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Matas Secas (MG) - A fronteira do desmatamento em Minas Gerais

· Minas Gerais

Imagens de satélite desvendam o estado de conservação e as ameaças à floresta em lugares normalmente longe dos holofotes da mídia. Um exemplo é a região das Matas Secas, em Minas Gerais, situada na transição da Mata Atlântica com o Cerrado. A área é alvo dos maiores desmatamentos registrados nos últimos anos, no bioma. De Vitória da Conquista (BA), a BR 116 no sentido Sul leva ao município de Águas Vermelhas, em território mineiro, onde um pedaço expressivo de floresta nativa deixou de existir, conforme detectaram as imagens do atlas do monitoramento. Na beira da estrada, sacos de carvão empilhados dão pistas sobre o destino daquelas árvores, derrubadas principalmente para o plantio de eucalipto. “Fazer bancos de madeira e pallets de eucalipto para gerar energia é mais rentável do que carvão, ainda mais em tempos de fiscalização mais rigorosa”, afirma Eudes Xavier, proprietária da Pousada Chalom, onde no fundo do quintal funciona uma serraria.

Ao longo do percurso, áreas totalmente despeladas chamam atenção em meio a montanhas de eucaliptos. Em vários pontos, dois anos antes, havia Mata Atlântica, segundo dos mapas do monitoramento da SOS Mata Atlântica. Em Divisópolis (MG), o acesso de barro para um assentamento rural exibe um rastro preto que denuncia a existência de carvoaria. Nas proximidades, à margem da rodovia federal, se localiza a Fazenda Progresso, com uma placa indicando que o plantio de eucalipto foi financiando pelo Banco do Nordeste. Um pouco mais à frente, flagramos mais de 30 fornos de carvão ao lado de uma grande área desmatada. De lá, no caminho para o município de Salinas (MG), a fumaça ao longe indicava um possível foco de degradação. E assim foi: no local funcionava um único forno entre os 14 que estavam em ruínas. Eles foram desmanchados depois que a madeira acabou e os carvoeiros abandonaram o lugar para desmatar em outro. De fato, já não havia ali qualquer árvore, nem de eucalipto.

No assentamento Franco Duarte, habitado por 98 famílias, o lavrador Leomar Souza, o Mazinho, explica: “os moradores pegam os tijolos dos fornos abandonados para construir puxadinhos nas casas”. Na cidade de Itaobim (MG), já no Vale do Jequitinhonha, fábricas de cerâmica e telhas que margeiam a estrada utilizam lenha retirada da mata nativa. O alvo da exploração são os remanescentes florestais das chapadas mais altas, de difícil acesso para a fiscalização, mas não para quem desmata. Em Capelinha (MG), na BR 367, o comerciante Charles Miranda, dono de um bar, conta que a fuligem dos fornos de carvão causa problemas de respiração e as estradas que escoam a produção servem de caminho para caçadores de veados, tatus e caititus. “Tudo ali era pura Mata Atlântica com jacarandá e angelim-pedra”, conta Miranda, com um detalhe: “Ninguém vendia a madeira nobre; queimavam tudo para plantar eucalipto”.

“A água diminuiu e a terra está ruim para a roça”, atesta o lavrador Cordiolino dos Santos, ao reclamar da dificuldade de comprar adubo e melhorar o solo para o plantio de milho e feijão. Afundado em dívidas, o antigo proprietário daquelas terras derrubou a mata nativa para colocar eucalipto e depois se beneficiou da desapropriação da fazenda para fins de reforma agrária. “O mesmo aconteceu com várias propriedades por aqui”, revela Santos.

Fragmento extraído do livro Extremos da Mata Atlântica, publicado pela Fundação SOS Mata Atlântica

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