Return to site

Patrocínio (MG) - Em busca de novos rumos

Principal região produtora do país investe para atrair a vida silvestre e produzir com critérios sociais mais sustentáveis

· Minas Gerais

Do livro Café e Brasilidade

Patrocínio, Minas Gerais, início da década de 1970. Quando o Cerrado era uma vastidão pobre de terras improdutivas, o produtor José Carlos Grossi, proprietário das fazendas Alto Cafezal, não esmoreceu ao desafio. Trocou a rica e produtiva região de Garça (SP), onde sua família cultivava café, pelas incertezas da nova fronteira a ser desbravada. Os pioneiros, “loucos e sonhadores”, correram riscos. Tinham incentivos do governo. “Com a praga da ferrugem, o país vivia o dilema de erradicar lavouras e instalar uma nova cafeicultura livre de geadas em áreas planas, mais propícias à pulverização”, conta o empresário, orgulhoso de uma história que transformou a região no celeiro de um dos mais apreciados cafés do Brasil, valorizado pela qualidade e pelos atributos do selo socioambiental.

O café no Cerrado caracteriza-se por extensas áreas irrigadas e mecanizadas, alvo do uso intensivo de tecnologia que leva a recordes de produtividade. O caminho inicial para se chegar a esse padrão foi ocupar a todo custo aquela paisagem natural que até então se mantinha intocada. “Foi uma aventura”, relata o produtor, lembrando que não havia tecnologia e pouco se conhecia sobre o clima e o solo da região. Plantar em terra infértil era um plano audacioso. Mas existia um alento -- ou melhor, um trunfo: uma variedade inédita de café, desenvolvida pelo Instituto Agronômico de Campinas, capaz de se adaptar a essas condições adversas, distintas da Mata Atlântica onde os cultivos haviam proliferado. “Corrigimos o solo com farelo de mamona e instalamos os primeiros cafezais com a cara e a coragem, porque poucos acreditavam no sucesso”, recorda-se.

A terra era barata. Com economias de um ano, Grossi juntou-se a um sócio para comprar 500 hectares pelo equivalente a US$ 24 mil. E obteve financiamento para derrubar a vegetação nativa e abrir lavouras. “Construímos o conhecimento desde o início e a primeira providência foi conseguir dados sobre chuva e temperatura para fazer o balanço hídrico”, revela. Mas muitos pioneiros fracassaram. Só escapou quem cortou despesas e tinha muita determinação para produzir naquelas condições. Nas primeiras décadas dos cultivos, as dificuldades se multiplicavam e o dinheiro pouco circulava. O trabalho funcionava na base do escambo: “salários eram pagos com queijo”, conta Grossi, resgatando lembranças de quando conservar a biodiversidade sequer passava pela imaginação de quem lutava pela sobrevivência imediata.

Lobos-guarás, tatus, tamanduás, siriemas e tucanos perambulavam por lá. Ao longo das décadas, o avanço do agronegócio e da urbanização enriqueceu a região, mas reduziu o hábitat das espécies nativas às unidades de conservação e ilhas de vegetação natural dentro de propriedades particulares. O cenário reflete a atual realidade do Cerrado, onde a vegetação original encolheu mais de 50%, segundo o IBGE. Os remanescentes de vegetação nativa em propriedades particulares são estratégicos para salvação do bioma, que tem apenas 2,2 % do território protegido como parques e reservas. Apertadas entre cultivos agrícolas, as áreas são insuficientes para a circulação de espécies que estão no topo da cadeia alimentar, como as onças pintadas. Além da ameaça à fauna, os impactos atingem fontes hídricas em bacias divisoras de água no Centro-Sul -- risco que coloca em cheque a sustentabilidade futura da própria produção agrícola. De acordo com estudo da ONG Conservação Internacional, no ritmo atual do desmatamento o Cerrado tal como hoje conhecemos poderá desaparecer até 2030.

