Return to site

Piranhas / Canindé de São Francisco - O sertão que virou mar

 

História do cangaço se une ao lazer em águas cristalinas na represa de Xingó

 

Um lago com tamanho equivalente a 1,5 milhão de piscinas olímpicas, emoldurado por paredões rochosos que formam um exuberante cânion, destaca-se em meio à paisagem árida e seca da caatinga, onde o rio São Francisco divide os estados de Alagoas e de Sergipe. A fartura chama a atenção, principalmente quando se sabe que não muito longe daquelas margens os sertanejos penam para ter água de beber e plantar. A existência deste oásis, um mosaico entrecortado por trilhas que guiaram no passado os cangaceiros de Lampião, mexe com a cabeça de quem vê o sertão como um lugar condenado à miséria e à pobreza. Não é para menos. Ao represar o Velho Chico, utilizando a força hídrica para mover as turbinas e gerar energia, a Usina Hidrelétrica de Xingó -- a terceira maior do país, responsável pelo abastecimento de 10 milhões de habitantes no Nordeste -- gerou diversos impactos ao meio ambiente e às populações ribeirinhas. Mas acabou criando uma imensidão de águas verdes, cristalinas e mornas, que agora descobre um novo destino além de produzir eletricidade: o turismo, atividade que pode ser a mola propulsora do desenvolvimento, abrindo perspectivas de dias melhores para a região.

Após trabalhar como engenheiro civil na construção da barragem da hidrelétrica, o empresário Wilson Brasil apostou no filão. E montou na beira da represa um restaurante com estrutura flutuante -- o Carrancas, onde começou a servir iguarias regionais, como o pitu, um tipo de crustáceo capturado no São Francisco, destaque do cardápio. Com esse projeto, o ex-engenheiro inaugurou a era do turismo na região. O processo começou tímido, há dez anos, depois que as obras da hidrelétrica foram concluídas e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) começou a promover alternativas para incentivar o desenvolvimento econômico e compensar os impactos causados à localidade.

A reboque de Wilson, outro empresário, Antônio Manuel de Carvalho Neto, mais conhecido na região como Mané Foguete, comprou um catamarã para fazer passeios com turistas no lago de Xingó. A viagem parte do píer ao lado do restaurante com destino à Gruta do Talhado, onde os visitantes podem mergulhar e nadar. Neste local existe a opção de se tomar um barco menor para chegar perto dos paredões que formam o cânion. Em pouco tempo, o empreendedor, dono da operadora Mtur, especializada em turismo náutico, ocupou mais espaços e assumiu o monopólio do turismo na represa. O principal passo foi adquirir uma escuna -- a Maria Bonita, capaz de levar 130 pessoas. O sucesso foi estrondoso. Em dezembro de 2005, depois que região foi “descoberta” pelo turismo de maior escala, a Mtur começou a operar um novo catamarã de grande porte, o Delmiro Gouveia, que transporta 190 passgeiros.

“Começamos há dez anos levando 60 passageiros. No verão de 2008, quando teremos uma quarta embarcação, atingiremos a capacidade total de 380”, informa Genílson Aragão, gerente da Mtur, otimista com o futuro do turismo na região. Uma nova e maior estrutura flutuante começará a ser instalada próximo aos cânions, em dezembro de 2006, para servir como nova base ao mergulho. Neste local, atrativos adicionais como tirolesa e tobo-água dobrarão o tempo de parada para banho, que hoje é de uma hora. O projeto é aproveitar ao máximo o que o lugar pode oferecer, seguindo critérios de segurança e de proteção ambiental. Até 2008, o investimento total será de R$ 1,5 milhão.

Motivo de otimismo

“Nos últimos três anos, o crescimento do fluxo turístico em Xingó foi de quase 300%, passando de 20 mil para 50 mil visitantes ao ano”, revela Aragão. Os bons números, na sua opinião, se devem em grande parte à maior divulgação do destino pelo governo de Sergipe, o que atraiu as atenções de grandes operadoras. Novos negócios deverão chegar em breve à beira da represa depois que a Chesf concretizar o plano de repassar ao governo estadual uma área de cerca de 400 hectares para a construção de um terminal turístico.

“Estamos otimistas porque o potencial de crescimento da região é maior se comparado a outros destinos”, observa Virgílio Carvalho, da CVC. Hoje a operadora inclui Xingó como opção nos roteiros de seis ou sete dias para Aracaju. “É preciso criar novos atrativos para aumentar o fluxo e a permanência do turista”, sugere Carvalho. Entre 2005 e 2006, a quantidade de passageiros levados à região pela operadora cresceu quase 9%. E deverá aumentar ainda mais, tendo em vista que a CVC entrou com peso neste processo, investindo R$ 80 milhões na construção de um eco-resort na capital sergipana. A primeira fase das obras está prevista para ser inaugurada em 2008.

Em Aracaju, uma capital de vida pacata, as atrações incluem a exótica degustação de caranguejos e amendoins cozidos nos bares da orla marítima bem urbanizada, além do artesanato típico. De lá, são 190 quilômetros de estrada mal conservada até Canindé do São Francisco, principal porta de entrada para Usina Hidrelétrica de Xingó. O percurso reserva surpresas, como o Parque dos Falcões -- um sítio localizado ao pé da Serra de Itabaiana (SE), onde o proprietário reproduz e cria aves de rapina. São falcões, gaviões, corujas, socós, carcarás e siriemas, no total de 300 aves, protagonistas de um programa especial: shows de acrobacias e vôos adestrados que encantam os turistas. A performance, autorizada pelos órgãos ambientais e realizada mediante visitas guiadas, foi idealizada pelo proprietário do sítio, José Percílio, 30 anos. Ele utiliza a renda do turismo para manter a estrutura necessária à reprodução das espécies e recuperação das aves apreendidas pelas operações de combate ao tráfico de animais silvestres. “Estamos agora ampliando a área e melhorando a estrutura para receber mais visitantes”, informa Ricardo Alexandre da Silva, sócio de Percílio no projeto.

Nas trilhas de Lampião

Após atravessar a aridez do sertão na continuação da viagem até Canindé do São Francisco, o turista enfim avista água -- muita água, um convite para um programa mais relaxante. Além do balneário, Xingó guarda heranças de capítulos pouco conhecidos da História do Brasil, como o movimento do cangaço. O lugar, antigo reduto do bando de Lampião, oferece roteiros que refazem os caminhos dos cangaceiros. O principal deles parte da cidade histórica de Piranhas, situada ali ao lado, na margem alagoana do São Francisco. A localidade, berço do poderio econômico do sertão durante o Império, ponto de parada para os vapores que circulavam com mercadorias pelo rio, preserva igrejas e casarios neoclássicos. Na antiga estação ferroviária da cidade, tombada pelo Patrimônio Histórico, funciona o Museu do Sertão, que guarda fotos e peças dos tempos do cangaço. De lá são poucos minutos de barco até chegar à outra margem do rio, ponto de partida de uma trilha de 680 metros que leva à Grota do Angico, no município de Poço Redondo (SE), local exato onde Lampião e vários cangaceiros foram executados numa emboscada das forças policiais em 1938.

Ao longo do caminho na mata, o visitante é brindado com histórias de bravura e heroísmo que não se lê nos livros escolares. “Maria Bonita foi degolada viva”, conta a guia Maria das Graças Bezerra Nunes, 21 anos, sobrinha de Pedro de Cândido -- o dono das terras onde Lampião foi morto. O fazendeiro protegeu o líder cangaceiro durante oito anos em troca de dinheiro, uma saga que envolve dramas amorosos e desavenças, contada em riqueza de detalhes por Maria das Graças, ou simplesmente Graça, como é mais conhecida. A guia trabalha para a Angicotur, operadora montada pelo herdeiro da Grota do Angico, Pedro Rodrigues Rosa, para explorar a visitação turística. “Em sete anos, recebemos mais de 17 mil visitantes”, afirma Graça, que chega a ganhar R$ 700 mensais na alta estação e utiliza o dinheiro para pagar o curso de Pedagogia na faculdade.

A preocupação pelo estudo faz sentido. “O turismo pedagógico é hoje um dos nichos mais férteis para a região”, destaca Washington Rodrigues Correa, dono da operadora Canistur. Grupos de escolas, universitários e pesquisadores passaram a freqüentar em maior número a região, depois que a Chesf implantou um amplo programa de ações para compensar dados ambientais e sociais causados pela hidrelétrica. Em convênio com universidades, a empresa promoveu uma série de atividades, como reflorestamento e inventário de espécies da fauna e da flora, projetos de energia alternativa, oficinas de capacitação profissional e incentivo a novas atividades econômicas para aumentar a renda da população. Após a construção da barragem, uma das preocupações foi dar vida nova à vila operária construída para alojar os funcionários da obra. Ao receber cientistas, técnicos e estudantes, a idéia foi evitar que o local se transformasse numa cidade fantasma.

Com as perspectivas do turismo, duas casas da antiga vila operária viraram pousadas. Mas ainda há muito o que fazer. “É preciso maior estrutura de hospedagem, capacitação para receber turistas e criação de novos roteiros”, afirma Correa. Um dos potenciais que começam a ser explorados na região é o da Arqueologia -- setor que despontou a partir dos trabalhos do Museu Arqueológico de Xingó, instalado ao lado da hidrelétrica. Perto dali, as margens do São Francisco abrigam alguns dos maiores e mais completos cemitérios arqueológicos do país, encontrados pelos pesquisadores antes do enchimento da represa. Ao todo, foram coletadas nesses sítios cerca de 55 mil peças, entre as quais 193 esqueletos humanos -- acervo hoje aberto à visitação no museu.

Integrar os municípios

De olho neste potencial, o fazendeiro José Augusto de Andrade Lima começou a montar em suas terras um parque temático sobre a caatinga. Neste local, os visitantes conhecem a fauna e a flora típicas da região e observam painéis de pinturas rupestres, impressas pelos homens primitivos nas rochas que beiram o rio. Cinco trilhas foram abertas pelo proprietário para organizar visitação. Uma delas leva ao Refúgio do Lampião, onde se localiza a Pia da Beleza -- uma depressão sobre a rocha, na qual, segundo contam os guias, Maria Bonita se banhava.

A iniciativa de José Augusto, um autodidata que conhece a caatinga como ninguém, teve apoio técnico do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), instituição que há quatro anos trabalha para estruturar atrativos e integrar os 10 municípios da região na rota Aracaju-Xingó. “Esbarramos na visão imediatista e na falta de compreensão dos prefeitos para a importância dessa integração em torno de projetos conjuntos”, lamenta Adriana Menezes, do Sebrae em Aracaju. Uma das estratégias mais importantes é incentivar a criação de um roteiro que some os atrativos de Xingó aos do município baiano de Paulo Afonso, distantes 80 quilômetros um do outro, estimulando a maior permanência do turista na região. A cidade, onde se localiza outro complexo hidrelétrico da Chesf no rio São Francisco, tem aeroporto com vôos regulares e grande potencial para o turismo de aventura. O lugar chegou a ser chamado de “Nova Zelândia brasileira”, mas a prática de esportes radicais, como rapel nas pontes e paredões próximos à usina hidrelétrica, foi suspensa pela prefeitura por motivo de segurança. Uma empresa de consultoria foi contratada para avaliar o potencial e propor atividades melhor organizadas e integradas ao turismo local.

Atualmente, a maioria dos turistas chega a Paulo Afonso para visitar as instalações da hidrelétrica e um parque de 2.560 hectares de caatinga, localizado no seu entorno. Como alternativa de maior aventura, há caminhadas em trilhas na Serra do Umbuzeiro, onde fica a casa na qual viveu Maria Bonita, hoje restaurada. Para as pessoas de maior fôlego que não têm medo do sol, uma opção é visitar o Raso da Catarina -- uma região árida de pura caatinga, entrecortada por cânions secos de 12 quilômetros de extensão e habitada até hoje pelos índios pankararés. No entanto, a principal novidade que promete mexer com o turismo local é a reinauguração da Usina de Angiquinhos, a primeira usina hidrelétrica do país, erguida em pleno sertão alagoano pelo empresário Delmiro Gouveia, em 1913. Homem visionário e empreendedor, dono de um império econômico que incluía a famosa marca de linhas Corrente, Delmiro Gouveia foi perseguido por trustes ingleses. Diante das ameaças que sofria, as condições de sua morte até hoje não foram totalmente esclarecidas.

A antiga usina hidrelétrica, maior legado do empresário ao país, deverá ser tombada pelo patrimônio histórico-cultural de Alagoas até o fim de 2006. Como parte do processo de tombamento, a Fundação Delmiro Gouveia, responsável pelo projeto, começou a reflorestar o entorno da usina com cedro, recompondo a paisagem original, e realizou obras emergenciais para reformar a estrutura do prédio antes de reabrir as portas à visitação. O lugar, também antiga rota do cangaço, será transformado em espaço de cultura e pesquisas, passando integrar os roteiros turísticos no baixo São Francisco. E assim os brasileiros podem conhecer o real valor do sertão.

 

Publicado originalmente na revista Host

Um lago com tamanho equivalente a 1,5 milhão de piscinas olímpicas, emoldurado por paredões rochosos que formam um exuberante cânion, destaca-se em meio à paisagem árida e seca da caatinga, onde o rio São Francisco divide os estados de Alagoas e de Sergipe. A fartura chama a atenção, principalmente quando se sabe que não muito longe daquelas margens os sertanejos penam para ter água de beber e plantar. A existência deste oásis, um mosaico entrecortado por trilhas que guiaram no passado os cangaceiros de Lampião, mexe com a cabeça de quem vê o sertão como um lugar condenado à miséria e à pobreza. Não é para menos. Ao represar o Velho Chico, utilizando a força hídrica para mover as turbinas e gerar energia, a Usina Hidrelétrica de Xingó -- a terceira maior do país, responsável pelo abastecimento de 10 milhões de habitantes no Nordeste -- gerou diversos impactos ao meio ambiente e às populações ribeirinhas. Mas acabou criando uma imensidão de águas verdes, cristalinas e mornas, que agora descobre um novo destino além de produzir eletricidade: o turismo, atividade que pode ser a mola propulsora do desenvolvimento, abrindo perspectivas de dias melhores para a região.

Após trabalhar como engenheiro civil na construção da barragem da hidrelétrica, o empresário Wilson Brasil apostou no filão. E montou na beira da represa um restaurante com estrutura flutuante -- o Carrancas, onde começou a servir iguarias regionais, como o pitu, um tipo de crustáceo capturado no São Francisco, destaque do cardápio. Com esse projeto, o ex-engenheiro inaugurou a era do turismo na região. O processo começou tímido, há dez anos, depois que as obras da hidrelétrica foram concluídas e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) começou a promover alternativas para incentivar o desenvolvimento econômico e compensar os impactos causados à localidade.

A reboque de Wilson, outro empresário, Antônio Manuel de Carvalho Neto, mais conhecido na região como Mané Foguete, comprou um catamarã para fazer passeios com turistas no lago de Xingó. A viagem parte do píer ao lado do restaurante com destino à Gruta do Talhado, onde os visitantes podem mergulhar e nadar. Neste local existe a opção de se tomar um barco menor para chegar perto dos paredões que formam o cânion. Em pouco tempo, o empreendedor, dono da operadora Mtur, especializada em turismo náutico, ocupou mais espaços e assumiu o monopólio do turismo na represa. O principal passo foi adquirir uma escuna -- a Maria Bonita, capaz de levar 130 pessoas. O sucesso foi estrondoso. Em dezembro de 2005, depois que região foi “descoberta” pelo turismo de maior escala, a Mtur começou a operar um novo catamarã de grande porte, o Delmiro Gouveia, que transporta 190 passgeiros.

“Começamos há dez anos levando 60 passageiros. No verão de 2008, quando teremos uma quarta embarcação, atingiremos a capacidade total de 380”, informa Genílson Aragão, gerente da Mtur, otimista com o futuro do turismo na região. Uma nova e maior estrutura flutuante começará a ser instalada próximo aos cânions, em dezembro de 2006, para servir como nova base ao mergulho. Neste local, atrativos adicionais como tirolesa e tobo-água dobrarão o tempo de parada para banho, que hoje é de uma hora. O projeto é aproveitar ao máximo o que o lugar pode oferecer, seguindo critérios de segurança e de proteção ambiental. Até 2008, o investimento total será de R$ 1,5 milhão.

Motivo de otimismo

“Nos últimos três anos, o crescimento do fluxo turístico em Xingó foi de quase 300%, passando de 20 mil para 50 mil visitantes ao ano”, revela Aragão. Os bons números, na sua opinião, se devem em grande parte à maior divulgação do destino pelo governo de Sergipe, o que atraiu as atenções de grandes operadoras. Novos negócios deverão chegar em breve à beira da represa depois que a Chesf concretizar o plano de repassar ao governo estadual uma área de cerca de 400 hectares para a construção de um terminal turístico.

“Estamos otimistas porque o potencial de crescimento da região é maior se comparado a outros destinos”, observa Virgílio Carvalho, da CVC. Hoje a operadora inclui Xingó como opção nos roteiros de seis ou sete dias para Aracaju. “É preciso criar novos atrativos para aumentar o fluxo e a permanência do turista”, sugere Carvalho. Entre 2005 e 2006, a quantidade de passageiros levados à região pela operadora cresceu quase 9%. E deverá aumentar ainda mais, tendo em vista que a CVC entrou com peso neste processo, investindo R$ 80 milhões na construção de um eco-resort na capital sergipana. A primeira fase das obras está prevista para ser inaugurada em 2008.

Em Aracaju, uma capital de vida pacata, as atrações incluem a exótica degustação de caranguejos e amendoins cozidos nos bares da orla marítima bem urbanizada, além do artesanato típico. De lá, são 190 quilômetros de estrada mal conservada até Canindé do São Francisco, principal porta de entrada para Usina Hidrelétrica de Xingó. O percurso reserva surpresas, como o Parque dos Falcões -- um sítio localizado ao pé da Serra de Itabaiana (SE), onde o proprietário reproduz e cria aves de rapina. São falcões, gaviões, corujas, socós, carcarás e siriemas, no total de 300 aves, protagonistas de um programa especial: shows de acrobacias e vôos adestrados que encantam os turistas. A performance, autorizada pelos órgãos ambientais e realizada mediante visitas guiadas, foi idealizada pelo proprietário do sítio, José Percílio, 30 anos. Ele utiliza a renda do turismo para manter a estrutura necessária à reprodução das espécies e recuperação das aves apreendidas pelas operações de combate ao tráfico de animais silvestres. “Estamos agora ampliando a área e melhorando a estrutura para receber mais visitantes”, informa Ricardo Alexandre da Silva, sócio de Percílio no projeto.

Nas trilhas de Lampião

Após atravessar a aridez do sertão na continuação da viagem até Canindé do São Francisco, o turista enfim avista água -- muita água, um convite para um programa mais relaxante. Além do balneário, Xingó guarda heranças de capítulos pouco conhecidos da História do Brasil, como o movimento do cangaço. O lugar, antigo reduto do bando de Lampião, oferece roteiros que refazem os caminhos dos cangaceiros. O principal deles parte da cidade histórica de Piranhas, situada ali ao lado, na margem alagoana do São Francisco. A localidade, berço do poderio econômico do sertão durante o Império, ponto de parada para os vapores que circulavam com mercadorias pelo rio, preserva igrejas e casarios neoclássicos. Na antiga estação ferroviária da cidade, tombada pelo Patrimônio Histórico, funciona o Museu do Sertão, que guarda fotos e peças dos tempos do cangaço. De lá são poucos minutos de barco até chegar à outra margem do rio, ponto de partida de uma trilha de 680 metros que leva à Grota do Angico, no município de Poço Redondo (SE), local exato onde Lampião e vários cangaceiros foram executados numa emboscada das forças policiais em 1938.

Ao longo do caminho na mata, o visitante é brindado com histórias de bravura e heroísmo que não se lê nos livros escolares. “Maria Bonita foi degolada viva”, conta a guia Maria das Graças Bezerra Nunes, 21 anos, sobrinha de Pedro de Cândido -- o dono das terras onde Lampião foi morto. O fazendeiro protegeu o líder cangaceiro durante oito anos em troca de dinheiro, uma saga que envolve dramas amorosos e desavenças, contada em riqueza de detalhes por Maria das Graças, ou simplesmente Graça, como é mais conhecida. A guia trabalha para a Angicotur, operadora montada pelo herdeiro da Grota do Angico, Pedro Rodrigues Rosa, para explorar a visitação turística. “Em sete anos, recebemos mais de 17 mil visitantes”, afirma Graça, que chega a ganhar R$ 700 mensais na alta estação e utiliza o dinheiro para pagar o curso de Pedagogia na faculdade.

A preocupação pelo estudo faz sentido. “O turismo pedagógico é hoje um dos nichos mais férteis para a região”, destaca Washington Rodrigues Correa, dono da operadora Canistur. Grupos de escolas, universitários e pesquisadores passaram a freqüentar em maior número a região, depois que a Chesf implantou um amplo programa de ações para compensar dados ambientais e sociais causados pela hidrelétrica. Em convênio com universidades, a empresa promoveu uma série de atividades, como reflorestamento e inventário de espécies da fauna e da flora, projetos de energia alternativa, oficinas de capacitação profissional e incentivo a novas atividades econômicas para aumentar a renda da população. Após a construção da barragem, uma das preocupações foi dar vida nova à vila operária construída para alojar os funcionários da obra. Ao receber cientistas, técnicos e estudantes, a idéia foi evitar que o local se transformasse numa cidade fantasma.

Com as perspectivas do turismo, duas casas da antiga vila operária viraram pousadas. Mas ainda há muito o que fazer. “É preciso maior estrutura de hospedagem, capacitação para receber turistas e criação de novos roteiros”, afirma Correa. Um dos potenciais que começam a ser explorados na região é o da Arqueologia -- setor que despontou a partir dos trabalhos do Museu Arqueológico de Xingó, instalado ao lado da hidrelétrica. Perto dali, as margens do São Francisco abrigam alguns dos maiores e mais completos cemitérios arqueológicos do país, encontrados pelos pesquisadores antes do enchimento da represa. Ao todo, foram coletadas nesses sítios cerca de 55 mil peças, entre as quais 193 esqueletos humanos -- acervo hoje aberto à visitação no museu.

Integrar os municípios

De olho neste potencial, o fazendeiro José Augusto de Andrade Lima começou a montar em suas terras um parque temático sobre a caatinga. Neste local, os visitantes conhecem a fauna e a flora típicas da região e observam painéis de pinturas rupestres, impressas pelos homens primitivos nas rochas que beiram o rio. Cinco trilhas foram abertas pelo proprietário para organizar visitação. Uma delas leva ao Refúgio do Lampião, onde se localiza a Pia da Beleza -- uma depressão sobre a rocha, na qual, segundo contam os guias, Maria Bonita se banhava.

A iniciativa de José Augusto, um autodidata que conhece a caatinga como ninguém, teve apoio técnico do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), instituição que há quatro anos trabalha para estruturar atrativos e integrar os 10 municípios da região na rota Aracaju-Xingó. “Esbarramos na visão imediatista e na falta de compreensão dos prefeitos para a importância dessa integração em torno de projetos conjuntos”, lamenta Adriana Menezes, do Sebrae em Aracaju. Uma das estratégias mais importantes é incentivar a criação de um roteiro que some os atrativos de Xingó aos do município baiano de Paulo Afonso, distantes 80 quilômetros um do outro, estimulando a maior permanência do turista na região. A cidade, onde se localiza outro complexo hidrelétrico da Chesf no rio São Francisco, tem aeroporto com vôos regulares e grande potencial para o turismo de aventura. O lugar chegou a ser chamado de “Nova Zelândia brasileira”, mas a prática de esportes radicais, como rapel nas pontes e paredões próximos à usina hidrelétrica, foi suspensa pela prefeitura por motivo de segurança. Uma empresa de consultoria foi contratada para avaliar o potencial e propor atividades melhor organizadas e integradas ao turismo local.

Atualmente, a maioria dos turistas chega a Paulo Afonso para visitar as instalações da hidrelétrica e um parque de 2.560 hectares de caatinga, localizado no seu entorno. Como alternativa de maior aventura, há caminhadas em trilhas na Serra do Umbuzeiro, onde fica a casa na qual viveu Maria Bonita, hoje restaurada. Para as pessoas de maior fôlego que não têm medo do sol, uma opção é visitar o Raso da Catarina -- uma região árida de pura caatinga, entrecortada por cânions secos de 12 quilômetros de extensão e habitada até hoje pelos índios pankararés. No entanto, a principal novidade que promete mexer com o turismo local é a reinauguração da Usina de Angiquinhos, a primeira usina hidrelétrica do país, erguida em pleno sertão alagoano pelo empresário Delmiro Gouveia, em 1913. Homem visionário e empreendedor, dono de um império econômico que incluía a famosa marca de linhas Corrente, Delmiro Gouveia foi perseguido por trustes ingleses. Diante das ameaças que sofria, as condições de sua morte até hoje não foram totalmente esclarecidas.

A antiga usina hidrelétrica, maior legado do empresário ao país, deverá ser tombada pelo patrimônio histórico-cultural de Alagoas até o fim de 2006. Como parte do processo de tombamento, a Fundação Delmiro Gouveia, responsável pelo projeto, começou a reflorestar o entorno da usina com cedro, recompondo a paisagem original, e realizou obras emergenciais para reformar a estrutura do prédio antes de reabrir as portas à visitação. O lugar, também antiga rota do cangaço, será transformado em espaço de cultura e pesquisas, passando integrar os roteiros turísticos no baixo São Francisco. E assim os brasileiros podem conhecer o real valor do sertão.

Publicado originalmente na revista Host

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly