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Ilhéus - Ressurgindo das cinzas

 

Cidades históricas buscam nova vocação

 

Personagem 1: Leoanardo Santana, o Léo, 17 anos. Personagem 2: Ademílton Barbosa, o Pelé, 19 anos. A dupla tem coisas em comum: mora na mesma cidade, tem origem negra e protagoniza uma história que tem tudo para ganhar um desfecho de sucesso. Eles estão felizes da vida. Léo retirou do baú o velho cavaquinho em ruínas que herdou dos avós e guardava desde criança, limpou a poeira e agora procura um marceneiro para consertá-lo. Na ânsia por fazê-lo funcionar, o rapaz caminha orgulhoso pelas ruelas da cidade com o instrumento musical debaixo do braço, mostrando o selo de fábrica amarelado pelo tempo. O objeto antigo, antes escondido no meio da tralha em desuso, tem hoje um valor especial dentro das transformações em curso na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, que passa por ampla revitalização do patrimônio histórico. “Agora estamos indo para a frente”, festeja Léo.

Pelé concorda e vê na cidade novas perspectivas de vida. Além freqüentar o curso para ser guia turístico, no qual aprende francês, inglês, História do Brasil e noções de arte, saúde e ética, o jovem é dançarino de um grupo de balé folclórico que se prepara para aumentar o número de exibições diante do maior fluxo turístico que chega à localidade. Em lugar que parou no tempo, onde as alternativas de trabalho são difíceis para os jovens, a vida tem sido generosa para Pelé, que não contém a alegria refletida no largo sorriso de dentes impecavelmente brancos. “O turismo está trazendo mais opções de trabalho”, comemora o rapaz, ex-operário de uma oficina de pintura de carro.

Além de espalhar muito pó, de quatro anos para cá, os canteiros de obra que pontilham as ruas de pedra de Cachoeira estão irradiando uma nuvem de auto-estima, como a que contagiou Léo e Pelé. Após décadas de abandono, a cidade, no passado pólo cultural e econômico da Bahia, está ressurgindo das cinzas. As placas fixadas à frente das obras destacam o nome de quem impulsiona essa revolução silenciosa: o Programa Monumenta, que completa dez anos de trabalho no Brasil com ações voltadas para a recuperação do patrimônio histórico tombado pelo governo federal em 56 cidades brasileiras. Com verba total de US$ 120 milhões, dos quais 66,4% já foram desembolsados até o momento, o programa tem a chancela da Organização Mundial para a Ciência e Cultura (Unesco) e recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da contrapartida dos estados, municípios e iniciativa privada.

Em Cachoeira, igrejas barrocas, prédios e sobrados coloniais restaurados devolvem à cidade os traços e as cores dos tempos do apogeu, quando -- às margens do rio Paraguaçu -- era rota dos viajantes e importante entreposto comercial de fumo e açúcar. A cidade, uma das mais antigas do país, cresceu com toda pompa e imponência depois que os primeiros colonizadores ali chegaram, em 1531. Vinte anos depois, já existiam na região plantios e engenhos de cana-de-açúcar que absorveram o trabalho de grandes contingentes de escravos, vindos da África. Com eles, estabeleceu-se na região um dos maiores redutos brasileiros da cultura negra, herança que resistiu ao tempo e hoje marca com força as tradições, os rituais e as crenças da maioria dos atuais 36 mil habitantes de Cachoeira.

Negocias se multiplicam

Com a restauração, que incluiu a revitalização da orla fluvial, com nova iluminação e paisagismo, a cidade encontrou uma alternativa: o turismo. Em ambiente de otimismo, o engenheiro civil português Duarte Rodrigues, 74 anos, decidiu mudar de ramo e investir pesado na cidade, onde vive há 14 anos. Com R$ 125 mil, comprou em março deste ano um casarão colonial em ruínas, no qual investirá mais R$ 800 mil em reformas para transformá-lo em hotel. O empreendimento, que terá 30 apartamentos e quatro salões de eventos, não é o único mantido por Duarte. O empresário é também dono de um restaurante e de um veleiro com o qual faz passeios com turistas pelo rio Paraguaçu, que guarda ao longo de suas margens um dos maiores acervos de engenhos de engenhos de açúcar antigos do Brasil. “O plano agora é investir mais R$ 330 mil na compra de um catamarã para receber o maior número de turistas esperado para a cidade”, revela o empreendedor.

Ações deste tipo, capazes de ativar a economia local, se multiplicam de norte a sul do país, nas cidades históricas revigoradas pelo Programa Monumenta. Os benefícios atingem localidades pequenas, como Oeiras, no Piauí, e grandes metrópoles, a exemplo de São Paulo. Na capital paulista, o Parque da Luz ganhou novo coreto e ponto de bonde, entregues à população neste ano, e outras praças e prédios começarão a ser restaurados no centro da cidade, como o Edifício Ramos de Azevedo. Seguindo os mesmos passos, Recife assistiu à recuperação arquitetônica da rua da Moeda e do Paço da Alfândega, à beira do Rio Capibaribe, antiga zona portuária que sofria os efeitos da decadência, como a proliferação de prostíbulos.

“Depois que Quito, capital do Equador, foi devastada pelo terremoto de 1987, o BID, que auxiliou a reconstrução da cidade, voltou as atenções para preservação do patrimônio histórico urbano no continente”, conta Robson Almeida, coordenador-adjunto do Programa Monumenta. Em 1995, revela Almeida, “a situação dos imóveis históricos na maioria das cidades brasileiras era muito precária, marcada por um processo de decadência e de esvaziamento urbano”.

A primeira providência, segundo ele, foi reunir um comitê de especialistas da Unesco, organizações não-governamentais, universidades e órgãos do governo federal ligados à cultura e ao turismo para elaborar uma lista de 101 sítios históricos brasileiros que precisavam de cuidados especiais. Após a avaliação sobre a capacidade dos estados e municípios de honrar com os compromissos financeiros e técnicos para manter os projetos, 26 cidades tombadas pelo Instituto Brasileiro do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) foram escolhidas inicialmente para assinar os convênios de financiamento. O objetivo principal: recuperar o acervo urbano de importância histórica e atacar as causas da degradação, principalmente em áreas com baixo nível de atividades econômicas, elevando a qualidade de vida da população.

Mudança de rumo

Novos componentes se integraram ao programa para garantir que as ações se tornem sustentáveis e duradouras. “Com o passar do tempo, percebeu-se que, além de recuperar acervos históricos e resgatar o estilo arquitetônico de igrejas e sobrados antigos, era essencial promover atividades econômicas, culturais e sociais”, explica Almeida. Em resumo: para garantir o uso correto dos imóveis e das zonas urbanas restauradas, foi preciso apoiar a elaboração de planos diretores pelos municípios e conscientizar a população sobre como o patrimônio histórico pode contribuir para gerar emprego. Diante disso, o Programa Monumenta corrigiu erros e acertou o rumo, tornando-se mais democrático. O principal avanço aconteceu no ano passado, com o lançamento dos editais de seleção pública para projetos culturais e econômicos, propostos por organizações não-governamentais e empresas. São iniciativas que envolvem ações como a capacitação de agentes culturais e artesãos, formação de guias, divulgação turística e promoção de eventos, como o Teatro de Bonecos de Paraty (RJ) e dois festivais importantes: o do Café, realizado em julho deste ano em Vassouras (RJ), e o de Poesia de Goiás (GO), promovido em março com sucesso de público.

Um dos destaques é a cidade de Natividade, no Tocantins, que mudou de cara com a restauração das ruas, igrejas e prédios públicos históricos e ganhou espaços urbanos de qualidade. O cartão-postal da cidade, a Praça da Ruína -- onde se localiza a estrutura abandonada da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que começou a ser construída pelos negros escravos e não chegou a ser concluída -- recebeu pavimentação, iluminação e novo mobiliário urbano. Ao mesmo tempo, os artesãos foram apoiados e capacitados para resgatar a principal tradição econômica do lugar: a confecção de jóias com a técnica de filigrana, ofício herdado dos tempos em que a cidade era um destacado pólo de mineração de ouro -- hoje atrativo turístico para os visitantes que começam a chegar em maior número ao município.

O desafio é dar vida e dinamismo às áreas urbanas restauradas, integrando-as ao cotidiano da cidade. Nesta tarefa, o Programa Monumenta criou uma linha especial de crédito para a restauração de imóveis privados antigos, na qual os proprietários pagam o valor recebido sem juros, no prazo de 20 anos. O pagamento do empréstimo é revertido para os fundos municipais de preservação histórica, que têm a função de manter o patrimônio após o término das obras. O objetivo é incentivar a ocupação ordenada desses bairros pelos moradores da cidade, evitando que se tornem outra vez vazios e decadentes. Com incentivos aos empreendedores, não raro os imóveis particulares, a maioria em ruínas, estão sendo reformados para funcionar como pousadas ou abrigar negócios voltados para o turismo.

Reviravolta em Santa Catarina

É o caso do projeto que está mudando o visual e dando um novo destino para São Francisco do Sul, litoral-norte de Santa Catarina, em parceria com o setor privado. Situada em ponto estratégico para a navegação, de frente para a Baía da Babitonga e suas ilhas, a cidade sempre viveu em função do porto, responsável pelo escoamento das mercadorias que marcaram os ciclos econômicos da região -- principalmente madeira e erva mate que existiam em grande quantidade na Mata Atlântica. Com o tempo, as estradas de ferro contribuíram para transportar mais mercadorias do interior do país para o antigo atracadouro, que acabou não suportando tamanho movimento. Para resolver o problema, um novo porto maior e mais moderno foi construído fora do núcleo histórico da cidade e as antigas instalações portuárias acabaram abandonadas. Junto com elas, casarios de estilo colonial português, que refletem a prosperidade econômica e cultural da cidade no passado, se transformaram em ruínas.

Para resgatar esse pedaço da história, dando luzes diferentes para o futuro de São Francisco do Sul e seus 33 mil habitantes, o Programa Monumenta está investindo R$ 8,4 milhões na revitalização da orla, com construção de praças e trapiches, jardinagem e pavimentação, e na restauração de prédios históricos. Além da igreja matriz e do museu histórico, o destaque é a construção de um terminal marítimo de passageiros a partir de um muro em ruídas do antigo porto. O plano é incluir a cidade na rota dos transatlânticos, incrementando a economia. Mas o prédio do terminal, concluído em meados do ano passado com R$ 818 mil do Monumenta, aguarda agora o investimento do estado na estrutura náutica, principalmente o atracadouro que receberá os navios.

Enquanto isso, os empreendedores se movimentam para ocupar os nichos de negócios que surgem em São Francisco, como o turismo cultural. “Atualmente, o município é mais procurado por turistas que buscam sol e mar em balneários distantes do centro histórico”, explica Ângelo Pereira Costa, coordenador do Monumenta na cidade. Apenas 17% deles visitam os casarios coloniais. “Mas a restauração do patrimônio, com a instalação de uma infra-estrutura adequada para receber os visitantes, deverá mudar esses números”, estima Costa. “A cidade receberá um perfil diferenciado de clientes, mais interessante sob o ponto de vista econômico”, prevê o empresário Reginaldo Cardoso, 43 anos, dono de uma escuna que faz passeios diários pelas ilhas da Baía da Babitonga. “É tudo uma questão de tempo”, ressalta Cardoso, planejando fazer melhorias na embarcação para oferecer serviços de qualidade.

Um dos campos mais promissores é o turismo de negócios, que começa a ser explorado pelo centenário Clube 24 de Janeiro. Inaugurado em 1892, no pico do apogeu econômico da cidade, o clube foi palco de reuniões políticas e disputados bailes. Com R$ 558 mil do Monumenta, o imóvel em ruínas foi restaurado para transformar os suntuosos salões em centro de eventos. O pagamento do empréstimo será efetuado com o faturamento do novo negócio.

Irradiando auto-estima

O vai-e-vem dos operários e dos caminhões com terra, pedra e cimento nas ruelas antigas da cidade instiga apostas em novos empreendimentos. “Hotéis estão sendo melhorados”, informa o arquiteto Márcio Rosa, diretor do Museu Nacional do Mar, atualmente âncora do turismo em São Francisco. Ocupando as instalações abandonadas de um antigo armazém portuário, o museu foi aberto ao público em 1995 e depois recebeu verba do Monumenta para ampliar e melhorar as instalações. Trata-se do mais completo acervo brasileiro de embarcações tradicionais, réplicas de barcos antigos e peças que contam a história da navegação no país e no mundo. “Com a restauração da cidade, já percebemos aumento da arrecadação da bilheteria”, revela Rosa.

A onda de revitalização que tomou conta de São Francisco do Sul se refletiu nas atividades do museu. Neste ano, a instituição inaugurou um liceu de artes e ofícios que ensina artesãos várias partes do país o trabalho de confeccionar miniaturas de barcos -- veleiros, jangadas, canoas e até antigos baleeiros. São peças que, vendidas aos turistas, contribuem para gerar renda. Animado com as chances do turismo na cidade, o aluno Cyl Farmei deu asas à criatividade: além de construir barquinhos, começou nas horas vagas a confeccionar a estátua de uma exótica índia para que os visitantes do museu possam pousar ao lado para tirar fotos.

O avanço do turismo abre caminhos alternativos também para os pescadores que nem sempre têm peixes em fartura. Com apoio do Monumenta, eles recebem treinamento para fazer passeios turísticos utilizando os barcos de pesca na alta estação, entre novembro e fevereiro, quando captura de peixes e crustáceos é proibida para garantir a reprodução das espécies. Durante esse período, a nova atividade pode garantir até R$ 1 mil mensais para cada pescador. Com a renda extra, homens tradicionalmente carrancudos e arredios aos forasteiros estampam sorrisos no rosto. E provam que a auto-estima pode fazer milagres. Afinal, estar de bem com a vida é o segredo para receber melhor -- base para se conseguir um ingrediente mágico que faz a diferença na alquimia do turismo: a hospitalidade.

 

BOX - Cachoeira busca um novo apogeu

 

A cidade de Cachoeira, uma das mais antigas do Recôncavo Baiano, situada a 116 Km de Salvador às margens do rio Paraguaçu, está ganhando vida nova. “Recuperada, a cidade, antes pacata e triste, ganha outro valor”, afirma Etelvina Rebouças, consultora do Monumenta na região. De todas as obras em andamento, destaca-se a restauração do conjunto arquitetônico que abriga o convento e a igreja do Carmo, de 1773, imponente pela riqueza do acervo sacro e pelo ouro que cobre sem parcimônia os retábulos em estilo barroco-rococó. “Após a obra, o número de visitantes, antes de 2 mil mensais, deverá aumentar entre 40% e 50%”, prevê Jomar Lima, diretor do museu previsto para ser inaugurado em agosto no local.

Além da Igreja da Ajuda, ao redor da qual nasceu a cidade, já restaurada, os técnicos estão trabalhando na Igreja do Rosário, construída pelos antigos escravos. A comunidade de origem negra, onde o monumento está localizado, receberá de volta o patrimônio com espaços para lazer. Mas a principal obra que promete mudar o estilo de vida da cidade é do prédio que abrigava a antiga fábrica de cigarrilhas Leitalves, onde será instalada a Universidade Federal do Recôncavo Baiano com recursos de R$ 6 milhões do Monumenta. Além de professores vindos de outras partes do país, o empreendimento atrairá um público jovem, para os quais novos serviços deverão ser instalados na cidade. “Todos ganham com isso”, ressalta o artesão Almir Oliveira, o Mimo, escultor de máscaras africanas, carrancas e santos do candomblé vendidos aos visitantes.

Aos poucos Cachoeira recupera a glória do passado, interrompida quando as rodovias substituíram o transporte fluvial e a cidade -- que um dia já foi uma das mais ricas do Brasil -- deixou ser pólo comercial. Hoje o turismo é visto como principal alternativa de recuperação. Mas o caminho é longo. “Falta melhorar e ampliar os serviços de receptivo e criar uma estrutura para abrir os monumentos históricos à visitação”, adverte o secretário municipal de Turismo, Antônio Moraes Ribeiro. Os desafios vão além. “Sem educação patrimonial, que conscientiza a população para a preservação dos monumentos, todo o trabalho pode virar pó em pouco tempo”, alerta Marcelino Gomes de Jesus, diretor da Fundação Casa Paulo Dias Adorno, instituição da cidade voltada para a educação em arte e cultura. O poeta e escritor Damário Dacruz, que comprou um sobrado colonial em Cachoeira para montar um centro de artes e lazer, acrescenta: “restaurar é fundamental; saber manter é mais importante ainda”.

 

 

 

BOX - Conventos e fortalezas se transformam em pousadas

 

O Programa Monumenta, em parceria com o Ministério do Turismo, apresentará neste ano aos investidores do mercado turístico o projeto de criação de um circuito de pousadas históricas no Brasil. Nos últimos meses, os técnicos concluíram o projeto de viabilidade econômica para transformar conventos e fortalezas em meios de hospedagem. “As ordens religiosas e os militares estão abertos ao diálogo, porque a idéia é um caminho para, através de parceria entre o setor público e privado, garantir a restauração e a sustentabilidade econômica de monumentos históricos que se encontram degradados”, explica José Rocha Filho, consultor do Ministério do Turismo.

O circuito seguirá o modelo de sucesso das pousadas históricas de Portugal. No Brasil, quatro projetos estão prontos para sair do papel: as fortalezas de Anhatomirim, em Florianópolis (SC), e de Santa Cruz da Barra, em Niterói (RJ), e os conventos de São Francisco, em Olinda (PE), e de Santa Maria dos Anjos, em Penedo (AL), que terá 58 apartamentos, centro de convenções e uma praça de alimentação construída no antigo claustro. Na sacristia da igreja, serão instaladas salas de cinema e os dormitórios antes ocupado pelos religiosos serão reformados para abrigar lojas. O projeto do Convento de Santa Maria dos Anjos custará em torno de R$ 7,7 milhões.

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