Return to site

Manaus (AM) - Emissões à la carte

· Amazonas

Consumo externo turbina carbono lançado pela Amazônia

 

Não é de hoje que a Floresta Amazônica é vista lá fora como lugar vazio e desabitado, pulmão do planeta e refúgio a ser mantido intocável para o bem da humanidade. Mitos desta natureza já foram derrubados pela ciência, sobretudo nas últimas décadas, quando a questão climática centrou os olhares na floresta. Agora as pesquisas apontam que o problema vai além de suas fronteiras. Gases do efeito estufa “alcançam” regiões distantes da mata embutidos na exportação de alimentos, minérios e outras mercadorias produzidas na região a partir de métodos que causam emissões. Estudo da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) constata: o comércio de produtos para o mercado externo e para o consumo interno em outras partes do país carrega 63% de todo o carbono emitido pela economia da Amazônia.

“Mitigar emissões prejudicará a economia regional e o sustento de mais de 20 milhões de habitantes”, adverte o economista Joaquim Guilhoto, coordenador do relatório “O Desenvolvimento da Amazônia Brasileira e as Emissões de Gases do Efeito Estufa: um Dilema a Ser Enfrentado”. O trabalho cruzou dados do PIB (Produto Interno Bruto) amazônico com a média nacional das emissões de carbono dos diferentes setores produtivos. A agropecuária, somando insumos e produção, representa mais de um terço das emissões totais, com destaque para soja e carne, setores que mais geram riqueza na região.

De acordo com o estudo, o consumo interno do Brasil fora da floresta absorve 40% do carbono amazônico. A parcela de gases que permanece na região (37%) está incorporada nos investimentos de bens de capital e construção de infraestrutura. “A restrição das emissões pura e simples não é solução, sendo necessária uma política de incentivos para mudar a estrutura de produção e compensar financeiramente a população”, analisa Guilhoto. Em sua opinião, “o direito ao desenvolvimento é o principal dilema para a mitigação de gases-estufa na Amazônia, no Brasil e nos demais países emergentes”.

O tema é cerne das negociações da COP 17, a conferência da ONU sobre mudanças no clima que ocorrerá de 28 novembro a 9 de dezembro, em Durban, África do Sul, quando os países tentarão avançar no debate para um novo regime climático internacional, incluindo compensações para a conservação florestal. “O assunto marca a atual discussão do acesso a mercados e certamente será o elemento de força para o corte de emissões, inclusive via taxação de carbono”, avalia Mario Monzoni, diretor do Centro de Estudos em Sustentabilidade, da FGV, estimando que “mais cedo ou mais tarde a questão baterá na Organização Mundial do Comércio (OMC)”.

Estudo publicado neste ano pela Academia Nacional de Ciências dos EUA revela que mais de 60% das fontes de carvão, gás e petróleo estão em apenas 20 países e sugere a criação de um imposto sobre a extração de combustíveis, o que cobriria 67% das emissões globais. A chamada “precificação” de carbono envolve competitividade entre países e entre conglomerados empresariais. Pela Convenção do Clima, emissões de carbono não devem motivar barreiras comerciais, mas atualmente existe o debate de propostas para legislações nacionais, tanto nos EUA como na Europa, com restrições do gênero.

“O melhor pra o Brasil, exportador líquido de emissões, é o assunto permanecer no fórum do clima e não na OMC”, opina Jorge Hargrave, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em recente relatório, o pesquisador Ronaldo Seroa da Motta, também do Ipea, mostra que eventuais taxações de carbono seriam vantajosas para a indústria brasileira na competição com a China. Na agricultura, ao contrário, o país teria desvantagem.

Os reflexos atingiriam a economia da Amazônia. Na região, onde os indicadores sociais estão abaixo da média nacional, 65% da população – sem opções de sustento na floresta – já vive em grandes centros urbanos. No Amazonas, 85% da energia é suja, proveniente de geradores a diesel. Só recentemente, com a inauguração do gasoduto Coari-Manaus, pequenas termoelétricas a gás natural começaram a ser construídas. Para mudar a matriz energética, a capital amazonense aguarda a obra do linhão que rasgará 1,5 mil km de floresta para a conexão com a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. “Energia e logística são essenciais para a expansão industrial”, afirma Oldemar Ianck, superintendente da Zona Franca de Manaus (Suframa). “Amazonia não deve ser apenas almoxarifado de matérias primas para outros estados e para o exterior”, acrescenta Iank.

Ele admite que há passivos a resolver, como os impactos ambientais na capital. Ao atrair indústrias em troca de incentivos fiscais, Manaus recebeu grande contingente de migrantes que ocupou bairros erguidos sobre palafitas na beira de córregos poluídos, só agora alvo de projetos de saneamento. “As indústrias da capital, responsáveis por 90% da renda estadual, reduziram a pressão para o uso predatório da floresta”, argumenta Iank. Cogita-se agora na prorrogação da Zona Franca por mais 50 anos, conforme anunciou o governo federal. No entanto, “é preciso corrigir rumos, porque não podemos subsistir apenas com incentivos fiscais, mas investir em infraestrutura e nos recursos regionais”.

A nova ponte sobre o rio Negro, inaugurada em outubro ao custo de R$ 1 bilhão, permitirá a expansão do pólo industrial e da Região Metropolitana de Manaus. Na expectativa do crescimento, o município de Iranduba, na outra margem do rio, já registra o maior índice de desmatamento do Estado. O lugar é palco do primeiro projeto da chamada Zona Franca Verde: a fábrica Borracha da Floresta, inaugurada neste mês com investimento de R$ 5,2 milhões. O empreendimento absorve a produção seringueira de 17 municípios e se destinada a abastecer uma indústria de pneus, a Neotec, que fornece para o pólo industrial de motos e bicicletas, onde operam 25 empresas. “Enfim a cadeia produtiva da borracha está fechada, desde a floresta até a capital”, conta Valdelino Cavalcanti, presidente da Agência de Desenvolvimento Sustentável.

“A expansão industrial puxará um novo modelo, baseado em alta tecnologia, baixo carbono e energia renovável”, garante João Talocchi, coordenador do Centro Estadual de Mudanças Climáticas. O plano é fazer o inventário de emissões industriais para o estabelecimento de metas de corte. Esperam-se oportunidades com o mercado de carbono, na perspectiva de avanços no debate global sobre o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) – mecanismo de compensação financeira para conservação da floresta. “Não queremos ser vistos com o santuário; se o mundo pede a manutenção dos ambientes naturais, que pague por isso”, ressalta Nádia Ferreira, secretária de Meio Ambiente.

 

BOX

 

Pesquisadores medem o balanço de carbono da floresta

 

Conhecer o real papel da Amazônia para o controle climático é chave para o país definir sua posição nas negociações internacionais e defender a competitividade das empresas brasileiras. A região captura mais carbono do que emite? Em busca de respostas, cientistas brasileiros esquadrinham a mata para medições em pontos estratégicos e estão perto de chegar a resultados conclusivos. “Ao que tudo indica, a floresta tem seqüestrado da atmosfera em média uma tonelada de carbono por hectare ao ano, o que, extrapolando para toda a Bacia Amazônica, significa 300 milhões de toneladas, superior às emissões totais brasileiras, de 250 milhões”, revela o pesquisador Niro Higuchi, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

O primeiro passo dos cientistas foi desenvolver um método preciso para saber quanto cada árvore acumula de carbono com base no diâmetro do tronco. Em seguida, a floresta no Estado do Amazonas foi dividida em parcelas com tamanho equivalente a um quarto de um campo de futebol, onde foram analisadas as árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro. O modelo é agora ampliado para os estoques de carbono de toda a Região Amazônica, mediante rastreamento com imagens de radar que identificam em detalhes a cobertura florestal. “Como oportunidade de negócio e item de valor para a remuneração de quem conserva a natureza e seus serviços ambientais, o carbono precisa de medição específica e confiável, dentro de padrões aceitos internacionalmente”, explica Higuchi.

Em paralelo, a pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), em São Paulo, coordena operações que rastreiam a Amazônia com sobrevôos que medem a concentração e o fluxo de carbono no ar, entre 300 metros e 4,5 km da superfície da floresta. Após dez anos de medidas em pontos específicos, em 2010 pela primeira vez as aeronaves rastrearam a região como um todo. O objetivo é medir o dióxido de carbono, metano e outros gases, emitidos principalmente por desmatamento e queimadas. “Já sabemos que o lado Oeste da Amazônia absorve mais carbono do que emite, porque o crescimento florestal é maior”, afirma Gatti, adiantando resultados que serão brevemente divulgados em publicação científica.

De acordo com a cientista, “já não é verdade a tese normalmente aceita de que a floresta adulta é neutra na tarefa de capturar e emitir carbono”. No próximo ano, com R$ 3 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, informa a cientista, os aviões rastrearão o país inteiro. O cruzamento dos dados brasileiros com os captados de estações internacionais permite inferir sobre a quantidade de gases que entra no país. O governo precisa da informação para definir políticas de controle e mostrar lá fora quem está exportando carbono para outras regiões do planeta.

 

 

Publicado originalmente no Valor Econômico

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly