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Itu (SP) - A arte do recobrimento

· são paulo

 

Após três séculos de exploração desde o ciclo econômico da cultura cafeeira, pouco restou de mata nativa às margens da rodovia Marechal Rondon (SP-300), uma homenagem ao sertanista brasileiro que abriu caminhos e desbravou terras para o povoamento do oeste do País. De lado a lado, a paisagem é pontilhada por pequenos e raros nacos de floresta, aqui e acolá. Em cenário hoje ocupado por indústrias e cidades cada vez maiores que se juntam umas às outras, uma propriedade rural incomum chama atenção. No portão de entrada, à beira da rodovia, no município de Itu (SP), a 102 km da capital paulista, a placa “Centro de Experimentos Florestais” sinaliza a busca de conhecimento para virar o jogo da destruição. E indica que nada está totalmente perdido diante dos atuais esforços para a restauração da Mata Atlântica.

 

O trabalho lá desenvolvido reflete a expectativa de se atingir um novo patamar no conserto dos estragos, abrangendo o bioma como um todo. No local, a estrutura abandonada de uma antiga fazenda de café transformou-se em trincheira para produção de mudas, pesquisas, educação ambiental e capacitação técnica, destinadas à conservação e recuperação da floresta. No lugar dos terreiros de secagem dos grãos foram construídos estacionamentos e viveiros com capacidade de 750 mil mudas por ano, de mais de 80 espécies nativas. Velhos armazéns viraram auditório, alojamentos e escritórios. E as casas dos antigos moradores abrigarão a futura biblioteca. Ao lado do jardim sensorial para o contato de deficientes com a natureza, o Centro de Interpretação da Mata Atlântica reproduz de maneira lúdica a dinâmica e interações da floresta, tendo recebido 8 mil visitantes em 2014.

 

A história de transformações começou em 2007, quando a propriedade foi cedida em regime de comodato à Fundação SOS Mata Atlântica pela indústria de bebidas Brasil Kirin, que a utiliza como fonte hídrica para a fábrica, instalada na vizinhança. A parceria foi além da adequação às normas ambientais, com recomposição da reserva legal e Áreas de Proteção Permanente (APP). Mais de dois terços dos 524 hectares receberam plantio de quase 800 mil mudas que aos poucos redesenham a paisagem original, com funções vitais de uma floresta.

 

Assim, diante da estrutura técnico-científica lá existente, a área tornou-se referência de restauração florestal bem sucedida. Após cinco anos de trabalho, o volume da água subterrânea aumentou 20%. O da superficial cresceu 5%, com surgimento de duas novas nascentes perenes, que hoje totalizam 19.

 

Do alto de uma torre metálica que funciona como mirante, é possível constatar o resultado do recobrimento do espaço ocupado por pastagens após o período histórico do café. Em solo, uma trilha interpretativa cruza remanescentes florestais e áreas em processo de restauração, permitindo verificar em campo detalhes de como a paisagem nativa renasce. Recepcionado por um coral de cigarras, o visitante caminha por matas secundárias, onde a exploração de madeira no passado poupou relíquias como jequitibás, copaíbas e enormes cipós conhecidos como “escada de macacos”. Pegadas de onça-parda, já encontradas ali, indicam a qualidade do ambiente que se regenera.

 

A produção de mudas e a geração de conhecimento pelos experimentos em Itu nutrem ações da SOS Mata Atlântica, conduzidas também em outras regiões do bioma, para o fomento à plantação de espécies nativas e o desenvolvimento da cadeia da restauração florestal. A atividade integra proprietários rurais, viveiros, coletores de sementes e empresas especializadas em projetos de reflorestamento. No programa Florestas do Futuro, criado em 2004, foram plantadas até o momento 5 milhões de mudas, totalizando 136 projetos, grande parte ligada a empresas. Uma delas, o grupo NKG, um dos maiores exportadores de café do mundo, patrocinou o reflorestamento de APP em fazendas de Santo Antônio do Amparo (MG) para cumprir as normas do selo socioambiental Rainforest Alliance, exigido por compradores no exterior. Enquanto em Campinas (SP) condomínios residenciais receberam mudas para a restauração da mata como diferencial que valoriza o imóvel, no município de Pinheiral (RJ) o projeto de reflorestamento na fazenda do Colégio Agrícola Nilo Peçanha tornou-se ferramenta de educação.

 

As iniciativas ilustram um novo modo de enxergar a conservação de florestas e a recuperação do que foi destruído – não mais como empecilho aos negócios ou uma obrigação que significa apenas custos. A recente crise hídrica de São Paulo ecoou o alerta. “Ao proteger nascentes e atrair polinizadores, por exemplo, as ações reduzem riscos e geram aumento da produtividade”, afirma Rafael Bitante Fernandes, coordenador de restauração florestal da SOS Mata Atlântica. “Aos poucos, vencemos barreiras como a falta de políticas e a desinformação sobre as relações das florestas com os ganhos econômicos no campo e a qualidade de vida nas cidades”.

 

O cenário atual é fruto de um dos primeiros programas institucionais que direcionaram esforços à restauração florestal: o Clickarvore, idealizado no ano 2000 para angariar adeptos à causa do recobrimento do bioma, por meio da internet. O resultado superou as expectativas e hoje a plataforma digital se constitui em uma das principais ferramentas de mobilização para o plantio de árvores no País. Cada click no site vale um voto para definir as regiões onde serão plantadas as mudas patrocinadas por empresas parceiras do programa. Fornecidas pelo viveiro da SOS Mata Atlântica ou por outros espalhados pelo bioma, as espécies nativas são cultivadas mediante assistência técnica em propriedades rurais que ofereceram áreas para reflorestamento, com compromisso de fazer a manutenção das mudas em crescimento.

 

Em dez anos, foram doadas 21 milhões de mudas para plantio em propriedades de 10 estados, no total de 1,7 mil projetos, com prioridade para Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), restauração de APP, conectividade de paisagens, proteção de recursos hídricos e demanda de certificação.

 

Diante do grande interesse, o programa foi aperfeiçoado ao longo do tempo para a otimização dos plantios. O número de mudas por hectare aumentou 1,7 mil para 2,5 mil, abrangendo no mínimo 80 espécies nativas. Em paralelo, os esforços foram centrados em estados que adotam políticas públicas e normas mais exigentes de restauração florestal, como São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de regiões onde há parcerias e a cadeia de serviços está estruturada. O município de Extrema (MG), por exemplo, famoso pelo programa pioneiro que remunera produtores rurais pela proteção da água, recebeu 300 mil mudas desde 2008.

 

Em 2010, o Clickarvore incorporou uma novidade: proprietários rurais cuja área adquiriu características de floresta três anos após o plantio das mudas passaram a receber incentivo econômico adicional da SOS Mata Atlântica, como bônus pelo serviço ambiental que prestam à sociedade. O pagamento varia de R$ 0,08 a R$ 0,49 por hectare, conforme o tamanho total da área.

 

O benefício se estende aos viveiros, que recebem R$ 0,24 por muda fornecida. A estratégia tem contribuído para a viabilidade econômica da produção de mudas nativas. “O olhar agora está no enriquecimento da floresta, na regeneração natural de áreas impactadas sem a necessidade de plantios e no reflorestamento para uso comercial”, informa Aretha Medina, coordenadora da produção de mudas pela SOS Mata Atlântica.

 

Pesquisas recentes comprovam o sucesso de novos modelos de restauração que priorizam na fase inicial espécies produtoras de sementes e de recobrimento – aquelas de rápido crescimento que criam um ambiente de floresta no curto prazo, no máximo em dois anos. “Depois a área é enriquecida com espécies medicinais, frutíferas e madeireiras, como o guapuruvu, para aproveitamento econômico”, explica Ricardo Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal, da ESALQ/USP, em Piracicaba (SP). Segundo ele, há estudos indicando que a taxa de retorno anual pode chegar a 15%, o que é bastante atrativo. A atividade pode render até 10 vezes mais que o gado, mas exige a formatação de um sistema de crédito para ser impulsionada.

 

Em função das demandas ambientais, a restauração da paisagem natural tende a ser um novo vetor de desenvolvimento, com geração de emprego e renda. No entanto, falta o mercado enxergá-la como um bom negócio, inclusive no que se refere às transações com carbono, no contexto de um possível acordo climático global a ser definido em 2015. “Além do ganho financeiro, que ajuda na conscientização e agrega valor à floresta reconstruída em reservas legais e APP, as pesquisas científicas têm proporcionado redução dos custos em até 60%”, revela Rodrigues.

 

O atual desafio é atingir maior escala nas soluções. E concentrar estudos em novos métodos de monitoramento dos plantios de mudas para verificar se a floresta reconstruída cumpre suas funções vitais. “Sob o ponto de vista científico, estamos preparados para atender a demanda do Código Florestal”, conclui o pesquisador. Ele lamenta a paralisia da restauração de florestas no País, nos últimos cinco anos, em decorrência das indefinições legais: “A partir de agora, será necessário reconstruir a cadeia produtiva”.

 

A aplicação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), com o mapeamento das áreas que precisam ser recuperadas conforme determina a nova legislação, abre novas perspectivas. De acordo com estudo encomendado à Universidade Federal de Minas Gerais pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, a Mata Atlântica tem um passivo florestal a ser restaurado que totaliza 6 milhões de hectares, incluindo reservas legais e APP – um terço do total registrado para o Brasil.

 

O conserto deverá ser lento e caro. Para o País, a meta do Ministério do Meio Ambiente (MMA) é reflorestar 12,5 milhões de hectares em 20 anos, sendo 390 mil hectares nos primeiros cinco anos. Os dados compõem a proposta de uma Política Nacional de Recuperação de Vegetação Nativa, cujo documento de 79 páginas será disponibilizado para discussão pública no começo de 2015, conforme decisão tomada na última reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente.

 

“O projeto rebate em outros ministérios, inclusive da área econômica, prevendo incentivos ao mercado de produtos florestais”, revela Carlos Scaramuzza, diretor de Conservação da Biodiversidade do MMA. A execução do plano, que inclui oito diferentes iniciativas, está orçada inicialmente em R$ 181 milhões. “Há grande interesse no tema, pois a bola da vez é a criação de mecanismos para o Código Florestal ser cumprido na prática”, justifica Scaramuzza.

 

Neste contexto, uma ferramenta se mostra estratégica como subsídio à mobilização da sociedade civil, pesquisas científicas, políticas de governo, planejamento municipal e ações de fiscalização e controle: o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. Lançado em 1990, o mapeamento por imagens de satélite foi continuamente aperfeiçoado, cobrindo hoje todos os 17 estados do bioma. Aplicada pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), a tecnologia de monitoramento evoluiu a ponto de hoje permitir um zoom na área de municípios do bioma para comparar a cobertura florestal de um ano para outro.

 

De acordo com o último estudo, o desmatamento aumentou 9% no período de 2012 a 2013. A perda atingiu 239 km² – a maior taxa anual desde 2008. No total, em quase três décadas, a Mata Atlântica perdeu 18.509 km², equivalente à área de 12 cidades de São Paulo. A floresta que restou cobre o bioma aos pedaços e representa 12,5% da vegetação original, contando os fragmentos de mata nativa acima de 3 hectares.

 

Evidencia-se, assim, a necessidade de esforços para a conexão de fragmentos por meio da regeneração natural e do plantio de árvores, de modo que a biodiversidade tenha condições de sobrevivência e a população se beneficie dos serviços ambientais ofertados por uma floresta bem conservada. O Pacto para Restauração da Mata Atlântica, rede que agrupa várias organizações atuantes no bioma, planeja recompor 15 milhões de hectares para dobrar os atuais remanescentes de vegetação nativa. Em São Paulo, o governo estadual divulgou em 2014 um plano para recobrir 20 mil hectares com floresta. Além disso, a mitigação de obras de infraestrutura, obrigadas a compensar impactos ambientais por meio de reflorestamento, aquece a demanda. No Rio de Janeiro, a estimativa é o plantio de 24 milhões de mudas por conta dos jogos olímpicos de 2016.

 

Mas restauração é apenas uma faceta das soluções. Em paralelo, há o desafio de manter o que restou de floresta nativa contra o apetite de atividades causadoras de desmatamento, como a agropecuária, a expansão imobiliária e a extração de madeira para lenha e carvão. “É mais eficiente e barato remunerar quem preserva do que investir para recuperar áreas desmatadas”, atesta Marcia Hirota, diretora-executiva da SOS Mata Atlântica.

 

Além de dar suporte ao planejamento da paisagem, os dados do desmatamento têm levado o Ministério Público a adotar modelos de controle que agora se disseminam em outros biomas. Os números e as imagens de satélite pressionam governos a agir. A boa notícia vem de Minas Gerais, que permanece na liderança do desmatamento pelo quinto ano consecutivo, mas registrou decréscimo de 22% na derrubada de árvores na última pesquisa. A queda é resultado de moratória que impede a concessão de licenças e autorizações para retirada de vegetação nativa do bioma – medida autorizada pelo governo mineiro após solicitação da SOS Mata Atlântica.

 

Ao localizar os remanescentes florestais, o Atlas subsidia a criação de parques e outras áreas protegidas, a adoção de incentivos – como o ICMS Ecológico – e a elaboração do Plano Municipal da Mata Atlântica, necessário para os 3.429 municípios do bioma acessarem recursos destinados à conservação, conforme determina a lei. A precisão do mapeamento permite descer ao nível local, aproximando proprietários de terra, políticos e organizações não governamentais na busca por soluções. O desafio é ajudar o cidadão a perceber o quanto a floresta pode fazer a diferença na qualidade de vida, especialmente nas cidades.

 

 

Sérgio Adeodato é repórter especializado em temas socioambientais, com atuação em veículos como Valor Econômico e revista Página 22, e autor dos livros Amazônia – Floresta Assassinada (Terceiro Nome, São Paulo), Reciclagem Ontem, Hoje e Sempre (CEMPRE, São Paulo), A Natureza do Piauí (Suzano, São Paulo), Compras Sustentáveis (FGV, São Paulo) e Caatinga Selvagem – O legado de um projeto de desenvolvimento para a conservação da fauna (MCLE, São Paulo).

 

 

Publicado originalmente na Coletânea | Conhecimento 2014

Florestas, da SOS Mata Atlântica

Após três séculos de exploração desde o ciclo econômico da cultura cafeeira, pouco restou de mata nativa às margens da rodovia Marechal Rondon (SP-300), uma homenagem ao sertanista brasileiro que abriu caminhos e desbravou terras para o povoamento do oeste do País. De lado a lado, a paisagem é pontilhada por pequenos e raros nacos de floresta, aqui e acolá. Em cenário hoje ocupado por indústrias e cidades cada vez maiores que se juntam umas às outras, uma propriedade rural incomum chama atenção. No portão de entrada, à beira da rodovia, no município de Itu (SP), a 102 km da capital paulista, a placa “Centro de Experimentos Florestais” sinaliza a busca de conhecimento para virar o jogo da destruição. E indica que nada está totalmente perdido diante dos atuais esforços para a restauração da Mata Atlântica.

O trabalho lá desenvolvido reflete a expectativa de se atingir um novo patamar no conserto dos estragos, abrangendo o bioma como um todo. No local, a estrutura abandonada de uma antiga fazenda de café transformou-se em trincheira para produção de mudas, pesquisas, educação ambiental e capacitação técnica, destinadas à conservação e recuperação da floresta. No lugar dos terreiros de secagem dos grãos foram construídos estacionamentos e viveiros com capacidade de 750 mil mudas por ano, de mais de 80 espécies nativas. Velhos armazéns viraram auditório, alojamentos e escritórios. E as casas dos antigos moradores abrigarão a futura biblioteca. Ao lado do jardim sensorial para o contato de deficientes com a natureza, o Centro de Interpretação da Mata Atlântica reproduz de maneira lúdica a dinâmica e interações da floresta, tendo recebido 8 mil visitantes em 2014.

A história de transformações começou em 2007, quando a propriedade foi cedida em regime de comodato à Fundação SOS Mata Atlântica pela indústria de bebidas Brasil Kirin, que a utiliza como fonte hídrica para a fábrica, instalada na vizinhança. A parceria foi além da adequação às normas ambientais, com recomposição da reserva legal e Áreas de Proteção Permanente (APP). Mais de dois terços dos 524 hectares receberam plantio de quase 800 mil mudas que aos poucos redesenham a paisagem original, com funções vitais de uma floresta.

Assim, diante da estrutura técnico-científica lá existente, a área tornou-se referência de restauração florestal bem sucedida. Após cinco anos de trabalho, o volume da água subterrânea aumentou 20%. O da superficial cresceu 5%, com surgimento de duas novas nascentes perenes, que hoje totalizam 19.

Do alto de uma torre metálica que funciona como mirante, é possível constatar o resultado do recobrimento do espaço ocupado por pastagens após o período histórico do café. Em solo, uma trilha interpretativa cruza remanescentes florestais e áreas em processo de restauração, permitindo verificar em campo detalhes de como a paisagem nativa renasce. Recepcionado por um coral de cigarras, o visitante caminha por matas secundárias, onde a exploração de madeira no passado poupou relíquias como jequitibás, copaíbas e enormes cipós conhecidos como “escada de macacos”. Pegadas de onça-parda, já encontradas ali, indicam a qualidade do ambiente que se regenera.

A produção de mudas e a geração de conhecimento pelos experimentos em Itu nutrem ações da SOS Mata Atlântica, conduzidas também em outras regiões do bioma, para o fomento à plantação de espécies nativas e o desenvolvimento da cadeia da restauração florestal. A atividade integra proprietários rurais, viveiros, coletores de sementes e empresas especializadas em projetos de reflorestamento. No programa Florestas do Futuro, criado em 2004, foram plantadas até o momento 5 milhões de mudas, totalizando 136 projetos, grande parte ligada a empresas. Uma delas, o grupo NKG, um dos maiores exportadores de café do mundo, patrocinou o reflorestamento de APP em fazendas de Santo Antônio do Amparo (MG) para cumprir as normas do selo socioambiental Rainforest Alliance, exigido por compradores no exterior. Enquanto em Campinas (SP) condomínios residenciais receberam mudas para a restauração da mata como diferencial que valoriza o imóvel, no município de Pinheiral (RJ) o projeto de reflorestamento na fazenda do Colégio Agrícola Nilo Peçanha tornou-se ferramenta de educação.

As iniciativas ilustram um novo modo de enxergar a conservação de florestas e a recuperação do que foi destruído – não mais como empecilho aos negócios ou uma obrigação que significa apenas custos. A recente crise hídrica de São Paulo ecoou o alerta. “Ao proteger nascentes e atrair polinizadores, por exemplo, as ações reduzem riscos e geram aumento da produtividade”, afirma Rafael Bitante Fernandes, coordenador de restauração florestal da SOS Mata Atlântica. “Aos poucos, vencemos barreiras como a falta de políticas e a desinformação sobre as relações das florestas com os ganhos econômicos no campo e a qualidade de vida nas cidades”.

O cenário atual é fruto de um dos primeiros programas institucionais que direcionaram esforços à restauração florestal: o Clickarvore, idealizado no ano 2000 para angariar adeptos à causa do recobrimento do bioma, por meio da internet. O resultado superou as expectativas e hoje a plataforma digital se constitui em uma das principais ferramentas de mobilização para o plantio de árvores no País. Cada click no site vale um voto para definir as regiões onde serão plantadas as mudas patrocinadas por empresas parceiras do programa. Fornecidas pelo viveiro da SOS Mata Atlântica ou por outros espalhados pelo bioma, as espécies nativas são cultivadas mediante assistência técnica em propriedades rurais que ofereceram áreas para reflorestamento, com compromisso de fazer a manutenção das mudas em crescimento.

Em dez anos, foram doadas 21 milhões de mudas para plantio em propriedades de 10 estados, no total de 1,7 mil projetos, com prioridade para Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), restauração de APP, conectividade de paisagens, proteção de recursos hídricos e demanda de certificação.

Diante do grande interesse, o programa foi aperfeiçoado ao longo do tempo para a otimização dos plantios. O número de mudas por hectare aumentou 1,7 mil para 2,5 mil, abrangendo no mínimo 80 espécies nativas. Em paralelo, os esforços foram centrados em estados que adotam políticas públicas e normas mais exigentes de restauração florestal, como São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de regiões onde há parcerias e a cadeia de serviços está estruturada. O município de Extrema (MG), por exemplo, famoso pelo programa pioneiro que remunera produtores rurais pela proteção da água, recebeu 300 mil mudas desde 2008.

Em 2010, o Clickarvore incorporou uma novidade: proprietários rurais cuja área adquiriu características de floresta três anos após o plantio das mudas passaram a receber incentivo econômico adicional da SOS Mata Atlântica, como bônus pelo serviço ambiental que prestam à sociedade. O pagamento varia de R$ 0,08 a R$ 0,49 por hectare, conforme o tamanho total da área.

O benefício se estende aos viveiros, que recebem R$ 0,24 por muda fornecida. A estratégia tem contribuído para a viabilidade econômica da produção de mudas nativas. “O olhar agora está no enriquecimento da floresta, na regeneração natural de áreas impactadas sem a necessidade de plantios e no reflorestamento para uso comercial”, informa Aretha Medina, coordenadora da produção de mudas pela SOS Mata Atlântica.

Pesquisas recentes comprovam o sucesso de novos modelos de restauração que priorizam na fase inicial espécies produtoras de sementes e de recobrimento – aquelas de rápido crescimento que criam um ambiente de floresta no curto prazo, no máximo em dois anos. “Depois a área é enriquecida com espécies medicinais, frutíferas e madeireiras, como o guapuruvu, para aproveitamento econômico”, explica Ricardo Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal, da ESALQ/USP, em Piracicaba (SP). Segundo ele, há estudos indicando que a taxa de retorno anual pode chegar a 15%, o que é bastante atrativo. A atividade pode render até 10 vezes mais que o gado, mas exige a formatação de um sistema de crédito para ser impulsionada.

Em função das demandas ambientais, a restauração da paisagem natural tende a ser um novo vetor de desenvolvimento, com geração de emprego e renda. No entanto, falta o mercado enxergá-la como um bom negócio, inclusive no que se refere às transações com carbono, no contexto de um possível acordo climático global a ser definido em 2015. “Além do ganho financeiro, que ajuda na conscientização e agrega valor à floresta reconstruída em reservas legais e APP, as pesquisas científicas têm proporcionado redução dos custos em até 60%”, revela Rodrigues.

O atual desafio é atingir maior escala nas soluções. E concentrar estudos em novos métodos de monitoramento dos plantios de mudas para verificar se a floresta reconstruída cumpre suas funções vitais. “Sob o ponto de vista científico, estamos preparados para atender a demanda do Código Florestal”, conclui o pesquisador. Ele lamenta a paralisia da restauração de florestas no País, nos últimos cinco anos, em decorrência das indefinições legais: “A partir de agora, será necessário reconstruir a cadeia produtiva”.

A aplicação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), com o mapeamento das áreas que precisam ser recuperadas conforme determina a nova legislação, abre novas perspectivas. De acordo com estudo encomendado à Universidade Federal de Minas Gerais pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, a Mata Atlântica tem um passivo florestal a ser restaurado que totaliza 6 milhões de hectares, incluindo reservas legais e APP – um terço do total registrado para o Brasil.

O conserto deverá ser lento e caro. Para o País, a meta do Ministério do Meio Ambiente (MMA) é reflorestar 12,5 milhões de hectares em 20 anos, sendo 390 mil hectares nos primeiros cinco anos. Os dados compõem a proposta de uma Política Nacional de Recuperação de Vegetação Nativa, cujo documento de 79 páginas será disponibilizado para discussão pública no começo de 2015, conforme decisão tomada na última reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente.

“O projeto rebate em outros ministérios, inclusive da área econômica, prevendo incentivos ao mercado de produtos florestais”, revela Carlos Scaramuzza, diretor de Conservação da Biodiversidade do MMA. A execução do plano, que inclui oito diferentes iniciativas, está orçada inicialmente em R$ 181 milhões. “Há grande interesse no tema, pois a bola da vez é a criação de mecanismos para o Código Florestal ser cumprido na prática”, justifica Scaramuzza.

Neste contexto, uma ferramenta se mostra estratégica como subsídio à mobilização da sociedade civil, pesquisas científicas, políticas de governo, planejamento municipal e ações de fiscalização e controle: o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. Lançado em 1990, o mapeamento por imagens de satélite foi continuamente aperfeiçoado, cobrindo hoje todos os 17 estados do bioma. Aplicada pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), a tecnologia de monitoramento evoluiu a ponto de hoje permitir um zoom na área de municípios do bioma para comparar a cobertura florestal de um ano para outro.

De acordo com o último estudo, o desmatamento aumentou 9% no período de 2012 a 2013. A perda atingiu 239 km² – a maior taxa anual desde 2008. No total, em quase três décadas, a Mata Atlântica perdeu 18.509 km², equivalente à área de 12 cidades de São Paulo. A floresta que restou cobre o bioma aos pedaços e representa 12,5% da vegetação original, contando os fragmentos de mata nativa acima de 3 hectares.

Evidencia-se, assim, a necessidade de esforços para a conexão de fragmentos por meio da regeneração natural e do plantio de árvores, de modo que a biodiversidade tenha condições de sobrevivência e a população se beneficie dos serviços ambientais ofertados por uma floresta bem conservada. O Pacto para Restauração da Mata Atlântica, rede que agrupa várias organizações atuantes no bioma, planeja recompor 15 milhões de hectares para dobrar os atuais remanescentes de vegetação nativa. Em São Paulo, o governo estadual divulgou em 2014 um plano para recobrir 20 mil hectares com floresta. Além disso, a mitigação de obras de infraestrutura, obrigadas a compensar impactos ambientais por meio de reflorestamento, aquece a demanda. No Rio de Janeiro, a estimativa é o plantio de 24 milhões de mudas por conta dos jogos olímpicos de 2016.

Mas restauração é apenas uma faceta das soluções. Em paralelo, há o desafio de manter o que restou de floresta nativa contra o apetite de atividades causadoras de desmatamento, como a agropecuária, a expansão imobiliária e a extração de madeira para lenha e carvão. “É mais eficiente e barato remunerar quem preserva do que investir para recuperar áreas desmatadas”, atesta Marcia Hirota, diretora-executiva da SOS Mata Atlântica.

Além de dar suporte ao planejamento da paisagem, os dados do desmatamento têm levado o Ministério Público a adotar modelos de controle que agora se disseminam em outros biomas. Os números e as imagens de satélite pressionam governos a agir. A boa notícia vem de Minas Gerais, que permanece na liderança do desmatamento pelo quinto ano consecutivo, mas registrou decréscimo de 22% na derrubada de árvores na última pesquisa. A queda é resultado de moratória que impede a concessão de licenças e autorizações para retirada de vegetação nativa do bioma – medida autorizada pelo governo mineiro após solicitação da SOS Mata Atlântica.

Ao localizar os remanescentes florestais, o Atlas subsidia a criação de parques e outras áreas protegidas, a adoção de incentivos – como o ICMS Ecológico – e a elaboração do Plano Municipal da Mata Atlântica, necessário para os 3.429 municípios do bioma acessarem recursos destinados à conservação, conforme determina a lei. A precisão do mapeamento permite descer ao nível local, aproximando proprietários de terra, políticos e organizações não governamentais na busca por soluções. O desafio é ajudar o cidadão a perceber o quanto a floresta pode fazer a diferença na qualidade de vida, especialmente nas cidades.

Sérgio Adeodato é repórter especializado em temas socioambientais, com atuação em veículos como Valor Econômico e revista Página 22, e autor dos livros Amazônia – Floresta Assassinada (Terceiro Nome, São Paulo), Reciclagem Ontem, Hoje e Sempre (CEMPRE, São Paulo), A Natureza do Piauí (Suzano, São Paulo), Compras Sustentáveis (FGV, São Paulo) e Caatinga Selvagem – O legado de um projeto de desenvolvimento para a conservação da fauna (MCLE, São Paulo).

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