Combate à pobreza contribui para a biodiverdidade

“Antes de conservar a natureza é preciso civilizar o homem”, afirma Grossi, ao enfatizar o problema da pobreza que antes imperava na região e acabava resultando na caça e na destruição ambiental. A situação mudou. O aumento da renda e as melhorias sociais no campo, com mais cultura e educação, contribuíram para transformações no jeito de tratar o meio ambiente. Hoje dono de 5 mil hectares, abrangendo duas fazendas de café com certificação socioambiental, a União e a São José, Grossi recompôs a vegetação nativa em áreas importantes para preservação. Priorizou espécies frutíferas: “O que atrai a fauna de volta é o alimento”.

“A vida rural”, diz o produtor, “está longe do romantismo”. “É um empreendimento, um negócio a céu aberto que o processo da certificação ajuda a compreender”, destaca Grossi, apontando com orgulho para uma exuberante paineira que plantou em meados dos anos 70 ao lado dos primeiros viveiros de café. O antigo terreno, na zona urbana de Patrocínio, abriga atualmente o escritório das fazendas. Nos corredores da empresa, prateleiras exibem embalagens de café oriundas de várias partes do mundo contendo o produto cultivado naquelas fazendas mineiras. Nos rótulos destaca-se o famoso símbolo do sapinho verde que identifica o selo Rainforest Alliance Certified.

Impulsionado pelas riquezas dos cafezais, o município de Patrocínio pulou em três décadas de 20 mil para 85 mil habitantes. Na Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocaccer), a maior parte de seus 3,5 mil produtores aposta no filão do café de qualidade, cultivado em altitudes de 800 a 1300 metros com baixa umidade. “Essas e outras condições conferem à bebida acidez equilibrada e sabor característico, com notas de caramelo, frutas secas e chocolate”, explica Eustaquio Miranda, superintendente da cooperativa. “Temos um produto com alto padrão e garantia de origem, que precisava conquistar novos espaços”, afirma. O desafio levou um grupo de pequenos produtores a novos passos no diferencial da qualidade, optando pela certificação socioambiental -- um caminho que proporciona ganhos econômicos, mas exige compromissos trabalhistas e ambientais, inclusive para a proteção da biodiversidade.

A assistência gerencial e técnica para a adequação das propriedades à nova realidade tem o suporte da cooperativa, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae). Periodicamente, as fazendas de café são visitadas por equipes de auditores do Imaflora, que conferem se as normas e critérios da Rede de Agricultura Sustentável (RAS), responsável pela concessão do selo Rainforest Alliance Certified, são respeitados no campo. É um trabalho criterioso envolvendo diferentes aspectos -- desde a inspeção das Áreas de Preservação Permanente (APPs), sobretudo as que protegem cursos de água, até a checagem da documentação trabalhista.

Após reunião inicial na sede da cooperativa para explicar o trabalho e selecionar as propriedades que serão visitadas, os auditores partem para o campo. Na estrada de acesso ao município vizinho de Ibiá (MG), a 150 km de Patrocínio, avistam-se tucanos voando sobre os cafezais. Nas proximidades se localiza a Fazenda São Pedro, onde o proprietário, o médico Túlio Taft Bovareto, mostra os resultados da recuperação florestal. Próximo a nascentes, o cultivo agrícola é, normalmente, uma ameaça à água. Mas ali, durante algum tempo, produz efeito benéfico. Explica-se: o café é utilizado como cultura pioneira para sombrear mudas de espécies nativas recém-plantadas, para depois de quatro anos ser erradicado, dando lugar apenas à vegetação do Cerrado restaurada. É uma estratégia inteligente. Placas indicam as APPs em processo de regeneração natural, arrodeada pelo cafezal. “Logo que assumi a propriedade, em 2002, já percebi que enfrentaria condições ambientais e sociais degradantes”, conta o produtor.

Certificação coíbe desmatamento e garante polinizadores para o cultivo

No rastro da exigências dos auditores para a certificação, as mudanças na fazenda são significativas. Uma lagoa de decantação foi construída para evitar que a água poluída da lavagem do café continuasse sendo despejada diretamente na represa. Os funcionários, em sua maioria analfabetos, chegavam a guardar pulverizadores de agrotóxico dentro dos guarda-roupas, mas hoje mostram-se comprometidos com as regras da certificação e adquiriram novos hábitos. A caldeira dos secadores de café é abastecida por lenha de eucalipto, cultivado na propriedade -- e não pela madeira de espécies nativas, como rezava a prática tradicional transmitida de pai para filho ao longo de gerações.

Apesar dos avanços, há muito por fazer -- tanto na fazenda como na região do entorno, atropelada pela expansão das pastagens e cafezais a perder de vista. A paisagem exibe cicatrizes que comprovam os descuidos do passado e do presente. “Fazemos a nossa parte, mas os vizinhos também precisam estar alinhados na mesma sintonia e tomar providências para reduzir os problemas”, argumenta Bovareto. Um desafio é reflorestar seguindo a lógica de interligar remanescentes de Cerrado hoje isolados por entre cultivos agrícolas, sob forte pressão antrópica. Nesses ambientes, espécies nativas dispersoras de sementes e polinizadoras - como o beija-flor-tesoura, o morceguinho-do-Cerrado, a abelha-real e as borboletas em geral -- garantem o fluxo gênico e a diversidade da flora. Nos cultivos, cerca de um terço das flores depende dos polinizadores nativos.

A diversidade é essencial para manter a vida em padrões mínimos aceitáveis e permitir a boa recuperação de áreas degradadas, com ganhos para fauna. Veado-mateiro e campeiro, lobos, perdizes e o urubu-rei, criticamente em perigo, habitam a região. E constam no inventário das espécies avistadas pelos funcionários da fazenda -- um instrumento exigido pelo selo socioambiental para o monitoramento da biodiversidade.

“O caminho da certificação exige mudanças nem sempre fáceis, mas fazemos todo esforço na expectativa das melhorias na propriedade e dos benefícios de mercado”, admite Bovareto, produtor de 9 mil sacas de café por ano, 15% para exportação. Ele não esconde a ansiedade para fazer sempre o certo e não errar, mas sabe que a cada auditoria novas medidas precisarão ser tomadas no sentido de produzir melhor e reduzir impactos, dentro de um processo contínuo de aperfeiçoamento.

Durante dois dias de trabalho na fazenda, os técnicos do Imaflora avaliaram minuciosamente o cumprimento das pendências e recomendações da auditoria anterior. Ao final da vistoria, foram analisados documentos legais e planos de gestão. E foram apontadas ações adicionais necessárias, como o plantio de mudas de oiti, aroeira e outras espécies na beira das estradas para isolar os cafezais e fazer uma barreira contra a dispersão de agrotóxicos do campo para áreas habitadas pelos trabalhadores. Entre as recomendações dos auditores está a listagem das espécies da fauna, especificando quais estão em perigo de extinção, e um plano para protegê-las.

Pequenos unem forças para educar e proteger

Com os critérios da certificação socioambiental em mãos, as auditorias vão além do que determinam as leis vigentes, exigindo entre outros pontos o controle de processos que garantem a rastreabilidade do produto no campo e benefícios gerenciais para a propriedade. “Planejamento e maior organização contribuem para controlar impactos e conservar com mais eficiência a biodiversidade”, destaca a engenheira agrônoma Flávia Rezende, que leva uma visão mais jovem e moderna para os cafezais da família. Erguidos pelo pai sobre pastagens abandonadas, os cultivos da Fazenda dos Patos são freqüentados por onças-pardas e macacos-bugios. A propriedade, também certificada mediante auditorias do Imaflora, é alvo de projetos de reflorestamento para compor reserva legal e conectar pedaços isolados de Cerrado, permitindo o trânsito da fauna.

“Os filhos dos produtores estão assumindo o controle das fazendas, hoje operadas como empresas rurais, e vêem nisso um fator importante para a continuidade”, afirma Elisa Veronezi, responsável pela coordenação do grupo de produtores certificados em Patrocínio. Ela orienta projetos sociais, como o Arca do Saber, um acervo de cem livros que circula por um mês em cada propriedade para promoção da leitura. Ao unir forças, pequenos proprietários viabilizam atividades essenciais na certificação, como treinamento de empregados e educação ambiental, otimizando recursos. “Eles se ajudam mutuamente para que o grupo como um todo alcance bons resultados com o selo e adote as medidas necessárias para mantê-lo”.

Próxima à Serra do Espinhaço, onde está a nascente do São Francisco, a região funciona como divisor de águas entre essa bacia hidrográfica e a do rio Paranaíba. Nesse território sensível sob o ponto de vista ecológico -- e também bastante pressionado pelas atividades humanas --, o cafeicultor Lázaro de Oliveira, dono da Fazenda Cláudio Congonhas, deixou de "limpar" pastagens com fogo, abandonou o gado e averbou as reservas legais. Logo quando na porteira da propriedade, como cartão de visita, chama atenção um pequeno coreto onde funciona um projeto educacional: o "Cantinho do Saber", que orienta os funcionários a cuidar da natureza. "Ninguém imaginava isso em 1985, quando começamos os cafezais", ressalta Oliveira. "A regra antigamente era aproveitar o máximo, sem pensar no futuro".

Hoje o proprietário que um dia pensou diferente se emociona ao mostrar uma revoada de tucanos que convivem harmonicamente com seus 100 hectares de café. "É impressionante ver como os pássaros voltaram após o reflorestamento", diz. Ele abre a propriedade ao acesso de excursões com alunos de escolas públicas da cidade. No escritório da fazenda, mapas com trilhas e listagens da fauna retratam a principal atração da visita: a biodiversidade. Destacam-se gaviões e canarinhos que fazem ninho por toda parte, “inclusive nos depósitos de agrotóxicos", ilustra o caseiro João Paulo Marques, habilidoso nas incursões à mata.

Pela via da certificação, resultados positivos dos cuidados com as condições naturais e sociais revertem para contabilidade da fazenda, com a venda garantida de todo o café antes da colheita. O ganho irradia boas práticas na vizinhança e incentiva novas melhorias para a conservação, fechando um círculo virtuoso. Na Fazenda Macaúbas de Cima, áreas de preservação na beira de rio e alto dos morros conectadas com reserva legal compõem um ambiente natural propício à biodiversidade. Lobos-guará, quatis e capivaras são comuns por lá. Tamanduás chegam bem perto da sede. Na cozinha do escritório, embalagens de café com rótulos em japonês e inglês dividem espaço na parede com um mapa do Brasil que destaca a Bioma Cerrado.

“Estabelecemos prioridades para o reflorestamento, começando pelas APPs em piores condições”, conta o proprietário Gláucio Castro, que herdou as terras do pai e decidiu investir no café de qualidade, comercializado para multinacionais como a Illy. “Com a certificação, passamos a enxergar nossa atividade em detalhes, principalmente com relação ao meio ambiente”, diz o produtor.

Ao redor das represas, são plantadas espécies frutíferas, como a “lobeira”, alimento do lobo-guará, que se sente atraído pelo cheiro do fruto e por sua vez dissemina as sementes pelas fezes. Palmeiras, como a macaúba, que inspirou o nome da fazenda, atraem pássaros. Jacus e maritacas gostam mesmo é da própria planta do café com seus cachos. Além da fauna mais aparente, existe toda uma micro-biodiversidade, principalmente nos solos, que precisa de conservação. “Usamos menos herbicidas no combate a ervas daninhas em áreas de refúgio para insetos e roçados alternados que atraem inimigos naturais de pragas”.

Marco histórico do selo socioambiental cataliza mudanças

Muito do bioma se perdeu por conta da exploração predatória. As esperanças de uma guinada no rumo insustentável concentram-se nos pequenos produtores que se estruturam em grupos para reduzir custos, potencializar ideias e viabilizar a certificação -- até bem pouco tempo atrás restrita a grandes propriedades. É o caso da Daterra Atividades Rurais, dona de extensos cultivos nos municípios mineiros de Patrocínio e Coromandel, primeira no Brasil a receber a certificação socioambiental para o café. Dos seus quase 6,5 mil hectares, 2,6 mil de cafezais. Mais 900 hectares abrigam outras atividades agrícolas, como eucalipto, usado como fonte de energia na secagem do café. E um total de 3,1 mil hectares, quase metade de toda propriedade, são ocupados por formações naturais de diferentes tipos, com biodiversidade em bom estado.

