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Linhares (ES) - Mineradora aposta no valor intangível de reserva natural no ES

· Espirito santo

A conclusão de um estudo pioneiro no Brasil que no ano passado calculou em US$ 1 bilhão o valor dos benefícios gerados à sociedade e ao meio ambiente pela reserva natural da mineradora Vale, em Linhares (ES), tornou-se referência para o entendimento dos acionistas sobre a importância de se manter financeiramente um ativo ambiental que não gera lucro e está dissociado da atividade-fim da empresa. “O resultado foi surpreendente e poderá subsidiar futura receita no mercado de serviços ambientais, em construção no país”, aponta Luiz Felipe Campos, gerente de biodiversidade e florestas.

Os valores do estudo se referem ao simples fato de aquele ambiente existir e estar protegido, e não ao uso efetivo da área. “O patrimônio guardado na Mata Atlântica, território globalmente estratégico sob o ponto de vista da conservação, é chave para a reputação e compromissos internacionais da companhia”, ressalta Campos.

Regulação climática, proteção do solo, polinização, recreação e lazer foram fatores considerados na análise. “Por conta do que representa para a população, a reserva gera muito mais ganhos do que gastos”, atesta Ronaldo Seroa, professor de Economia Ambiental da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e um dos integrantes do estudo, elaborado em parceria com Universidade da Califórnia e a empresa Quest Inteligência de Mercado. A maior parte dos benefícios, diz ele, não se traduz diretamente no fluxo de caixa. É intangível e, assim reconhecido, justifica a manutenção deficitária da área, ao custo R$ 7 milhões por ano e receita de R$ 880 mil com turismo, venda de mudas nativas e outras fontes de recursos.

Com 23 mil hectares, a Reserva Natural da Vale, adjacente aos 46 mil hectares da Reserva Biológica de Sooretama, compõe um mosaico de conservação nesta que foi uma das últimas regiões do litoral brasileiro a ser explorada para madeira, após o ciclo econômico do ouro e do café. A área hoje ocupada pela reserva foi adquirida pela empresa na década de 1950 com objetivo de produzir madeira a ser utilizada como dormentes na Estrada de Ferro Vitória-Minas, que serve à mineração. Vinte anos depois, diante do lento ciclo de crescimento das árvores, percebeu-se que seria mais fácil e barato comprar o material de terceiros, em vez de explorar a floresta, que acabou ganhando outras finalidades.

Aberta à visitação, a reserva tem estrutura de hotelaria e trilhas, onde se observa um dos últimos remanescentes de floresta de tabuleiro, com espécies frondosas de dossel alto, como a maçaranduba, o pequi-vinagreiro e o jequitibá-rosa. Lá foram catalogadas quase 200 espécies da fauna ameaçadas de extinção, como as onças-pintadas hoje monitoradas por câmeras. No centro de visitantes, um museu expõe apetrechos utilizados por caçadores e outros vestígios de atividades geradoras de impacto.

O herbário guarda 14,7 mil amostras de plantas. “São essenciais para entender a dinâmica da floresta”, afirma Geovane Siqueira, o guardião da coleção, botânico autodidata que no passado trabalhava em serraria na produção de vassouras e caixas de madeira para frutas e hoje cursa o segundo ano de Biologia na universidade.

No recinto ao lado, a xiloteca armazena amostras de madeira, algumas já raras na natureza, como o jacarandá-da-Bahia e a sucupira. Parte delas é estudada em campos experimentais de cultivo árvores, dentro da reserva, com propósito de viabilizar plantações comerciais de espécies madeireiras nativas. A castanheira, hoje de exploração proibida na mata natural, é uma das opções promissoras para os plantios, dentro de sistemas agroflorestais. “São importantes outros usos econômicos até as árvores ficarem adultas e prontas para o corte”, explica Jonacir Souza, responsável pelos experimentos.

O projeto se integra ao objetivo de desenvolver a cadeia produtiva da restauração florestal que atende à demanda da mineradora e de outros empreendimentos. A recuperação de áreas degradadas é considerada chave na conservação da Mata Atlântica, negócio que hoje representa uma importante fonte de receita para a reserva, em Linhares, onde há um viveiro capaz de produzir por ano 3 milhões de mudas, rastreadas por sistemas de controle para a garantia da procedência e do êxito dos plantios. As mudas são vendidas para a própria Vale recuperar áreas de mineração e para projetos de reflorestamento, mas a atual demanda é inferior à capacidade. A atividade deverá se expandir quando o Cadastro Ambiental Rural (CAR), previsto pelo novo Código Florestal, sair do papel e servir de base para a regularização das matas nas propriedades rurais.

A coleta e beneficiamento de sementes para o viveiro são realizados por empresa terceirizada, a Nova Floresta, crida por um ex-funcionário da reserva. Na expectativa dessas operações comerciais, entre outros fatores, a mineradora optou por não transformar a área em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), integrando-se ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação. No entanto, no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, 15 RPPN foram criadas e outras cinco estão em processo de criação no entorno das jazidas minerais como medida condicionante para o licenciamento da exploração.

Retranca:

Florestas particulares ajudam país a cumprir metas de biodiversidade

Após amplo debate com o setor empresarial, organizações não governamentais, academia, Estados e Municípios, o governo federal estabeleceu um plano de metas para a aplicação, em nível nacional, dos objetivos para 2020 definidos pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), da qual o Brasil é signatário. Um dos compromissos entre os vinte anunciados no ano passado é proteger 17% do território dos diferentes biomas brasileiros na forma de parques, reservas e outras unidades de conservação. No entanto, a Mata Atlântica, bioma mais rico e populoso do país, com floresta explorada desde o início da colonização, está longe dessa marca. Atualmente, apenas 9,5% da região se encontra em áreas protegidas.

Parte expressiva dos ambientes naturais remanescentes está em terras particulares, associadas a atividades produtivas – o que explica a importância das ações empresariais para o país atingir as metas. “Participamos do processo e vamos cobrar resultados junto ao governo e empresas”, afirma Fernanda Gimenes, coordenadora de Biodiversidade e Finanças Sustentáveis do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

Nos últimos dois anos, apenas duas unidades de conservação públicas foram criadas pelo governo federal na Mata Atlântica. “A boa notícia é que tem crescido significativamente o número de reservas particulares, demonstrando o maior engajamento de empresas e proprietários rurais”, diz Clayton Lino, presidente da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – 35 milhões de hectares declarados pela UNESCO como estratégicos para o planeta, dentro de uma rede internacional de cooperação. Na região já existem quase 900 áreas reconhecidas como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

Falta expandir a criação de áreas protegidas no ambiente marinho, na extensão do mar territorial e da zona econômica exclusiva. O compromisso assumido pelo Brasil prevê 10% de proteção até 2020. Hoje menos de 2% está em parques e outras reservas. Há três anos, um grupo de organizações não governamentais ligado à Reserva da Biosfera propôs a criação de 21 novas unidades de conservação marinhas, o que elevaria a porção protegida para quase 5%. No entanto, apenas uma delas foi decretada até o momento pelo governo federal.

A política nacional voltada ao cumprimento dos objetivos globais sobre biodiversidade inclui também a redução pela metade das perdas de ambientes nativos até 2020. Mas o ritmo de desmatamento da Mata Atlântica voltou a crescer entre 2011 e 2012, quando foram derrubados 23,5 mil hectares, de acordo com levantamento do Instituto de Pesquisas Espaciais e SOS Mata Atlântica.

Entre as Metas de Aichi, definidas há quatro anos no Japão como desdobramento da CDB, está a recuperação de pelo menos 15% dos ecossistemas hoje degradados, com reflexos também no aumento do estoque de carbono. Para atingir o índice, a Mata Atlântica precisaria de um amplo programa de reflorestamento, principalmente em seus 17 milhões de hectares de terras ociosas, sem aptidão agrícola. Há plano para restaurar com plantio de árvores 1 milhão de hectares, o que representaria 40% da meta global aplicada ao bioma.

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