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Parnaíba (PI) - Ao sabor do vento

 

Em menos de três décadas um pacato vilarejo de pescadores transformou-se em badalado destino turístico internacional

· Piauí

brisa que balança a palha dos coqueiros, atrai praticantes de windsurfe de várias partes do mundo, movimenta a areia das dunas e gira as turbinas de energia eólica carrega um desafio para lá de importante no pedaço do bioma Mata Atlântica mais ao Norte do país. O frenético vaivém de veículos offroad na paisagem paradisíaca retrata o dilema da convivência entre as riquezas geradas pelo turismo e a conservação de restingas com peculiares formações vegetais, entremeadas por lagoas cristalinas. Estamos em Jericoacoara, 295 km a oeste de Fortaleza, no Ceará, onde em menos de três décadas um pacato vilarejo de pescadores transformou-se em badalado destino turístico internacional. A história se repete em outras praias brasileiras e não seria propriamente uma novidade, nem chamaria atenção, não fosse um detalhe que faz toda a diferença: a vigorosa estrutura de serviços típicos de uma cidade – hotéis, restaurantes sofisticados, lojas, bancos, casas, estacionamentos, ruas, moradias etc – está incrustrada na paisagem de um parque nacional.

Na prática, o povoado funciona como uma “ilha” urbana pulsante no coração de uma área de proteção integral que abrange ambientes ecologicamente frágeis, na zona de transição onde o litoral, no sentido do Piauí e do Maranhão, começa a adquirir feições mais amazônicas, influenciado pelo regime climático do bioma vizinho. “É pressão por todo lado”, atesta Wagner Cardoso, chefe do Parque Nacional de Jericoacoara, criado em 2002 com 8,8 mil hectares e uma faixa de 10 km mar adentro, a partir da recategorização da Área de Proteção Ambiental (APA) que já abrangia a localidade. Como esse tipo de unidade de conservação tem uso mais permissivo, não reunia a força legal necessária para restringir atividades de risco e exercer uma proteção efetiva dos ecossistemas no entorno da vila.

A ocupação humana se manteve em harmonia com a natureza por muito tempo, na região. Mas começou a preocupar na última década. De dentro para fora do meio urbano, a ameaça vem da especulação imobiliária, com o perigo das construções indevidas dentro do parque, e do acesso cada vez mais intenso de veículos que transportam turistas por entre praias e dunas. Em paralelo, a existência de uma unidade de conservação ao redor do povoado impõe regras e limites que sufocam a ânsia de uma expansão a qualquer custo, mexem com interesses econômicos e políticos e, não raro, geram situações conflituosas em diversas frentes no território habitado por comunidades em processo de adaptação a novos meios de sustento, gerados pelo assédio dos forasteiros.

A gestão exige o constante exercício de equilíbrio entre os verbos “desenvolver” e “proteger”. “Ao contrário do que ocorre com outras unidades de conservação, primeiro surgiram todos os impactos; depois veio o parque para impedi-los”, explica Wagner, ao lembrar que nova área de proteção foi estabelecida a partir de um processo controverso e pouco participativo, sem o necessário esclarecimento da população. Como resultado, as comunidades lá existentes reagiram negativamente às restrições de atividades econômicas, como pesca e criação de bovinos e caprinos. O momento atual é de recuperar o tempo perdido. Só agora, mais de dez anos depois, o parque está em condições de fazer o ordenamento do turismo e demais usos públicos, a partir do plano de manejo, oficialmente publicado em outubro de 2011. “Vamos colocar ordem na casa”, espera o chefe, admitindo não ser possível segurar a demanda do turismo, mas se adaptar a ela.

As ameaças do intenso trânsito de veículos sobre dunas

De fato, trata-se de uma corrida difícil de acompanhar. Na década de 1980, Jericoacoara não passava de um pacato vilarejo com duas modestas pousadas e acesso por caminhões “pau-de-arara” que conseguiam trafegar no areal e alagadiços. Chegar ao destino final era uma longa e exótica aventura, em trajeto offroad de 20 km sobre dunas iluminadas à noite pela luz da lua – atrativo a mais para mochileiros com disposição para desbravar o que até então era praticamente desconhecido. Aos poucos, a barreira natural de dunas, responsável por manter aquele paraíso isolado e conservado por tanto tempo, começou a ser vencida. O boom aconteceu no final da década de 1980, depois que o jornal americano The Washington Post classificou Jericoacoara como uma das dez praias mais bonitas do mundo, inserindo-a nos melhores roteiros do turismo internacional. Um novo salto ocorreu em 1998, devido à polêmica chegada da rede elétrica, com fiação subterrânea, aposentando os velhos e barulhentos geradores a diesel que só permitiam iluminação até 22h.

Ao longo do tempo, assediados pela especulação de terras, moradores nativos renderam-se ao dinheiro de forasteiros e venderam seus terrenos no entorno de dunas e lagoas costeiras, sem documentação de posse. Hoje são mais de 20 hotéis e pousadas, 70 restaurantes, 3 mil moradores fixos e 500 mil visitantes por ano. A chegada de turistas deverá aumentar após a inauguração de um aeroporto, em fase final de construção pelo governo cearense, com recursos do Ministério do Turismo.

Como resultado da expansão turística, o intenso trânsito de veículos -- com a abertura de acessos e trilhas cada vez mais numerosas, mediante desmatamento -- já impactou 20% da área do parque nacional. O lugar recebe mais de 50 mil veículos por ano. O desafio atual é buscar uma nova logística de acesso a partir de um processo consensual, para que as medidas de proteção funcionem na prática, com adesão da comunidade. “Não podem ser um tiro no pé, atraindo críticas que colocam em risco a credibilidade do plano de manejo como um todo”, afirma o chefe do parque.

A ideia é definir novos trajetos menos impactantes para a vegetação e o ambiente das restingas como um todo, respeitando a dinâmica da paisagem e a realidade e costumes locais. A referência principal é o mapeamento incluído no plano de manejo, onde foram especificadas zonas primitivas, destinadas a passeios exclusivamente a pé, além de áreas de uso intensivo e extensivo e de recuperação do ambiente natural. Sem regularização fundiária, proliferam conflitos, principalmente envolvendo antigos assentamentos rurais onde colonos criam gado extensivamente e praticam pesca predatória com redes de arrasto. “Queremos fortalecer a gestão e o conselho consultivo do parque, preparando terreno para a regulamentação dos prestadores de serviços turísticos, questão básica até hoje não resolvida”, revela Wagner. “Há bugueiros que sequer têm carta de motorista”.

O projeto é estabelecer parceria-público-privada para a operação dos serviços de visitação turística, de modo a reverter os recursos dos ingressos para o parque. “Apesar das dificuldades de gestão, o panorama tornou-se mais favorável com o plano de manejo em mãos”, acrescenta Wagner. Parte de uma verba total de R$ 670 mil, obtida como compensação ambiental de um projeto hídrico no Ceará, foi gasta recentemente na compra de veículos e equipamentos de fiscalização e novas placas de sinalização. Mais R$ 1,5 milhão está prometido para melhorar a estrutura turística, dentro do projeto “Parques da Copa”, em função da maior demanda estimada para o período dos jogos na capital cearense.

Proteção sem jumentos e cabras

O mosaico de ambientes naturais de Jericoacoara encontra-se no domínio legal da Mata Atlântica, na transição com a Caatinga. A área se destaca como Ecossistema Costeiro-Marinho, abrigando matas de restinga e várzea, manguezais e dunas. Para os cientistas, as zonas de transição entre biomas, chamadas de “ecótonos”, são especiais sob o ponto de vista biológico e deveriam ser tratadas com prioridade para a conservação, sobretudo em local onde se localizam as últimas restingas mais ao Norte do país.

Na trilha para a comunidade do Junco, observamos uma flora tipicamente litorânea, como o guajiru, um tipo de vegetação rasteira de mangue, adaptada à água doce e salgada. Naquele percurso, a Lagoa da Onça simboliza no nome a biodiversidade que um dia já foi mais exuberante, no contado com as matas do entorno. Reza a lenda que até hoje o manancial é frequentado pelos temidos predadores, que se aproximam para matar a sede. Sobre onças não se pode ter certeza, mas sabe-se com segurança que ao menos tatus-peba, raposas e vários tipos de lagartos são comuns naquelas bandas.

De lado a lado no caminho, a paisagem é pontilhada por árvores como jatobás, araticuns e uçás, apreciadas por aves em busca de alimento. Algumas são migratórias, a exemplo das gaivotas, avoantes e outras espécies que comem invertebrados. Gaviões espreitam a mata em voos rasantes à procura de presas nas proximidades dos banhados, nos períodos chuvosos. Em local de sensível equilíbrio ecológico, a fauna silvestre é obrigada a a conviver e competir com animais de criação que comem a vegetação, mantidos soltos pelas comunidades. “É um árduo trabalho retirá-los de dentro do parque”, confessa Manuel Carlos Silva, agente ambiental do ICMbio, responsável pelo serviço, intensificado durante o período de estiagem, quando os riachos secam, a vegetação mingua e as vacas e cabras correm maior risco de morrer de sede e fome. “A permanência de jumentos na área protegida é objeto de muita polêmica e há quem proponha verba especial para mantê-los em cativeiro”.

À frente no percurso, avistam-se torres de energia eólica, cada vez mais numerosas na região. Ninguém sabe ao certo quais efeitos as hélices trarão para as aves que voam sobre as restingas. Os principais fragmentos florestais que resistem naquele extremo da Mata Atlântica estão fora dos limites do parque, exigindo atenção para o que acontece no seu entorno, onde flagramos sinais de desmatamento para cultivo de mandioca.

Dentro do parque, em função das restrições à pesca na área protegida, moradores abandonaram o povoado do Junco, também afetado pela movimentação de dunas que se deslocam até 20 metros por ano e danificam as casas. “Muitos dependiam dos peixes e caranguejos”, conta Adalberto Pessoa, o Dodó, hoje garçom em Jeri. “Mas a proibição foi necessária, porque todos queriam extrair o máximo e ninguém pensava no futuro”, reconhece o morador.

Duas das três guaritas de vigilância do parque nacional foram depredadas por moradores nativos insatisfeitos com as proibições para produzir tal como os pais e avós. Na comunidade da Lagoa Grande, a mais pobre da região, a tentativa é aliar tradição e turismo: as “crocheteiras” – como são chamadas as mulheres que confeccionam peças de crochê, tradição local – sobrevivem da venda do artesanato nos hotéis e restaurantes na vila de Jericoacoara, ou Jeri, como dizem carinhosamente turistas e nativos.

Os gestores do parque nacional conhecem bem a realidade social de um lugar que se tornou rico e glamoroso, mas continua cercado de pobreza por todos os lados. A faxineira Jucileide da Silva Mota largou a capital cearense atraída pelas promessas de emprego após o lançamento da Rota das Emoções, e hoje é faxineira na sede do ICMBio, um casarão vizinho a pousadas e casas de veraneio. Ela mora na periferia do núcleo turístico, no povoado de Borges, onde faltam serviços básicos, como coleta de esgoto, e a luz elétrica só chegou em 2012. Apesar do turismo, o município de Jijoca de Jericoacoara, que abrange o parque nacional, tem IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) abaixo da média nacional.

No meio daquela planície arenosa, no lugar conhecido como Mangue Seco, os nativos ganham a vida levando visitantes para a observação de cavalos-marinhos, próximo a um riacho margeado por manguezais, local onde a espécie está mais bem conservada e protegida entre todos os recantos da costa nordestina. Jericoacoara, “toca das tartarugas” no vocabulário indígena, carrega a biodiversidade no nome. Apesar disso, o lugar não é famoso pela fauna. Muitos turistas sequer sabem que ali existe um parque nacional. Mas conhecem a excepcional qualidade dos ventos, os melhores do mundo para a prática de esportes a vela, como o windsurfe e o kitesurfe.

As lembranças do povoado engolido por dunas

Do Mangue Seco seguimos pela beira do mar até o rio Guriú. Uma pequena balsa faz a travessia para a outra margem, no caminho para o povoado de Tatajuba, onde há uma lagoa na qual os turistas vagueiam deitados em redes armadas sobre a lâmina d’água. À noite, é comum tainhas pularem sobre rústica embarcação, atraídas pela luz do farol dos carros. A antiga vila lá existente foi engolida pela ação de dunas móveis, durante quinze anos, e depois os próprios moradores construíram outro povoado com casas, escola e igreja. As ruínas viraram atrativo turístico.

No ponto mais alto com vista para uma lagoa, dona Delmira das Chagas mantém uma palhoça onde vende água de coco e ganha uns trocados contando “causos” e histórias sobre as “dunas encantadas”. “Há 40 anos, tudo aqui já estava soterrado”, diz a moradora, apontando para as ruínas da antiga capela onde foi batizada. “A areia levada pela brisa se acumula nos telhados e precisamos tomar cuidado para não cair no prato na hora do almoço, porque estraga os dentes”, conta a folclórica moradora, que no passado tecia redes de pesca e coletava mariscos e ostras. “Vivemos em função dos ventos”, diz a vizinha, Antônia do Nascimento, com o seu inseparável periquito verde ao ombro.

A “guardiã das dunas” resgata histórias de naufrágios, comuns por aquelas bandas desde quando portugueses lutaram contra franceses que ocupavam o Maranhão, no século XVII. Na região, foi construída a pequena fortificação Nossa Senhora do Rosário, ao pé da falésia conhecida como Serrote. A rocha de quartzito existente no local foi explorada para a retirada das pedras usadas na construção de casas e pousadas até o fim da década de 1980, quando a atividade foi proibida. A gradual destruição do morro, que funcionava como uma barreira, poderia facilitar o transporte de areia pelos ventos e causar estragos no povoado.

Ali próximo, na praia da Malhada, se localiza a Pedra Furada, o mais famoso cartão-postal de Jeri, um dos poucos lugares do Brasil continental onde se vê tanto o pôr do sol como o nascer da lua sobre o mar, no horizonte. Todo fim de tarde, o brilho dourado da luz sobre o oceano atrai milhares de pessoas para o topo de uma duna de 40 metros de altura, ao lado da vila. As feições urbanas preservam sinais de quando tudo ali era um pacato reduto caiçara isolado do resto do mundo.

A rusticidade dos becos e ruas de areia convive com o luxo e o conforto de pousadas, restaurantes e lojas, onde comumente se ouve um mix de idiomas. A tranquilidade das praias e refúgios ecológicos contrasta com a vida noturna agitada. Um ícone que resiste ao tempo é a famosa padaria Santo Antônio, aberta na madrugada para saciar a fome de quem gastou as energias no forró. Tudo começou há três décadas, quando um ex-pescador, o Sr. Antônio, teve a ideia de vender pães saindo do forno para turistas que chegavam a Jeri, às 2h, a bordo da tradicional “jardineira”, o veículo que fazia o percurso sobre campos de dunas.

O sol impera quase o ano todo. Só dá uma trégua entre o carnaval e a Semana Santa, período no qual as chuvas enchem as lagoas. Um dos destaques é Lagoa da Jijoca, formada pelo barramento das águas dos córregos do Paraguai e do Mourão, provocado naturalmente pela migração de dunas móveis na planície costeira. Naquelas águas com tons de verde e azul, os passeios de jangada são os principais atrativos. Os ventos ajudam, e muito. O futuro do pedaço mais ao norte da Mata Atlântica parece depender deles. Mas o ordenamento dos usos é chave o famoso destino turístico se manter sustentável. Como Sêneca, filósofo romano do início da era cristã, “nenhum vento é favorável quando não se tem um porto de chegada”.

BOX 1

Uma história de resistência

A enseada de Jericoacoara foi habitada originalmente por índios Tremembé, dizimados no século XVII por expedições militares de combate a piratas e invasores franceses. A região é ocupada desde a Pré-História, conforme escavações que descobriram sítios arqueológicos com cerâmicas e ferramentas de pedra lascada.

A cordilheira de dunas dificultou o acesso dos exploradores portugueses e a construção de povoados de maior porte. Só nativos e aventureiros faziam incursões esporádicas naquelas terras que acabaram se mantendo bem conservadas. O padre capuchinho francês Claude d’Abbeville, a caminho do Maranhão em 1612, parou ali por treze dias e escreveu suas impressões sobre o lugar: “Muito bonito, maravilhosamente agradável, abundante de frutos e de caça”.

A vila de pescadores, construída em 1923, permaneceu isolada do mundo até ser descoberta pelo turismo. Em 1984, o governo federal transformou o lugar em Área de Proteção Ambiental, para inibir os impactos tanto de atividades produtivas que começavam a se desenvolver como da população que na época não chegava a 2 mil habitantes. Mas a medida não surtiu o efeito desejado, diante do crescimento vertiginoso do povoado, em função do turismo. Em 2002, o governo federal decidiu restringir usos e ordenar o turismo, criando o parque nacional.

Extraído do livro Extremos da Mata Atlântica, editado pela Fundação SOS Mata Atlântica

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