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Muaná (PA) - Sujeira na Floresta

· Pará

Sujeira na floresta

Expansão do consumo impõe desafios para o lixo da Amazônia

Foram seis horas de navegação desde Belém até a cidade de Muaná, na Ilha de Marajó, no Pará. Diferente de tudo que se costuma ver pelos rios amazônicos, o barco aportou levando em seu interior não passageiros ou carga, mas um supermercado-móvel. Nas prateleiras, em ambiente com ar condicionado e freezers para a conservação dos alimentos, uma grande variedade de chocolates, sorvetes, biscoitos, cereais, iogurtes e outros produtos, difíceis de achar em pontos de venda isolados na floresta, chegavam a uma nova classe de consumidores. Durante alguns dias até a partida da embarcação para outros povoados ribeirinhos, a atração para os moradores foi pilotar carrinhos de compra em busca de novidades. Desejos foram realizados, mas, juntamente com o consumo, a pequena cidade desperta para um problema comum em época de economia aquecida e maior poder aquisitivo: o lixo.

“O barco se integra ao sistema de comércio na Região Amazônica, grande parte regido pelas águas dos rios, e tem a preocupação de reduzir impactos do descarte após o uso dos produtos”, afirma Renato Pires, gerente de regionalização da Nestlé, fabricante que estrategicamente promove suas marcas junto a um público que ascende ao consumo. Dados do IBGE para a Região Norte indicam que, entre 2001 e 2009, a faixa da população com renda de até dois salários mínimos aumentou de 58% para 66%. Mas a região abrange apenas 1% dos municípios brasileiros que fazem coleta seletiva para reaproveitamento, segundo o Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre).

Antiga balsa para transporte de carros e tratores, a embarcação foi adaptada para a nova finalidade com um detalhe cada vez mais comum nas redes de supermercados dos grandes centros urbanos: na porta de entrada para as gôndolas, há compartimentos para entrega de lixo reciclável por parte dos consumidores. O material é levado por via fluvial para cooperativas de catadores em Belém. Embora por enquanto a prioridade da coleta seja as embalagens dos produtos ali vendidos, a iniciativa acabou ganhando um espectro mais abrangente, atrelada a um programa de educação. “O barco não é apenas vitrine de produtos, mas de consciência ambiental, com poder de mobilizar prefeituras para a melhoria da limpeza e da coleta do lixo”, ressalta Pires. Em cada percurso de 40 dias em rotas alternadas, o supermercado-móvel visita 27 cidades amazônicas, abrangendo 1,5 milhão de habitantes. Como o tempo de viagem depende da maré e outros percalços da natureza, a data de chegada é informada via SMS (mensagem de celular) para as emissoras de rádio locais.

“Em lugares que só recentemente começaram a lidar com o problema dos resíduos, é forte a tradição de descartar tudo na natureza, hábito indígena e caboclo herdado de quando os produtos eram consumidos in natura, sem embalagens”, atesta a consultora Viviane Fortes. Ao lado do marido, Anderson Murta, ela coordena um programa de educação envolvendo a capital paraense e mais quatro municípios do interior visitados pelo barco-supermercado. “Na região, o poder público costuma estar longe do problema por total falta de informação”, completa Viviane. Em Muaná, por exemplo, onde os garis jogavam no rio o lixo da varrição das ruas, o tema mobilizou a comunidade e tornou-se bandeira política do governo municipal, que fez um plano emergencial de resíduos. Neste mês, foi inaugurado um galpão para a triagem dos materiais recicláveis para envio a cooperativas da capital nos porões dos barcos de passageiros. A coleta é difícil, porque as vias públicas são, em sua maior parte, passarelas por entre casas de palafita na beira dos rios. “Muitos estocaram o lixo reciclável nas moradias até o galpão ficar pronto”, afirma a bióloga Luana Fernandes, da Secretaria de Meio Ambiente.

De acordo com o último censo do IBGE, apenas 22% dos domicílios da Região Norte tem condições sanitárias adequadas. “Melhorar o saneamento significa prevenir doenças hídricas, como infecções intestinais, que afetam principalmente famílias com maior número de filhos e baixa escolaridade”, completa Hadassa Nogueira, diretora do hospital municipal. Os mais atingidos, segundo ela, são os habitantes que migram para a cidade, mantendo os hábitos da floresta. “A maioria usa celular e as baterias, quando gastas, vão parar nos rios”, ressalta o professor Anderson Matos.

A promotoria pública proibiu o descarte indevido de resíduos pelos barcos de linha. “Não seremos depósito de sujeira apenas porque estamos nos fundos do Brasil”, argumenta José Caetano Ferreira, secretário de Educação. A estratégia para a mudança de práticas é centrada nas escolas, que começaram a receber o lixo da cidade após campanhas de conscientização, obrigando a prefeitura a agir.

No povoado ribeirinho Santa Rita de Cássia, zona rural de acesso apenas por barco, o tema “resíduos” está presente no currículo escolar e os alunos multiplicam os novos hábitos em suas casas. Em lugar tão isolado onde a eletricidade vem de geradores que nem sempre funcionam, a merenda tem alimentos industrializados com embalagens descartáveis para evitar a deterioração. Lanchas que fazem o transporte escolar levam os materiais recicláveis para onde possam ser reaproveitados. “Fazemos a nossa parte, porque temos antena parabólica e sabemos o que acontece no mundo”, diz Silvio Monteiro, vice-diretor da escola.

“Trabalhamos com crianças da geração wi-fi”, reforça o ator e educador Emerson de Souza. Ele viaja a bordo do “supermercado” em operação nos rios do Pará e utiliza lendas amazônicas para ensinar nas escolas o que fazer com as diferentes embalagens após o consumo dos produtos. “Mas faltam coisas básicas, como coleta do lixo e saneamento”, reclama.

Devido à complexidade da logística, o cumprimento da lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que obriga o fim dos lixões e a reciclagem de embalagens e outros materiais, é um difícil desafio na Amazônia. “No primeiro momento, nesses lugares mais distantes, a população deve ser orientada a exigir dos governantes ações contra o lixo”, aponta Fernando von Zuben, diretor de meio ambiente da Tetra Pak. Em parceria com a Nestlé, o fabricante de embalagens longa vida patrocina o trabalho de educação ambiental em escolas da região percorrida pelo supermercado flutuante. Em dezembro, iniciativa semelhante chegará ao Amazonas, onde outra embarcação conscientizará ribeirinhos sobre a questão dos resíduos juntamente com campanhas contra a caça do peixe-boi-amazônico, nas proximidades da usina hidrelétrica de Balbina. “O mundo evoluiu e certas tradições, tanto a matança do peixe amazônico como a maneira de lidar com o lixo, precisam mudar”, ressalta von Zuben.

Retranca

Belém esbarra na falta de indústrias recicladoras

Os problemas do interior amazônico ganham escala nas capitais, como Belém, onde a coleta seletiva dos resíduos é incipiente. Sem parque de indústrias recicladoras, a maior parte das 1,6 mil toneladas de lixo produzidas por dia vai para o aterro, frequentado por famílias de catadores no entorno dos mananciais de água da cidade. “A população quer contribuir com a reciclagem, mas não há coleta”, lamenta Patrícia Gonçalves, diretora da organização não governamental No Olhar, que estabeleceu parceria com a Tetra Pak para viabilizar a reciclagem de embalagens longa vida, desviando-as do lixão para gerar renda. O material é armazenado em cooperativas de catadores até atingir uma maior quantidade para reaproveitamento industrial em outras regiões, como São Paulo. “A venda é garantida e funciona como uma espécie de poupança para as cooperativas”, explica Patrícia.

Recipientes para entrega de resíduos recicláveis pela população, fabricados com caixas de leite e suco recicladas, estão sendo instalados na cidade. “É um trabalho ‘formiguinha’, importante para mudar a atual realidade do lixo em Belém”, explica a diretora. A sede da entidade, na zona central da cidade, também funciona como um ponto de recebimento de materiais para posterior envio às cooperativas. Há quem leve o lixo reaproveitável até lá de taxi, como faz periodicamente a aposentada Maria Helena Bentes. “Se cada um contribuir, a situação seria menos preocupante”, diz. No local são entregues duas toneladas de resíduos por semana, além de milhares de litros de óleo de cozinha gerados nas quitandas do tradicional mercado Ver o Peso. “É muito ruim esperar sempre do governo, sem agir”, afirma Daniel Mescouto, voluntário que mobiliza 6 mil jovens de sua escola para o descarte correto, principalmente de produtos eletrônicos.

A expectativa é atrair atenções para um problema que se avoluma no ritmo do consumo e do crescimento urbano. A quantidade de urubus em áreas próximas ao aeroporto, colocando em risco à segurança dos voos, levou o Ministério Público Federal a entrar recentemente na Justiça para obrigar a prefeitura de Belém a fazer a limpeza. Na capital paraense, existem apenas seis cooperativas de catadores – quase todas sem estrutura de produção, reféns de grandes sucateiros que pagam preços baixos e revendem os materiais para mercados de outros estados. Com sorte, algumas cooperativas conseguem apoio de órgãos públicos para a coleta de recicláveis. “Mas a parte mais nobre, como o papel branco, é destinada aos aparistas”, reclama Paulo André Negrão, da Cooperativa Pedreira. “No lixão, consegue-se apenas R$ 0,10 por quilo de papel, enquanto o mesmo material vindo das repartições públicas vale R$ 1,10”, ilustra. No bairro do Aurá, os 22 catadores que desistiram do lixão e se organizaram em cooperativa tiveram mais sucesso: ganharam do governo estadual um caminhão para coleta nos bairros vizinhos e empresas que geram maior quantidade de resíduos.

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