauicultura, impulsionada pelo governo federal. O PAC (Programa de Aceleração da Economia) reservou R$ 2,2 bilhões para o cultivo de 150 mil hectares de cacau na Bahia, mas poucas propriedades mantêm reservas de florestas obrigatórias ou protegem a beira dos rios com vegetação nativa. O projeto do governo promove a renegociação das dívidas dos produtores e inclui o plantio de extensa monocultura de seringueiras para fornecer a sombra aos cacaueiros. Mas não contempla a recuperação da mata nativa, porque há restrições legais para o seu aproveitamento econômico. “É preciso reformar as áreas de cabruca abandonadas, cerca de 200 mil hectares, que correm o risco de virar pasto”, propõe Durval Libânio, diretor do Instituto Cabruca. A ong promove projetos em assentamentos rurais para tornar esse tradicional modelo economicamente viável, e preservá-lo para as futuras gerações. “Só assim”, afirma Durval, “a floresta se manterá de pé” e ajudará o cacau a recuperar a força do passado.

 

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Apogeu e decadência em Ilhéus

 

Fundada em 1534 na foz do rio Cachoeira, litoral baiano, a cidade de Ilhéus se voltou inicialmente para a cana de açúcar, abandonada depois que as plantações foram atacadas pelos ferozes índios aimorés. No século 19, durante o ciclo do cacau, a cidade se tornou um dos maiores centros de poder e riqueza do país. Na época, o governo brasileiro doava terras para quem desejasse plantar cacau. A região recebeu grande número de imigrantes em busca de um eldorado. A população cresceu e, com o dinheiro do cacau, a cidade que fervilhava ganhou belos edifícios, como o Palácio do Paranaguá, onde hoje funciona a prefeitura. A antiga casa da família Berbert é uma réplica do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Em 1924, os produtores começaram a construir o porto de Ilhéus com recursos próprios para exportar o cacau, antes embarcado em Salvador. Negociantes estrangeiros passaram a freqüentar a cidade, aumentando o intercâmbio cultural com a Europa. Companhias de teatro chegavam para divertir os coronéis e suas famílias. Mas a chegada da vassoura-de-bruxa, a praga que assolou os plantios de cacau, reduziu drasticamente a produção e mudou essa realidade. O turismo passou a ser a principal atividade econômica, tendo como atrativos as belas praias e os marcos que retratam os bons tempos do cacau.

Pouco se preservou daquela época. O Museu do Cacau, retrato da decadência, está abandonado e fechado há oito anos. Como atração, restou a Casa de Jorge Amado, onde o romancista escreveu a primeira obra, “O País do Carnaval”, em 1931. O lugar guarda a memória de cenários e personagens que simbolizam o antigo ciclo econômico. Perto do casarão, se localiza o tradicional restaurante Vesúvio, ponto de encontro dos coronéis, que também freqüentavam o mais famoso cabaré da cidade -- o Bataclan, hoje restaurado e transformado em restaurante e centro de cultura e lazer.

 

 

Publicado originalmente na revista Horizonte Geográfico

 

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