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Petrolina (PE) - Órfãos da transposição

O destino dos animais resgatados durante a obra da transposição do São Francisco

· Pernambuco

Ele tem nome de cangaceiro “cabra macho”, mas é apenas um inofensivo sagui – desses que perambulam em bandos pela caatinga, sob a ameaça da caça e do desmatamento que reduz seu hábitat natural. Virgulino teve sorte. Resgatado por biólogos ainda bebê com 45 dias de vida, escapou de tratores e escavadeiras que rasgavam a mata. O animal foi tratado em cativeiro e – quando atingiu a idade adulta -- formou uma nova família junto a indivíduos da mesma espécie, originários de diferentes regiões. Após os cuidados, foi devolvido à natureza, onde encontrou outros grupos de primatas, marcou território, compartilhou pacificamente o assédio das fêmeas e assim garantiu a diversidade genética, essencial à conservação da fauna.

Símbolo de resistência. Virgulino deixou saudades entre todos que trabalham no Centro de Conservação e Manejo de Fauna, em Petrolina, sertão de Pernambuco, e agora se esforçam dia e noite para a história de sucesso se repetir com a maioria dos bichos lá hospedados. O desafio não é fácil: salvá-los antes dos impactos das obras para a transposição do Velho Chico, que pretende levar água e desenvolvimento econômico aos sertanejos. “É uma corrida contra o tempo”, afirma o pesquisador Luiz Pereira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Ele coordena uma superestrutura de laboratórios bem equipados, veículos de resgate, centro cirúrgico e alojamentos para quarentena da fauna. É um “quartel-general”, erguido em pleno semiárido através de recursos do governo federal como medida de compensação obrigatória pelos danos da obra, prevista no licenciamento ambiental.

Em campo, a trincheira da batalha está nos canais abertos na vegetação da caatinga para a passagem da água, totalizando 700 km (leia no quadro da página x). Antes das máquinas entrarem em ação, os biólogos são chamados para o resgate da fauna. Inicialmente, a equipe faz uma varredura a cada 400 metros, demarcados previamente por estacas. A missão: afugentar os animais, verificando a existência de ninhos de aves e espécies de pequeno porte. A vistoria abrange uma faixa de 100 metros de largura ao longo de cada lado dos canais, além das áreas destinadas aos reservatórios que regularizam a vazão e que precisam ser desmatadas.

Só depois entra em cena a motosserra. A galhada é empurrada para as margens – operação seguida de perto pelos biólogos e veterinários, porque neste momento é resgatada a maior quantidade de bichos. Todos são levados para contêineres que funcionam em campo como centros móveis de triagem e miniclínicas. Após avaliação, os animais saudáveis são soltos por lá mesmo na região, mas longe do perigo. Dos 10 mil até hoje resgatados, 8 mil retornaram à natureza.

O trabalho não termina por aí. Aves, mamíferos, répteis, anfíbios, insetos e peixes serão monitorados após a conclusão da obra, quando a água estiver circulando pelos canais sertão adentro. O objetivo do acompanhamento, com previsão para durar no mínimo seis anos, é reduzir os riscos da convivência da biodiversidade com o empreendimento. Faz-se necessário, por exemplo, a construção de passagens por galerias para facilitar a circulação dos animais silvestres e a troca genética entre eles. Pelo menos 60 galerias, entre as centenas previstas no projeto, já foram avaliadas como de extrema importância para a fauna.

A faixa de 200 metros desapropriada no percurso da obra, onde será necessária a recomposição florestal, servirá teoricamente de refúgio. “O desafio exige a conscientização de comunidades e produtores rurais do entorno”, ressalta Pereira, receoso sobre os efeitos das mudanças no Código Florestal que reduzem as áreas obrigatórias de preservação ao longo dos cursos de água. “O assunto preocupa, pois a caatinga tem poucas unidades de conservação, como parques e reservas ecológicas”, frisa o pesquisador, que trocou as pesquisas com animais da Mata Atlântica paranaense pelos do semiárido pernambucano.

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