A empresa adotou como fio condutor um sistema de gestão ambiental, que incluiu princípios como não contaminar águas e solo, controlar processos produtivos, cumprir a lei e incentivar o desenvolvimento dos recursos humanos e da cidadania. Como resultado, foram plantadas mais de 125 mil árvores nativas. A fazenda montou brigada de incêndio e descarte de embalagens de agrotóxicos, lixo e efluentes passou a ser controlado. Nascentes foram mapeadas para reflorestamento e conservação e os trabalhadores receberam cursos de treinamento.

Trilhas abertas em meio a paisagens exuberantes do Cerrado são importantes instrumentos de educação ambiental -- e também de demonstração sobre como o café pode conviver com a biodiversidade. Importadores de café que vistam a região para fechar negócios se impressionam ao constatar o valor natural e social atrelado à xícara do cafezinho. É um diferencial que agrega valor econômico. Na trilha do urubu-rei, o visitante avista a Cachoeira do Marreco e sua queda d’água superior a 20 metros antes de chegar aos lagos da Cachoeira do Palmito, rodeados por matas de galeria.

“O café é muito exigente em áreas de fácil mecanização e, em muitos casos, acaba sobrando terras para conservação que são inadequadas para o cultivo”, explica o pesquisador Ricardo Rodrigues, coordenador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Ele completa: “devido a essa restrição, por falta de planejamento ambiental os cafezais acabam ocupando áreas indevidas, como as de conservação”. As terras de baixa produtividade ou impróprias para mecanização acabam ocupadas por atividades que podem implicar em mais desmatamento, como a pecuária. “Mas o que se ganha como gado não compensa economicamente manter a propriedade irregular”, garante o pesquisador. “Reflorestar para a exploração econômica via manejo sustentável rende mais”, completa.

Rodrigues pilotou o programa de adequação ambiental da Daterra. Após dez anos, a empresa está expandindo as propriedades, o que exigirá um estudo atualizado para o monitoramento das áreas adicionais, gerando novos compromissos no controle do meio ambiente. De uns anos para cá, como estratégia para garantir o fornecimento de um maior volume de café certificado a ser exportado, a empresa incentiva os pequenos produtores do entorno para as mudanças necessárias ao selo socioambiental. “Na área ambiental, as soluções precisam ser conjuntas”, destaca o pesquisador.

Selo socioambienal ajuda na conservação da Caatinga

A preocupação chega a áreas biologicamente bastante sensíveis, na transição entre diferentes biomas. De Salvador, são 433 Km até o município de Utinga (BA), borda mais ao Norte da Chapada Diamantina. No amanhecer, uma névoa úmida paira sobre os cafezais em contraste com o calor árido do sertão. A paisagem representa a transição entre os biomas da Mata Atlântica, com seus tons de verde nas áreas de maior altitude, e a Caatinga que exibe inconfundível vegetação rasteira e retorcida nas baixadas. Por conta dessas características, a região guarda uma biodiversidade singular, de importante valor para a conservação. É um local ecologicamente sensível, palco do paradoxo entre a riqueza natural e a pobreza da maior parte da população, sustentada pela lavoura de subsistência. O cenário é complexo e impõe um desafio: a convivência harmônica entre as espécies nativas e os plantios de café que encontraram naquela região condições favoráveis de clima e relevo para produzir.

Na Fazenda Belmonte, pertencente à SARPA Plantações e Comércio naquele município baiano, o trabalhador Ivanildo Balbino produz carvão com lenha residual dos cafezais -- e não da mata nativa, como fazia tempos atrás. “Era uma questão de sobrevivência”, admite Balbino, que morava na vizinhança e vendia o produto irregular a intermediários, fornecedores de siderúrgicas, padarias e lojas que vendem o produto para uso em churrasqueira. Proibido de transitar na fazenda de café com caminhão de carvão, Balbino acabou contratado pelo proprietário para queimar lenha sem ferir a lei. E mudou de vida. Hoje o ex-desmatador opera fornos que produzem carvão para o processo de secagem do café, utilizando troncos e galhos gerados na decepa do plantio. Incentivado pelo fazendeiro, o trabalhador concebeu engenhocas móveis sobre rodas, facilmente transportadas para diferentes pontos do cafezal. “Ganho a metade dos R$ 1 mil mensais de antes, mas estou feliz porque já não preciso me esconder atrás das moitas para escapar da fiscalização”, conta Balbino.

Enquanto os cultivos de café ocupam a paisagem mais úmida de maior influência da Mata Atlântica, a usina de beneficiamento da Fazenda Belmonte está instalada a 18 km de distância na parte baixa, com aridez favorável à secagem dos frutos e à melhor qualidade final do produto. “A propriedade é um oásis de micro-clima diferenciado e água boa em abundância”, destaca o fazendeiro de origem suíça Urs Joho, produtor de 12 mil sacos por ano, vendidos para a Europa.

Ele chegou à Bahia na década de 1980, quando adquiriu o cafezal do antigo proprietário, que havia vislumbrado as boas condições daquele enclave na caatinga com terras relativamente férteis, além de topografia e clima favoráveis, mão de obra farta e fácil acesso para a exportação através do porto de Salvador. Dez anos depois, para avançar no mercado externo, a fazenda obteve o selo socioambiental dentro de uma visão focada na sustentabilidade, incrementando boas práticas fitotécnicas, ambientais, sociais e trabalhistas.

Os efeitos beneficiaram a biodiversidade. Raposas, micos, veados e cotias habitam a propriedade, refúgio de caça proibida. Na região do entorno, ao contrário, a fauna está gravemente comprometida, porque os habitantes tradicionalmente a utilizam para complementar a alimentação. Pássaros, veados, tatus e colmeias são os animais mais cobiçados. Além de esforços para a maior conscientização, a fazenda iniciou a recomposição da vegetação nativa, com potencial de atrair espécies em busca de proteção. Atualmente, quase 40% dos 825 hectares da propriedade estão preservados -- boa parte na Caatinga, onde funciona a unidade de lavagem, secagem e empacotamento do café.

Uma extensa área foi abandonada há mais de 10 anos para promover a restauração natural e a beira da represa está sendo reflorestada com amendoim nativo e outras espécies. O objetivo: conservar a água usada na produção e na irrigação, que se faz necessária pelo menos uma vez ao ano, no período de estiagem. “A maior produtividade demanda aumento no consumo de água, mas nos últimos anos o regime de chuvas mudou com a temperatura mais quente”, explica o engenheiro agrônomo Eduardo Gondim, responsável pela gestão dos plantios. “Devido ao relevo montanhoso, os rios da região escaparam da devastação ao longo das décadas, o que não aconteceu com outras importante fontes hídricas da Chapada Diamantina, como o rio Paraguaçu”.

Mudanças chegaram ao campo social. Além de água potável, coleta de lixo e melhores sistemas de esgoto, foram construídos alojamentos, escola e casas para os moradores. “É impressionante a maior conscientização para organização e limpeza”, afirma Gondim, lamentando o alto grau de analfabetismo na região e as dificuldades para a contratação de mão de obras especializada. “Isso nos levou a realizar treinamentos específicos para qualificação dos funcionários”.

A esperança é que as práticas promovidas pela certificação repliquem na comunidade e mudem hábitos predatórios de pequenos produtores, muitos dos quais trabalham nas fazendas maiores e mantêm roças de café no terreno de suas casas.

Das estradas, avista-se a fumaça das queimadas que avançam na borda da Mata Atlântica. Cultivos de mamão e tomate ocupam as margens dos rios desmatadas. Sem apoio técnico, assentamentos rurais adotam métodos ambientalmente inadequados de produção. Os sinais da degradação chegam à porta de entrada do Parque Nacional da Chapada Diamantina, importante cartão-postal do Brasil. Na estrada de acesso à cidade de Lençóis (BA), fogo no lixão a céu aberto ameaça a vegetação nativa. Curiosamente no local um outdoor conclama para cuidados na roça para prevenir incêndios florestais. Nos acostamentos da rodovia, são expostos para venda móveis de angelim e outras madeiras nativas, indício dos maus tratos à natureza -- a mesma que o café com práticas socioambientais tenta recuperar

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly