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Oriximiná (PA) - Estratégias para construir uma nova cultura

Apoiar políticas de governo para o uso da floresta e promover o comércio dos produtos certificados são caminhos para o desenvolvimento sustentável

· Pará

De Santarém, no Pará, onde a equipe pernoitou, foram 45 minutos de vôo até a vila de Porto Trombetas com suas minas de manganês em plena selva. De lá, mais oito longas horas por via fluvial para chegar a Cachoeira Porteira, povoado de origem quilombola localizado no município paraense de Oriximiná. Na localidade, atracamos o barco-base da expedição e duas lanchas “voadeiras” para navegar por igarapés rumo a comunidades mais distantes e isoladas. A missão: conhecer as condições de vida dos moradores, sua história e meios de sustento, além de mapear vilarejos, avaliar a organização social e identificar conflitos e ameaças à floresta. As incursões faziam parte de um amplo diagnóstico sócio-econômico, realizado pelo Imaflora em parceria com o Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), para subsidiar planos de manejo com regras para o uso das florestas públicas estaduais do Pará, criadas nos últimos anos na calha-Norte do rio Amazonas. A região é estratégica: guarda o maior mosaico de floresta tropical protegida do planeta.

O papel do Imaflora vai muito além de conferir o selo da certificação. A instituição atua para conservar os recursos naturais, subsidiando a criação e gestão de áreas protegidas voltadas para o aproveitamento sustentável. No Norte do Pará, a tarefa exigiu disposição e espírito de aventura nos rios encachoeirados, típicos da região acidentada. Para transpor corredeiras, foi preciso fazer desvios por terra -- ou seja, desembarcar com toda a carga nas costas e arrastar o barco sobre varas de madeira em antigas trilhas construídas por índios até um ponto da margem propício à navegação. À noite, montavam-se abrigos improvisados na floresta: a rede de dormir era amarrada em duas árvores e sobre ela colocava-se uma lona para proteger da chuva. A água de beber vinha do rio, tratada com hipoclorito. Mosquitos não faltavam, a ponto de um dos integrantes da equipe -- apesar de todos os cuidados -- adoeceu com malária. “A nossa experiência de campo foi decisiva para os resultados da expedição no Pará”, afirma Roberto Palmieri, do Imaflora, acostumado ao convívio com a realidade da floresta.

A aventura estava só começando. A bordo das lanchas menores e mais rápidas, os pesquisadores chegaram a lugares inóspitos de difícil acesso. Em uma dessas incursões, Daniel Santos, do Imazon, encontrou (e fotografou) uma onça pintada que atravessava o rio. O grupo cruzou com garimpeiros e visitou cinco aldeias indígenas, como as dos katxuyana e dos wayway, que contaram histórias de seus povos e mostraram vestígios dos antepassados. “Um dos caciques ofereceu a filha em casamento”, conta Palmieri. Perigo maior, segundo ele, eram os índios tyreos, que costumam descer de regiões longínquas das Guianas, não falam português e são hostis.

Integrar índios e comunidades quilombolas à economia florestal

“Para colher os dados da pesquisa, nosso objetivo era chegar a toda parte onde havia gente”. Foi preciso navegar por dias nessa que é uma das regiões menos habitadas do planeta, com densidade populacional inferior à da gelada Sibéria. É também uma das mais desconhecidas, abrangendo uma imensidão de 7,3 milhões de hectares nas florestas estaduais Trombetas (3,2 milhões de hectares), Faro (600 mil hectares) e Paru (3,6 milhões de hectares), a maior unidade de uso sustentável do mundo em floresta tropical. Essas áreas estaduais, cenário do trabalho de diagnóstico do Imaflora e parceiros, fazem divisa com duas unidades de conservação federais, a Reserva Biológica Rio Trombetas e a Floresta Nacional Saracá-Taquera, criadas na época dos governos militares para proteger jazidas minerais estratégicas. Somadas, formam hoje um escudo contra o avanço de atividades predatórias, como a extração ilegal de madeira e a abertura de pastagens. “A falta de estradas e as dificuldades do relevo pouparam a região”, explica Palmieri. Ele acrescenta que a organização comunitária, mantida sob regras próprias, também contribuiu para a conservação de uma floresta onde só agora -- com os preparativos para o plano de manejo -- o poder público começa a marcar presença.

