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Mamanguape (PB) - Refúgio para macacos guariba que voltam à natureza

· Paraíba

No extremo-leste da Mata Atlântica, um dos fragmentos mais significativos abrange a Reserva Biológica (Rebio) de Guaribas, nos municípios de Mamanguape e Rio Tinto. A inspiração para o nome surgiu em 1990, ano de criação da unidade de conservação, a partir de um projeto para a reintrodução de macacos guaribas que já estavam extintos por lá e viviam sob intensa pressão nas matas de uma usina de açúcar, na localidade de Pacatuba. Hoje a reserva é habitada por primatas apreendidos pela fiscalização contra o tráfico de espécies silvestres ou encontrados ocasionalmente em propriedades rurais. Na área existem 29 guaribas, objeto de pesquisas científicas que avaliam as condições de equilíbrio ecológico e os caminhos para que a população seja revitalizada.

Apesar de bem conservadas, aquelas matas já eram exploradas no século XVII, conforme recentes escavações que resultaram na descoberta de sítios históricos com vestígios de sepultamentos, rituais e estrutura produtiva de uma antiga aldeia, citada pelo naturalista George Marcgrave. O nome do aldeamento, Maripitanga, é uma derivação de “umaripitanga”, pau-brasil no idioma indígena – o que demonstra a principal atividade da época: a extração de recursos madeireiros, além do cultivo de mandioca, feijão e milho. Espécies exóticas trazidas por colonizadores, como goiabeiras e mangueiras, pontilhavam antigas trilhas comerciais no entorno e dentro da área onde hoje se localiza a reserva.

Com situação fundiária resolvida desde a sua criação, a Rebio abriga 16 nascentes e tem grande importância na provisão de água para cidades próximas. A área se destina à conservação da biodiversidade e pesquisa científica, hoje conduzida por 35 grupos de cientistas. O foco principal dos estudos é fornecer subsídios à gestão do refúgio. “Como os fragmentos florestais são pequenos, é estratégico maior conhecimento sobre o entorno e a dinâmica da paisagem, indispensável para definirmos, por exemplo, um plano para conservação da fauna de grande porte e o controle contra incêndios”, explica Marina Kluppel, chefe da reserva.

O fogo preocupa, mas a principal ameaça é a invasão da floresta por plantas exóticas, como o dendê, palmeira que já ocupa 6% dos fragmentos próximos ao município de Rio Tinto. O projeto é retirá-las para deixar a floresta se regenerar naturalmente. “Só não temos 100% de Mata Atlântica na reserva, devido a esse problema”, completa José Luiz do Nascimento, o Julião, responsável pela coordenação das pesquisas. Ele adverte: “há muito apoio para diagnósticos, mas pouca ação efetiva de combate às espécies invasoras”.

A reserva abrange um mosaico de formações florestais típicas do bioma, e também peculiaridades, como campos nativos cobertos por um tipo de capim que adquire tonalidade azulada em determinada época do ano. No local foi descoberta uma espécie de marsupial comum no Cerrado, mas até então desconhecida na região. A cada pesquisa, surgem novidades, como a descrição de uma cigarrinha do gênero Scopogonalia Young. Cientistas da Universidade Federal da Paraíba e ICMBio compararam o comportamento da espécie no Brasil-Central e na Paraíba para corroborar a hipótese de que no passado remoto as savanas brasileiras tinham distribuição contínua, diferentemente de hoje.

Na Paraíba, esses campos ocupam encraves de “matas de tabuleiro”, estudadas pelos pesquisadores com maior ênfase como suporte ao planejamento das áreas protegidas. Conhecer as espécies, sua distribuição geográfica e relações filogenéticas torna a conservação mais eficiente e valorizada. Fora da Rebio Guaribas, grande parte desses campos naturais já foi degradada para instalação de lavouras de cana. A botânica Aline Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, é especializada no estudo dessa gramínea, do gênero Lacandônia. “A única descrição da planta para a América do Sul está nesta reserva”, diz a pesquisadora. Imaginava-se que o vegetal só ocorria no México. “Curiosamente, os aparelhos reprodutivos das plantas macho e fêmea são invertidos, quando se compara aos demais vegetais”, ressalta Aline. Para ela, a gramínea nativa precisaria ser mais pesquisada para uso no controle da erosão, como ocorre com algumas espécies exóticas, que chegam de outras regiões e colocam os ambientais naturais em risco.

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