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Itabela - Cafezais da Bahia estruturam corredores com créditos de carbono


O café é um dos principais vilões da secular destruição da Mata Atlântica, castigada desde quando os colonizadores extraíam pau-brasil à exaustão para enriquecer a Coroa Portuguesa. Restaram 7% da vegetação original e, apesar das restrições legais, o desmatamento continua. De acordo com o último Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, no período de 2008 a 2010 o bioma perdeu mais de 20 mil hectares, sem contar os Estados do Nordeste. “É preciso que as políticas públicas que incentivam a conservação e a fiscalização atuem de maneira mais efetiva para garantir a manutenção da floresta e, por consequência, dos serviços ambientais para milhões de pessoas que dependem de seus recursos naturais”, pondera Marcia Hirota, diretora da organização não-governamental SOS Mata Atlântica.

A questão também preocupa porque em seus diferentes ecossistemas a região reúne uma das maiores diversidades biológicas do planeta. No Estado de São Paulo, uma das principais zonas cafeeiras, existem mais de 800 mil hectares de florestas. Um terço se localiza em áreas de menor aptidão agrícola e pelo menos 95 mil hectares é de restauração, segundo o último Inventário Florestal (2008). Há extensas áreas abandonas por baixo rendimento. Apenas 30% da floresta que restou está em unidade de conservação com parques e reservas ecológicas, o que demonstra a importância do papel das propriedades particulares na conservação da biodiversidade.

No Sul da Bahia, o café divide espaço em propriedades rurais com mata nativa, pastagem e extensos plantios de eucalipto que abastecem a indústria de celulose e papel. No momento, a produção cafeeira na região não é diretamente objeto da certificação socioambiental, mas a disseminação de boas práticas em outros cultivos pode acelerar o processo. “Conservada ou recuperada, a floresta mantém o equilíbrio natural, reduzindo pragas que atacam o cafezal”, ressalta Ricardo Covre, dono da Fazenda Sempre Viva, no município de Itabela (BA). Entre outras espécies, o proprietário planta pau-brasil -- espécie exaustivamente explorada pelos colonizadores, hoje símbolo de conservação. Ele completa: “Temos a certificação FSC (Forest Stewardship Council) para o eucalipto e tendência é aplicarmos critérios socioambientais também para o café”. A propriedade integra projetos de reflorestamento beneficiados por créditos de carbono -- os primeiros aprovados na Mata Atlântica pelo The Climate, Community and Biodiversity Alliance (CCBA). Inicialmente foram validados 317 hectares de restauração florestal, capazes de absorver em 30 anos cerca de 100 mil toneladas de dióxido de carbono, negociados no mercado voluntário com empresas interessadas em compensar suas emissões de gases do efeito estufa.

O projeto é cultivar no total 1 mil hectares com espécies nativas em lugares desmatados até 1990, fixando 1,2 milhão de toneladas de carbono da atmosfera. Os proprietários assinaram compromisso para recuperar e conservar a mata em bom estado nesse período. Na Fazenda Monte Pascoal, onde 385 hectares estão cobertos por café, a borda de lagoas e os vales com antigas pastagens degradadas estão sendo reflorestados. A área se localiza no Corredor de Biodiversidade Monte Pascoal-Pau Brasil, definido como de alta importância para conservação mediante cruzamento de mapas da fauna, flora, atividades econômicas, relevo, população e área urbana, entre outros fatores. A estratégia foi selecionar áreas-âncora para concentrar esforços de proteção, restauração florestal e geração de renda. Com esse objetivo, organizações não-governamentais articulam parceiros e proprietários da região para recobrir a paisagem, unindo pedaços isolados de Mata Atlântica que escaparam da devastação ao longo dos séculos.

O café faz parte desta história. A conexão de fragmentos florestais permite a fauna transitar por espaços maiores de verde, trocar genes para a garantia de uma reprodução saudável e, assim, encontrar melhores condições de sobrevivência. Veados, onças-pardas, mutuns e outras aves raríssimas, como a exuberante harpia, freqüentam aquelas terras. E como resultado da maior conservação animais antes sumidos têm mais chances de retornar ao habitat. A meta no Corredor Monte Pascoal-Pau Brasil, delimitado pela bacia do rio Caraívas, é proteger 20 mil hectares da floresta e restaurar outros 4 mil.

Fazendeiros que antes cediam áreas a madeireiros para o abate de árvores em troca de capim para criar gado adquiriram novos hábitos. Em propriedades que em sua grande parte unem cafezais, eucalipto e gado, a recomposição florestal é operada pela Cooplantar -- cooperativa de plantadores de floresta inédita no país, criada a partir de um mutirão popular para proteção do rio Caraívas, ameaçado pelo desmatamento das cabeceiras. Ex-caçador de pássaros, José Dílson Dias, presidente da cooperativa, hoje se dedica a convencer proprietários rurais a plantar árvores. Sob sua liderança, os cooperados ganham nova fonte de renda. É o caso de Roberto Lima do Amaral, que trabalha na colheita durante a safra do café ganhando R$ 45 por dia, entre abril e junho, e no restante do ano recebe R$ 600 mensais para o plantio de mudas nativas nas fazendas.

São aroeiras, cedros, jacarandás e muitas outras. O trabalho tem como base científica o guia de procedimentos elaborado pelo Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, com base em estudos da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP, em Piracicaba. As regras garantem o sucesso do reflorestamento, desde o roçado até o monitoramento das mudas. E também promovem a diversidade genética, com plantio de pelo menos 80 diferentes espécies por área equivalente a um campo de futebol.

As mudas têm como origem as sementes coletadas na natureza por David dos Santos Souza, o Marola, e sua turma de mateiros. “No começo era chamado de maluco”, conta o rapaz, habilidoso em subir no alto de palmeiras com cordas. Recentemente, o grupo ganhou equipamento de rapel para a escalada. O trabalho é duro. Subindo de árvore em árvore, o mateiro consegue recolher por dia perto de 7 mil sementes. Quarenta por cento do que encontra fica por lá para alimentar animais e a manter a mata. Ex-lavradores, os coletores de sementes ganham hoje três vezes mais abastecendo viveiros de reflorestamento próximos aos cultivos de café. E demonstram que gerar renda e obter o sustento de atividades econômicas menos degradantes são essenciais para o uso sustentável da Mata Atlântica.

O café é um dos principais vilões da secular destruição da Mata Atlântica, castigada desde quando os colonizadores extraíam pau-brasil à exaustão para enriquecer a Coroa Portuguesa. Restaram 7% da vegetação original e, apesar das restrições legais, o desmatamento continua. De acordo com o último Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, no período de 2008 a 2010 o bioma perdeu mais de 20 mil hectares, sem contar os Estados do Nordeste. “É preciso que as políticas públicas que incentivam a conservação e a fiscalização atuem de maneira mais efetiva para garantir a manutenção da floresta e, por consequência, dos serviços ambientais para milhões de pessoas que dependem de seus recursos naturais”, pondera Marcia Hirota, diretora da organização não-governamental SOS Mata Atlântica.

A questão também preocupa porque em seus diferentes ecossistemas a região reúne uma das maiores diversidades biológicas do planeta. No Estado de São Paulo, uma das principais zonas cafeeiras, existem mais de 800 mil hectares de florestas. Um terço se localiza em áreas de menor aptidão agrícola e pelo menos 95 mil hectares é de restauração, segundo o último Inventário Florestal (2008). Há extensas áreas abandonas por baixo rendimento. Apenas 30% da floresta que restou está em unidade de conservação com parques e reservas ecológicas, o que demonstra a importância do papel das propriedades particulares na conservação da biodiversidade.

No Sul da Bahia, o café divide espaço em propriedades rurais com mata nativa, pastagem e extensos plantios de eucalipto que abastecem a indústria de celulose e papel. No momento, a produção cafeeira na região não é diretamente objeto da certificação socioambiental, mas a disseminação de boas práticas em outros cultivos pode acelerar o processo. “Conservada ou recuperada, a floresta mantém o equilíbrio natural, reduzindo pragas que atacam o cafezal”, ressalta Ricardo Covre, dono da Fazenda Sempre Viva, no município de Itabela (BA). Entre outras espécies, o proprietário planta pau-brasil -- espécie exaustivamente explorada pelos colonizadores, hoje símbolo de conservação. Ele completa: “Temos a certificação FSC (Forest Stewardship Council) para o eucalipto e tendência é aplicarmos critérios socioambientais também para o café”. A propriedade integra projetos de reflorestamento beneficiados por créditos de carbono -- os primeiros aprovados na Mata Atlântica pelo The Climate, Community and Biodiversity Alliance (CCBA). Inicialmente foram validados 317 hectares de restauração florestal, capazes de absorver em 30 anos cerca de 100 mil toneladas de dióxido de carbono, negociados no mercado voluntário com empresas interessadas em compensar suas emissões de gases do efeito estufa.

O projeto é cultivar no total 1 mil hectares com espécies nativas em lugares desmatados até 1990, fixando 1,2 milhão de toneladas de carbono da atmosfera. Os proprietários assinaram compromisso para recuperar e conservar a mata em bom estado nesse período. Na Fazenda Monte Pascoal, onde 385 hectares estão cobertos por café, a borda de lagoas e os vales com antigas pastagens degradadas estão sendo reflorestados. A área se localiza no Corredor de Biodiversidade Monte Pascoal-Pau Brasil, definido como de alta importância para conservação mediante cruzamento de mapas da fauna, flora, atividades econômicas, relevo, população e área urbana, entre outros fatores. A estratégia foi selecionar áreas-âncora para concentrar esforços de proteção, restauração florestal e geração de renda. Com esse objetivo, organizações não-governamentais articulam parceiros e proprietários da região para recobrir a paisagem, unindo pedaços isolados de Mata Atlântica que escaparam da devastação ao longo dos séculos.

O café faz parte desta história. A conexão de fragmentos florestais permite a fauna transitar por espaços maiores de verde, trocar genes para a garantia de uma reprodução saudável e, assim, encontrar melhores condições de sobrevivência. Veados, onças-pardas, mutuns e outras aves raríssimas, como a exuberante harpia, freqüentam aquelas terras. E como resultado da maior conservação animais antes sumidos têm mais chances de retornar ao habitat. A meta no Corredor Monte Pascoal-Pau Brasil, delimitado pela bacia do rio Caraívas, é proteger 20 mil hectares da floresta e restaurar outros 4 mil.

Fazendeiros que antes cediam áreas a madeireiros para o abate de árvores em troca de capim para criar gado adquiriram novos hábitos. Em propriedades que em sua grande parte unem cafezais, eucalipto e gado, a recomposição florestal é operada pela Cooplantar -- cooperativa de plantadores de floresta inédita no país, criada a partir de um mutirão popular para proteção do rio Caraívas, ameaçado pelo desmatamento das cabeceiras. Ex-caçador de pássaros, José Dílson Dias, presidente da cooperativa, hoje se dedica a convencer proprietários rurais a plantar árvores. Sob sua liderança, os cooperados ganham nova fonte de renda. É o caso de Roberto Lima do Amaral, que trabalha na colheita durante a safra do café ganhando R$ 45 por dia, entre abril e junho, e no restante do ano recebe R$ 600 mensais para o plantio de mudas nativas nas fazendas.

São aroeiras, cedros, jacarandás e muitas outras. O trabalho tem como base científica o guia de procedimentos elaborado pelo Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, com base em estudos da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP, em Piracicaba. As regras garantem o sucesso do reflorestamento, desde o roçado até o monitoramento das mudas. E também promovem a diversidade genética, com plantio de pelo menos 80 diferentes espécies por área equivalente a um campo de futebol.

As mudas têm como origem as sementes coletadas na natureza por David dos Santos Souza, o Marola, e sua turma de mateiros. “No começo era chamado de maluco”, conta o rapaz, habilidoso em subir no alto de palmeiras com cordas. Recentemente, o grupo ganhou equipamento de rapel para a escalada. O trabalho é duro. Subindo de árvore em árvore, o mateiro consegue recolher por dia perto de 7 mil sementes. Quarenta por cento do que encontra fica por lá para alimentar animais e a manter a mata. Ex-lavradores, os coletores de sementes ganham hoje três vezes mais abastecendo viveiros de reflorestamento próximos aos cultivos de café. E demonstram que gerar renda e obter o sustento de atividades econômicas menos degradantes são essenciais para o uso sustentável da Mata Atlântica.

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