O núcleo urbano mais próximo é Cachoeira Porteira. O lugar surgiu no mapa na década de 1970, ao atrair descendentes de escravos para trabalhar no projeto de uma hidrelétrica que não saiu do papel. Os atuais moradores habitam o que restou da antiga vila operária, parte em ruínas. A piscina do antigo clube virou um matagal. A população, no total de 120 famílias, ganha a vida prestando serviços para mineradoras e outras empresas. Entre fevereiro e maio, os moradores dedicam-se à coleta de castanha, subindo rios cheios de corredeiras em viagens de até seis dias para chegar aos locais de exploração. “Era também nosso trabalho explicar às comunidades a importância das florestas públicas e como elas funcionam para conservar a biodiversidade e os meios de sustento”, revela Palmieri. No passo seguinte, a tarefa do Imaflora é contribuir para a formação dos conselhos consultivos dessas unidades de conservação, conforme exige a lei, capacitando seus integrantes a orientar o governo estadual na execução dos planos de manejo. As questões sócio-econômicas integram um diagnóstico mais amplo, com dados levantados por outras instituições sobre a realidade fundiária, a biodiversidade, o relevo e o desmatamento.

O apoio técnico a políticas públicas é exemplo de como o Imaflora constrói diálogos e estabelece pactos para o uso múltiplo e sustentável dos recursos naturais. A participação da sociedade é determinante para garantir a conservação e o bom aproveitamento da floresta. Em 2004, a instituição elaborou um guia de referência que orienta como fazer consultas públicas, promover a gestão participativa e mediar conflitos para criar unidades de conservação. Para esse trabalho, técnicos foram a campo conhecer casos bem e mal sucedidos e participou de diversas experiências no Acre, Amazonas e Amapá. O know-how contou pontos para os bons resultados nas florestas estaduais do Pará, que começou em 2006, quando o Imaflora orientou as consultas públicas para a criação dessas áreas protegidas. O governo tinha intenção de qualificar o processo para que fosse além de uma mera exigência legal, garantisse a participação das comunidades e proporcionasse transformações. Como resultado das consultas públicas, o mapa inicial das florestas públicas foi redesenhado para excluir terras quilombolas equivocadamente incluídas nos seus limites. A medida evitou conflitos que poderiam atrapalhar o uso dessas unidades de conservação, palco até o momento três expedições para o diagnóstico sócio-econômico.

A primeira viagem foi realizada em 2007, ao longo do rio Nhamundá. A última, em dezembro de 2008, teve como cenário o rio Jarí. O objetivo foi alcançaf vilas de garimpeiros a bordo de aviões monomotores, em aventuras perigosas. Para aterrissar e decolar em pistas de pouso precárias na floresta, foi necessário retirar todos os bancos da aeronave e reduzir ao máximo a carga. A expedição precisou ser adiada porque o avião que inicialmente iria transportar a equipe caiu no dia anterior. Após aterrissar, os técnicos caminharam quase um dia inteiro em trilhas até chegar ao destino final, onde foram recepcionados pelos líderes garimpeiros da vila. Eles aceitam participar do diagnóstico porque querem dialogar com o governo e sair da clandestinidade. “Um dos principais desafios é conciliar os planos de manejo com a atividade garimpeira, na maioria ilegais”, aponta Palmieri.

O segredo da capacitação profissional para usar bem a floresta

O trabalho demonstra que a contribuição do Imaflora é abrangente. Atinge pontos estruturais, peças-chave na estratégia de harmonizar desenvolvimento econômico, conservação ambiental e qualidade de vida. Para cumprir esse objetivo, a certificação socioambiental é uma de suas armas -- a principal delas, que ganha poder de fogo e eficiência na promoção de mudanças, mediante a capacitação contínua de talentos. Atividades paralelas de treinamento profissional garantem a qualidade dos serviços e minimiza a falta de conhecimento sobre a certificação florestal e agrícola no país. É fator essencial para a implantação efetiva do bom manejo florestal e da produção agrícola responsável. Técnicos qualificados são necessários para avaliar empreendimentos com fins de certificação. Mais que isso. Competência para traduzir os valores, os mecanismos, as oportunidades e os benefícios do selo socioambiental é um dos principais desafios para quem promove práticas sustentáveis. Entre os atributos está a capacidade de articular os diferentes atores desse cenário -- comunidades, empresas, ONGs e poder público.

