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Paragominas (PA) - Manejo florestal dá certo?

Entramos na floresta para saber como é possível cortar árvores sem destruir a Amazônia. Trinta anos após as primeiras experiências, cientistas chegam a conclusões sobre o efeito do manejo florestal

· Pará

Fazenda Cauaxi, município de Paragminas, Leste do Pará. Nessa que é uma das regiões mais devastadas da Amazônia, o operador de motosserra Arivaldo de Souza, 33 anos, adentra a mata para mais um dia de trabalho. Em busca da primeira árvore a ser derrubada, encontra uma muiracatiara de vinte metros, boa para fazer móveis, marcada com uma plaqueta de número 271. Sobre o tronco, uma assustadora aranha caranguejeira inibe o operador. Após livrar-se do bicho, ele bate com o facão na árvore e descobre que está oca. É poupada, porque não serve para fornecer madeira. Adiante no caminho, surge uma nova candidata -- uma exuberante maparajuba, identificada pelo número 196, cobiçada para construção civil.

Vai começar o abate. Arivaldo calcula o melhor lado para o tronco cair, de forma a não danificar exemplares vizinhos. E abre uma trilha de fuga para caso de imprevistos. A base da árvore é então serrada em diferentes pontos, com critérios para direcionar a queda. Ao receber o último tiro, ou melhor, “corte de misericórdia”, a gigantesca maparajuba desaba das alturas. Madeeeeeeeeira! Um estrondo na floresta contrasta com o silêncio perplexo de quem assiste.

Toda operação demora quatro minutos -- e seria uma cena de chocar, não fosse um detalhe que faz a diferença: realizado com segurança e cuidados para reduzir danos, o abate é totalmente legal. Ilustra a exploração de madeira mediante manejo florestal, ou seja, um plano com regras para seleção de árvores, procedimentos de corte e arraste das toras que permite o uso econômico com menos impacto, dando chances para a floresta se regenerar ao longo do tempo.

Habilidoso no ofício, Arivaldo é ex-mecânico de uma revenda de motossera e já trabalhou no corte ilegal e predatório de madeira, ainda hoje predominante na Amazônia. “A derrubada não tinha critérios e ganhávamos por troncos abatidos”, revela o operário. Ele cortava 50 árvores por dia, em jornadas estafantes. “Atualmente, seguindo regras para não devastar, ganho o mesmo dinheiro sem trabalhar tão duro”, completa.

Ao seu lado, o colega Zenilton Amaral, 27 anos, tem como especialidade fazer o inventário das espécies -- isto é, vasculhar a mata para encontrar árvores de valor comercial e identificá-las com um número. Ele frequentou cursos que formam taxônomos, ou mateiros, como são popularmente conhecidos esses profissionais que conhecem as espécies e segredos da floresta como ninguém. Zenilton aponta para uma enorme árvore com 85 centímetros de diâmetro e diz, sem titubear: “é uma tauari, que dá ótima madeira para esquadria na construção de edifícios”.

Após o trabalho de identificar, medir o tamanho do tronco e marcar os exemplares para o corte futuro, mapas são confeccionados com a localização exata dessas árvores dentro de diferentes parcelas de terreno para exploração. Os dados são essenciais para traçar os caminhos pelos quais os tratores chegarão aos troncos já cortados, transportando-os do meio da mata até pátios de estocagem na beira das estradas. De lá, as toras são carregadas por caminhões para as serrarias. “Além de amenizar impactos, o procedimento aumenta a produtividade das máquinas, reduzindo custos”, afirma André Miranda, o Dodô, técnico do Instituto Floresta Tropical (IFT), que mantém em Paragominas uma área experimental para treinamento e estudos sobre o manejo florestal.

Ele diz que “planejamento é palavra-chave para não destruir a floresta”. O trabalho é criterioso: “Antes de chegar às serrarias, as árvores são visitadas até seis vezes em campo, ao longo dos diferentes processos do manejo”, conta Dodô. A partir do inventário, os técnicos definem as árvores que serão derrubadas e as que ficarão de pé, poupadas para manter a floresta saudável e apta para exploração futura. Além das espécies não-madeireiras e das que se localizam na beira dos rios e outras áreas obrigatórias de conservação, incluem-se nesse seleto grupo as árvores-matrizes, mantidas como fonte de sementes. Espécies com menos de três exemplares por 100 hectares não podem ser cortadas e 10% das que têm diâmetro de tronco com tamanho viável para corte precisam ser preservadas. Nessas condições, garantem os especialistas no tema, a parcela de floresta explorada comercialmente se recomporá com o tempo e poderá ser novamente cortada, após 25 ou 30 anos.

Previsto no Artigo 15 Código Florestal aprovado em 1975, o manejo florestal começou a ser aplicado mediante instruções normativas e só foi regulamentado em 2004. Em 2008, uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabeleceu as regras que hoje valem para todo o território nacional. “Além da demora, muitos danos e desperdícios poderiam ser evitados se a lei saísse do papel”, destaca Marco Lentini, diretor do IFT.

“Planos de manejo são aprovados por órgãos ambientais, mas não executados, criando uma fachada legal para a exploração predatória, que atinge 86% da produção madeireira na Amazônia”, lamenta Lentini. É comum a prática de “esquentar” madeira de origem ilegal, mediante notas fiscais elaboradas a partir de documentos que declaram a existência do plano de manejo, sendo que as toras na realidade são retiradas de outras áreas sem procedimentos de impacto reduzido. “Como não há fiscalização eficiente, o produto predatório acaba chegando aos centros consumidores”, afirma Lentini. Como consequência, “a riqueza da floresta e a pobreza da maior parte da população compõem um cenário de grande contradição”. Ele explica: “Métodos de uso sustentável deixam de ser adotados não tanto por razões econômicas, mas por falta de qualificação técnica e informação”.

Na região de Paragominas, o IFT conduz pesquisas que comparam áreas de exploração convencional com outras de igual tamanho que adotam manejo florestal. No primeiro caso, os estragos são visíveis. Estradas de acesso foram construídas sem critérios, com danos ao solo, à mata que protege riachos e a terrenos com declive superior a 40 graus, cuja preservação é obrigatória por lei. Árvores foram derrubadas sem planejamento, abrindo clareiras que expõem a mata a maior incidência solar, afugentando a fauna e impedindo o crescimento de vegetais que precisam de sombra. Como resultado, é alto o desperdício de madeira, sem contar o empobrecimento da floresta e a perda do seu valor comercial para exploração futura.

“A falta de cuidados devastou 10% da área total, enquanto no manejo o impacto com a abertura de floresta por tratores e outras atividades foi 50% menor (5,2% da área)”, revela o técnico Marley Nogueira. Ele mostra com orgulho como funciona o método “inteligente” de derrubar árvores, com menos prejuízo ecológico e mais produtividade de toras. “Mediante critérios, retiramos 20% menos árvores com igual rendimento de madeira em comparação à área predatória”, Marley. Ele garante que o manejo otimiza a produção florestal. “No corte convencional, 50% dos remanescentes que estariam disponíveis para exploração futura já tinham sido derrubados, inviabilizando economicamente o retorno para o uso da área”.

Na Amazônia, a lógica destrutiva envolve uma sequência de intervenções para transformar floresta em pastagem. A primeira é a retirada das melhores madeiras, como ipês e jacarandás, inclusive exemplares jovens, de três ou quatro anos. No segundo momento, árvores que restaram são arrastadas impiedosamente por tratores. A última ação é remover a vegetação rasteira ou queimá-la para enfim plantar pasto. “O madeireiro ilegal derruba tudo porque não conhece o que tem a floresta”, conta Marley, tendo mapas como principais instrumentos de trabalho. Ele completa: “O manejo pode reverter esse ciclo e contribuir para a economia da região”.

Cientistas buscam certezas sobre o manejo. É garantido que a floresta se recuperará três décadas após o corte? A fauna não se afastará? Quais espécies de árvores são mais sensíveis a mudanças e precisam de maior controle para não se extinguirem? Como substituir madeiras comercialmente muito procuradas por alternativas de qualidade semelhante, capazes reduzir essa pressão? “Estamos no caminho certo”, garante José Natalino Silva, diretor do Serviço Florestal Brasileiro (FSB), do Ministério do Meio Ambiente. Ele cita os resultados de uma avaliação sobre a primeira área submetida a manejo florestal em escala comercial no país: a Floresta Nacional do Tapajós (PA), que começou a ser explorada há 30 anos.

Em 2009, após esse período de três décadas que determina o ciclo de manejo, quando a floresta estaria regenerada para ser novamente cortada, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) constataram que a área recuperou 75% do volume de biomassa referente a árvores maiores, com diâmetro acima de 45 centímetros. De acordo com Natalino, “a dinâmica da biodiversidade não foi afetada”. Mas espécies de madeira que foram muito exploradas e cresceram lentamente não atingiram volume suficiente para novo corte.

“A principal conclusão é de que aquela floresta, apesar do intenso uso no passado, pode continuar sendo explorada por mais 200 anos, com ciclos de corte de 30 anos e retirada de 20 metros cúbicos por hectare”, anuncia Natalino. Ele diz que o desafio atual é “fazer intervenções para melhorar a regeneração natural após o corte, aumentando a viabilidade econômica do manejo no novo aproveitamento”. Em sua opinião, a abertura de florestas do governo federal para uso comercial por empresas irá aumentar a escala do manejo florestal no país.

A partir da Lei de Gestão de Florestas Públicas, aprovada em 2006, o governo concluiu até o momento a licitação para concessão de duas florestas nacionais -- a de Jamari, em Rondônia, e a de Saracá-Taquera, no Pará. No total, ambas terão 270 mil hectares para exploração. A previsão é atingir 1,3 milhão de hectares no próximo ano, com novas licitações. “Ao oferecer segurança fundiária, o que na Amazônia como um todo é um problema, a concessão promove o investimento na produção de madeira legal, disseminando a prática do manejo”, explica Natalino.

Novas gerações estão de olho na oportunidade. “O mundo está voltado para nós por conta do aquecimento global”, desfecha Rodrigo Marinho, 18 anos, aluno da Escola Técnica de Manaus que freqüenta o curso de manejo florestal oferecido pelo IFT na Fazenda Cauaxi. Ao lado de Williams Costa, 22 anos, e Anderson Barbosa, 18, o rapaz manuseia mapas com a localização de árvores que serão cortadas. Após duas semanas de atividades no campo, a turma aprendeu a identificar espécies -- e também a derrubá-las dentro da lei. “Quando ouvimos o barulho da motossera, dá um frio na barriga, mas sabemos que há um jeito sustentável de operá-la”, despacha Rodrigo, com esperança de conseguir emprego fácil no manejo.

Publicado originalmente no Valor Econômico

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