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Petrolina (PE) - Quando o vinho encontra o bode

Rio São Francisco atrai vinícolas do Sul e cria roteiros de enoturismo que abrem uma nova realidade econômica para o sertão

· Pernambuco

Vinhos combinam com o friozinho da serra ao pé de uma lareira em ambientes
charmosos, requintados -- por que não, românticos. Brancos ou tintos, maduros ou
jovens, leves ou encorpados, são apreciados na degustação de queijos finos, foundies e
diversos pratos da gastronomia. Essa é a tradição, por séculos. Mas existe um pedaço do
Brasil onde a glamourosa bebida harmoniza com algo inusitado, um velho símbolo da
dura vida severina: o bode. Na caatinga de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), banhada pelo
rio São Francisco, essa união é resultado de dois caminhos que se cruzam: os avanços
na qualidade dos caprinos e a chegada dos parreirais irrigados que levam para o sertão
uma cultura antes restrita às zonas subtropicais. Desse encontro tão curioso quanto
promissor, mudam-se hábitos e nascem no interior nordestino perspectivas para uma
nova atividade econômica: o turismo.
Nem França, Portugal ou Itália. Nem Argentina ou Chile. É nas margens do
Velho Chico onde os turistas que viajam pelo mundo para apreciar vinhos podem
experimentar as mais recentes novidades nesse setor. No entender de soumeliers e
enólogos, especialistas nesse ofício, não se trata de um exagero. Explica-se: essa região
ensolarada, com umidade de 50% e temperatura média de 28 a 30 graus, além de ótima
para o bode que convive sem problemas com a caatinga tórrida, é a única do mundo que
colhe uvas e produz vinho o ano todo. Nessas condições especiais, o fruto tem uma
maturação diferenciada. Como resultado, as plantas cultivadas no chamado “Paralelo
8”, na faixa tropical do planeta, geram vinhos inigualáveis. O Syrah, estrela no mercado
mundial e carro-chefe no Vale do São Francisco, por exemplo, é mais jovem, tem aroma
frutado, frescor levemente ácido e maior teor de álcool. São diferenciais testados em
campo e em laboratório pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
testa em laboratório e no campo, com objetivo de adaptar ao semi-árido as variedades
de uva mais famosas do mundo.
A novidade encontra vantagens adicionais, como terras disponíveis para plantio,
água farta para irrigação e canais fáceis para exportação. “É um caminho sem volta”,
afirma Francisco Macedo de Amorim, coordenador técnico do Instituto do Vinho,
referindo-se às chances de sucesso dos parreirais nordestinos. Ele tem razão. Nos
últimos anos, grandes vinícolas do Sul do país e da Europa desviaram os olhos para o
São Francisco, onde instalaram filiais para apostar no futuro. Depois da pioneira
Forestier, que chegou à nova fronteira com seus cultivos em meados dos anos 80, a
região tem hoje oito vinícolas que ganham vigor e investimentos para colocar o sertão
na rota mundial do enoturismo.
Vinho ganha roteiro no semi-árido
É uma opção ao tradicional turismo de sol e mar do Nordeste. “Além de gerar
riquezas com a vinda de turistas, é a melhor maneira de divulgar os vinhos da região e
atrair novos mercados compradores”, analisa Nivaldo Carvalho, presidente da
Associação Integrada de Turismo do Vale do São Francisco. Diante desse potencial,
com verba de R$ 3 milhões, foi elaborado um roteiro turístico envolvendo oito
municípios da região, com melhorias urbanas, reforma da orla fluvial e das estradas,
formatação de atrativos e plano para comercializar o novo produto.
Como pólo de fruticultura irrigada, responsável por 80% das exportações
brasileiras de uva e manga, a cidade de Petrolina e seu entorno despontam como uma

