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Parnaíba (PI) - Homem-mangue

· Piauí

O apelido vem desde menino, quando brincava de voar igual a um passarinho. Aos 38 anos, Francisco Araújo, o Rouxinol, filho de pescador tradicional, trocou a catação de caranguejo pelo trabalho com turistas. “Mostrar a biodiversidade é melhor e mais lucrativo do que capturá-la”, argumenta o guia, enquanto se prepara para mais um dia de safari fluvial, no Delta do Parnaíba. Ele avisa: “vocês verão um espetáculo”.

Após navegar entre dunas e ilhas cobertas por jiquiri, habitat de cobras e camaleões, a lancha ancora na entrada do igarapé Guirindó. Dali em diante, o percurso se faz em canoas. De repente, surgem no manguezal bandos de macacos-prego e guaribas, famílias inteiras com pais e filhotes, protagonistas de um banquete. Exibindo-se sem cerimônia para os forasteiros, os primatas utilizam galhos do mangue para quebrar o casco dos caranguejos que catam na lama para se alimentar.

Na Baía do Caju, Rouxinol propõe uma pausa para banho e caminhada até o relógio bater 17h, hora de contemplar a revoada de guarás que colorem de vermelho o céu todo fim de tarde, quando chegam àquelas matas para dormir. No escuro do cair da tarde, navegando pelo rio Igaraçu até o porto de chegada, a atração é a focagem de jacarés – um programa de grande potencial para o desenvolvimento local, como ocorre em países onde o ecoturismo é levado a sério.

O engajamento das novas gerações tem potencial transformador. Na zona costeira, em Cajueiro da Praia, filhos de pescadores operam um safari no rio Camurupim para a observação de cavalos-marinhos. Os jovens contam lendas e curiosidades sobre bichos exóticos, como o “pacamão”, peixe que tem cauda de jacaré, boca de sapo e rosna como um cão, habitando locas e árvores ocas caídas na água.

A região integra a Área de Proteção Ambiental Delta do Parnaíba, criada em 1996 abrangendo dez municípios para proteger manguezais e recursos pesqueiros. Atingidos pelo assoreamento, os rios estão rasos e com bancos de areia que interferem na navegação e na ecologia dos peixes, vulneráveis à captura. Apesar das ameaças, o ritmo da vida local continua regido pelas marés. Talvez não exatamente como nos tempos dos índios tremenbés, exímios nadadores que habitavam a região antes da chegada dos colonizadores.

“Esse paraíso resistirá aos futuros desbravadores?”, perguntou o navegador Nicolau de Rezende, após descobrir o Delta do Parnaíba, em 1571, e naufragar com grande carregamento de ouro. Ninguém até hoje achou o tesouro no fundo do mar. E a razão é simples: ele está na superfície, bem visível para todos, na natureza, em cada curva dos rios e manguezais.

Fragmento livro A Natureza do Piaui

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