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Linhares (ES) - Uma chance para a Mata Atlântica

 

Empresas, fazendeiros e ambientalistas se unem para juntar os pedaços que restaram de Mata Atlântica, para promover o fluxo de animais e preservar a biodiversidade

· Espirito santo

 

São cinco horas da madrugada. O sol está prestes a nascer no Vale do Mucuri, um rio que corta o extremo-sul da Bahia, região que guarda importantes pedaços de Mata Atlântica que restaram após séculos de desmatamento para exploração de madeira de lei e instalação de pastos e cultivos de cana-de-açúcar. “Está ouvindo isso? É o assovio do gavião-de-cauda-curta”, atesta o biólogo Paulo de Tarso Antas, da Fundação Pró-Natureza (Funatura). Ao seu lado, o geógrafo Marcos Aires, ouvido afiado para identificar aves pelos sons que emitem, pede silêncio. “Olha só, um pica-pau-rei está cutucando a madeira”. Quando a claridade da manhã substitui a escuridão, uma sinfonia de notas musicais toma conta da floresta. Microfone em punho, o técnico agrícola José Francisco Pissinati grava todos os acordes -- o alarme do inhambu-chintã, o resmungar da pomba asa-branca e muitos outros. Enquanto isso, outros técnicos da equipe inspecionam 60 redes estendidas em pontos estratégicos na floresta para capturar pássaros que por ali transitam nos diferentes horários do dia. Os bichos recebem anilhas, marcação que permite identificá-los no futuro em outras regiões, e depois são soltos. As aves dão valiosas pistas sobre a saúde da Mata Atlântica, ecossistema frágil e sensível, hoje submetido a diversas pressões e ameaças. E são utilizadas como arma para um projeto de proporções bem maiores: interligar os pedaços isolados de mata, formando faixas verdes contínuas indispensáveis à preservação da biodiversidade.

Essa é a filosofia dos “corredores de biodiversidade”. Trata-se de um conceito novo, criado na metade da década de 90, no Brasil. Na época, cientistas que participavam do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais no Brasil (PPG-7), com apoio do Banco Mundial, se perguntavam: como a redução da floresta a pequenos pedaços isolados interfere na sobrevivência das espécies e o que fazer para evitar o problema? Unir esforços no sentido de conectar fragmentos de vegetação nativa em áreas de grande importância biológica passou a ser a estratégia de ação. Na Mata Atlântica, esses refúgios são compostos por parques nacionais, reservas ecológicas e outras áreas protegidas por lei, entremeadas por fazendas da gado, cultivos agrícolas e cidades. A função do “corredor”, ao conectar zonas verdes, é garantir a extensão necessária de vegetação nativa para a circulação das espécies, para a reprodução dos animais e vegetais dentro de padrões genéticos saudáveis e para o desenvolvimento sustentável da região. Evita-se, assim, uma espécie de “Big Brother” da floresta, onde o confinamento em pequenos espaços aumenta a competição entre os personagens, tornando a vida muito difícil.

O Corredor Central de Biodiversidade da Mata Atlântica, uma das seis áreas deste tipo criadas no Brasil, estende-se do Recôncavo Baiano ao Sul do Espírito Santo. Reúne lugares com alta concentração de animais e vegetais que só vivem ali e mais em nenhuma parte do mundo. Em Uruçuca (BA), existem 458 espécies de árvore para uma área igual a um campo de futebol, recorde mundial de riqueza em plantas lenhosas. Além disso, 50% das espécies de aves que só existem na Mata Atlântica habitam a área do Corredor Central.

Aves se adaptam ao eucalipto

Quando se trata de recuperar a Mata Atlântica, bioma hoje reduzido a menos de 8% do original, qualquer detalhe -- como o comportamento das aves pesquisadas no Vale do Mucuri -- é muito importante. Durante as expedições, depois de pesar e medir os pássaros, os pesquisadores avaliam as penas para inferir sobre a quantidade de nutrientes da natureza. Se elas estiverem quebradas ou apresentarem problemas de má-formação, é sinal de que há deficiência de proteínas no ambiente. “Desta maneira, as aves não têm como sustentar vôos para fugir de predadores ou buscar alimentos”, explica Paulo de Tarso.

O pesquisador coordena uma equipe de onze técnicos que participa periodicamente de expedições para coleta e observação de aves em nove diferentes trechos de Mata Atlântica no Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, localizadas no entorno dos extensos plantios de eucalipto mantidos na região pela empresa Aracruz Celulose. Um dos objetivos é avaliar a eficiência ecológica das áreas reflorestadas pela empresa, que protege mais de um terço de suas fazendas como reserva ambiental. “Como resultado do trabalho com as aves, estamos propondo a aplicação de novos métodos de plantio e de corte de eucaliptos, capazes de manter um denso sub-bosque de vegetação nativa por entre essas árvores, propiciando o fluxo das espécies animais entre as áreas de plantio e os trechos que restaram de Mata Atlântica e vice-versa”, revela o pesquisador. “A jandaia, por exemplo, é uma ave que vive na mata nativa e aprendeu a freqüentar os sub-bosques dos plantios de eucalipto, alimentando-se dos frutos dessas espécies”.

O Corredor Central da Mata Atlântica funciona como um jogo de quebra-cabeça, no qual as pecinhas vão se encaixando para atingir um objetivo: compor um mosaico que se descortina e ganha significado quando todas as peças estão montadas. Uma das peças-chave desse jogo é o conjunto de áreas cobertas com Mata Atlântica dentro das propriedades das empresas de papel e celulose. “Essas empresas têm mais de 250 mil hectares de floresta nativa em suas terras, o que equivale a toda a área de parques e reservas ecológicas federais e estaduais hoje existentes no Corredor Central”, revela o Luiz Paulo Pinto, da Conservação Internacional (CI). “Se forem preservadas e utilizadas de maneira correta, essas florestas poderão ser decisivas para o sucesso do projeto de conexão das áreas verdes”, afirma Luiz Paulo.

Reservas particulares se multiplicam

O trabalho não é exclusivo dos ambientalistas. Hoje em dia, é comum ver biólogos e engenheiros de grandes empresas debruçados em mapas para encontrar uma maneira a construir “pontes” verdes entre florestas virgens separadas por cultivos de eucalipto e pastagens. “A pressa é grande”, afirma Ludimila Pugliese, do Instituto BioAtlântica, organização não-governamental que fornece assistência técnica para projetos de reflorestamento e criação de corredores de biodiversidade nas propriedades de empresas e de fazendeiros. “Estamos trabalhando com a Aracruz para reflorestar vales de rios, hoje degradados pela erosão, construindo artérias de ligação entre grandes blocos de floresta no Espírito Santo”, informa Ludimila. “Além da exigência legal que obriga a preservação de um percentual da propriedade como reserva natural, as empresas de papel e celulose, como grandes exportadoras, são pressionadas pelo mercado internacional para seguir regras ecológicas”.

Seja pela maior consciência e responsabilidade ambiental, seja pelas pressões do comércio exterior, abrir mão de parte das propriedades para transformá-las em reservas ecológicas tem sido uma maneira de empresas e fazendeiros contribuírem para formar o corredor de biodiversidade. A Aracruz Celulose, por exemplo, está criando cinco Reservas Naturais do Patrimônio Nacional (RPPN) -- áreas privadas que passam a ter status de reserva ecológica e são destinadas voluntariamente pelos proprietários para a proteção da fauna e flora. A decisão vale para toda a vida. Em troca, os donos de terra têm isenção do Imposto Territorial Rural e algumas regalias, como auxílio à fiscalização da área por parte das autoridades federais.

Criar uma reserva particular é um caminho importante para fazer um corredor verde ligando áreas vizinhas e para protegê-lo contra caçadores e traficantes de madeira que ainda atuam na região. Os benefícios vão além. “Empresas como a nossa são dependentes dos recursos naturais como água, solos e biodiversidade e a conservação deles são fundamentais para assegurar o desenvolvimento sustentável de nossas operações”, explica Robert Sartorio, do Centro de Pesquisa e Tecnologia da Aracruz. Com esse objetivo, a empresa está criando em 2006 duas reservas particulares que ainda terão a função de ligar a Reserva Biológica de Sooretama, que é estadual, à Reserva Natural da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), em Linhares, ambas no centro-norte capixaba. Assim os animais, como pacas, cotias, onças e uma enorme variedade de insetos e aves, poderão transitar entre as duas áreas para buscar alimentos e se reproduzir. Quanto mais alto estiver no topo da cadeia alimentar, como ocorre com os grandes felinos, mais espaço de floresta a espécie necessita para sobreviver.

Mini-corredores deste tipo estão sendo projetados para compor a faixa maior do Corredor Central da Mata Atlântica -- quanto mais ligações, mais fácil e rápido será a tarefa de montar um mosaico verde no tamanho e formato necessários para a preservação da biodiversidade. Ao norte do corredor, na região do município de Valença (BA), a Organização de Conservação de Terras do Baixo-Sul da Bahia (OCT) está provando que a idéia pode dar certo. Uma área-piloto para demonstração, no total de 300 hectares, integra reservas particulares de cinco propriedades. Isso é apenas o começo. Com apoio de organizações internacionais e parcerias regionais com proprietários, empresas e governo, a OCT está trabalhando para interligar 33 reservas, formando uma floresta contínua de 3.314 hectares. Será uma das maiores faixas verdes da Mata Atlântica.O investimento é de R$ 606 mil, 20% cobertos pelos proprietários. O restante vem do Ministério Público e fontes internacionais.

Comunidades são envolvidas

Trata-se de uma luta contra o tempo. “Trabalhamos com oito assentamentos de reforma agrária do Movimento dos Sem-Terra (MST) para criação de áreas de floresta intocáveis e para a conexão delas com outras reservas”, conta Jorge Velloso, da OCT. “A estratégia é esticar as florestas no sentido Sul, com objetivo de juntá-las no meio do caminho às que estão sendo aumentadas naquela região no sentido Norte”, explica Velloso. Mantida em pé, a Mata Atlântica ganha novos usos, como o extrativismo de piaçava, fibra vegetal colhida das palmeiras por comunidades locais para a confecção de artesanato. No extremo-sul baiano, a Veracel Celulose começou a mapear a ocorrência de piaçava nas terras da empresa para promover a exploração sustentável junto aos moradores. Desde 2003, o Programa Mata Atlântica Veracel recuperou mais de 1.100 hectares de mata nativa, utilizando 150 espécies.

Ao ser preservada, a floresta serve também de campo fértil para o ecoturismo e para a educação ambiental, como ocorre na RPPN Estação Veracruz, mantida pela Veracel na região de Porto Seguro (BA). Um centro de pesquisas foi construído no local para ampliar o conhecimento da biodiversidade da Mata Atlântica. Em 2006, a empresa planeja plantar 400 hectares na bacia do rio Caraívas, na região de Porto Seguro (BA) -- uma das mais atingidas pelas conseqüências do desmatamento e do avanço urbano descontrolado. A iniciativa se integra ao projeto do Instituto Cidade, da Associação dos Nativos de Caraívas e do Grupo Ambiental Natureza Bela, organizações não-governamentais que trabalham juntas para perpetuar a cultura de plantar árvores nativas com participação das comunidades locais. Sessenta mil mudas já foram distribuídas para fazendeiros. “Com a recuperação da cobertura vegetal, fazemos mapas e planejamos criar corredores de biodiversidade. O principal deles ligará dois parques nacionais: o Monte Pascoal, ao sul, e o Pau Brasil, mais ao norte”, destaca Paulo Dimas, diretor do Instituto Cidade.

Mais peças do quebra-cabeça vão se juntando ... Mas uma pergunta paira no ar: é possível interligar com vegetação nativa todos os pedaços isolados de Mata Atlântica do Espírito Santo e da Bahia, região há séculos atingida por atividades econômicas destrutivas? O corredor de biodiversidade pode se tornar uma realidade ou é um sonho ambientalista difícil de ser realizado? “Apesar dos esforços, até 2009 pode ser que ainda não tenhamos assegurado a total conexão do corredor de Norte a Sul, mas já teremos demonstrado que isso é possível”, responde Militão Ricardo, coordenador do Projeto Corredores, do Ministério do Meio Ambiente. Entre 2006 e 2009 serão investidos no Corredor Central da Mata Atlântica R$ 45 milhões, vindos do Banco Mundial e do KFW da Alemanha. A verba vem sendo aplicada na criação de parques e outras áreas protegidas federais e estaduais, no apoio às reservas particulares e na melhoria da fiscalização em parceria com o Ministério Público. “Com isso, a preservação da biodiversidade muda de escala, atingindo uma proporção muito maior”.

Mudança de cultura

Ao longo dos anos, o desenvolvimento científico no campo da ecologia tem gerado novos conhecimentos e técnicas para que o corredor saia do papel. Mas há desafios. O sucesso dos corredores requer um elevado grau de envolvimento e cooperação entre governo, empresas, comunidades locais e outras organizações da sociedade civil para recompor e preservar a mata, planejar os usos da terra e promover o uso sustentável dos recursos florestais. Um os desafios é envolver os fazendeiros, principalmente os criadores de gado que almejam terras para pastagens e não para plantar florestas. Entre os agricultores, a tarefa é convencê-los a adotar cultivos menos agressivos à natureza, como os plantios agroflorestais. O cacau de cabruca, cultivado na parte mais baixa dos bosques de Mata Atlântica; o café sombreado por espécies nativas e as árvores de eucalipto plantadas de maneira a permitir o crescimento da vegetação entre elas são alguns exemplos de convivência harmônica entre agricultura e floresta, na região do corredor de biodiversidade.

A preocupação faz sentido. Cerca de 70% dos trechos de floresta que restaram ao longo da faixa litorânea estão na mão de proprietários privados, segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica. “Sem a participação deles, é praticamente impossível ligar áreas para formar um corredor de biodiversidade”, enfatiza Nilson Máximo, da SOS. Para cobrir essa lacuna, a entidade fornece mudas gratuitamente para fazendeiros, dentro do projeto Click-Árvore,, um programa de reflorestamento com espécies nativas da Mata Atlântica pela Internet. Cada click do internauta corresponde ao plantio de uma árvore, custeado por empresas patrocinadoras. Através desse sistema, 3,6 milhões de mudas já foram plantadas para recompor a floresta, o que significa uma área equivalente a quase 2 mil campos de futebol. Na Fazenda Bulcão, em Aimorés (MG), região do Corredor Central de Biodiversidade da Mata Atlântica, o renomado fotógrafo Sebastião Salgado plantou 150 mil mudas. E transformou uma área de antigas pastagens degradadas numa floresta exuberante. O fotógrafo mantém no local o Centro de Educação e Recuperação Ambiental para capacitar e mobilizar a população a recompor a floresta. Ele lembra que, quando jovem, no início dos anos 50, 70% do município era coberto por Mata Atlântica. Hoje, a taxa baixou para 0,3%.

Aos poucos, os proprietários começam a entender que preservar ou plantar floresta significa reaver as fontes de água, importantes para suas atividades produtivas, e aumentar o valor de suas terras. “Espero não ter acordado tarde demais; já devia ter feito isso há muito mais tempo”, confessa o agricultor Antero Caliman, 73 anos, um dos maiores produtores nacionais de mamão-papaia. Um terço da área total de suas propriedades, localizadas em Linhares (ES), reúne reservas de Mata Atlântica. “No passado, o negócio da família era cortar as árvores para lucrar com a madeira”, lamenta o fazendeiro. Hoje, o cultivo de espécies nativas é quase uma lei para o “rei do mamão”. Seu trabalho ganha eco e serve de modelo para a região. E contribui para divulgar uma certeza: ainda há tempo para salvar a Mata Atlântica a vida nela existente. Nada está perdido.


 

BOX -- MAPA -- O que é e para que serve o Corredor Central da Mata Atlântica

 

O conceito de corredor de biodiversidade surgiu como solução para um problema grave. Em muitas regiões, como a Mata Atlântica, os parques nacionais e outras áreas protegidas por lei são muito pequenos e isolados. Além disso, em zona populosa que reúne diferentes atividades econômicas, os pedaços de florestas, principalmente os que não são protegidos, estão sob forte ameaça e pressão. Conectar as áreas verdes e organizar a geografia da paisagem passou a concentrar os esforços para a conservação da biodiversidade. O termo “corredor de biodiversidade”, usado pela Aliança para Conservação da Mata Atlântica, engloba as áreas protegidas federais e estaduais, as reservas particulares e as terras com diferentes usos. Os cordões de vegetação nativa que conectam fragmentos de floresta são um dos componentes do corredor, mas não o único. Pastagens e cultivos também fazem parte do corredor, no qual a geração de renda de maneira sustentável é um fator importante para reduzir a pressão na floresta. Os corredores são planejados para favorecer a manutenção dos processos ecológicos indispensáveis para a sustentação da biodiversidade a longo prazo. A polinização, a dispersão de sementes e o ciclo das águas e dos nutrientes são alguns exemplos. Além de refúgio para as espécies, uma das funções mais importantes do corredor é permitir a mobilidade e o intercâmbio genético da fauna e flora. Quanto maior for esse fluxo de genes, menor é o risco de extinção das espécies. Para isso, os corredores são geograficamente definidos e têm seus planos de conservação elaborados a partir de critérios biológicos. A quantidade de espécies que só existem na região, os tipos de solo e a diversidade de ecossistemas são alguns desses critérios.

 

Números para o mapa:

 

A geografia do corredor

 

12 milhões de hectares de área

6 milhões de habitantes

252 municipios

98,6% dos remanescentes têm área menor ou igual a 100 hectares

84 espécies de vertebrados ameaçadas de extinção

23 parques nacionais e outras unidades de conservação públicas

37 Reservas Particulares do Patrimônio Nacional (RPPN)

 

Legenda do mapa (ver original):

Corredores de Biodiversidade

Remanescentes

Limites Estaduais

Extensão Original do Bioma da Mata Atlântica


 

Fonte: Conservação Internacional


 

BOX - Anthenor, o plantador de floresta

 

“Aquele é um ipê. Olha ali, um angico. Mais adiante, vou mostrar um cedro. Você viu a jabuticabeira? Esse jacarandá um dos meus preferidos”. Quando circula de carro pela fazenda com um visitante a bordo, o empresário Anthenor Pianna, 68 anos, um dos maiores comerciantes da região de Linhares (ES), aponta para as árvores e fala o nome das espécies com a emoção de quem se sente importante por ajudar a salvar a Mata Atlântica. Tudo começou quando Antenor desejou tornar mais bonito e aprazível o recanto onde planejava construir a sede da fazenda, à beira da lagoa Juparaná. A área estava degradada pela erosão causada por antigos pastos. O que era um pequeno projeto paisagístico acabou se tornando um exemplo de conservação da natureza. Desde 1999, o empresário plantou 54 mil árvores nativas, cobrindo um terço da fazenda de gado. “Depois que a floresta cresceu, a quantidade de água dos córregos aumentou. Estou feliz da vida”, festeja Antenor. Sem querer esperar pelo retorno natural dos bichos à floresta regenerada, o proprietário compra 120 quilos de milho e mais um tanto de mamão e banana para colocar na mata e atrair pássaros e macacos. “Os canários chegam aqui em bandos e minha mulher fica zangada com a sujeira que deixam no chão de granito na varanda da nossa casa”, revela o fazendeiro, que já gastou R$ 500 mil do próprio bolso para recuperar a vegetação e fazer micro-corredores dentro da floresta.


 

BOX -- Berçário de árvores

 

A Reserva Natural da Vale do Rio Doce, localizada em Linhares (ES), é um laboratório vivo de experiências para a salvação da Mata Atlântica. Lá vivem 1800 espécies botânicas, 20 mil de insetos, 345 de aves e 131 de mamíferos. Após 30 anos de trabalhos para conservar esse generoso pedaço de floresta nativa, a empresa acumulou conhecimento sobre a dinâmica da ecologia, sobre a recuperação de pedaços isolados de vegetação e sobre a produção de mudas de espécies nativas. O viveiro da reserva tem capacidade para produzir 45 milhões de mudas por ano. Com ele, a Vale do Rio Doce está iniciando um programa de recuperação das matas ciliares, aquelas que margeiam os rios, no Espírito Santo. “Em 25 anos, vamos fornecer mudas e assistência técnica para os próprios agricultores recuperarem os 450 mil hectares de mata ciliar hoje degradados no Estado”, afirma Renato de Jesus, gerente de Meio Ambiente da Vale. Como complemento, a empresa está recuperando 1.000 há para recompor conexões entre trechos de Mata Atlântica em áreas prioritárias definidas pelo governo estadual.



 

BOX - Preservar para gerar renda

 

Criar um corredor de biodiversidade não implica somente em reflorestar ou preservar o que restou da Mata Atlântica. O projeto exige também a mudança de hábitos de exploração dos recursos naturais com a promoção de atividades econômicas não-destrutivas, capazes de gerar renda e melhorar a vida dos habitantes da região. Quando as comunidades percebem os benefícios que podem conquistar sem derrubar a floresta, o trabalho de preservação ganha outra dimensão. No município de Tancredo Neves, um dos mais pobres do baixo-sul da Bahia, os pequenos agricultores estão aprendendo a produzir mais e melhor, utilizando técnicas que não agridem a natureza. Na Casa Familiar Rural, mantida com apoio da Fundação Odebrecht na Fazenda Novo Horizonte, já formou mais de 70 jovens de famílias que praticam a agricultura familiar. Os alunos-lavradores freqüentam uma semana aulas teóricas e práticas e depois retornam para as roças de suas famílias, onde permanecem por duas semanas, colocando em prática os conhecimentos adquiridos na escola. Os jovens se tornam multiplicadores de novas técnicas. Como resultado, a produção de mandioca no município aumentou de 8 para 14 toneladas por hectare. Com mais alternativas de renda, a madeira da floresta acaba sendo poupada. Duas fábricas, uma de farinha que não utiliza madeira nativa nos fornos e outra que beneficia o amido da mandioca para diversos fins industriais, são exploradas por cooperativas locais, beneficiando mais de 2 mil famílias. Em outros vilarejos do corredor de biodiversidade, a Odebrescht apóia a criação de peixes em cativeiro e a extração sustentável de piaçava, também em regime de cooperativa.

 

Publicado originalmente na revista Horizonte Geográfico

São cinco horas da madrugada. O sol está prestes a nascer no Vale do Mucuri, um rio que corta o extremo-sul da Bahia, região que guarda importantes pedaços de Mata Atlântica que restaram após séculos de desmatamento para exploração de madeira de lei e instalação de pastos e cultivos de cana-de-açúcar. “Está ouvindo isso? É o assovio do gavião-de-cauda-curta”, atesta o biólogo Paulo de Tarso Antas, da Fundação Pró-Natureza (Funatura). Ao seu lado, o geógrafo Marcos Aires, ouvido afiado para identificar aves pelos sons que emitem, pede silêncio. “Olha só, um pica-pau-rei está cutucando a madeira”. Quando a claridade da manhã substitui a escuridão, uma sinfonia de notas musicais toma conta da floresta. Microfone em punho, o técnico agrícola José Francisco Pissinati grava todos os acordes -- o alarme do inhambu-chintã, o resmungar da pomba asa-branca e muitos outros. Enquanto isso, outros técnicos da equipe inspecionam 60 redes estendidas em pontos estratégicos na floresta para capturar pássaros que por ali transitam nos diferentes horários do dia. Os bichos recebem anilhas, marcação que permite identificá-los no futuro em outras regiões, e depois são soltos. As aves dão valiosas pistas sobre a saúde da Mata Atlântica, ecossistema frágil e sensível, hoje submetido a diversas pressões e ameaças. E são utilizadas como arma para um projeto de proporções bem maiores: interligar os pedaços isolados de mata, formando faixas verdes contínuas indispensáveis à preservação da biodiversidade.

Essa é a filosofia dos “corredores de biodiversidade”. Trata-se de um conceito novo, criado na metade da década de 90, no Brasil. Na época, cientistas que participavam do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais no Brasil (PPG-7), com apoio do Banco Mundial, se perguntavam: como a redução da floresta a pequenos pedaços isolados interfere na sobrevivência das espécies e o que fazer para evitar o problema? Unir esforços no sentido de conectar fragmentos de vegetação nativa em áreas de grande importância biológica passou a ser a estratégia de ação. Na Mata Atlântica, esses refúgios são compostos por parques nacionais, reservas ecológicas e outras áreas protegidas por lei, entremeadas por fazendas da gado, cultivos agrícolas e cidades. A função do “corredor”, ao conectar zonas verdes, é garantir a extensão necessária de vegetação nativa para a circulação das espécies, para a reprodução dos animais e vegetais dentro de padrões genéticos saudáveis e para o desenvolvimento sustentável da região. Evita-se, assim, uma espécie de “Big Brother” da floresta, onde o confinamento em pequenos espaços aumenta a competição entre os personagens, tornando a vida muito difícil.

O Corredor Central de Biodiversidade da Mata Atlântica, uma das seis áreas deste tipo criadas no Brasil, estende-se do Recôncavo Baiano ao Sul do Espírito Santo. Reúne lugares com alta concentração de animais e vegetais que só vivem ali e mais em nenhuma parte do mundo. Em Uruçuca (BA), existem 458 espécies de árvore para uma área igual a um campo de futebol, recorde mundial de riqueza em plantas lenhosas. Além disso, 50% das espécies de aves que só existem na Mata Atlântica habitam a área do Corredor Central.

Aves se adaptam ao eucalipto

Quando se trata de recuperar a Mata Atlântica, bioma hoje reduzido a menos de 8% do original, qualquer detalhe -- como o comportamento das aves pesquisadas no Vale do Mucuri -- é muito importante. Durante as expedições, depois de pesar e medir os pássaros, os pesquisadores avaliam as penas para inferir sobre a quantidade de nutrientes da natureza. Se elas estiverem quebradas ou apresentarem problemas de má-formação, é sinal de que há deficiência de proteínas no ambiente. “Desta maneira, as aves não têm como sustentar vôos para fugir de predadores ou buscar alimentos”, explica Paulo de Tarso.

O pesquisador coordena uma equipe de onze técnicos que participa periodicamente de expedições para coleta e observação de aves em nove diferentes trechos de Mata Atlântica no Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, localizadas no entorno dos extensos plantios de eucalipto mantidos na região pela empresa Aracruz Celulose. Um dos objetivos é avaliar a eficiência ecológica das áreas reflorestadas pela empresa, que protege mais de um terço de suas fazendas como reserva ambiental. “Como resultado do trabalho com as aves, estamos propondo a aplicação de novos métodos de plantio e de corte de eucaliptos, capazes de manter um denso sub-bosque de vegetação nativa por entre essas árvores, propiciando o fluxo das espécies animais entre as áreas de plantio e os trechos que restaram de Mata Atlântica e vice-versa”, revela o pesquisador. “A jandaia, por exemplo, é uma ave que vive na mata nativa e aprendeu a freqüentar os sub-bosques dos plantios de eucalipto, alimentando-se dos frutos dessas espécies”.

O Corredor Central da Mata Atlântica funciona como um jogo de quebra-cabeça, no qual as pecinhas vão se encaixando para atingir um objetivo: compor um mosaico que se descortina e ganha significado quando todas as peças estão montadas. Uma das peças-chave desse jogo é o conjunto de áreas cobertas com Mata Atlântica dentro das propriedades das empresas de papel e celulose. “Essas empresas têm mais de 250 mil hectares de floresta nativa em suas terras, o que equivale a toda a área de parques e reservas ecológicas federais e estaduais hoje existentes no Corredor Central”, revela o Luiz Paulo Pinto, da Conservação Internacional (CI). “Se forem preservadas e utilizadas de maneira correta, essas florestas poderão ser decisivas para o sucesso do projeto de conexão das áreas verdes”, afirma Luiz Paulo.

Reservas particulares se multiplicam

O trabalho não é exclusivo dos ambientalistas. Hoje em dia, é comum ver biólogos e engenheiros de grandes empresas debruçados em mapas para encontrar uma maneira a construir “pontes” verdes entre florestas virgens separadas por cultivos de eucalipto e pastagens. “A pressa é grande”, afirma Ludimila Pugliese, do Instituto BioAtlântica, organização não-governamental que fornece assistência técnica para projetos de reflorestamento e criação de corredores de biodiversidade nas propriedades de empresas e de fazendeiros. “Estamos trabalhando com a Aracruz para reflorestar vales de rios, hoje degradados pela erosão, construindo artérias de ligação entre grandes blocos de floresta no Espírito Santo”, informa Ludimila. “Além da exigência legal que obriga a preservação de um percentual da propriedade como reserva natural, as empresas de papel e celulose, como grandes exportadoras, são pressionadas pelo mercado internacional para seguir regras ecológicas”.

Seja pela maior consciência e responsabilidade ambiental, seja pelas pressões do comércio exterior, abrir mão de parte das propriedades para transformá-las em reservas ecológicas tem sido uma maneira de empresas e fazendeiros contribuírem para formar o corredor de biodiversidade. A Aracruz Celulose, por exemplo, está criando cinco Reservas Naturais do Patrimônio Nacional (RPPN) -- áreas privadas que passam a ter status de reserva ecológica e são destinadas voluntariamente pelos proprietários para a proteção da fauna e flora. A decisão vale para toda a vida. Em troca, os donos de terra têm isenção do Imposto Territorial Rural e algumas regalias, como auxílio à fiscalização da área por parte das autoridades federais.

Criar uma reserva particular é um caminho importante para fazer um corredor verde ligando áreas vizinhas e para protegê-lo contra caçadores e traficantes de madeira que ainda atuam na região. Os benefícios vão além. “Empresas como a nossa são dependentes dos recursos naturais como água, solos e biodiversidade e a conservação deles são fundamentais para assegurar o desenvolvimento sustentável de nossas operações”, explica Robert Sartorio, do Centro de Pesquisa e Tecnologia da Aracruz. Com esse objetivo, a empresa está criando em 2006 duas reservas particulares que ainda terão a função de ligar a Reserva Biológica de Sooretama, que é estadual, à Reserva Natural da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), em Linhares, ambas no centro-norte capixaba. Assim os animais, como pacas, cotias, onças e uma enorme variedade de insetos e aves, poderão transitar entre as duas áreas para buscar alimentos e se reproduzir. Quanto mais alto estiver no topo da cadeia alimentar, como ocorre com os grandes felinos, mais espaço de floresta a espécie necessita para sobreviver.

Mini-corredores deste tipo estão sendo projetados para compor a faixa maior do Corredor Central da Mata Atlântica -- quanto mais ligações, mais fácil e rápido será a tarefa de montar um mosaico verde no tamanho e formato necessários para a preservação da biodiversidade. Ao norte do corredor, na região do município de Valença (BA), a Organização de Conservação de Terras do Baixo-Sul da Bahia (OCT) está provando que a idéia pode dar certo. Uma área-piloto para demonstração, no total de 300 hectares, integra reservas particulares de cinco propriedades. Isso é apenas o começo. Com apoio de organizações internacionais e parcerias regionais com proprietários, empresas e governo, a OCT está trabalhando para interligar 33 reservas, formando uma floresta contínua de 3.314 hectares. Será uma das maiores faixas verdes da Mata Atlântica.O investimento é de R$ 606 mil, 20% cobertos pelos proprietários. O restante vem do Ministério Público e fontes internacionais.

Comunidades são envolvidas

Trata-se de uma luta contra o tempo. “Trabalhamos com oito assentamentos de reforma agrária do Movimento dos Sem-Terra (MST) para criação de áreas de floresta intocáveis e para a conexão delas com outras reservas”, conta Jorge Velloso, da OCT. “A estratégia é esticar as florestas no sentido Sul, com objetivo de juntá-las no meio do caminho às que estão sendo aumentadas naquela região no sentido Norte”, explica Velloso. Mantida em pé, a Mata Atlântica ganha novos usos, como o extrativismo de piaçava, fibra vegetal colhida das palmeiras por comunidades locais para a confecção de artesanato. No extremo-sul baiano, a Veracel Celulose começou a mapear a ocorrência de piaçava nas terras da empresa para promover a exploração sustentável junto aos moradores. Desde 2003, o Programa Mata Atlântica Veracel recuperou mais de 1.100 hectares de mata nativa, utilizando 150 espécies.

Ao ser preservada, a floresta serve também de campo fértil para o ecoturismo e para a educação ambiental, como ocorre na RPPN Estação Veracruz, mantida pela Veracel na região de Porto Seguro (BA). Um centro de pesquisas foi construído no local para ampliar o conhecimento da biodiversidade da Mata Atlântica. Em 2006, a empresa planeja plantar 400 hectares na bacia do rio Caraívas, na região de Porto Seguro (BA) -- uma das mais atingidas pelas conseqüências do desmatamento e do avanço urbano descontrolado. A iniciativa se integra ao projeto do Instituto Cidade, da Associação dos Nativos de Caraívas e do Grupo Ambiental Natureza Bela, organizações não-governamentais que trabalham juntas para perpetuar a cultura de plantar árvores nativas com participação das comunidades locais. Sessenta mil mudas já foram distribuídas para fazendeiros. “Com a recuperação da cobertura vegetal, fazemos mapas e planejamos criar corredores de biodiversidade. O principal deles ligará dois parques nacionais: o Monte Pascoal, ao sul, e o Pau Brasil, mais ao norte”, destaca Paulo Dimas, diretor do Instituto Cidade.

Mais peças do quebra-cabeça vão se juntando ... Mas uma pergunta paira no ar: é possível interligar com vegetação nativa todos os pedaços isolados de Mata Atlântica do Espírito Santo e da Bahia, região há séculos atingida por atividades econômicas destrutivas? O corredor de biodiversidade pode se tornar uma realidade ou é um sonho ambientalista difícil de ser realizado? “Apesar dos esforços, até 2009 pode ser que ainda não tenhamos assegurado a total conexão do corredor de Norte a Sul, mas já teremos demonstrado que isso é possível”, responde Militão Ricardo, coordenador do Projeto Corredores, do Ministério do Meio Ambiente. Entre 2006 e 2009 serão investidos no Corredor Central da Mata Atlântica R$ 45 milhões, vindos do Banco Mundial e do KFW da Alemanha. A verba vem sendo aplicada na criação de parques e outras áreas protegidas federais e estaduais, no apoio às reservas particulares e na melhoria da fiscalização em parceria com o Ministério Público. “Com isso, a preservação da biodiversidade muda de escala, atingindo uma proporção muito maior”.

Mudança de cultura

Ao longo dos anos, o desenvolvimento científico no campo da ecologia tem gerado novos conhecimentos e técnicas para que o corredor saia do papel. Mas há desafios. O sucesso dos corredores requer um elevado grau de envolvimento e cooperação entre governo, empresas, comunidades locais e outras organizações da sociedade civil para recompor e preservar a mata, planejar os usos da terra e promover o uso sustentável dos recursos florestais. Um os desafios é envolver os fazendeiros, principalmente os criadores de gado que almejam terras para pastagens e não para plantar florestas. Entre os agricultores, a tarefa é convencê-los a adotar cultivos menos agressivos à natureza, como os plantios agroflorestais. O cacau de cabruca, cultivado na parte mais baixa dos bosques de Mata Atlântica; o café sombreado por espécies nativas e as árvores de eucalipto plantadas de maneira a permitir o crescimento da vegetação entre elas são alguns exemplos de convivência harmônica entre agricultura e floresta, na região do corredor de biodiversidade.

A preocupação faz sentido. Cerca de 70% dos trechos de floresta que restaram ao longo da faixa litorânea estão na mão de proprietários privados, segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica. “Sem a participação deles, é praticamente impossível ligar áreas para formar um corredor de biodiversidade”, enfatiza Nilson Máximo, da SOS. Para cobrir essa lacuna, a entidade fornece mudas gratuitamente para fazendeiros, dentro do projeto Click-Árvore,, um programa de reflorestamento com espécies nativas da Mata Atlântica pela Internet. Cada click do internauta corresponde ao plantio de uma árvore, custeado por empresas patrocinadoras. Através desse sistema, 3,6 milhões de mudas já foram plantadas para recompor a floresta, o que significa uma área equivalente a quase 2 mil campos de futebol. Na Fazenda Bulcão, em Aimorés (MG), região do Corredor Central de Biodiversidade da Mata Atlântica, o renomado fotógrafo Sebastião Salgado plantou 150 mil mudas. E transformou uma área de antigas pastagens degradadas numa floresta exuberante. O fotógrafo mantém no local o Centro de Educação e Recuperação Ambiental para capacitar e mobilizar a população a recompor a floresta. Ele lembra que, quando jovem, no início dos anos 50, 70% do município era coberto por Mata Atlântica. Hoje, a taxa baixou para 0,3%.

Aos poucos, os proprietários começam a entender que preservar ou plantar floresta significa reaver as fontes de água, importantes para suas atividades produtivas, e aumentar o valor de suas terras. “Espero não ter acordado tarde demais; já devia ter feito isso há muito mais tempo”, confessa o agricultor Antero Caliman, 73 anos, um dos maiores produtores nacionais de mamão-papaia. Um terço da área total de suas propriedades, localizadas em Linhares (ES), reúne reservas de Mata Atlântica. “No passado, o negócio da família era cortar as árvores para lucrar com a madeira”, lamenta o fazendeiro. Hoje, o cultivo de espécies nativas é quase uma lei para o “rei do mamão”. Seu trabalho ganha eco e serve de modelo para a região. E contribui para divulgar uma certeza: ainda há tempo para salvar a Mata Atlântica a vida nela existente. Nada está perdido.

BOX -- MAPA -- O que é e para que serve o Corredor Central da Mata Atlântica

O conceito de corredor de biodiversidade surgiu como solução para um problema grave. Em muitas regiões, como a Mata Atlântica, os parques nacionais e outras áreas protegidas por lei são muito pequenos e isolados. Além disso, em zona populosa que reúne diferentes atividades econômicas, os pedaços de florestas, principalmente os que não são protegidos, estão sob forte ameaça e pressão. Conectar as áreas verdes e organizar a geografia da paisagem passou a concentrar os esforços para a conservação da biodiversidade. O termo “corredor de biodiversidade”, usado pela Aliança para Conservação da Mata Atlântica, engloba as áreas protegidas federais e estaduais, as reservas particulares e as terras com diferentes usos. Os cordões de vegetação nativa que conectam fragmentos de floresta são um dos componentes do corredor, mas não o único. Pastagens e cultivos também fazem parte do corredor, no qual a geração de renda de maneira sustentável é um fator importante para reduzir a pressão na floresta. Os corredores são planejados para favorecer a manutenção dos processos ecológicos indispensáveis para a sustentação da biodiversidade a longo prazo. A polinização, a dispersão de sementes e o ciclo das águas e dos nutrientes são alguns exemplos. Além de refúgio para as espécies, uma das funções mais importantes do corredor é permitir a mobilidade e o intercâmbio genético da fauna e flora. Quanto maior for esse fluxo de genes, menor é o risco de extinção das espécies. Para isso, os corredores são geograficamente definidos e têm seus planos de conservação elaborados a partir de critérios biológicos. A quantidade de espécies que só existem na região, os tipos de solo e a diversidade de ecossistemas são alguns desses critérios.

Números para o mapa:

A geografia do corredor

12 milhões de hectares de área

6 milhões de habitantes

252 municipios

98,6% dos remanescentes têm área menor ou igual a 100 hectares

84 espécies de vertebrados ameaçadas de extinção

23 parques nacionais e outras unidades de conservação públicas

37 Reservas Particulares do Patrimônio Nacional (RPPN)

Legenda do mapa (ver original):

Corredores de Biodiversidade

Remanescentes

Limites Estaduais

Extensão Original do Bioma da Mata Atlântica

Fonte: Conservação Internacional

BOX - Anthenor, o plantador de floresta

“Aquele é um ipê. Olha ali, um angico. Mais adiante, vou mostrar um cedro. Você viu a jabuticabeira? Esse jacarandá um dos meus preferidos”. Quando circula de carro pela fazenda com um visitante a bordo, o empresário Anthenor Pianna, 68 anos, um dos maiores comerciantes da região de Linhares (ES), aponta para as árvores e fala o nome das espécies com a emoção de quem se sente importante por ajudar a salvar a Mata Atlântica. Tudo começou quando Antenor desejou tornar mais bonito e aprazível o recanto onde planejava construir a sede da fazenda, à beira da lagoa Juparaná. A área estava degradada pela erosão causada por antigos pastos. O que era um pequeno projeto paisagístico acabou se tornando um exemplo de conservação da natureza. Desde 1999, o empresário plantou 54 mil árvores nativas, cobrindo um terço da fazenda de gado. “Depois que a floresta cresceu, a quantidade de água dos córregos aumentou. Estou feliz da vida”, festeja Antenor. Sem querer esperar pelo retorno natural dos bichos à floresta regenerada, o proprietário compra 120 quilos de milho e mais um tanto de mamão e banana para colocar na mata e atrair pássaros e macacos. “Os canários chegam aqui em bandos e minha mulher fica zangada com a sujeira que deixam no chão de granito na varanda da nossa casa”, revela o fazendeiro, que já gastou R$ 500 mil do próprio bolso para recuperar a vegetação e fazer micro-corredores dentro da floresta.

BOX -- Berçário de árvores

A Reserva Natural da Vale do Rio Doce, localizada em Linhares (ES), é um laboratório vivo de experiências para a salvação da Mata Atlântica. Lá vivem 1800 espécies botânicas, 20 mil de insetos, 345 de aves e 131 de mamíferos. Após 30 anos de trabalhos para conservar esse generoso pedaço de floresta nativa, a empresa acumulou conhecimento sobre a dinâmica da ecologia, sobre a recuperação de pedaços isolados de vegetação e sobre a produção de mudas de espécies nativas. O viveiro da reserva tem capacidade para produzir 45 milhões de mudas por ano. Com ele, a Vale do Rio Doce está iniciando um programa de recuperação das matas ciliares, aquelas que margeiam os rios, no Espírito Santo. “Em 25 anos, vamos fornecer mudas e assistência técnica para os próprios agricultores recuperarem os 450 mil hectares de mata ciliar hoje degradados no Estado”, afirma Renato de Jesus, gerente de Meio Ambiente da Vale. Como complemento, a empresa está recuperando 1.000 há para recompor conexões entre trechos de Mata Atlântica em áreas prioritárias definidas pelo governo estadual.

BOX - Preservar para gerar renda

Criar um corredor de biodiversidade não implica somente em reflorestar ou preservar o que restou da Mata Atlântica. O projeto exige também a mudança de hábitos de exploração dos recursos naturais com a promoção de atividades econômicas não-destrutivas, capazes de gerar renda e melhorar a vida dos habitantes da região. Quando as comunidades percebem os benefícios que podem conquistar sem derrubar a floresta, o trabalho de preservação ganha outra dimensão. No município de Tancredo Neves, um dos mais pobres do baixo-sul da Bahia, os pequenos agricultores estão aprendendo a produzir mais e melhor, utilizando técnicas que não agridem a natureza. Na Casa Familiar Rural, mantida com apoio da Fundação Odebrecht na Fazenda Novo Horizonte, já formou mais de 70 jovens de famílias que praticam a agricultura familiar. Os alunos-lavradores freqüentam uma semana aulas teóricas e práticas e depois retornam para as roças de suas famílias, onde permanecem por duas semanas, colocando em prática os conhecimentos adquiridos na escola. Os jovens se tornam multiplicadores de novas técnicas. Como resultado, a produção de mandioca no município aumentou de 8 para 14 toneladas por hectare. Com mais alternativas de renda, a madeira da floresta acaba sendo poupada. Duas fábricas, uma de farinha que não utiliza madeira nativa nos fornos e outra que beneficia o amido da mandioca para diversos fins industriais, são exploradas por cooperativas locais, beneficiando mais de 2 mil famílias. Em outros vilarejos do corredor de biodiversidade, a Odebrescht apóia a criação de peixes em cativeiro e a extração sustentável de piaçava, também em regime de cooperativa.

Publicado originalmente na revista Horizonte Geográfico

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