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Parnaíba (PI) - Safari no delta

 

Um dos maiores e mais importantes rios do Nordeste se espraia em cinco braços para desaguar no Atlântico

· Piauí

Após navegar entre dunas e ilhas cobertas por vegetação habitat de cobras e camaleões, a lancha ancora na entrada do igarapé Guirindó. Lá vem Márcio Rodrigues a bordo de sua tradicional canoa caiçara carregando sacos cheios de pitu – o camarão de água doce. “Vocês verão um espetáculo”, avisa o pescador, atiçando a curiosidade de quem se preparava para tomar um barco de menor porte capaz de adentrar nas águas rasas do manguezal. Ele vinha de lá e tinha visto o que nos esperava. De repente surgem nas margens do riacho bandos de macacos-prego e guaribas, famílias inteiras com pais e filhotes, protagonistas de um banquete. Utilizando como ferramenta galhos do mangue, os primatas quebram o casco dos caranguejos que catam na lama para se alimentar – tudo assim exposto, sem qualquer cerimônia, diante dos forasteiros.

Estamos no Delta do Parnaíba, no Piauí, onde um dos maiores e mais importantes rios do Nordeste se espraia em cinco braços para desaguar no Atlântico, no formato da famosa letra do alfabeto grego. É o único delta em mar aberto das Américas. Igual a ele apenas o do Nilo, na África, e do Mekong, na Ásia. No Piauí, abrangendo também parte do litoral maranhense, o complexo ecológico reúne mais de 70 ilhas e um vasto manguezal ainda bem conservado, indispensável ao equilíbrio da fauna e da flora e à manutenção do sustento das comunidades.

“É uma riqueza natural que não pode ser destruída”, alerta o condutor Francisco Damião da Silva, o Rouxinol, apelido alusivo às brincadeiras de “voar” quando criança. Filho de pescador tradicional, o guia trocou o serviço pesado da catação de caranguejo pelo trabalho no ecoturismo: “ganha-se a mesma renda, sem a pressão sobre o meio ambiente”. De fato, a fauna conservada para a contemplação – e não para a extração, sem critérios de sustentabilidade – pode ser um tesouro no futuro. Valorizar o patrimônio natural é um caminho para mantê-lo saudável, revertendo ameaças. “Mas muitas vezes é necessário apelar para Deus”, diz o “homem-mangue”, um dos muitos que recentemente migraram para marinas e porta de pousadas a espera dos turistas – ainda poucos, interessados naquela beleza selvagem.

O safari fluvial é ponto alto no roteiro de ecoturismo. Depois da incursão no manguezal dos macacos, o percurso inclui paradas para banho e caminhada nas dunas da Baía do Caju até o relógio bater 17h, hora de contemplar a revoada de guarás, pássaros vermelhos que todo fim de tarde chegam àquele lugar para dormir. O tom encarnado que colore o céu, dizem por lá, vem dos aratuns -- pequenos caranguejos que os guarás comem de se fartar, e são avermelhados, ricos em betacarotenos. Após a avistagem das aves, o barco retorna ao porto no escuro do cair da tarde, quando o guia faz a focagem de jacarés. Um holofote apontado para as margens do rio Igaraçu acusa a presença do bicho pelo brilho dos olhos. A luz ofusca e imobiliza o animal, capturado para delírio dos turistas e depois solto de volta na natureza.

Há opção de passeio de caiaque por dentro de manguezais e na beira de dunas, com almoço tipicamente ribeirinho regado a peixe assado na brasa e farinha d´água. “É importante somar valor ao atrativo natural, mas faltam regras para o ordenamento do turismo para que não seja predatório”, adverte Joca Vidal. O ambientalista e operador de passeios e atividades de aventura na região conta que uma das principais ameaças é o assoreamento do rio Parnaíba, causado pelo desmatamento das margens ao longo de seus 1,8 mil km desde a nascente até a foz. Pastagens e agricultura irrigada são as principais causas. A grande quantidade de sedimentos carregada pelo rio até o mar chega às praias. De lá, levada pelos ventos, a areia atinge o continente, acumulando-se em dunas que se deslocam e entopem o Delta. É cada vez maior a extensão dos bancos de areia que dificultam a navegação e interferem na ecologia dos peixes e dos manguezais, dependentes do vaivém das marés. Em águas mais rasas, as espécies são alvos fáceis para a captura predatória.

Neuza Gonçalves Pereira, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), instituição federal responsável pelos parques e reservas, reconhece os problemas. Na região se localizam os 384 mil hectares da Área de Proteção Ambiental Delta do Parnaíba, criada em 1996 abrangendo dez municípios para proteger manguezais e recursos pesqueiros. Mas até hoje não há um plano de manejo. Com apenas quatro servidores para uma área tão grande, o governo não fiscaliza ameaças como a sobrepesca de robalos, tainhas e pescadas amarelas capturadas por redes de arrasto proibidas, dentro da reserva extrativista existente no Delta. O dinheiro público para conter o avanço do assoreamento nunca chega e as obras se restringem ao anúncio das placas. “Os municípios nada fazem e estão desarticulados”, reclama a analista ambiental, que há um ano e meio migrou da Amazônia para o Piauí: “estamos num paraíso, um deslumbre”.

O potencial da beleza cênica esbarra na exploração indevida dos manguezais. Além do desmatamento praticado por ribeirinhos para uso da madeira na construção de casas, a extração de caranguejos atinge níveis insustentáveis. No mínimo três caminhões por semana partem do Porto dos Tatus, carregando milhares desses crustáceos que se destinam aos bares de Fortaleza, no Ceará. Estudos indicam que mais da metade morrem durante o transporte. No Projeto Manguezais do Brasil, financiado pelo Banco Mundial e executado pela ONU, o Delta do Parnaíba será área piloto para o plano de manejo do caranguejo-uçá, mediante ações educativas e mobilização das comunidades extrativistas. O ICMBio publicará uma norma que obriga o transporte em caixas plásticas, o que reduziria a mortandade para 5%. Um plano de negócios pretende aumentar a renda dos catadores, hoje rendidos aos atravessadores. Quatro caranguejos são vendidos pelos nativos a menos de R$ 2, enquanto nos restaurantes custam R$ 12.

A beleza virgem das ilhas nas cinco desembocaduras do rio Parnaíba contrasta com o descuido na linha costeira, na porção continental adjacente. Na Pedra do Sal, torres de energia eólica na faixa de praia modificam o visual e a dinâmica natural das dunas, já impactadas por construções irregulares de casas, aos poucos engolidas pela areia. Faltam iniciativas urbanas para acabar com lixões, embelezar a orla e atrair visitantes mais exigentes que geram renda. Uma exceção está no município litorâneo de Cajueiro da Praia, onde filhos de pescadores da Associação de Condutores de Turistas de Barra Grande operam um safari no rio Camurupim para a observação de cavalos-marinhos. O projeto tem o suporte de pesquisadores universitários. No roteiro, os jovens contam as histórias do exótico peixe que tem cauda de jacaré, boca de sapo e rosna como um cão, conhecido como “pacamão” (Lophiosilurus alexandri). O bicho habita locas e árvores ocas caídas na água, compartilhando espaço com o peixe “quatro olhos”. Seus olhos se dividem entre o perigo e o prazer: parte fica fora d´agua, vigiando predadores, e parte permanece submersa, à procura de alimentos.

“A chegada de visitantes aumentou bastante após a divulgação nacional da Rota das Emoções, roteiro de pelo menos uma semana que integra a região de Jericoacoara, no Ceará, aos Lençóis Maranhenses, no Maranhão, passando pelo Delta do Parnaíba”, diz Morais Brito, um dos agentes turísticos mais antigos na região. Além da aventura em lugar ainda inexplorado, o programa inclui degustação de peixes como os servidos na pousada Casa de Caboclo, com mirante que proporciona vista para a imensidão de ilhas, dunas e manguezais. “O movimento só não é maior por falta de um aeroporto com voos regulares”, lamenta Brito.

A porta de entrada é a cidade de Parnaíba, 334 km ao norte da capital Teresina. Reduto dos índios tremembés, hábeis nadadores, a região foi no passado um ponto de pouso e entreposto comercial de tropeiros que transportavam gado e mercadorias entre o litoral e os sertões. Quando descobriu o Delta do Parnaíba em 1571 após naufragar levando grande carregamento de ouro, o navegador Nicolau de Rezende registrou em carta: “Esse paraíso resistirá aos futuros desbravadores?”. Apesar das várias expedições de resgate, ninguém até hoje achou o tesouro naufragado. A maior riqueza está acessível na superfície, por entre montanhas de areia e mangues de árvores retorcidas. Beleza natural pronta para ser bem explorada, protegida, apreciada.

BOX – manguezais

Juntamente com os recifes de corais, os manguezais são indispensáveis à reprodução das espécies e retratam a complexidade dos ecossistemas marinhos, indispensáveis à sobrevivência na Terra. Os oceanos regulam as condições climáticas, asseguram o equilíbrio químico do planeta e suprem necessidades humanas, como alimentação e lazer. Estima-se que 25% dos manguezais brasileiros já tenham sido destruídos. A aquicultura e a especulação imobiliária são as principais causas. No Brasil, menos de 0,4% dos ambientes marinhos, nos quais os mangues se inserem, são efetivamente protegidos como reservas ou parques. Apesar da relevância ecológica, o habitat dos caranguejos e de diversas espécies sofre o estigma de lugar malcheiroso, repleto de lama e inóspito, que deve ser extirpado em nome do progresso. Mas constituem ambientes únicos, berçários da biodiversidade. Neles as fisionomias vegetais resistem ao fluxo das marés da água doce e salgada, acolhendo espécies de todos os elos da cadeia alimentar. São zonas de alta produtividade biológica, principalmente no estuário dos rios, baías e enseadas, estando associados a recursos pesqueiros que sustentam 1 mil cobrem 1,2 milhões de hectares ao longo do litoral, do Oiapoque, no Amapá, até Laguna, em Santa Catarina.

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