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Mucuri - Os desafios do diálogo da terra do Descobrimento

Uma viagem por todas as regiões do país ilustra localmente as diferentes etapas do processo construtivo das relações com comunidades, a começar pela Bahia -- local onde o Brasil foi “descoberto” e batizado de Terra de Santa Cruz até mais tarde ganhar o nome da primeira espécie florestal a ser explorada até a exaustão no Novo Mundo. O primeiro “diálogo”, se assim é possível chamar, aconteceu no contato dos colonizadores portugueses com os índios. Foi uma aproximação certamente bem menos amistosa do que contam os livros escolares, marcada por uma estratégia de dominação em busca de riquezas. No primeiro contato com os índios, os portugueses logo demonstraram os interesses, conforme relata a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal: “(...) um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata (...)”

Ao longo dos séculos, a região passou por diferentes ciclos econômicos, associados ao uso e ocupação da terra, ao custo da destruição da floresta hoje chamada de Mata Atlântica. E assim foi até a chegada do eucalipto para produção de celulose, na década de 1960. “A atividade que se iniciava com problema fundiário de todo tipo, incentivos do governo e nenhum planejamento”, recorda-se Mario Montovani, diretor da SOS Mata Atlântica, um dos que primeiro assumiram a linha de frente contra aquele modelo de ocupação que se mostrava nocivo ao meio ambiente e às comunidades. O eucalipto mostrava alto poder de adaptação e de produtividade no Sul da Bahia e do Norte do Espírito Santo e logo tornou-se uma promessa de redenção econômica após a derrocada do cacau ao custo de um grande impacto social. A política do coronelismo permanecia como resquício da época áurea, tão bem retratada nos romances de Jorge Amado. “Fomos recebidos no aeroporto de Porto Seguro com faixas dizendo ‘ambientalistas, go home’”, conta Montovani, ao lembrar o dia que lá aterrissou para uma audiência pública e ouviu dos políticos que “ninguém teria garantia de vida”.

A audiência se referia a uma ação judicial movida contra a Veracel, em função de um desmatamento de 60 hectares de Mata Atlântica com correntões puxados por tratores. Instalavam-se plantios de eucalipto inclusive na linha de costa, demonstrando a euforia de um negócio que se mostrava redentor e lucrativo, no rastro de índices de produtividade muito superiores aos dos países concorrentes. “Vaias foram o que de menos ameaçador aconteceu nas primeiras reuniões”, recorda-se o ambientalista, para quem a dinâmica da destruição do passado se assemelha ao que ocorre hoje em Minas Gerais para a produção de carvão.

“Não havia diálogo, era só conflito”. A situação só começou a ser revertida a partir da pressão do mercado internacional e das normas socioambientais do Forest Stewardship Council (FSC), inéditas na época. Uma nova geração de engenheiros e gestores chegava ao setor da produção florestal com uma visão alinhada ao cenário da Rio 92, quando a temática ambiental e social se incorporava aos negócios. “As empresas se abriram para mudanças e pensavam: se os ventos estão mudando, temos que mudar também”, diz Montovani.

Antes da chegada do eucalipto os tempos eram difíceis na região, principalmente no Espírito Santo, onde a agricultura em declínio levou o governo militar a criar incentivos e a mobilizar as empresas estatais para a implantação de atividades econômicas. Em 1967, foram plantadas as primeiras mudas da então Aracruz Celulose, cuja fábrica foi inaugurada 11 anos depois. Como ícone do regime da ditadura, no qual inexistiam processos participativos de diálogo, o projeto acabou alvo de uma cultura de resistência. “Era uma região pobre, na época já bastante depauperada pela retirada de madeira, inclusive a utilizada na construção de Brasília”, conta o diretor de sustentabilidade e relações corporativas da Fibria, Carlos Alberto Roxo, executivo que acompanhou os primeiros passos da produção de celulose no país quando trabalhava na antiga Aracruz.

Os padrões antigos eram diferentes dos atuais. Em nome do progresso e do “Brasil Grande”, não havia restrições contra a derrubada da floresta nativa, muito menos regras de convivência com comunidades, que se tornavam marginalizadas. “A indústria florestal conseguiu elevar o PIB dos municípios, mas não foram capazes de reverter os indicadores sociais”, afirma Roxo. Conflitos com índios foram os mais visíveis e aresta só começou a ser aparada a partir de 2007, quando foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta junto ao Ministério Público para a incorporação de 11,5 mil hectares às terras indígenas. O acordo foi o primeiro grande marco nas relações entre indústria de celulose e comunidades. Antes dele, o clima de tensão e insegurança se arrastara por dez anos, desde a conclusão de um relatório da Fundação Nacional do Índio (Funai) reconhecendo o direito fundiário daquelas etnias, em 1998. A empresa resistia com receio de abrir um precedente e desencadear novas demandas para a cessão de terras.

“Em região de baixa governança e ambiente politizado contra o capital estrangeiro, os ânimos estavam muito acirrados de parte a parte e de início não conseguimos o diálogo”, admite Roxo, ressalvando que naquele tempo faltava metodologia e “ciência social” para as empresas em geral – não apenas as florestais. Ao longo do tempo, diz ele, houve um processo de amadurecimento, o assunto ganhou prioridade e as relações evoluíram até o cenário atual, onde se negociam soluções inteligentes de geração de renda contra o roubo de madeira para carvão. No passado, a cidade de Aracruz (ES) parecia cenário de filme faroeste. Hoje, 80% da mão-de-obra do município está alocada nos plantios de eucalipto, na fábrica de celulose e serviços terceirizados pela indústria, cuja operação representa quase 20% do PIB capixaba. “Até 2025, pretendemos aumentar de 50% para 80% o nível de aprovação da empresa por comunidades vizinhas”, informa o executivo. Não é bondade ou filantropia. A qualidade no relacionamento significa “acesso a mercados, licença para operar e ganho em reputação para se reduzir riscos e se atingir melhor custo de capital”.

No curto prazo, falta resolver uma pendência complexa, que abrange diferentes atores e não depende só das empresas: a relação com comunidades quilombolas. Pretende-se chegar a uma solução conjunta. Há problemas fundiários e baixo nível de organização dos grupos, mas o compromisso é avançar no entendimento. Há pressões de mercado, inclusive envolvendo o selo de certificação FSC, que exige o cumprimento da lei e respeito às populações tradicionais. Atualmente, 32 comunidades de remanescentes quilombolas em todo o Espírito Santo estão em processo de reconhecimento pela Fundação Cultural Palmares. Quatro territórios que afetam a Fibria estão sendo identificados e demarcados pelo Incra, mas dois foram anulados pela Justiça. Os dois que restaram totalizam uma área passível de desapropriação em torno de 15,7 mil hectares. Em geral, comunidades possuem como principal fonte de renda a agricultura de subsistência, com o cultivo da mandioca para a produção de farinha e beiju, empregos informais e nas empresas locais, ou ainda, coleta de resíduos florestais. Nos últimos anos, a empresa estabeleceu canais de diálogo, desenvolveu projetos de geração de renda e criou um grupo de trabalho que qualifica o debate sobre a questão fundiária junto a essas comunidades.

O desenvolvimento local, para além de medidas assistencialistas e pouco estruturantes, é uma preocupação que cresce na atualidade. População tradicional, povoados e cidades ao redor dos empreendimentos florestais precisam de alternativas econômicas para que não perpetuem práticas ineficientes e destrutivas, como lavoura à base de queimadas e corte de árvores nativas para madeira. “Caiu a ficha para a importância da união em torno de compromissos mútuos”, enfatiza Beto Mesquita, diretor do Programa Mata Atlântica da Conservação Internacional, integrante do Diálogo Florestal. Em sua análise, “é paradoxal a convivência de extensos cultivos empresariais de eucalipto com o desmatamento praticado na floresta natural para a venda de enfeites de cozinha aos turistas”. Mesquita acompanha de perto as questões florestais no Sul da Bahia desde o começo da década de 1990, quando lá existiam centenas de serrarias. As restrições impostas pela Lei da Mata Atlântica em 2006 e a maior fiscalização inibiram o processamento das toras nativas para móveis e construção civil. A atividade praticamente desapareceu, mas ainda permanece o extrativismo ilegal dentro de áreas protegidas para a confecção de utensílios domésticos, a exemplo das famosas gamelas, até hoje vendidas na beira das estradas.

“Ao contrário das questões ambientais propriamente ditas, como uso de água e manutenção de reservas legais, e do esforço pelo desenvolvimento tecnológico do manejo, plantio, colheita e melhoramento genético, a agenda da responsabilidade socioambiental continua periférica e é a primeira a ser prejudicada no momento de crise econômica”, analisa Mesquita. Os investimentos sociais, em sua opinião, são pulverizados pelas empresas em ações pontuais não integradas, com poucos resultados transformadores. “Como a celulose é uma commodity, com preços fixados no mercado, a relação com comunidades pode ser uma vantagem competitiva”, argumenta. Mas o que se observa na realidade, completa Mesquita, é a concentração de renda e poucas mudanças no cenário da pobreza: “o maior desafio atual na Mata Atlântica é a questão social e não a ambiental como antes”.

O contexto social e econômico está diretamente associado ao modelo de desenvolvimento desenhado, em parte, pelas estratégias das empresas florestais. “O problema não é o impacto da monocultura do eucalipto, mas a ‘monodestinação’ da madeira com foco único na exportação de celulose”, adverte o ambientalista. A diversificação é um fator para diminuição dos riscos dessa dependência. Nos plantios florestais, a exploração de madeira sólida para móveis e construção – além de reduzir a pressão sobre áreas nativas – “gera potencialmente mais emprego e renda na cadeia de processamento do que a matéria-prima para papel”.

No Brasil é coberto por 2,2 milhões de hectares de florestas para celulose. É uma área equivalente a quase todo o Estado de São Paulo. O Sul da Bahia e Norte do

Espírito Santo abrigam as maiores extensões. Vista da BR 101, rodovia que liga o Sudeste ao Nordeste do país, a vastidão verde homogênea, com árvores de até 35 metros de altura, já encobre a paisagem da Mata Atlântica com o Monte Pascoal ao fundo -- visual que as atuais gerações não conseguem apreciar como faziam as mais antigas. Castigado desde os tempos predatórios da colonização, o cenário é hoje alvo de ações que buscam consertar estragos e conciliar a necessidade de ganhos econômicos, renda local e conservação. O conhecimento florestal das empresas de celulose é chave para o desenvolvimento planejado da cadeia de processamento de madeira e outros recursos nativos, envolvendo comunidades, de modo a valorizar – e proteger – plantios e remanescentes naturais como fonte de matéria-prima sustentável.

No Parque Nacional Monte Pascoal, onde há problemas de sobreposição com terras indígenas e uso da área para a retirada ilegal de madeira nativa, o projeto Formas da Natureza capacita populações tradicionais para alternativas de menor risco à Mata Atlântica, como o desenvolvimento de produtos a partir de eucalipto e outras espécies plantadas, como a Acacia mangium. Pelo menos 6 mil árvores nativas são derrubadas por ano com a finalidade de fazer gamelas, colheres de pau e outros utensílios domésticos, envolvendo 300 artesãos. De acordo com Oscar Artaza, coordenador da iniciativa, o uso da madeira plantada é menos predatória e pode ter 30% mais de rendimento, evitando desperdícios.

Em outra frente de trabalho no Monte Pascoal, o objetivo é organizar e capacitar índios para o reflorestamento. Foram realizadas três oficinas de gestão participativa junto ao conselho de caciques pataxós para a criação de uma cooperativa indígena, reunindo aldeias das reservas de Barra Velha e Águas Belas. O propósito é gerar renda e oportunidades com a restauração florestal de 220 hectares degradados dentro daquele parque nacional, mudando o círculo vicioso da destruição que já exauriu grande parte da principal fonte de sustento local. Segundo estudos, uma de cada quatro famílias indígenas sobrevivem da atividade madeireira. A partir de agora, quem tradicionalmente se dedicava à extração ilegal de madeira passa a produzi-la e a utilizá-la de uma maneira mais sustentável.

A lógica é fazer com que os índios dependam de atividades econômicas ligadas diretamente à conservação e não ao desmatamento. O modelo, pioneiro em comunidades indígenas na Mata Atlântica, recebe R$ 3 milhões do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para atividades de gestão, educação e fortalecimento da cadeia produtiva da restauração, incluindo coleta de sementes e produção de mudas. Na cooperativa, chamada COOPLANJÉ, os próprios pataxós se tornaram protagonistas no trabalho de campo para a recomposição da natureza – tarefa antes executada por uma entidade que não tinha ligação com a região, nem com a cultura indígena. Em parceria com a ONG Natureza Bela, as aldeias ganharam viveiros demudas e pretendem expandir a experiência para outras regiões.

“Quando visitaram pela primeira vez a área, os técnicos do banco se impressionaram com o paradoxo entre o esforço de campo para a restauração e o barulho da motosserra que ouviam ao longe”, conta Paulo Dimas, secretário executivo do Fórum Regional da Bahia. Ele adverte: “a economia florestal não deve depender unicamente dos plantios que abastecem indústrias de celulose”. Eventual crise do setor teria um poder de impacto social tão pernicioso quanto o causado pela quebra da cultura de cacau. “São indispensáveis menor concentração fundiária e maior fomento a pequenos produtores”.

A iniciativa junto aos índios nasceu a partir da experiência inicial e inovadora de uma outra cooperativa, a COOPLANTAR, a primeira a trabalhar com reflorestamento. O projeto surgiu após um mutirão popular para a proteção do rio Caraívas, na região de Porto Seguro (BA), ameaçado pelo desmatamento das cabeceiras. O trabalho, antes voluntário, tornou-se um negócio para o sustento das famílias, beneficiando principalmente ex-pescadores que trocaram as dificuldades no mar e hoje ganham o pão fazendo travessia de turistas em canoas para o vilarejo de Caraívas. O plantio de mudas nativas nas fazendas da região, durante a baixa temporada do turismo, gerava renda complementar. O ex-jardineiro de pousada David dos Santos Souza, o Marola, e sua turma de mateiros, especializaram-se na coleta de sementes para abastecer os viveiros. Eles antes plantavam mudas em garrafas plásticas para vender aos turistas. Depois, dedicaram-se a escalar árvores, algumas altíssimas como os jatobás, para extrair as matrizes do reflorestamento e ganhar três salários mínimos mensais. De certa maneira redimem os estragados causados pelos pais e avós, antigos carvoeiros.

O projeto de restauração com participação comunitária chegou a estar associado à venda de créditos de carbono no mercado voluntário. No entanto, devido a problemas de gestão e ao desinteresse dos fazendeiros em pagar pelas mudas e pela manutenção do reflorestamento, a cooperativa não evoluiu como se esperava. Mas deixou plantada uma ideia que agora prospera em outras iniciativas, com potencial de se integrar ao trabalho de conectar pedaços isolados de vegetação nativa, a maioria em propriedades particulares, para formação de corredores de biodiversidade, essenciais ao trânsito da fauna e à manutenção da sua variabilidade genética. O Pacto para Restauração da Mata Atlântica planeja nas próximas décadas recompor 15 milhões de hectares para dobrar a floresta nativa que restou no bioma.

A adequação das propriedades ao novo Código Florestal deverá movimentar a cadeia de negócios da restauração, beneficiando comunidades. “Só para o Sudeste, contando com a atual infraestrutura de viveiros e o plantio de mudas nativas em 20% da área, o trabalho iria demorar pelo menos 60 anos e exigiria investimento de R$ 46 bilhões”, calcula Aurelio Padovezi, coordenador de estratégias de restauração na The Nature Conservancy (TNC).

Diálogo aproxima setores antes antagônicos

As questões sociais são inerentes ao esforço de reconstrução. Estima-se que surjam oportunidades em maior escala a partir do desenvolvimento de uma cadeia produtiva até agora mantida na periferia dos grandes empreendimentos e, até certo ponto, na informalidade. O atual engajamento dessas engrenagens para a valorização econômica da floresta demonstra que o foco nas relações com comunidades ganha espaço na agenda da conservação, a partir de um debate relativamente antigo.

Há exatos 10 anos, trinta representantes de organizações ambientalistas, da indústria florestal, proprietários de terras e academia encontraram-se em Santa Cruz de Cabrália (BA) para uma conversa inicial, centrada principalmente na conservação da biodiversidade. Dois anos depois, em 2005, na primeira reunião do grupo já formalizado como Diálogo Florestal, o diagnóstico sobre os obstáculos para se chegar a uma visão comum incluía aspectos sociais importantes: a deficiência de informação e a falta de transparência das relações. “Foi uma reunião para conhecimento mútuo entre os setores e teve seus momentos quentes de discussão, fundamentais para avançar com a agenda”, recorda-se Miriam Prochnow, hoje secretária executiva da organização.

Ao longo dos anos, o Diálogo Florestal construiu uma pauta extensa de trabalho, com nove fóruns regionais para identificação e mobilização de parceiros locais. Frutos do diálogo foram, por exemplo, as ações de conservação junto a produtores de eucalipto fomentados pela indústria e o afastamento dos plantios florestais em relação às comunidades, para a redução de conflitos. Entre outros pontos, a soltura de gado para pastagem nas florestas das empresas e os riscos dos animais silvestres afugentados para perto das moradias durante o corte do eucalipto eram problemas que precisavam ser resolvidos.

Decisões levadas a cabo de maneira participativa e consensual têm proporcionado o surgimento de arranjos produtivos e soluções inovadoras. Eliminam-se barreiras, preconceitos. Conversas difíceis tornam-se possíveis; o contencioso cede lugar ao amistoso. E conflitos até bem pouco tempo atrás só resolvidos nos tribunais se transformam em oportunidades com benefícios para ambos os lados.

Marco desse novo cenário foi o acontecimento histórico, ocorrido no ano passado, no Assentamento Jaci Rocha, município do Prado (BA). Não foi um almoço de rotina. O aroma da galinhada exalava na recepção aos convidados, quando chegaram as lideranças dos dois lados em questão: o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e a Fibria, empresa de celulose detentora de grandes extensões de eucalipto no Extremo-Sul da Bahia. Desta vez, o ambiente não era de desavença, mas de festa: a inauguração de uma escola agroflorestal para jovens de assentamentos rurais, destinada a fomentar práticas sustentáveis e uma nova cultura no campo.

Após discursos inflamados com elogios de parte a parte e uma sessão de fotos de executivos abraçados com representantes da comunidade, estava selada a aliança. Em negociação inédita, a empresa -- proprietária da fazenda ocupada há 12 anos pelos sem-terra -- abriu mão de novas ações de reintegração de posse e terá a área desapropriada para investir no projeto agroecológico durante cinco anos, encerrando o conflito e beneficiando 1,2 mil famílias. No arranjo do tipo “ganha-ganha”: os colonos ganham terra, estrutura e qualificação para produzir mais e melhor; a empresa recebe títulos de dívida agrária, um negócio de ótima rentabilidade no mercado, e avança da política de boa vizinhança.

O governo estadual da Bahia e o INCRA participaram da costura. “Muda-se a relação entre capital e trabalho”, analisa Paulo Kageyama, pesquisador da ESALQ, da Universidade de São Paulo. Ele orienta os assentados na produção de alimentos em sistemas agroflorestais, sem uso de agrotóxico e com a conservação da Mata Atlântica – ambiente natural que fornece água e condições de clima essenciais à sustentabilidade do próprio eucalipto do entorno. Márcio Matos, da direção nacional do MST, despachou após a cerimônia: “Chegamos a um novo paradigma de negociação sobre passivos, diálogo que surgiu a partir de relações antes extremamente conflituosas e se repetirá junto às demais empresas do setor”.

Um segundo marco divisor de águas na relação entre silvicultura e comunidades foi a operação policial, deflagrada em 2011, contra o desmatamento e produção ilegal de carvão no Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo. O episódio foi estopim para uma aliança entre empresas florestais e Ministério Público no sentido de reverter o quadro social degradante e os prejuízos causados pelo roubo de madeira nas áreas de eucalipto e nativas. “Surgiu o desafio foi encontrar soluções para comunidades que dependiam economicamente dos fornos de carvão, que foram destruídos, preparando-as para o acesso a políticas públicas e serviços básicos, como educação e coleta de lixo”, afirma Giordano Bruno Automare, coordenador de sustentabilidade da Unidade Aracruz, da Fibria. Das mais de 1 mil vilas identificadas na vizinhança, 96 são de alta prioridade. Ele completa: “Detectamos a necessidade de gerar renda sem destruir totalmente a cultura tradicional de comunidades conflituosas, onde sequer a polícia entrava”.

No Programa de Desenvolvimento Rural Territorial (PDRT), a empresa cadastrou 32 vilarejos da Bahia e Espírito Santo para o início de novas atividades produtivas capazes de puxar mudanças sociais. No total, foram cedidos 2,5 mil hectares em regime de comodato para pequenos produtores cooperativados, principalmente na faixa dos 300 metros de recuo do eucalipto, negociada no âmbito do Diálogo Florestal.

O trabalho coletivo, importante no processo de “empoderamento” local, é condição para fazer parte do projeto com assistência técnica e acesso a insumos durante um determinado tempo. “A lógica das relações com comunidades não é mais doar camisetas para times de futebol”, ilustra Automare. O objetivo agora é criar um mosaico de soluções produtivas comunitárias para se chegar, ao longo do tempo, a uma fórmula ideal. “Fazer a transição para a agroecologia é um desafio cultural de longo prazo e sem ele as carvoarias certamente voltarão”.

“A roça de mandioca é hoje melhor do que qualquer outro trabalho na região”, garante Adailton Santos, enquanto corta as manivas para plantio ao lado da mulher e dois de seus cinco filhos, no lote que recebeu na comunidade de Pouso Alegre, em Alcobaça (BA), município que tem a maior parte do território ocupada por plantios florestais de empresas.

Na localidade, são 136 hectares com 60 famílias e duas associações de produtores. Uma unidade de beneficiamento de farinha foi recentemente inaugurada no povoado para absorver a mandioca produzida por quatro cooperativas rurais dos arredores, na esperança de maior ganho sem a venda para intermediários. Em função do longo período de seca em grande parte do interior nordestino, o preço do saco de farinha dobrou, aumentando o otimismo de quem vive nas regiões não atingidas pela estiagem, perto do eucalipto. Um banco de germoplasma está sendo desenvolvido com apoio de pesquisadores para aumentar a diversidade genética da planta.

A demanda pela participação no projeto dobra a cada ano. Treze associações comunitárias aguardam na fila e serão atendidas conforme o seu nível de vulnerabilidade social e o impacto local da empresa. “No início éramos criticados; agora batem na nossa porta para entrar”, afirma Valmir Fonseca, analista de sustentabilidade da Fibria na região. No vilarejo Novo Destino, o lote comunitário onde antigamente havia eucalipto e hoje os 33 produtores locais plantam abóbora é palco de aulas de campo sobre o uso de biofertilizantes. “O plano é fazê-los plantar o próprio insumo, utilizando espécies adaptadas localmente”, revela o engenheiro agrônomo Luis Claudio Bona, à frente de um grupo que prepara um coquetel de adubação verde à base de leguminosas para o plantio de milho.

O trabalho coletivo é a principal conquista. “Uma área adicional foi negociada com a empresa para que os produtores deixassem de plantar na beira do rio”, conta Werlhes Gomes, presidente da associação local, informando que está saindo do papel um projeto de irrigação e outro para beneficiamento de legumes, cuja produção substituiu o gado e o corte de madeira. “Em vez do êxodo que ocorria antes, hoje os jovens vão para a cidade estudar e voltam para trabalhar no campo”, afirma Gomes, aluno de Gestão Ambiental na universidade. Milho, mandioca e feijão vicejam no lote de 1 hectare que recebeu no projeto. “Outros plantam pimenta e até café”, diz o rapaz, estimando aumento da renda. “O que era no máximo um salário mínimo, hoje gira em torno de R$ 900, mas tem gente colocando até R$ 4 mil por mês no bolso”. No Novo Destino, quem andava de bicicleta comprou moto. Quem tinha moto, agora anda de carro.

É curioso perceber que os nomes das comunidades conotam, de uma certa maneira, a história de conflitos e transformações que acontecem naquele pedaço da Mata Atlântica. Na comunidade Valha-me Deus, isolada no meio do plantio de eucalipto, o cultivo de abacaxi, maxixe, feijão e milho substituiu os fornos de carvão. Havia inclusive modelos em miniatura, utilizado por crianças. Até recentemente, para se proteger de invasões, havia produtor rural que colocava uma placa na porteira da propriedade com os seguintes dizeres: “Esse eucalipto não é da Suzano, nem da Aracruz. Favor não cortar, nem queimar”.

Já no povoado do Mocó, os moradores decidiram mudar o nome do lugar para livrar-se do estigma do carvão e da ilegalidade. Passaram a chamá-lo de Sombra da Tarde, hoje pacífico, bem diferente de quando as pessoas andavam com facão em punho. “Hoje temos vergonha daquele ambiente de violência, álcool e drogas”, revela Edson Jesus, que era remunerado para roubar lenha e ganhava um percentual da venda para comprar comida. Hoje o rapaz vigia o galinheiro comunitário para a comercialização de ovos e tem planos de plantar café. O terreno ao lado é ocupado por Alaíde Sincorá, mulher que desistiu da vida na cidade de frente para o mar, vendeu o que tinha e carregou toda a família para tentar uma vida nova com vista para os eucaliptos. Na roça, recebe auxílio técnico para plantar feijão, milho e mandioca, sem contar a horta, a casa de farinha e as galinhas que perambulam pelo quintal. “Só falta trazer mãe e sogra”, planeja.

A criação de alternativas econômicas gerou resultados positivos. Entre 2011 e 2012, o volume anual de madeira roubada ou queimada para carvão nas áreas da Fibria diminuiu de 300 mil para 28 mil metros cúbicos ao ano. Ao mesmo tempo, a fatia de produtores com renda de um salário mínimo caiu de 70% para 33% do total. A maioria passou a ganhar mais que o piso. A realidade, no entanto, não é igual para todos. No Assentamento 4045, o último antes da divisa com o Espírito Santo e um dos mais antigos e violentos, virou praticamente uma vila fantasma. Após a repressão policial de dois anos atrás, muitos foram embora. Isso demonstra que nem todos que estavam acostumados ao trabalho com carvão conseguem migrar facilmente para a lavoura. Ambientalistas entendem que a política empresarial deveria ir além do cultivo de alimento e desenvolver métodos sustentáveis e socialmente menos degradantes de produzir carvão nas comunidades, dentro da legalidade e dos princípios de uso múltiplo das florestas de eucalipto.

O percurso da BR 101, no Sul da Bahia, fornece o retrato fiel do cenário criado pela expansão da silvicultura nas últimas décadas. Localizado na beira da rodovia, o distrito de Tabatã, onde está a vila residencial erguida pela Suzano para abrigar os funcionários da fábrica, tornou-se maior e mais desenvolvido do que a própria sede do município de Mucuri, do qual faz parte. Casas imponentes, saneamento e bons serviços de um lado contrastam com a simplicidade e a pobreza do outro, apesar da volumosa arrecadação municipal de impostos por conta da atividade industrial. Em certa medida, além da contribuição dos tributos, a produção de celulose cobre lacunas dos investimentos públicos e articula parcerias institucionais, com reflexos na melhoria de vida. Recentemente, por exemplo, no plano de contingência contra os frequentes apagões no município, a companhia estadual de eletricidade se comprometeu a pagar pelo excedente de energia gerada pelas caldeiras de celulose em troca de investimentos da Suzano na melhoria da rede elétrica.

No passado, médicos, juízes e professores passavam ao largo de Muruci. Hoje o padrão mudou. A população aumentou de 4 mil para 34 mil habitantes e o município busca alternativas. “Emprego para quem passou dos 50 anos é difícil”, afirma Antonio dos Remédios, pescador que desistiu do mar e recorreu aos rios. A cidade, antigo polo pesqueiro, entrou em decadência. O mar já não está para peixe. E é perigoso: “não temos barcos em condições de buscar cardumes cada vez mais distantes da costa”. Antônio é presidente da associação que opera um projeto de piscicultura com apoio da Suzano. No rio Coca-Cola, foram instalados 30 tanques de tilápia, capazes de produzir 1 tonelada por mês. O plano é gerar um complemento de renda de R$ 500 por família, exigindo para cada produtor três dias de trabalho por mês em regime de rodízio. Além da estrutura de viveiros, a empresa fornece lancha, ração, alevinos e assistência técnica por dois anos.

É um caminho para gerar renda, mas também uma estratégia capaz de reverter a visão negativa de que os efluentes lançados pela fábrica de celulose no rio Mucuri teriam reduzido os peixes. Há relatos de que havia maior fartura na pesca antes da chegada da empresa, mas os estudos científicos encomendados pela indústria não comprovam impactos da sua descarga. O problema pode estar na barragem da usina hidrelétrica construída rio acima. “Ninguém tem certeza sobre nada e o que importa é que precisamos unir forças para trabalhar”, ressalta Antonio, na expectativa de novo auxílio para o beneficiamento do pescado e consequente aumento da renda. “Os mais jovens não querem matar mosquito ou maruim; preferem algo mais sossegado”.

As novas gerações já não fazem redes de pesca ou massa de pedreiro. Dedicam-se ao celular e ao computador – ou então se engajam em projetos profissionalizantes ou culturais, que elevam a autoestima, despertam valores, previnem conflitos e ainda podem gerar alguma renda. “Um dos objetivos é mobilizar as mulheres em atividades capazes de complementar renda e evitar a ociosidade enquanto os maridos pescam”, diz Martha Pereira, coordenadora da Associação Comunitária Golfinho, mantida com apoio da Suzano. Atualmente, nove oficinas de costura e artesanato abrangem 500 pessoas. “Mais do que dinheiro, o importante é a satisfação e o bem-estar quando estamos ocupadas”, revela Sinélia Paixão, mulher de um ex-pescador que recorreu ao trabalho de pedreiro para sobreviver. A atividade inclui também as esposas de trabalhadores da fábrica de celulose.

Da tecelagem de cizal a projetos de inclusão digital, crianças e adolescentes são alvos projetos que as afastam de ameaças sociais, como as drogas e a violência. “A descoberta da aptidão para música envolve o trabalho com valores, disciplina, autocontrole, sensibilização e assiduidade”, afirma Orley Silva, maestro da orquestra de jovens, especializada em repertório erudito com referências populares.

Eles buscam chances diferentes dos atuais empregos temporários na construção civil, cacau e corte de cana. Josenaldo Silva, o Pipoca, vendia a guloseima na rua e hoje coordena o grupo de capoeira Afroginga e a orquestra de berimbau: “atendemos a todo o calendário de eventos municipais”. O projeto mantém a única escola infantil existente na cidade, com 280 alunos. O esforço contrasta com os valões do esgoto que corre a céu aberto e expõe um desafio: tornar as conquistas sociais fortes o suficiente para influenciar políticas públicas e novos modelos de gestão municipal.

“Na zona rural, nenhum eucalipto é cortado sem antes consultar a comunidade local e fazer um plano para minimizar impactos”, garante Ana Paula Soares, coordenadora da área socioambiental da empresa em Mucuri. Para romper a cultura do carvão, a estratégia tem sido promover a produção de alimentos em terras das famílias ou cedidas a elas em comodato. A tecnologia social segue o formato de uma mandala, com canteiros de 2,5 mil metros quadrados dispostos em círculos concêntricos para cultivo de horta e criação de peixes e galinha. O foco é a segurança alimentar e o complemento de renda. A empresa fornece assistência técnica e dois pintos, dois patos, 200 peixes, sementes, telas, bombas e aspersores de água.

No total, 100 “mandalas” foram instaladas na região da BR 418, no caminho para o município de Caravelas (BA). “Melhorou muito a relação com a empresa”, conta Maria Augusta Santos, do Assentamento Cimental, ao mostrar os tomates e as cebolinhas que brotaram na horta, parte para consumo e parte para venda na feira da cidade. Enquanto ela cuida da plantação e dos animais, o marido e o filho trabalham na coleta de galhos e demais resíduos de madeira na área Fibria, na vizinhança. O material é retirado com permissão da empresa para venda como lenha para cozinhar ou para indústrias. A queima para carvão é proibida. “A maior renda vem dos resíduos florestais”, informa Orcalino Muniz, produtor tentou plantar coentro e abacaxi na “mandala”, mas ainda aguarda os resultados. Ele reclama: “a prefeitura não compra a produção para a merenda; falta um esquema de comercialização”.

No caso da apicultura, o ganho econômico é mais evidente. Na localidade de Picadão da Bahia, entorno do mosaico de eucalipto, a Suzano auxilia a produção de mel e pólen pela associação APIEXSUL, que reúne 93 famílias e exporta parte do produto. Em quatro meses de trabalho no ano, o faturamento chega a R$ 1,8 mil mensais por família. Com uma vantagem adicional: a presença das abelhas em área natural ajuda na polinização do talhão de eucalipto ao lado e também inibe a invasão para roubo de madeira.

O debate sobre “gênero” e o papel da figura feminina na produção comunitária compõe o trabalho social em torno da silvicultura. Em Ponto Central, comunidade cercada por plantios de eucalipto da Veracel em Santa Cruz do Cabrália (BA), a moradora Lurdes de Jesus se casou muito nova com o único objetivo de ser sustentada pelo marido e aliviar a penúria dos pais na criação dos seis filhos. A prática é comum por aquelas bandas. Anos depois, o casamento não deu certo e ela encontrou no artesanato da piaçava o meio de sustento para tornar-se independente e tocar a vida ao lado dos quatro filhos. “Consegui melhorar a casa e finalmente ter banheiro com vaso sanitário”, conta.

Naquele povoado, a fibra extraída das palmeiras é esperança contra a pobreza. Na cooperativa local, avisos e memorandos fixados na parede indicam o grau de organização de quem antes não tinha expectativa de renda e hoje vende para lojas de cidades turísticas 54 modelos de bandejas, potes, jarros e outras peças de piaçava. “É questão de amor próprio”, afirma a artesã Silvaneide Santos. O grupo integra o Fórum Regional da Bahia, onde representantes de movimentos sociais, ambientalistas e empresas debatem soluções para manter o sustento sem destruir a floresta.

No litoral, a denúncia de que as barcaças de celulose estariam afetando pesca artesanal na Reserva Extrativista do Corumbau, tema debatido no Forum Regional, levou a Veracel a elaborar um mapeamento do percurso. O trabalho envolveu as comunidades, prevendo as diferentes modalidades de pesca do entorno. Além da instalação de antenas de rádio nas vilas, foram fornecidos equipamentos de comunicação para aviso às comunidades sobre eventuais mudanças de rota.

De um lado, a inclusão social é chave para a integridade dos plantios florestais e para valorização e conservação dos ambientes naturais, no entorno deles. De outro, a demanda ambiental pode atrair investimentos e desenvolver novas cadeias produtivas em benefício de comunidades. É o que acontece no Sul da Bahia a partir de uma decisão do Ministério Público obrigando as indústrias de celulose a arcar com a adequação ambiental dos seus fornecedores locais de eucalipto. Hoje aproximadamente um terço da matéria-prima utilizada pelas empresas do setor provém de produtores rurais que plantam florestas em troca de incentivos e garantia de compra. Pelo acordo, o proprietário que tiver menos de 50 hectares de eucalipto receberá gratuitamente as mudas nativas para restauração de reserva legal e matas na beira de rios. Mas se o produtor tiver mais de 100 hectares, terá de pagar por elas.

O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), no valor total de R$ 30 milhões, por dez anos, gerou um conjunto de iniciativas que culminaram no Programa Arboretum. Idealizadas pela especialista Natália Coelho, do Serviço Florestal Brasileiro, as ações pretendem regenerar inicialmente 20 mil hectares de Mata Atlântica. Pagas pelas indústrias de celulose, as mudas serão fornecidas por viveiros de comunidades rurais que estão sendo mapeadas. A prioridade é o cultivo de espécies florestais raras, ameaçadas ou que só existem naquele bioma. “A ideia é dar à restauração um viés social”, explica Fábio Correa, promotor de justiça no município de Teixeira de Freitas (BA). Está prevista uma rede de sementes e o desenvolvimento de uma cadeia de negócios, com investimento de R$ 2,4 milhões na construção de um prédio com herbário, laboratórios e salas de aula. Percebeu-se que o problema do bioma, mais que o desmatamento, é a necessidade de sua recuperação como forma de se gerar negócios, conservar recursos e reduzir impactos futuros às atividades econômicas.

Fragmento da publicação Cadernos do Diálogo/Silvicultura e Comunidades – Olhares sobre o presente e o futuro.

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