Além das auditorias de campo e outros procedimentos técnicos da certificação, o Imaflora incentiva o consumo consciente e o desenvolvimento do mercado para os produtos florestais e agrícolas responsáveis. Aproximar produtores e compradores, debater caminhos e buscar soluções conjuntas é um desafio perseguido pela instituição desde o início de suas atividades. O objetivo maior é levar o mercado a reconhecer o valor da madeira usada nos móveis, da castanha, das essências para cosméticos, do papel que compõe livros e cadernos, do café, do cacau, do chá e demais riquezas produzidas com critérios socioambientais. E fazê-las chegar aos consumidores na ponta da cadeia, ou seja, nas lojas, supermercados e, por fim, nas residências.

Desta maneira, a nova cultura de produção sustentável ganhará escala com reflexos mais visíveis na vida do planeta. Escolhas de compra responsáveis reduzem o lixo que suja as ruas e vai para os aterros sanitários, diminuem a emissão de gases do efeito estufa, evitam o desmatamento e promovem a economia de recursos naturais vitais, como a água. Contribuem também para substituir combustíveis fósseis não-renováveis e usar a energia de maneira racional e eficiente. Isso sem falar do poder que essa decisão exerce para eliminar o trabalho escravo, preservar as culturas e valores tradicionais e melhorar a renda e a vida de comunidades e grupos até então excluídos da economia. No século XXI, o ato de comprar tem, de fato, importante papel ambiental e social que começa a ser medido nos cálculos da economia.

O poder transformador do consumo consciente

Trata-se de um debate que nasceu no pós-guerra norte-americano sob um foco diferente, quando movimentos sociais exigiam qualidade dos produtos, dando origem às primeiras associações de defesa do consumidor. A preocupação inicial estava em ter certeza se os produtos continham o que os fabricantes anunciavam e nos seus efeitos para a saúde e para a rotina da vida diária. O tema começou a tomar corpo ambiental na década de 60, quando o rápido crescimento da população mundial e a cultura dos bens descartáveis tornaram evidente um novo desafio. O avanço da produção e do consumo além dos limites ameaçava exaurir os recursos naturais e as fontes de energia para as gerações futuras. Em 1962, o livro “A Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson (1907-1964), causou polêmica ao expor os perigos da poluição, questionando de forma eloqüente a confiança cega da humanidade no progresso tecnológico.

Dez anos depois, na Conferência Mundial de Estocolmo, pela primeira vez a produção dos países ricos era questionada como causa da degradação ambiental. Apenas a melhoria das condições de vida das populações mais pobres e a eficiência dos processos produtivos não seriam suficientes para garantir o equilíbrio do meio ambiente. Estudos científicos mostraram que, pelos padrões vigentes, as fontes de recursos naturais seriam incapazes de suprir as necessidades da população. Era preciso produzir e consumir de uma maneira racional, olhando para o amanhã. Assim surgia, na década de 90, o conceito de consumo sustentável. Constituiu um sinal de mudanças, intimamente atrelado a questões de mercado, como a lógica da certificação socioambiental, que garante a origem dos produtos a partir de critérios rígidos de respeito à natureza e ao ser humano.

Pesquisa do WWF-Brasil e Ibope realizada em junho de 2008 por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente mostrou realidade preocupante: se todos no mundo adotassem o mesmo padrão de consumo das classes A e B brasileiras, seriam necessários três planetas Terra para repor os recursos naturais utilizados. No caso de uma comparação com os países desenvolvidos, essa necessidade seria muito maior. Atualmente, estima-se que a população mundial consuma em média 25% a mais do que a natureza é capaz de repor, com impactos prejudiciais à biodiversidade, às culturas e as condições de vida.

O planeta está em xeque-mate. A maior consciência ao comprar ganhou força para reverter as perspectivas de um futuro sombrio. O consumidor passou a influenciar a cadeia de indústrias e fornecedores cuja política ambiental determina o futuro da vida no planeta. O tema ganhou a dimensão do marketing e hoje diversos artigos encontrados nas prateleiras dos supermercados possuem algum argumento verde. É o pão produzido com cereais orgânicos, o filtro de café feito com papel reciclado, o creme dental que financia a conservação da Mata Atlântica, os bombons feitos com produtos de comunidades extrativistas da Amazônia, entre muitos outros.

Nesse novo ambiente produtivo, onde obviamente é preciso separar o joio do trigo, desenvolveram-se iniciativas transformadoras para além do modismo. O consumo consciente tornou problemas ambientais de impacto global, como a emissão de gases estufa e o desmatamento das florestas tropicais, em mecanismos de mercado que resultam em novos padrões de produção. Na floresta, no campo ou nas indústrias, produtores marcados pelo diferencial de seguir normas socioambientais conquistam um reconhecimento que rende melhores preços, mais oportunidades de venda e condições ambientais e sociais saudáveis para o desenvolvimento dos negócios.

Feira de produtos certificados aproxima elos da cadeia leva o conceito para as vitrines

Ao longo de sua história, o Imaflora tem acreditado que esse é um dos principais caminhos para arraigar os novos conceitos e promover o aproveitamento sustentável dos recursos naturais e serviços ambientais oferecidos pelo planeta. Com base em relatórios inéditos sobre a origem e o destino da madeira extraída no país (leia no capítulo 1), a instituição teceu parcerias com outras organizações não-governamentais para mudar os rumos da exploração predatória e incentivar práticas sustentáveis de consumo. Marco histórico desse processo é a feira Brasil Certificado, realizada pelo Imaflora, Imazon, Amigos da Terra-Amazônia Brasileira e Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil). A iniciativa, realizada a cada dois anos desde 2004, tem como objetivo divulgar produtos diferenciados pelo selo socioambiental, reduzir distâncias entre produtores e compradores, incentivar novos negócios e, assim, promover o setor florestal comprometido com a sustentabilidade.

O evento retrata a crescente diversidade dos produtos certificados -- dos móveis e painéis reconstituídos aos objetos de decoração, brindes, alimentos e cosméticos de largo consumo que têm origem na floresta. Comprova a evolução de um mercado, que se solidifica e deixa de ser apenas um sonho de ambientalistas. A terceira edição, realizada entre 16 e 18 de maio de 2008, reuniu 39 expositores e 3 mil visitantes no Centro de Eventos São Luis, em São Paulo (SP). Nos eventos paralelos à feira, foram laçadas ferramentas inovadoras de apoio ao mercado, como o Catálogo de Produtos e Serviços Sustentáveis, de acesso on line, desenvolvido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade, da Fundação Getúlio Vargas. Em outro lançamento, o Guia de Compras e Serviços Ecologicamente Corretos, o primeiro do gênero no país, apresenta uma lista de lojas e fornecedores que comercializam produtos certificados.

Com base na experiência da certificação florestal e agrícola, o Imaflora amplia as frentes de atuação. Uma das iniciativas é programa Biocomércio, que tem como diferencial a verificação de princípios socioambientais não apenas na origem, mas ao longo de toda a cadeia de processamento de produtos da biodiversidade até chegar ao consumidor. O trabalho é financiado no mundo pela Uncatad, organismo criado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Indústrias aprovadas nessa avaliação, à qual se submetem voluntariamente, creditam-se a fazer parte do Union Ethical Biotrade -- organização internacional que funciona como um seleto clube de empresas responsáveis. O modelo, criado com a participação do Imaflora, foi testado em campo no Projeto Reca, envolvendo comunidades de Porto Velho (RO). Os princípios priorizam questões como o manejo para conservação da fauna e da flora, a valorização do conhecimento tradicional e a repartição de benefícios econômicos no caminho dos produtos até a indústria.

Produtos que embutem o conceito socioambiental ocupam espaços nas vitrines da moda. A expectativa é que não seja uma tendência efêmera, uma marola -- mas uma onda com força suficiente para mudar hábitos e atitudes. A lista é variada. São jóias e bijuterias de sementes amazônicas, cadeiras assinadas por designers famosos, portas e janelas com madeira proveniente de manejo florestal, livros impressos em gráficas que utilizam papel obtido de plantios certificados e até redes para descanso produzidas com fibras e madeira de origem socioambiental. Incentivar a cadeia produtiva dessas mercadorias, reforçando seus benefícios, é uma estratégia do Imaflora para ver o resultado do seu trabalho chegar ao consumidor final.

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