ilha de riqueza em meio à caatinga. O município atrai feiras e eventos técnicos sobre o
tema e, durante todo o ano, recebe executivos e outros profissionais que chegam para
negociar insumos agrícolas e frutas. Nas últimas décadas, atraídos por esse progresso,
empreendedores migraram do Sul e do Sudeste com suas famílias em busca de
oportunidades de negócio nesse mercado emergente. O comércio cresceu, universidades
foram inauguradas para fixar os jovens na região, elegantes edifícios ocuparam orla
fluvial da cidade -- e o turismo tem o poder de fazer esse progresso decolar.
“A curto prazo, o principal foco do novo circuito é o público do turismo
tecnológico e de negócios, somado às excursões de escolas de outras regiões do país que
almejam entender como é a convivência com a seca”, diz a consultora Dóris Rushmann,
contratada para dar suporte técnico a esse pontapé inicial. Encontrou surpresas. “Há
belezas incríveis, como o passeio de barco na eclusa da barragem de Sobradinho, em
território baiano, que dá acesso a um dos maiores lagos artificiais do mundo”, conta a
consultora. A esse roteiro se integra a visita a fazendas de frutas, ao Museu da Irrigação
em Orocó (PE) e, futuramente, ao exato ponto de onde as águas do São Francisco serão
desviadas para abastecer regiões distantes que sofrem com a seca. Ancorado na orla de
Juazeiro (BA), o antigo vapor Sandanha Marinho, hoje reformado, remete aos tempos
de apogeu econômico e cultural do Velho Chico.
Além de levantar atrativos, a equipe da consultora realizou uma visita-piloto
como turista para testar os serviços e propor soluções. “A estrutura hoteleira é um
gargalo, mas começa a se expandir”, informa Helder Freitas, coordenador da área de
turismo no Sebrae, em Petrolina, parceiro no projeto do novo roteiro. Ele conta que a
cidade, hoje com 2,3 mil leitos, aumentará essa capacidade em 50% após a construção
de um hotel Íbis com 120 apartamentos e de dois novos flats -- o River Flat e o Puerto
del Rio -- às margens do São Francisco. Além disso, nos últimos cinco anos, o
aeroporto local recebeu investimentos de R$ 27 milhões para ampliar a pista e
climatizar o terminal de passageiros. O número de desembarques aumentou 50%.
Vinícolas do Sul chegam com força total
“É um processo lento, mas que terá resultados”, explica Vinícius de Santana,
secretário de Desenvolvimento Estratégico, Cultura e Turismo de Petrolina, estimando
receber 5 mil turistas por mês para a rota do vinho em pleno sertão. Entre os atrativos,
destaca-se a enoteca com auditório e museu sobre a história da bebida, prevista para ser
inaugurada em 2009, no município de Lagoa Grande, a 54 km de Petrolina. O lugar,
antes pobre e sem perspectivas, promove feiras sobre uva e vinho e aposta no
enoturismo como uma redenção. O distrito de Vermelhos, onde era alto o índice de
miséria e violência, ganhou saneamento, asfalto e escola. Desemprego praticamente não
existe.
Que o diga o extrovertido Victor Coelho Santos, 20 anos, um dos dez guias de
turismo que recepcionam os visitantes na Vinícola Garziera, pioneira no enoturismo
regional. Em duas horas de roteiro, o jovem mostra os parreirais, tanques de
fermentação e o setor de engarrafamento e embalagem. Depois, leva os grupos até a sala
de degustação, climatizada com o frio da montanha, para provar diferentes vinhos
acompanhados por canapés e -- não podia deixar de ser -- queijos finos de cabra. Ex-
vendedor de móveis, Victor mostra, com sotaque pernambucano, que absorveu o
vocabulário da enologia: “nossos vinhos são mais aromáticos e frutados”. Garrafas
podem ser adquiridas na loja da vinícola como lembrança de um “milagre”,
proporcionado pelo visionário Jorge Garziera, ao levar de Garibaldi (RS) para o semi-
árido nordestino as tradições italianas de sua família. Hoje o enoturismo representa 20%
do faturamento da empresa, que triplicou nos últimos dois anos. Para 2009, planeja-se

investir R$ 1 milhão para melhorar os serviços, com chalés e até teleférico sobre os
parreirais.
Qualquer semelhança com a fria Serra Gaúcha não é mera coincidência. Há dez
anos, essa região recebia 5 mil turistas por ano e, agora, são 130 mil. “Se tudo der certo,
o São Francisco poderá seguir os mesmos passos”, compara Henrique Benedetti,
responsável pela Fazenda Ouro Verde. Adquirida pela gaúcha Miolo no município de
Casa Nova, próxima ao lago de Sobradinho, a área tem hoje 150 hectares de parreirais
que se abrem aos turistas, com esquema de visitação e prédio para degustação e vendas
de varejo. Prevista para ser inaugurada em outubro, com investimento de R$ 1 milhão, a
nova atração entrará para a agenda de promoção turística da Empresa de Turismo da
Bahia (Bahiatursa). No outro lado do Velho Chico, o governo pernambucano começou a
promover o enoturismo dentro do programa “Pernambuco Conhece Pernambuco”,
voltado para o turismo regional.
Vinho dá requinte ao bode
Em Petrolina, o consumo de vinho aumentou 400% em dois anos. -- prova de
que, aos poucos, a bebida cria novos hábitos na terra de Lampião e seu bando de
cancageiros. Há exemplos de charme. O restaurante Maria Bonita alia a culinária
portuguesa à degustação das boas marcas regionais, sob orientação de soumelliers. Mas
o novo costume se expressa com mais força no maior e mais popular pólo gastronômico
da cidade: o “Bodódromo”. Atrativo turístico de Petrolina, o local abriga dez
restaurantes especializados no preparo de pratos à base do tradicional quadrúpede
nordestino. Mais de 6 mil animais são abatidos por mês para abastecer as cozinhas.
Podem ser cozidos junto com cabeça e miúdos no preparo da tradicional buchada. E
também podem ser assados na brasa e servidos no espeto com feijão-de- corda, farofa e
mandioca.
Com o maior fluxo de turistas exigentes, aumenta a sofisticação e a qualidade
dessa carne, mais saudável que a de gado. Os cortes se especializam. No restaurante
Bode Assado do Isaías, o cardápio inclui picanha, filé mignon e carpaccio de bode. Com
ele também se prepara kafta e pizza. Isso sem falar dos espetos especialmente montados
com os corações desse animal. De todas as novidades, a mais recente é o bode marinado
e cozido ao vinho e ervas. Para beber, ao invés de cerveja, é comum ver nas mesas
baldes com garrafas de Carbenet Sauvignon e Syrah ao gelo. De entrada, degustam-se
queijos finos de cabra, como o do tipo Bursin, temperado com alho, orégano, pimenta
calabresa ou outras especiarias.
“Tenho o melhor negócio do mundo”, afirma o dono do restaurante, Isaías
Mororó, 41 anos -- um ex-cobrador de ônibus que montou, em dez anos, um verdadeiro
império do bode. Visionário, fez cursos de empreendedorismo nesse campo e, a convite
do Sebrae, viajou para o México para trocar experiências com colegas que também
trabalham com caprinos por lá. Hoje Isaías recebe diariamente 600 pessoas no
restaurante, consumindo 400 animais mensais. É visto como o “rei do bode”, uma
celebridade. “Muitos chegam e logo pedem para me conhecer”, conta o empresário, sem
perder a simplicidade que sempre marcou a sua vida.
Ele domina como ninguém os segredos para dar um novo valor ao tradicional
ícone sertanejo como iguaria. Não á fácil lidar com a carne desse animal. Tanto assim,
que a preferência dos restaurantes é pelo uso de um primo mais macio do bode -- o
carneiro. Mas a graça para o turista é contar que comeu bode. Gherman de Araújo,
pesquisador da Embrapa, brinca: “O carneiro é que morre e o bode é que leva a fama”.
Mais que isso, significa lucros. De fato, o marketing do bode é bastante forte para o
turismo no sertão, ainda mais gora, quando ganha um toque de sofisticação com a
chegada do vinho. As possibilidades são inúmeras, a ponto de pesquisadores da

Embrapa estudarem agora o uso das sementes e casas de uva que sobram na produção
da bebida para alimentar os caprinos, tornando-os mais saudáveis e saborosos. Bode e
vinho dependem cada vez mais um do outro. É um casamento, abençoado pelo turismo,
que tem tudo para ser duradouro e feliz.

BOX-
Rio Sol investe para lucrar com turistas
Em busca de novos mercados, a portuguesa Dão Sul, dona de nove vinícolas na
Europa, chegou em 2003 ao Vale do São Francisco. Implantou um método de cultivo de
uva três vezes mais produtivo que o convencional e transformou uma antiga fábrica de
vinagre em uma moderna vinícola, onde produz o vinho da marca Rio Sol -- uma das
mais conceituadas do país. Ao ter como sócia a Expand, a maior distribuidora de vinhos
do país, a marca nordestina está presente nas vitrines dos grandes centros, retratando os
poderes da região para o desenvolvimento do setor.
“Se a famosa uva Cabernet Sauvignon enriqueceu um dos lugares mais pobres
da França, por que a Syrah não poderia fazer o mesmo por aqui”, pergunta João Santos,
diretor técnico do projeto. Desde o início, uma das preocupações foi contribuir para a
inclusão social. Percentual das vendas de algumas marcas de vinho é revertido para
apoiar o trabalho das rendeiras, incentivando jovens artesãs a preservar a tradição
passada de mãe para filha.
A vinícola produz 1,5 milhão de garrafas por ano, 40% para exportação, e agora
investe para montar uma estrutura de recepção aos turistas, prevendo atender 4 mil
turistas por mês com passeios e degustação. Depois desse primeiro passo, está nos
planos construir um hotel e uma nova adega com restaurante panorâmico à frente do rio
São Francisco. “No ano passado, trouxemos 300 soumelliers e donos de restaurante e
muitos não acreditavam no que viam”, conta Santos.

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