Return to site

Porto de Pedras (AL) - Como uma onda no mar

Fauna marinha preservada impulsiona o turismo e gera renda em vários pontos do litoral neste verão

 

· Alagoas

 

Cadê o Tafarel? E o Scooby Doo, o mais velho? Latinha, Princesinha, Cabide, Galha Torta ... Quem será que vai chegar? Uma barbatana apruma-se na água. Lá vem o Figueiredo, sorrateiramente, em nado calculado e sincronizado, abaixando e levantando a cabeça da água. A coreografia é um aviso de que algo está prestes a acontecer. De fato, está. Nas margens do canal que liga a lagoa de Santo Antônio ao mar, em Laguna (SC), o operário aposentado Leonardo Machado, 69 anos, e mais uma penca de pescadores, perfilam-se com redes em punho, na expectativa de uma pesca farta. Batem com a tarrafa nas pedras, indicando que estão preparados. E aguardam em silêncio absoluto e reverente um sinal definitivo do golfinho -- um pulo maior e mais travesso bem perto deles, a uns cinco metros da margem. Ë a senha para jogar as redes, que emergem cheias de tainhas. A estratégica de encurralar os cardumes funciona como uma sutil troca de favores: os peixes que escapam das malhas são abocanhados mais facilmente pelos botos. “Só pescamos com a ajuda deles”, destaca Leonardo.

Se para os pescadores da lagoa de Santo Antônio esses mamíferos aquáticos dóceis e simpáticos significam fartura de peixe, para o trade turístico representam perspectiva de bons negócios. Com o advento do ecoturismo, viagens para observar golfinhos, baleias, tartarugas, peixes-boi e outros seres marinhos são pontos altos dos roteiros ao longo da costa brasileira neste verão. “Ecoturistas antes voltados para os atrativos da natureza no continente agora procuram o oceano”, enfatiza Carlos Trujilli, responsável pelos programas de mergulho da Ambiental Expedições.

Na costa de Florianópolis (SC), 220 mil visitantes são atraídos todos os anos pelo fascínio dos golfinhos que vivem na Área de Proteção Ambiental de Anhatomirim – uma baía de praias emolduradas por mata atlântica. É muito fácil avistar os animais durante os passeios em escunas até a Fortaleza de Santa Cruz, a maior e mais bem conservada da região Sul, construída em 1739. “Neste local, a cada três minutos os golfinhos têm um barco passando bem ao lado”, preocupa-se o biólogo Paulo Flores, que mapeou as áreas preferidas pelas duas espécies mais comuns na região – os botos nariz-de-garrafa e o sotália – e pesquisa a melhor maneira de preservá-las.

As informações são essenciais para o planejamento do turismo a partir de critérios responsáveis. “A exploração irracional pode afastar os golfinhos e inviabilizar essas atividades”, afirma a bióloga Gislaine Filla, dedicada à formação de monitores ambientais em Cananéia, litoral-sul de São Paulo. “A expansão do turismo de observação de animais marinhos tem sido muito rápida em todo o mundo”, ressalta Gislaine. Os visitantes já não se interessam tanto em ver bichos em aquários, mas sim na natureza, como ocorre na Ilha do Cardoso, no litoral de Cananéia. O lugar, um paraíso de ilhas, lagoas, manguezais e estuários, é um dos refúgios preferidos pelos golfinhos. Na praia do Pereirinha, chegam a ficar parados no raso, aguardando a passagem de cardumes para se alimentar, bem perto dos banhistas. E muitos não resistem à tentação de tentar abraçá-los no mar.

“Ao longo do tempo, isso pode espantá-los para sempre”, adverte o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, da Universidade de São Paulo. Quando bem planejado, o turismo evita problemas como o ocorrido na Baía de Guaratuba, Sul do Paraná, onde a população triplica no verão, e o barulho dos 1.200 barcos que zarpam diariamente das 15 marinas locais na alta temporada fez os botos – antes encontrados em grande número – praticamente desaparecer. Se tudo der certo, a situação não se repetirá no Brasil, onde novas normas estão sendo estudadas para garantir a convivência harmônica entre turismo e espécies marinhas.

São cuidados como os praticados em Fernando de Noronha (PE), onde a Baía dos Golfinhos é de uso exclusivo desses mamíferos aquáticos – o que não impede o aproveitamento turístico. E que aproveitamento! O passeio é deslumbrante: ao amanhecer, guias treinados acompanham os visitantes numa caminhada de 20 a 30 minutos até um mirante de onde avista-se os golfinhos rotadores entrando na baía para descansar e alimentar os filhotes. Observar a vida marinha em lugar tão bem preservado é, aliás, o grande apelo deste destino turístico, procurado em 2004 por 60 mil visitantes, número que triplicou nos últimos 10 anos. Tudo é feito a partir de orientações e regras para evitar danos ao meio ambiente – o melhor: elas costumam ser cumpridas.

Arraias, polvos, peixes e vários outros seres marinhos empolgam quem pratica mergulho livre, atividade escolhida por 80% dos visitantes em Fernando de Noronha. Mas são as tartarugas as maiores estrelas, especialmente para aqueles que querem fugir das baladas noturnas. Entre dezembro e abril, o programa Turtle by Night leva grupos de até quatro pessoas para assistir à desova das tartarugas na Praia do Leão, das 20h às 6h do dia seguinte.

O “show” é proporcionado pelo trabalho dos técnicos do Projeto Tamar, mantido pelo Ibama. Tudo começou em 1982, quando o casal de biólogos Gui Marcovaldi e Maria Ângela, a Neca, se instalou numa modesta pensão na Praia do Forte, litoral-norte da Bahia. Na época não havia estradas ou energia elétrica. A missão era interromper o processo de extinção das tartarugas marinhas, transformando as praias em locais seguros para a desova e eclosão dos filhotes. Mas o dinheiro era escasso. “Vendemos as nossas camisetas do uniforme do projeto e descobrimos que souveniers poderiam ser um bom negócio”, conta Gui. O Tamar virou uma grife e hoje, na praia do Forte, comercializa 500 produtos. A base emprega 160 funcionários. Mais de 200 jovens baianos foram treinados como guias. Restaurantes charmosos, pousadas e atelliers se instalaram na vila da Praia do Forte para atender ao fluxo crescente do turismo. “Atualmente, em número de visitantes, concorremos com o Pelourinho, o Mercado Modelo e a Igreja do Bonfim”, comemora Gui.

Motivos para festa não faltam. Entre janeiro e março de 2005, quando o projeto completa 25 anos, os técnicos soltarão na praia o filhote de número 7 milhões. O marco será comemorado com uma festança nas atuais 20 bases do Tamar em toda a costa brasileira, visitadas por 1,5 milhão de pessoas por ano. O turismo já corresponde a um terço dos R$ 6 milhões anuais que mantêm o projeto.

O plano é continuar expandindo. Um novo centro de visitantes está sendo instalado nos arredores de Florianópolis (SC). Em Ipojuca (PE), onde fica o concorrido balneário de Porto de Galinhas, a prefeitura conseguiu o auxílio dos técnicos para proteger a desova de tartarugas. A visitação será organizada. Lúcio Santos, secretário de Turismo local, tem um plano: “transformar isso em novo atrativo”. E não é o único. No Pontal de Maracaípe, um dos recantos mais belos das praias de Ipojuca, os passeios nos manguezais têm um detalhe que faz toda a diferença: a oportunidade de observar na natureza animais que normalmente só são vistos em aquários: os cavalos-marinhos. “Eles medem 18 cm e encantam os turistas”, destaca a bióloga Rosana Silveira, responsável pelo trabalho que pretende repovoar a região com esses exóticos animais.

Os novos projetos ajudam Porto de Galinhas a dar uma virada, recuperando a vida subaquática, após décadas de exploração sem controle. Somente no feriado de 12 de outubro, 1.700 visitantes, levados pelos 90 jangadeiros, pisotearam os bancos de corais que formam deliciosas piscinas naturais, cartão-postal do lugar. Isso pode ser desastroso. Os ambientes de corais, ricos em nutrientes, são refúgios para a reprodução de 25% de toda a vida marinha do planeta. E, devido a isso, são responsáveis por atividades econômicas, incluindo o turismo, que movimentam US$ 375 bilhões no mundo. A destruição de apenas um quilômetro desses bancos pode causar um prejuízo de até US$ 1,2 milhão.

A boa notícia vem de Tamandaré (PE), onde o Ibama interditou para a pesca e qualquer atividade náutica um trecho da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. O objetivo da proibição foi realizar estudos para saber como os corais podem se regenerar e voltar a atrair a vida marinha. Após seis anos, os pesquisadores verificaram que o número de peixes aumentou 13 vezes. Campanhas de educação ambiental mobilizaram escolas, empreendedores e poder público para garantir um novo destino ao lugar. Como resultado, a prefeitura de Tamandaré criou um parque ecológico municipal, onde o turismo começa a ser ordenado. O ambiente submarino, agora recuperado, promoverá o desenvolvimento e a geração de renda de maneira sustentável e duradoura.

Além de dividendos econômicos, o turismo desencadeado pela preservação das espécies marinhas traz ganhos sociais. No povoado da Barra de Mamanguape (PB), ornado por um estuário de belos manguezais, um grupo de seis bonequeiras confeccionam peixes-bois de pelúcia – isso mesmo, os enormes e bonachões seres que habitam aquela região e são protegidos em seis pontos do litoral nordestino pela Fundação Mamíferos Marinhos, sediada em Pernambuco. O grupo foi treinado para aperfeiçoar a técnica e os bonecos são hoje vendidos em hotéis e redes de lojas, como a Tok Stok. Parte do lucro é investida no Eco-Parque Peixe Boi e Cia, em Itamaracá (PE), onde funciona um centro de reabilitação de filhotes que encalham nas praias nordestinas. Dos 22 animais atualmente em recuperação para depois voltar à natureza, nove vivem em enormes piscinas panorâmicas, visitadas por 70 mil turistas ao ano. Com os visitantes, arrecadam-se R$ 300 mil anuais, aplicados na construção de novas atrações, como um inusitado cinema em formato de peixe-boi. O esforço é para evitar a extinção da espécie.

Em novembro, três peixes-boi -- o Assú e os órgãos Tico e Tuca – retornaram à natureza. Na praia de Porto de Pedras (AL), onde os bichos foram liberados, a comunidade cantou, dançou e degustou comida farta por dois dias. Participaram de shows musicais, oficinas de arte, torneios de futebol e – o ponto alto – uma monumental sessão de cinema nacional, tendo como tela uma vela de canoa. E assim ribeirinhos que nunca foram ao cinema – peixes-bois sejam louvados! – experimentaram pela primeira vez a magia da Sétima Arte. O motivo para tanta festa: o aniversário dos 10 anos da reintrodução dos primeiros animais à vida silvestre. Até hoje 14 deles foram levados de volta para o oceano. O Astro e a Lua, os pioneiros, estão lá, saudáveis, um nos mares de Sergipe, o outro em Alagoas. Cadê o Araketo? E o Boi-Voador, o Xuxu, o Aldo, a Nina ... Onde quer que estejam, parabéns!

 

 

 

Baleia à vista

 

 

“As viagens duravam um dia inteiro e eram perigosas. Saíamos em quatro canoas, seis homens em cada. O segredo era acertar a nuca da baleia, perto dos olhos. Usávamos um arpão com cartucho de diamante na ponta, lançado por uma bomba. Era um trabalho de alto risco, que podia causar queimaduras graves. E o animal agonizante não raro virava o barco. Depois que morria, exalava um cheiro terrível, mas era preciso suportar. Era duro transportar aqueles monstros de 80 toneladas à remo. Mas a tarefa rendia um bom dinheiro. Jamais imaginava que um dia esse animal pudesse desaparecer. Era uma verdadeira barbaridade ...”

 

Mãos calejadas pelo duro ofício do passado, José Nemésio dos Santos, 79 anos, conta com orgulho de herói as façanhas da caça à baleia-franca, da qual participou durante três décadas como remador dos barcos que zarpavam de Imbituba (SC). Matar o mamífero para extrair óleo era a principal atividade econômica da região, até a caça ser proibida por lei, em 1973. Vergonha do passado? Não, nada disso. De cabeça erguida, o ex-caçador é hoje um ícone na cidade por defender as baleias, agora valorizadas como relíquias de uma atividade bem diferente: o turismo.

“Elas são artistas que não cobram cachê”, destaca Evaldo Santos, proprietário da New Millenium, empresa de eventos que todos os anos organiza a Semana da Baleia, um festival com atividades culturais, esportivas e artísticas. O potencial é enorme. No mundo, o whale watching envolve 8 milhões de pessoas por ano, em 87 países, movimentando U$ 1 bilhão, sendo uma das facetas do ecoturismo que mais cresce no mercado internacional. “As baleias valem muito mais vivas do que mortas”, afirma Sônia Werblowsky, diretora da Freeway Turismo, que opera roteiros para observação desses animais em Santa Catarina.

Na costa catarinense, o negócio ganhou um impulso especial, devido às ações do Projeto Baleia-Franca, que monitora os animais e capacita profissionais para o whale watching, tanto em terra como em embarcações. Os pacotes turísticos tomam corpo com a expansão dessa nova atividade no Brasil, garantia da ocupação hoteleira na baixa estação, entre junho e outubro, quando as baleias vindas da Antártica procuram mares mais quentes.

No litoral da Bahia e do Espírito Santo, baleias de outra espécie, a jubarte, atraem um número cada vez maior de turistas. A observação delas, no passado restrita aos dispendiosos cruzeiros ao arquipélago de Abrolhos, hoje já é opção em vários pontos do litoral baiano e capixaba. Na Praia do Forte, litoral-norte da Bahia, a atividade começou em 2001, quando sete embarcações, levando ao todo 70 turistas, proporcionaram a avistagem de 30 baleias. Era só o começo. Em 2004, foram organizados 43 cruzeiros com 1.150 visitantes, que tiveram o privilégio de observar nada menos que 227 animais. Depois a visitação chegou a outras praias, como a badalada Itacaré. Em 2005, novos cruzeiros estão planejados para sair de Salvador.

 

Publicada originariamente na revista Host

Cadê o Tafarel? E o Scooby Doo, o mais velho? Latinha, Princesinha, Cabide, Galha Torta ... Quem será que vai chegar? Uma barbatana apruma-se na água. Lá vem o Figueiredo, sorrateiramente, em nado calculado e sincronizado, abaixando e levantando a cabeça da água. A coreografia é um aviso de que algo está prestes a acontecer. De fato, está. Nas margens do canal que liga a lagoa de Santo Antônio ao mar, em Laguna (SC), o operário aposentado Leonardo Machado, 69 anos, e mais uma penca de pescadores, perfilam-se com redes em punho, na expectativa de uma pesca farta. Batem com a tarrafa nas pedras, indicando que estão preparados. E aguardam em silêncio absoluto e reverente um sinal definitivo do golfinho -- um pulo maior e mais travesso bem perto deles, a uns cinco metros da margem. Ë a senha para jogar as redes, que emergem cheias de tainhas. A estratégica de encurralar os cardumes funciona como uma sutil troca de favores: os peixes que escapam das malhas são abocanhados mais facilmente pelos botos. “Só pescamos com a ajuda deles”, destaca Leonardo.

Se para os pescadores da lagoa de Santo Antônio esses mamíferos aquáticos dóceis e simpáticos significam fartura de peixe, para o trade turístico representam perspectiva de bons negócios. Com o advento do ecoturismo, viagens para observar golfinhos, baleias, tartarugas, peixes-boi e outros seres marinhos são pontos altos dos roteiros ao longo da costa brasileira neste verão. “Ecoturistas antes voltados para os atrativos da natureza no continente agora procuram o oceano”, enfatiza Carlos Trujilli, responsável pelos programas de mergulho da Ambiental Expedições.

Na costa de Florianópolis (SC), 220 mil visitantes são atraídos todos os anos pelo fascínio dos golfinhos que vivem na Área de Proteção Ambiental de Anhatomirim – uma baía de praias emolduradas por mata atlântica. É muito fácil avistar os animais durante os passeios em escunas até a Fortaleza de Santa Cruz, a maior e mais bem conservada da região Sul, construída em 1739. “Neste local, a cada três minutos os golfinhos têm um barco passando bem ao lado”, preocupa-se o biólogo Paulo Flores, que mapeou as áreas preferidas pelas duas espécies mais comuns na região – os botos nariz-de-garrafa e o sotália – e pesquisa a melhor maneira de preservá-las.

As informações são essenciais para o planejamento do turismo a partir de critérios responsáveis. “A exploração irracional pode afastar os golfinhos e inviabilizar essas atividades”, afirma a bióloga Gislaine Filla, dedicada à formação de monitores ambientais em Cananéia, litoral-sul de São Paulo. “A expansão do turismo de observação de animais marinhos tem sido muito rápida em todo o mundo”, ressalta Gislaine. Os visitantes já não se interessam tanto em ver bichos em aquários, mas sim na natureza, como ocorre na Ilha do Cardoso, no litoral de Cananéia. O lugar, um paraíso de ilhas, lagoas, manguezais e estuários, é um dos refúgios preferidos pelos golfinhos. Na praia do Pereirinha, chegam a ficar parados no raso, aguardando a passagem de cardumes para se alimentar, bem perto dos banhistas. E muitos não resistem à tentação de tentar abraçá-los no mar.

“Ao longo do tempo, isso pode espantá-los para sempre”, adverte o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, da Universidade de São Paulo. Quando bem planejado, o turismo evita problemas como o ocorrido na Baía de Guaratuba, Sul do Paraná, onde a população triplica no verão, e o barulho dos 1.200 barcos que zarpam diariamente das 15 marinas locais na alta temporada fez os botos – antes encontrados em grande número – praticamente desaparecer. Se tudo der certo, a situação não se repetirá no Brasil, onde novas normas estão sendo estudadas para garantir a convivência harmônica entre turismo e espécies marinhas.

São cuidados como os praticados em Fernando de Noronha (PE), onde a Baía dos Golfinhos é de uso exclusivo desses mamíferos aquáticos – o que não impede o aproveitamento turístico. E que aproveitamento! O passeio é deslumbrante: ao amanhecer, guias treinados acompanham os visitantes numa caminhada de 20 a 30 minutos até um mirante de onde avista-se os golfinhos rotadores entrando na baía para descansar e alimentar os filhotes. Observar a vida marinha em lugar tão bem preservado é, aliás, o grande apelo deste destino turístico, procurado em 2004 por 60 mil visitantes, número que triplicou nos últimos 10 anos. Tudo é feito a partir de orientações e regras para evitar danos ao meio ambiente – o melhor: elas costumam ser cumpridas.

Arraias, polvos, peixes e vários outros seres marinhos empolgam quem pratica mergulho livre, atividade escolhida por 80% dos visitantes em Fernando de Noronha. Mas são as tartarugas as maiores estrelas, especialmente para aqueles que querem fugir das baladas noturnas. Entre dezembro e abril, o programa Turtle by Night leva grupos de até quatro pessoas para assistir à desova das tartarugas na Praia do Leão, das 20h às 6h do dia seguinte.

O “show” é proporcionado pelo trabalho dos técnicos do Projeto Tamar, mantido pelo Ibama. Tudo começou em 1982, quando o casal de biólogos Gui Marcovaldi e Maria Ângela, a Neca, se instalou numa modesta pensão na Praia do Forte, litoral-norte da Bahia. Na época não havia estradas ou energia elétrica. A missão era interromper o processo de extinção das tartarugas marinhas, transformando as praias em locais seguros para a desova e eclosão dos filhotes. Mas o dinheiro era escasso. “Vendemos as nossas camisetas do uniforme do projeto e descobrimos que souveniers poderiam ser um bom negócio”, conta Gui. O Tamar virou uma grife e hoje, na praia do Forte, comercializa 500 produtos. A base emprega 160 funcionários. Mais de 200 jovens baianos foram treinados como guias. Restaurantes charmosos, pousadas e atelliers se instalaram na vila da Praia do Forte para atender ao fluxo crescente do turismo. “Atualmente, em número de visitantes, concorremos com o Pelourinho, o Mercado Modelo e a Igreja do Bonfim”, comemora Gui.

Motivos para festa não faltam. Entre janeiro e março de 2005, quando o projeto completa 25 anos, os técnicos soltarão na praia o filhote de número 7 milhões. O marco será comemorado com uma festança nas atuais 20 bases do Tamar em toda a costa brasileira, visitadas por 1,5 milhão de pessoas por ano. O turismo já corresponde a um terço dos R$ 6 milhões anuais que mantêm o projeto.

O plano é continuar expandindo. Um novo centro de visitantes está sendo instalado nos arredores de Florianópolis (SC). Em Ipojuca (PE), onde fica o concorrido balneário de Porto de Galinhas, a prefeitura conseguiu o auxílio dos técnicos para proteger a desova de tartarugas. A visitação será organizada. Lúcio Santos, secretário de Turismo local, tem um plano: “transformar isso em novo atrativo”. E não é o único. No Pontal de Maracaípe, um dos recantos mais belos das praias de Ipojuca, os passeios nos manguezais têm um detalhe que faz toda a diferença: a oportunidade de observar na natureza animais que normalmente só são vistos em aquários: os cavalos-marinhos. “Eles medem 18 cm e encantam os turistas”, destaca a bióloga Rosana Silveira, responsável pelo trabalho que pretende repovoar a região com esses exóticos animais.

Os novos projetos ajudam Porto de Galinhas a dar uma virada, recuperando a vida subaquática, após décadas de exploração sem controle. Somente no feriado de 12 de outubro, 1.700 visitantes, levados pelos 90 jangadeiros, pisotearam os bancos de corais que formam deliciosas piscinas naturais, cartão-postal do lugar. Isso pode ser desastroso. Os ambientes de corais, ricos em nutrientes, são refúgios para a reprodução de 25% de toda a vida marinha do planeta. E, devido a isso, são responsáveis por atividades econômicas, incluindo o turismo, que movimentam US$ 375 bilhões no mundo. A destruição de apenas um quilômetro desses bancos pode causar um prejuízo de até US$ 1,2 milhão.

A boa notícia vem de Tamandaré (PE), onde o Ibama interditou para a pesca e qualquer atividade náutica um trecho da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. O objetivo da proibição foi realizar estudos para saber como os corais podem se regenerar e voltar a atrair a vida marinha. Após seis anos, os pesquisadores verificaram que o número de peixes aumentou 13 vezes. Campanhas de educação ambiental mobilizaram escolas, empreendedores e poder público para garantir um novo destino ao lugar. Como resultado, a prefeitura de Tamandaré criou um parque ecológico municipal, onde o turismo começa a ser ordenado. O ambiente submarino, agora recuperado, promoverá o desenvolvimento e a geração de renda de maneira sustentável e duradoura.

Além de dividendos econômicos, o turismo desencadeado pela preservação das espécies marinhas traz ganhos sociais. No povoado da Barra de Mamanguape (PB), ornado por um estuário de belos manguezais, um grupo de seis bonequeiras confeccionam peixes-bois de pelúcia – isso mesmo, os enormes e bonachões seres que habitam aquela região e são protegidos em seis pontos do litoral nordestino pela Fundação Mamíferos Marinhos, sediada em Pernambuco. O grupo foi treinado para aperfeiçoar a técnica e os bonecos são hoje vendidos em hotéis e redes de lojas, como a Tok Stok. Parte do lucro é investida no Eco-Parque Peixe Boi e Cia, em Itamaracá (PE), onde funciona um centro de reabilitação de filhotes que encalham nas praias nordestinas. Dos 22 animais atualmente em recuperação para depois voltar à natureza, nove vivem em enormes piscinas panorâmicas, visitadas por 70 mil turistas ao ano. Com os visitantes, arrecadam-se R$ 300 mil anuais, aplicados na construção de novas atrações, como um inusitado cinema em formato de peixe-boi. O esforço é para evitar a extinção da espécie.

Em novembro, três peixes-boi -- o Assú e os órgãos Tico e Tuca – retornaram à natureza. Na praia de Porto de Pedras (AL), onde os bichos foram liberados, a comunidade cantou, dançou e degustou comida farta por dois dias. Participaram de shows musicais, oficinas de arte, torneios de futebol e – o ponto alto – uma monumental sessão de cinema nacional, tendo como tela uma vela de canoa. E assim ribeirinhos que nunca foram ao cinema – peixes-bois sejam louvados! – experimentaram pela primeira vez a magia da Sétima Arte. O motivo para tanta festa: o aniversário dos 10 anos da reintrodução dos primeiros animais à vida silvestre. Até hoje 14 deles foram levados de volta para o oceano. O Astro e a Lua, os pioneiros, estão lá, saudáveis, um nos mares de Sergipe, o outro em Alagoas. Cadê o Araketo? E o Boi-Voador, o Xuxu, o Aldo, a Nina ... Onde quer que estejam, parabéns!

Baleia à vista

“As viagens duravam um dia inteiro e eram perigosas. Saíamos em quatro canoas, seis homens em cada. O segredo era acertar a nuca da baleia, perto dos olhos. Usávamos um arpão com cartucho de diamante na ponta, lançado por uma bomba. Era um trabalho de alto risco, que podia causar queimaduras graves. E o animal agonizante não raro virava o barco. Depois que morria, exalava um cheiro terrível, mas era preciso suportar. Era duro transportar aqueles monstros de 80 toneladas à remo. Mas a tarefa rendia um bom dinheiro. Jamais imaginava que um dia esse animal pudesse desaparecer. Era uma verdadeira barbaridade ...”

Mãos calejadas pelo duro ofício do passado, José Nemésio dos Santos, 79 anos, conta com orgulho de herói as façanhas da caça à baleia-franca, da qual participou durante três décadas como remador dos barcos que zarpavam de Imbituba (SC). Matar o mamífero para extrair óleo era a principal atividade econômica da região, até a caça ser proibida por lei, em 1973. Vergonha do passado? Não, nada disso. De cabeça erguida, o ex-caçador é hoje um ícone na cidade por defender as baleias, agora valorizadas como relíquias de uma atividade bem diferente: o turismo.

“Elas são artistas que não cobram cachê”, destaca Evaldo Santos, proprietário da New Millenium, empresa de eventos que todos os anos organiza a Semana da Baleia, um festival com atividades culturais, esportivas e artísticas. O potencial é enorme. No mundo, o whale watching envolve 8 milhões de pessoas por ano, em 87 países, movimentando U$ 1 bilhão, sendo uma das facetas do ecoturismo que mais cresce no mercado internacional. “As baleias valem muito mais vivas do que mortas”, afirma Sônia Werblowsky, diretora da Freeway Turismo, que opera roteiros para observação desses animais em Santa Catarina.

Na costa catarinense, o negócio ganhou um impulso especial, devido às ações do Projeto Baleia-Franca, que monitora os animais e capacita profissionais para o whale watching, tanto em terra como em embarcações. Os pacotes turísticos tomam corpo com a expansão dessa nova atividade no Brasil, garantia da ocupação hoteleira na baixa estação, entre junho e outubro, quando as baleias vindas da Antártica procuram mares mais quentes.

No litoral da Bahia e do Espírito Santo, baleias de outra espécie, a jubarte, atraem um número cada vez maior de turistas. A observação delas, no passado restrita aos dispendiosos cruzeiros ao arquipélago de Abrolhos, hoje já é opção em vários pontos do litoral baiano e capixaba. Na Praia do Forte, litoral-norte da Bahia, a atividade começou em 2001, quando sete embarcações, levando ao todo 70 turistas, proporcionaram a avistagem de 30 baleias. Era só o começo. Em 2004, foram organizados 43 cruzeiros com 1.150 visitantes, que tiveram o privilégio de observar nada menos que 227 animais. Depois a visitação chegou a outras praias, como a badalada Itacaré. Em 2005, novos cruzeiros estão planejados para sair de Salvador.

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly