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Itacoatiara (AM) - Escuridão amazônica

Ao pé da linha de transmissão, a falta de energia interfere no funcionamento de escolas e dificultam o beneficiamento da produção

· Amazonas

Sem alternativas no sertão nordestino, Antônio Martins dos Santos, 56 anos, conhecido pelo apelido de “Piauí”, optou se aventurar no isolamento da Floresta Amazônica para tomar posse de um lugar sem dono e ganhar a vida cortando madeira. Antes de deixar a terra natal, o retirante vendeu tudo, inclusive geladeira e televisão. Não fazia sentido tê-las na nova morada. E a razão é simples: o local que escolheu para fincar raízes, a comunidade São Raimundo, no município de Itacoatiara (AM), não tem acesso à energia elétrica; vive na escuridão.

A sua história não seria muito diferente da saga que se repete por décadas na floresta, não fosse um pequeno detalhe, símbolo dos paradoxos amazônicos. O lote de terra ocupado pelo morador abriga uma torre do Linhão Tucuruí-Manaus – linha de transmissão de energia que foi inaugurada em julho deste ano, ao custo de R$ 3,5 bilhões, e cruza o povoado refém da lamparina. Naquele quinhão da Amazônia tão rica em recursos hídricos, a falta de eletricidade impede ligar bombas para puxar água dos rios. “Temos de carregar tambores nas costas por longa distância”, conta Piauí, satisfeito por pelo menos ter conseguido indenização de R$ 4 mil pela instalação da torre no seu terreno.

Na falta de refrigeração, carne e peixe são conservados no sal. E antigos projetos de criação de tambaqui e pirarucu em cativeiro permanecem na gaveta. Diante da dificuldade, recorre-se ao desmatamento para fazer carvão como subsistência. “Crianças sofrem com a fuligem dos fornos”, reclama Márcio Ribeiro, coordenador da associação local. A esperança de luz estaria no gerador a diesel da comunidade, mas o motor está sempre parado devido a defeitos ou porque não há dinheiro para pagar R$ 5 pelo litro do combustível. Em cenário de pobreza, as famílias convivem com questões delicadas, como a gravidez na adolescência – “um meio de conseguir benefícios do governo, como o auxílio da Bolsa Família”, revela Elisvaldo Rodrigues, também morador da vila. Ele lamenta: “A energia passa aqui por cima e vai para os ricos”.

Com extensão de 1,5 mil km rasgando a floresta, o Linhão liga a Hidrelétrica de Tucuruí (PA) a Macapá (AP) e Manaus (AM), onde se localiza o distrito industrial da Zona Franca, hoje em expansão. Para atravessar o Rio Amazonas, entre o Pará e o Amapá, foram construídas duas torres de 300 metros em cada margem – um pouco menos do que os 324 metros da Torre Eiffel, em Paris. Ao interligar a Região Norte ao sistema elétrico nacional, a obra pretende sustentar o crescimento econômico da Amazônia, com menos apagões. Quando as redes de distribuição estiverem prontas, o plano é o desligamento das usinas térmicas que geram energia poluente e cara, subsidiada pela conta de luz paga por todos os brasileiros.

A dependência de fontes sujas, emissoras de gases-estufa, mancha a imagem da Amazônia e sua função estratégica para o equilíbrio do clima global. No Amazonas, a matriz

energética é liderada por termelétricas abastecidas por cerca de 1 bilhão de litros de óleo por ano, além de gás natural. Há milhares de pequenos geradores movidos a combustível fóssil espalhados na floresta.

Em localidades isoladas, as restrições de energia interferem no funcionamento de escolas e dificultam o beneficiamento da produção extrativista para que frutos, sementes e óleos naturais tenham maior valor de venda para indústrias de cosméticos ou medicamentos. O problema contribui para que a floresta apresente expressivo déficit social em relação ao resto do País, conforme levantamento recém-divulgado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Entre os 43 indicadores avaliados no Índice de Progresso Social para a Amazônia, o saneamento é um dos itens mais preocupantes.

A saída está em inovações como o sistema de desinfecção solar de água, idealizado pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia. Na Universidade Federal do Amazonas, a atenção se dirige à produção de biodiesel a partir do caroço do açaí. Pode ser uma boa ideia para a geração de energia renovável. Na última década, o consumo do fruto rompeu a fronteira da floresta e se disseminou por todo o Brasil. Se tudo der certo, quem aprecia a iguaria nas grandes capitais terá um motivo a mais para degustá-la.

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