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Petrolina (PE) - A guerra da água

A polêmica transposição do Rio São Francisco faz um ano e revela uma disputa cruel

· Pernambuco

sertanejos que esperam abastecer torneiras contra os que não querem doar a fonte de riquezas. Retrato da desigualdade no sertão, é a versão brasileira de uma guerra que atinge proporções mundiais

O mandacaru, cacto típico do semi-árido nordestino, simboliza mais que todas as plantas a dura vida severina. Luiz Gonzaga o eternizou. "Mandacaru quando fulora na seca / É o siná que chuva chega no sertão / Toda menina que enjôa da boneca / É siná que o amor já chegou no coração", cantava o mestre no Xote das Meninas - "Ela só quer / Só pensa em namorar". De tão comum e importante, emprestou o nome a um povoado cearense planejado para ser um eldorado, mas que hoje é palco de desigualdade e conflitos pelo uso da água. Estamos na BR-116, rumo ao rio Jaguaribe, o maior e mais importante do Ceará. A região, como outras no semi-árido, receberá as águas da transposição do rio São Francisco, obra polêmica que chega ao primeiro aniversário sem bolo nem vela para apagar. De um lado e outro da rodovia, o notório cacto com seus quase três metros de altura se destaca na paisagem tórrida da caatinga. É ícone cultural. Resiste bravamente às secas, mesmo as mais severas. Acumula água no caule e, nos tempos de penúria, serve para alimentar os animais.

Tem muitos, muitos espinhos, usados como alfinete pelas rendeiras para fazer o artesanato vendido nas estradas. A que leva até o distrito de Mandacaru, no município de Nova Jaguaribara, margeia canais de irrigação por entre vilas sertanejas. E, ao contrário do que se imagina, naquele cenário árido a água é farta. Mas logo vem a surpresa: poucos moradores, ou quase nenhum, têm acesso a ela. E pior: por aquelas paragens, esse bem natural é caso de polícia.

Lá vem a irmã Bernardete Neves, 65 anos, filha do Coração Imaculado de Maria. Ar angelical de religiosa, braveza respeitada de líder social, chega ao lado do lavrador Francisco Saldanha, 71 anos, o seu Taxinha. O homem desembucha: "A polícia me ameaçou de prisão porque eu tirava água do canal e respondi que iria continuar. Um dia depois os soldados vieram em várias viaturas e uns 30 companheiros nossos aqui do povoado chegaram em motos e bicicletas para me socorrer. Ia ter briga. Tivemos medo e naquela semana ninguém pegou água. A coisa ficou feia".

O relato espelha o clima de tensão em Mandacaru - o mesmo cacto nordestino que inspira o amor na poesia, ali é referência de cobiça e ambição. É a guerra pela água no sertão, o retrato brasileiro de uma crise que causa atritos diplomáticos e militares em diversas partes do mundo, principalmente no Oriente Médio, e tende a se tornar mais grave nas próximas décadas, segundo previsões da Organização das Nações Unidas. O assunto preocupa, porque um terço da humanidade vive em áreas de escassez hídrica. No Mandacaru, em lugar onde água é uma relíquia, os canais onde ela circula são vigiados por guardas armados e câmeras de vídeo. Nada pode atrapalhar o curso dessa corrente preciosa até o destino final. O foco da discórdia é o Canal da Integração, que está sendo construído para abastecer grandes cidades, vastos cultivos irrigados e pólos industriais da capital cearense. Ele é alimentado pelo açude do Castanhão, o maior do Brasil, três vezes o tamanho da Baía de Guanabara, e está planejado para ter 255 quilômetros até Fortaleza, 55 dos quais já concluídos até o município de Morada Nova.

É uma obra cara, perto de R$ 1 bilhão, mas inacessível para muitos que vivem ao lado dela. “O povo rouba água por falta de opção”, justifica a irmã Benardete, fiel escudeira e bem-vinda em todas as vilas rurais por onde transita. “É uma desigualdade gritante”, afirma ela, sem arriscar sobre o futuro. Em certos aspectos, a região do rio Jaguaribe é privilegiada. Se tudo caminhar como o governo planeja, até o fim da próxima década, esse e outros pedaços do semi-árido se tornarão grandes oásis, graças à transposição do rio São Francisco. Será mesmo? Críticas e dúvidas pairam no ar. A que custo econômico, social e ambiental isso será realizado? “Sem um projeto social, essa água vinda de longe a um preço tão alto acabará servindo apenas aos poderosos e às cidades que não precisam”, adverte a irmã Bernardete.

Ela fala por experiência própria. Mesmo antes da transposição, na zona rural de Nova Jaguaribara, água em si não é problema -- e sim fazê-la chegar às casas, com a instalação de canos e adutoras. Prova disso é o Canal da Integração, no trecho que corta o Mandacaru. O povoado foi erguido pelo governo cearense para abrigar a população desalojada pelo enchimento do açude do Castanhão. O canal passa à frente das casas de seu Taxinha e mais 140 famílias -- e é apenas um grande objeto de desejo. No local onde as famílias antigamente moravam, à beira do rio Jaguaribe, agora submerso pelo açude, havia água à vontade. Foram transferidas para as novas moradias com a promessa de um projeto para criação de gado leiteiro, mas os animais estão morrendo de sede. “Não temos água do canal para dar às vacas, nem podemos pagar pela que chega nas torneiras das casas”, reclama Taxinha, desapontado. Ele diz que os moradores estão abandonando o velho sonho, vendendo o gado para comprar comida. E passam a depender das chuvas -- raras e mal distribuídas -- para plantar feijão e mandioca. Tudo volta à estaca zero. “Viemos em busca de um projeto e só encontramos sofrimento”.

“Será assim também após a transposição do São Francisco?”, pergunta a irmã Bernardete, sem esconder as seqüelas de um acidente inusitado: “nas andanças pelos povoados, caí com o carro dentro do canal, fraturei o braço e o ombro e minha cabeça ficou cheia de remendos”. Nada mais natural, para quem anda sempre por ali, mas estranho para o forasteiro acostumado a rodar pelas congestionadas marginais do rio Tietê, em São Paulo. De fato, percorrer as margens do Canal da Integração é uma aventura perigosa. Não há qualquer sinalização ou iluminação e os animais se aproximam na ânsia de matar a sede. Muitos acabam caindo na água e são levados pelos vigilantes. Na beira do canal, encontramos Francisco de Freitas, 50 anos: “somos mais espertos que os guardas”. Ele tem toda razão. Criatividade não falta: para tirar uma lasca desse tesouro guardado a sete chaves, monta-se uma engenhoca bem-bolada: um balde içado por uma corda recolhe água e a despeja dentro de uma canaleta. Nela o líquido escorre muro do canal abaixo para encher as barricas, levadas no lombo de jumentos até o curral.

Personagens de Sabastião Salgado, cenários de Walter Salles ou drama de Pedro Almodóvar? Na briga pela água, os sertanejos, inclusive as mulheres, desenvolveram técnicas de escalada para subir e descer os paredões dos canais. “Já escorreguei e fui salvo pelo sogro”, conta com ar de herói Evilásio Queirós, 33 anos, que se arrisca duas vezes por dia para encher os baldes -- e ainda pode ser levado para a cadeia. Ao lado dele, a irmã Bernardete sorri e admite: “todo mundo aqui faz ‘gato’ para desviar água, inclusive com a instalação clandestina de canos”. Do seu quartel-general, na casa onde funciona a Pastoral da Terra, em Nova Jaguaribara, a freira se conecta ao telefone e à internet para articular as ações sociais pelo sertão. Acolhedora e ao mesmo tempo dura quando precisa gritar, arrebanha sertanejos e tem livre acesso ao gabinete das autoridades. “Em visita ao município, o presidente do Banco Mundial me perguntou se o dinheiro aplicado pela instituição estava diminuindo as disparidades sociais. Respondi que não e uma semana depois o governo instalou uma adutora com três torneiras para melhorar a vida de uma comunidade”, conta a freira. “Isso parece pouco, mas por aqui é muito”, completa, oferecendo uma taça de sorvete de cajá, fruta típica nordestina, para a nossa degustação.

Ameaças veladas de morte por quem deseja se apropriar dos recursos hídricos não a intimidam. Dizem por lá que a irmã Dorothy Stang, assassinada em Anapu, no Pará, em fevereiro de 2005, está para a Amazônia assim como a irmã Bernardete está para o sertão. A diferença é que no Pará a disputa é pela floresta; no Ceará, é pela água. O trabalho não é pequeno, numa região onde os contrastes saltam aos olhos. E daí a eclodir conflitos é apenas um passo. Seguindo a rota do Canal da Integração, descobrimos que não falta energia elétrica para bombear essa água até o destino final, mas ali ao lado existem comunidades que ainda vivem na escuridão. No povoado Baixa dos Cajueiros, é raro aparecer visitante fora das campanhas eleitorais. Os moradores abrem um sorriso quando percebem no lusco-fusco a chegada da irmã Bernardete. As lamparinas começam a ser acesas. “Novidades aqui só pelo rádio e a carne é conservada no sal”, diz Terezinha Rodrigues, 63 anos, que pena para sustentar cinco filhas, quatro delas deficientes mentais. “O sonho é ter uma geladeira”, revela. São bens que família até podia ter, no passado, quando morava em outro povoado com energia. Mas depois, por conta das obras para abertura do canal, foi deslocada para longe da rede elétrica -- e permanece assim, sem luz, até hoje. A água para os animais é “roubada”. Para beber, os moradores pegam na cisterna, abastecida pela chuva. Na seca, ou seja, na maior parte do ano, a saída é pagar ou então sucumbir aos favores dos políticos para receber um carro-pipa.

Essa é a realidade de quem receberá a água do São Francisco. De um lado do Canal da Integração, sacrifícios. No outro, esbanjamento. Maria de Lurdes Rodrigues, 79 anos, teve mais sorte. Tem água de um chafariz e ostenta uma casa com TV, antena parabólica, geladeira e tudo o mais que a energia elétrica pode proporcionar, comprado com o dinheiro da aposentadoria. “Quando vejo na televisão São Paulo alagada e tantos carros, vixi Maria, fico pensando como aqui é tão seco e também tão calmo”. Na garagem, o marido lustra uma Belina velha que comprou em troca de um revólver e mais R$ 300 da indenização pelo terreno hoje ocupado pelo canal.

Percebemos que ter luz e, principalmente, água, é uma questão de poder e status no sertão. Envolve também vaidade, auto-estima. “Só conseguimos uma adutora porque protestamos e paralisamos as obras do canal”, conta Evani de Lima, 18 anos, orgulhoso. Responsável pela aferição do relógio que mede o consumo das casas no povoado Linha Base, em Morada Nova, o rapaz se sente com o poder nas mãos. Mas há realidades diferentes. Alguns quilômetros adiante, onde não há torneiras, encontramos Antônio Nascimento, 20 anos, andando quatro horas para chegar a um açude e abastecer os tambores levados pelo jumento. Para se proteger do sol e dos espinhos da caatinga, costuma usar as tradicionais vestes de vaqueiro. Mas tem vergonha exibi-las e de mostrar a sua difícil rotina. Prefere não ser fotografado. “Meus amigos da escola vão zombar”, justifica o rapaz, vaidoso, procurando no armário a camiseta mais moderna que possui.

Há comunidades que aprenderam a conviver com a seca e não deixa a escassez abalar o astral. No povoado Lagoa dos Cavalos, município de Russas, vizinho a Nova Jaguaribara, os sertanejos se organizaram e construíram reservatórios, barragens subterrâneas e outros meios de acumular água da chuva para beber e plantar na estiagem. E agora, após tanto trabalho, serão deslocados para abrir espaço a novos canais de irrigação. Nessa localidade, há extensos cultivos de melão e melancia para exportação, abastecidos pelo rio Jaguaribe -- o mesmo que será engordado pela transposição do São Francisco. No projeto Tabuleiro de Russas, o vaivém de tratores puxando vagões de frutas retrata o ritmo de um celeiro agrícola. Mas observamos que nem tudo são mil maravilhas. Na beira do canal que irriga as plantações, o desempregado Raimundo de Lima, 37 anos, joga o anzol para pegar tilápias e lambaris, ao lado da irmã e da filha. Ele perdeu o emprego no cultivo de abacaxi e encontrou nessa pesca arriscada a alternativa de alimento. Mas tem medo: “a polícia já apareceu, ameaçou e mandou a gente ir embora”.

Que mudanças ocorrerão ali com a chegada das águas do São Francisco? Quem critica o desvio do Velho Chico diz que o sertão não precisa de obras faraônicas e caras, mas de iniciativas mais fáceis e baratas, decididas e controladas pelas próprias comunidades. É o caso, por exemplo, das cisternas de placa, reservatórios de cimento que guardam até 16mil litros de água da chuva. Mais de 120 mil foram construídas nos últimos oito anos em cerca de 1 mil municípios, sob o comando da ASA (Articulação do Semi-Árido Brasileiro), com apoio de empresas, governo e outros organismos. A meta é atingir 1 milhão até 2010. “A transposição completa e não inviabiliza essa alternativa”, explica João Amorim, gerente do programa, que absorve recursos da ordem de R$ 1,5 bilhão. Desviar o São Francisco custará três vezes mais que isso e ainda exigirá obras regionais complementares. Há soluções alternativas, propostas pelo próprio governo federal: recente relatório a Agência Nacional de Águas (ANA) propõe a execução de 530 obras de menor porte para resolver o problema do abastecimento do nordeste até 2015, ao custo de R$ 3,6 bilhões.

Na disputa pelas gordas fatias desse bolo que abrange o combate à seca, há muitos interesses em jogo -- econômicos, políticos, ideológicos e ecológicos. O recheio dessa guloseima calórica tem como base muitos conflitos, como os que rondam a transposição do São Francisco. De um lado, estão os seus opositores, os governos e instituições sociais de Minas Gerais, Bahia, Alagoas e Sergipe. Eles não querem compartilhar esse recurso natural que se torna escasso, fonte que lhes garante riquezas. Temem que a obra reduza a água para irrigar a agricultura e abastecer a população de seus municípios, prejudique a geração de energia hidrelétrica e atrapalhe o desenvolvimento econômico. Nessa queda de braço, no outro lado do embate estão os defensores da transposição, os estados beneficiados pela obra -- Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Eles argumentam que 95% da água que ultrapassa a barragem de Sobradinho, na Bahia, é desperdiçada na foz sem nenhum uso -- ou seja, só 5% são consumidos ao longo do rio. Pelo projeto da transposição, 1% dessa água será desviada pelos canais, uma quantidade pequena que não provoca danos ambientais, segundo os especialistas que apóiam a idéia. Espera-se, com ela, abastecer cerca de 12 milhões de pessoas no semi-árido, onde rios e açudes secam em parte do ano e criar pólos de agricultura irrigada, para gerar renda e reduzir o êxodo rural.

O objetivo é alcançar uma solução permanente contra a escassez hídrica, acabando com a dependência de carros-pipa que muitas vezes chegam em troca de votos. Mas, pelo histórico das obras desse calibre na região, nada garante que seja assim. Explica-se: o projeto da transposição é como uma cirurgia de ponte safena, que desvia sangue da aorta (principal artéria do corpo humano) para as artérias que irrigam o coração. Se esse órgão vital não estiver sadio, de nada adiantará a intervenção. De igual maneira, para garantir o acesso e o bom uso da água na região beneficiada pela transposição, é necessário que os governos municipais e estaduais construam açudes menores, adutoras e canalizações até as torneiras. E também projetos para organizar as comunidades e gerar renda, pois a água terá um custo a ser pago pela população.

As dúvidas recaem exatamente nesse ponto. Não faltam obras hídricas no nordeste. Em 100 anos da chamada indústria da seca, foram construídos mais de 400 barragens para armazenar água e 70 mil açudes. É um dos maiores programas de açudagem do mundo. Os críticos da transposição alegam que seria prioritário e urgente construir adutoras para garantir o acesso do sertanejo a essa fonte já existente. Suspeitam que a água do São Francisco pode não chegar à população carente do semi-árido. É uma questão de antecedentes. O nordeste abriga hoje um cemitério de obras irregulares e, não raro, inacabadas. Anos atrás, a Assembléia Legislativa do Ceará instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que descobriu até açude construído com dinheiro público para enfeitar fazenda de deputado, sem acesso da população.

Os abusos persistem até hoje. “Superfaturamento e irregularidades nas licitações são os principais problemas”, revela André Luiz Mendes, secretário de Fiscalização de Obras e Patrimônio, do Tribunal de Contas da União (TCU). Os fiscais encontraram falcatruas em várias obras hídricas investigadas no ano passado, a maior parte no Nordeste, somando contratos perto de R$ 1 bilhão. Essas são, depois da construção e melhoria de rodovias, as que mais preocupam. Na lista das 46 obras federais investigadas em 2007 e bloqueadas pelo TCU, sete são de barragens, adutoras e irrigação. “É comum os problemas acontecerem por conta de projetos mal executados”, explica Mendes. Ele cita como exemplo a Adutora de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, que não saiu do papel. Paralisada há 15 anos, precisará agora de nova licitação, porque o projeto antigo já não atende às necessidades da população. Até o momento, ao custo de R$ 114 milhões do governo federal, a barragem construída no rio Apodi, também sob suspeita de superfaturamento, não contribuiu para abastecer as cidades -- apenas para irrigar cultivos.

Em Sergipe, a Adutora do São Francisco, destinado a abastecer a cidade de Aracaju, apresenta toda sorte de irregularidades possíveis e imaginárias, segundo laudo do TCU. No lugar das estações de tratamento de água previstas na licitação, de concreto e capacidade para 900 litros por segundo, foram utilizados similares mais baratos de plástico para receber apenas 400 litros. Dentro de um esquema chamado pelos fiscais de “jogo de planilha”, preços foram alterados por contratos adicionais, indo a R$ 3 milhões além do aprovado. A obra, no valor de R$ 128 milhões nesta etapa, está sendo executada pela construtora Gautama -- pivô da Operação Navalha, na qual a Polícia Federal prendeu em 2007 políticos, servidores públicos, lobistas e empresários acusados de fraudar licitações e desviar recursos públicos. Estão na mira do TCU contratos que totalizam R$ 500 milhões envolvendo essa construtora, que teria doado em 2006 perto de R$ 500 mil a políticos. A investigação nesse caso inclui também a Adutora Italuiz (MA), a Barragem Poço Verde (SE), o Tabuleiro dos Martins (AL) e a Irrigação do Rio Preto (DF).

Nem tudo é irregular. Há obras, é claro, que cumpriram o papel de gerar emprego e renda e de levar o desenvolvimento econômico para lugares antes esquecidos. Eldorados agrícolas irrigados na divida do Ceará com o Rio Grande do Norte exportam até melancias sem caroço e quadradas, cultivadas dentro de cubos de vidro, apreciadas no Japão. Mas há lugares onde isso não se vê e, ao invés do agronegócio, impulsiona-se o chamado “hidronegócio”. No Ceará, o Ministério Público estadual determinou recentemente que 145 municípios devolvessem o dinheiro investido em obras que não terminaram. A maior parte desses recursos vem da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), do governo federal. Há desvios de toda ordem. A prefeitura de Campos Sales, por exemplo, embolsou há mais de dez anos R$ 497,7 mil para tratar a água distribuída à população, mas até agora nada foi realizado -- e todos continuam correndo risco de doenças, como a diarréia, que causa grande mortalidade infantil. Já o município de Caridade, apesar do espírito humanitário evocado pelo nome, conseguiu R$ 164 mil da Funasa para abastecer a população, mas gastou tudo levando água para propriedades particulares -- fazendas de amigos e correligionários do ex-prefeito. Em 2008, o governo federal está liberando para o Ceará mais R$ 249 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e uma parte será aplicada para finalizar obras antigas. Políticos da oposição perguntam se serão concluídas de fato ou se os recursos escorrerão novamente pelo ralo.

É uma realidade que atinge em cheio a região do povoado Mandacaru. Em especial, uma localidade também batizada com o nome de um célebre cacto sertanejo: Xique-Xique. Da beira da estrada, no caminho entre Nova Jaguaribara e Morada Nova, avistamos antigos pivôs de irrigação (estrutura de canos que dispersam água sobre as plantações) apodrecendo ao relento. Um dia serviram ao cultivo de feijão, mas os lavradores não tiveram dinheiro para pagar a conta da energia elétrica que puxa água e tudo acabou abandonado. Hoje vazio em meio à caatinga improdutiva, o canal que antes abastecia as roças apresenta rachaduras no leito pela contínua exposição ao sol -- e está fadado a não servir para mais nada. De lá, continuamos viagem pela rota das águas cearenses, nas proximidades do rio Jaguaribe. Na vila de Serragem, município de Ocara, uma fila de carroças chama a atenção, na frente de um poço artesiano. Elas carregam tambores vazios, vigiados por homens à sombra de uma mangueira. “Aqui só tem água salgada, mas dá para tomar banho”, informa Francisco Delmiro da Silva, 48 anos. Ele mostra onde se localiza o chafariz do povoado. No locao há uma outra fila, desta vez de mulheres. Ansiosas, aguardam com baldes a água de beber e cozinhar levada semanalmente pelo carro-pipa. Quando chega o caminhão, a confusão é grande. “Elas ficam nervosas e sempre saem no tapa”, conta Silva. Água boa e farta só na fazenda de uma empresa agropecuária vizinha, que doa uma parte aos moradores da vila. “Isso é o que salva”, arremata o sertanejo.

Mais 103 quilômetros a oeste, atingimos a cidade de Quixadá, com seu maior cartão-postal: o açude do Cedro, o mais antigo do Brasil, castigado pela última estiagem que reduziu de 14 para quatro metros a sua profundidade. Essas águas, mesmo minguadas, compõem um belo cenário urbano, ao pé da famosa Pedra da Galinha -- destaque na cordilheira de onde aventureiros saltam de asa-delta para sobrevoar todo o sertão cearense até cruzar a divisa com o Piauí. Nesse trajeto, que seguimos por terra, destaca-se o município de Senador Pompeu, palco de um de um triste episódio da história nordestina. A cidade abriga ruínas que remontam ao tempo dos “currais da seca”. Para lá foram levados perto de 3 mil flagelados, durante a grande estiagem de 1932. O objetivo do governo era evitar que chegassem às grandes cidades e espalhassem miséria e doenças. O lugar funcionava como um campo de concentração: os sertanejos tinham o cabelo raspado e vestiam uniformes, às vezes sacos de estopa. Dormiam ao relento e estavam proibidos de sair às ruas para pedir esmola. “Era gente demais e muito sofrimento”, conta Luíza Lo, 82 anos, sobrevivente daqueles tempos. “Na madrugada, ouvíamos o barulho grande de choro e cantorias de lamento, porque muitos morriam”, recorda-se. Seus olhos brilham, quase choram, no rosto de pele enrugada pelo tempo e pelo castigo do sol. Ela diz que os mortos eram enterrados em valas comuns, remexidas por cães famintos.

Na época, então menina, dona Luíza andou dias no sertão assolado pela fome até chegar àquele campo de refugiados, ao lado da mãe, do pai e de um irmão mais novo. Para o local, as autoridades levavam de trem as doações aos flagelados -- os trilhos e a velha estação estão lá até hoje. E também o que sobrou da casa de pólvora, da cadeia, da farmácia, do hospital e de antigos casarões onde ficavam os vigilantes. Eles recebiam a melhor parte dos alimentos. “Para a gente, só os ossos e uma sopa que parecia um lodo”, revela dona Luíza. No cemitério ao lado das ruínas, é realizada todos os anos, no Dia de Finados, uma romaria em memória daquelas almas -- 1,5 mil pessoas foram sepultadas ali. O lugar simboliza... O antigo campo ocupou as instalações erguidas anos antes para abrigar os engenheiros ingleses e operários que iriam construir o açude do Patu -- uma obra que parou por falta de verba e acabou realizada mais tarde com dimensão menor que a inicialmente prevista. Hoje o município fornece água para mais de 80% dos habitantes. O velho açude também serve ao lazer de banhistas e projetos de piscicultura. É alimentado pela bacia do rio Jaguaribe, que receberá parte das águas do São Francisco -- isso, é claro, se a transposição for adiante. Representa a nova etapa de uma história, cujo passado os moradores da cidade preferem esquecer.

Na região das obras, um barril de pólvora prestes a explodir

Da rica cidade de Petrolina com seus arranha-céus às margens do rio São Francisco, no lado de Pernambuco, percorremos BR 428, popularmente conhecida como “Transmaconheira”, até chegar ao local exato onde as águas do rio serão desviadas para o interior árido do nordeste. Após 180 km, no município de Cabrobó, uma placa na estrada avisa: “Área de administração militar. Não se aproxime. Sujeito a penalidades”. Tomamos aquele desvio e logo chegamos a uma segunda placa: “Integração de Bacias - Canais de Aproximação”. Em meio ao pó, bodes famintos comem o capim que restou na área despelada. Avistamos máquinas a pleno vapor. Trinta escavadeiras e dez tratores revolvem a terra. Elas abrem espaço para o primeiro canal da transposição -- um marco histórico, tendo em vista toda a polêmica gerada em torno do projeto.

Militares com máscaras contra poeira e seus uniformes camuflados dão um clima de guerra ao cenário das obras, executadas nessa etapa inicial pelo Exército. São ao todo 150 homens, incluindo operários de empreiteiras terceirizadas. Eles chegaram à região há exatamente um ano para aguardar as licenças ambientais e depois desmatar e escavar. “Essa obra eleva o nosso ego”, confessa o jovem tenente Uémerson Ferreira da Silva, 26 anos, chefe do canteiro. Piauiesense, formado em 2005 pela Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro, o engenheiro conhece bem a escassez. Na terra natal, diz ele, há água em fartura nos lençóis do subsolo, mas nem sempre está acessível porque o governo não perfura poços para a população. “Acordo às 5h e trabalho até 17h30 sem ganhar hora-extra, mas depois terei a satisfação de ver todos aqueles rios do semi-árido cheios”, afirma Silva.

A transposição, abraçada pelo presidente Lula como uma das principais ações de seu governo, é uma idéia antiga. Surgiu pela primeira vez no século XIX com D. Pedro II, voltou à tona nos anos 1940 e reapareceu em mais três tentativas -- em 1983, 1993 e 1998 -- por ocasião de secas graves. Acabou sempre arquivada por inconsistência técnica e pelos altos custos. A atual versão, orçada em R$ 4,5 bilhões, ganhou um novo nome oficial: Projeto de Integração do Rio São Francisco às Bacias do Nordeste Setentrional. Está prevista a captação de um nível mínimo de água, de 26 metros cúbicos por segundo, destinado prioritariamente ao consumo humano e animal. Mas pode-se chegar até 127 metros cúbicos quando o rio estiver mais caudaloso. Nesse caso, o volume captado pode ser utilizado em atividades econômicas, como irrigar grandes plantações, embora ninguém saiba ao certo como se dará esse controle nas regiões receptoras. Para captar e distribuir a água, o projeto prevê duas vertentes principais com canais, elevatórias, túneis e represas: o Eixo Leste, que sairá de Petrolândia (PE) e abastecerá parte do sertão e do agreste de Pernambuco e da Paraíba; e o Eixo Norte, em Cabrobó, de onde os canais seguirão rumo a outras regiões de Pernambuco e da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte -- palco da etapa inicial de obras.

Até o momento, os operários escavaram superficialmente um canal de dois quilômetros, o primeiro da transposição. “Agora usaremos explosivos para quebrar rochas e ir mais fundo, 14 a 16 metros”, explica o tenente. Entre o início desse canal e a beirada do rio foi preservada uma faixa de terra transversal de 80 metros de largura para segurar a água até a conclusão dessa etapa. “Será detonada com dinamite no fim do ano, para finalmente desviar o rio”, conta o engenheiro. Ele admite atrasos, por conta das chuvas, que transformaram o canteiro de obras em grande lamaçal. Mas essa não é a única barreira. Novos protestos, ocupações de sem-terra e ações judiciais, freqüentes nos quatro anos de debate sobre o projeto, poderão recrudescer.

O Exército marcou presença na região, construindo um imponente quartel na beira da rodovia, sempre visitado por generais. É guarnecido por fuzileiros atrás de trincheiras armadas com sacos de areia. “Cada vez que há um boato de invasão, a Infantaria reforça a vigilância e não deixa ninguém chegar perto da obra”, informa o tenente. Na carreira militar que se inicia, Uémerson já construiu pontes e estradas no interior nordestino, mas nunca imaginou encarar uma missão tão polêmica. As obras foram iniciadas depois que o projeto obteve a licença ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em julho do ano passado. Mas acabaram paralisadas por uma decisão judicial. Em dezembro, o SupremoTribunal Federal deu sinal verde para os trabalhos, retomados em janeiro.

“Vai ganhar o bom-senso e essa obra não vai continuar”, afirma dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), um dos mais ferrenhos críticos da transposição. O franciscano, antes pouco conhecido fora da sua região, ganhou projeção nacional e até internacional ao se deslocar para Cabrobó e fazer duas greves de fome contra o desvio do São Francisco. A primeira durou 11 dias, em 2005; a segunda, de 24 dias, no final do ano passado. “O que tinha para dizer já foi dito”, destaca o bispo, sem achar necessário novos jejuns de protesto. Afinal, por conta deles, recebeu a visita do presidente Lula e carta do Papa. “Acordei o país para o problema”. Que lições tirou? “Descobri o autoritarismo e a total insensibilidade do governo em relação à sociedade civil”, responde o religioso. E vai além: “o Presidente cuspiu no prato que comeu e isso é muito triste”. Ele garante que o movimento contra o projeto não esmoreceu e diz que ele, mesmo iniciado, pode parar novamente. “Só teremos mais um ano e meio desse governo”.

O lugar é foco de interesses e discórdias de vários níveis. Envolvem desde os maiores usuários do rio -- como as grandes usinas hidrelétricas, os projetos de irrigação e o abastecimento público das cidades -- até as rinhas entre políticos locais, a briga entre pequenos lavradores e a ambição de proprietários rurais. É uma disputa por benefícios econômicos e políticos, ou seja, dinheiro e poder. Nesse jogo, o fazendeiro Antônio Russo, 72 anos, está feliz da vida. Dono da propriedade onde as águas do São Francisco serão transpostas, recebeu o governo federal uma indenização de mais de R$ 1,1 milhão para a cessão da área, um total de 600 hectares. Foi uma negociação longa. Russo contou cada pé de coqueiro a ser vendido para a União. “Eles propuseram R$ 970 mil, mas pedi R$ 1,4 milhão, e acabamos chegando a um valor intermediário”, conta. Segundo fontes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), um terreno com essas características não vale mais de R$ 700 mil na região.

“As pessoas acham que fiquei rico, mas recebi pouco”, alega o fazendeiro, dizendo que dividiu o valor com os filhos. “Comprei um bom carro (uma Toyota Hillux) e estou construindo dois prédios aqui em Cabrobó”, revela. Ele conta que, quando tinha sete anos e morava no sertão da Paraíba, acompanhava o pai andando horas para pegar água no açude. Depois tentou a vida em São Paulo, sem sucesso. Acabou comprando uma gleba para plantar cebola na beira do São Francisco -- e ali está até hoje. Além da área desapropriada, Russo tem mais 700 hectares, onde mantém 200 cabeças de gado. “Se o governo investe alto no Rodoanel para melhorar o trânsito de São Paulo, por que não fazer o mesmo para levar água aos nordestinos”, pergunta o fazendeiro.

A exemplo dele, o prefeito de Cabrobó, Eudes Cavalcanti, comemora. A passagem do canal da transposição pelo município, ao longo de 60 quilômetros, vai perenizar riachos e abrir uma área igual a 50 mil campos de futebol para novos plantios. Nesse percurso, segundo o projeto, uma faixa de 2,5 quilômetros de ambos os lados do canal deverá ser ocupada por assentamentos rurais. De acordo com o prefeito, a obra da transposição empregará 1mil trabalhadores e beneficiará indiretamente outros 4 mil no município. “A expectativa é dobrar a população dobrar em até dez anos, com mais injeção de recursos e reflexos no comércio”, afirma Cavalcanti, de olho no dinheiro que chegará aos cofres com a maior arrecadação de impostos.

“Resta saber se a cidade, que hoje despeja esgoto diretamente no São Francisco, estará preparada para isso”, ressalva Marcos Antônio Cavalcanti, 39 anos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cabrobó. O município recebeu R$ 6,8 milhões do governo federal para o saneamento, mas as indenizações propostas aos pequenos lavradores pelas terras ao longo do canal são irrisórias. “Enquanto alguns ganham, até agora não tivemos qualquer benefício com essa obra”, reclama. Cavalcanti se refere mais especificamente aos seus maiores rivais nessa disputa: os índios trukás. Eles têm como reserva indígena a Ilha da Redenção, no rio São Francisco. Ligada por uma ponte à cidade de Cabrobó, a área é como um bairro -- tem casas de alvenaria e, com acesso asfaltado e bem arborizado, é local predileto das senhoras cabroboenses para caminhadas no fim da tarde.

Nessa ilha de 6,2 mil hectares, vivem 750 famílias trukás. Elas produzem por ano cerca de 600 mil sacos de arroz, usando a água do São Francisco. Recentemente, a aldeia recebeu uma gorda verba do governo federal para pavimentar ruas, reformar escolas, construir casas e fazer outras melhorias na reserva -- dinheiro visto por muitos na região como moeda de barganha para aplainar os ânimos contra a transposição. Tão logo o Exército iniciou as obras, 455 famílias saíram da reserva e ocuparam no continente a Fazenda Lameirão, próximo ao percurso do canal. Com a futura água, aquelas terras se tornarão mais valorizadas. Mas o atual proprietário não se incomoda, pois espera receber R$ 400 mil da Fundação Nacional do Índio (Funai) pela desapropriação. “Por que temos que sair daqui para a chegada de assentados vindos de fora”, pergunta o cacique Aurivan dos Santos, 35 anos, o Neguinho, que comanda o lugar a ferro e fogo. Há 10 mil trabalhadores rurais não-indígenas disputando esse espaço precioso. Ele diz que a aldeia tem direito a essas terras porque eram ocupadas por seus ancestrais desde o século XVII. “O governo precisa nos convencer sobre a transposição, porque a obra corre o risco de não ir adiante”, ameaça o cacique, sentado numa cadeira como um soberano com todos em pé ao seu redor.

Discurso articulado, Neguinho desconfia sobre a real quantidade de água que sairá do rio para abastecer os 186 mil hectares de cultivos irrigados, previstos pelo governo ao longo dos eixos da transposição. “E se faltar para a gente?”, indaga. Sua preocupação coincide com a de um recente relatório da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no qual os técnicos asseguram que apenas 30 mil hectares de terras agricultáveis do semi-árido -- um sexto do que foi prometido pelo governo --poderiam ter água da transposição o ano todo. E, mesmo assim, a um custo dez vezes maior se comparado à irrigação na beira do rio.

À frente do terreiro do toré, onde são realizados os rituais de dança, o cacique garante: “a resistência persistirá, porque o rio está morrendo”. De certa maneira, ele tem razão. Estima-se que o São Francisco tenha perdido 40% do volume de água nos últimos 40 anos. Está mais raso e estreito. Aproximadamente 75% da vegetação de suas margens foi derrubada. Resultado da erosão, a terra escorre para o leito, causando danos à navegação e às espécies de peixe que sustentam a população. Em Minas Gerais, a situação é crítica. Na foz, na divisa de Alagoas com Sergipe, a população sente os impactos das usinas hidrelétricas. As barragens alteram o ecossistema das espécies e bloqueiam o transporte natural de sedimentos pela correnteza. Como resultado, o mar avança sem resistência. Já engoliu povoados ribeirinhos e derrubou o farol do Cabeço. Para completar, em toda a bacia do Velho Chico existem 450 cidades sem saneamento básico que espalham poluição. Após os primeiros protestos contra a obra, o governo federal lançou um programa para recuperar e revitalizar o rio. Além de tratar esgoto, estão previstos projetos para medir a qualidade da água, reflorestar nascentes com 1,5 milhão de mudas por ano e melhorar a navegação para permitir o transporte de grãos entre os pólos de irrigação do oeste da Bahia e o porto de Juazeiro, de onde a carga seguirá por ferrovia até os principais portos nordestinos. Até 2007, foram investidos perto de R$ 200 milhões nessas iniciativas e o plano é alcançar mais de R$ 1 bilhão até 2010.

Quem vive na região banhada pelo São Francisco disputa essa verba. E planeja lucrar mais com o uso do rio. Na região de Juazeiro e Petrolina, a fruticultura irrigada ocupa mais de 100 mil hectares, sendo responsável por 70% das exportações brasileiras de manga e 90% de uva. Nos últimos anos, graças à água farta e ao clima ensolarado, vinícolas famosas do sul do País chegaram para cultivar parreirais e transformar aquele pedaço do sertão no mais novo pólo produtor de vinhos brasileiros. Há novos empreendimentos saindo do papel. Na Bahia, os pólos de irrigação que já funcionam ou estão em fase de instalação vão captar nos próximos anos três vezes o volume de água previsto pela transposição do São Francisco. Ceder água para os estados vizinhos seria colocar esses planos em risco.

Publicada originalmente na revista Rolling Stone

http://rollingstone.uol.com.br/edicao/22/a-guerra-da-agua#imagem0

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