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Porto Seguro - A remissão dos pataxós

 

Aldeias do Monte Pascoal, sul da Bahia, se abrem ao turismo para resgatar as tradições e preservar o que restou de Mata Atlântica na região


A cada baforada no cachimbo abastecido com capim de aruanda, folha de jurema e resina de amesca, ervas usadas para proteger contra os maus espíritos, o jovem pataxó Raoni, de 24 anos, preserva um ritual milenar das tribos indígenas situadas ao pé do Monte Pascoal, o morro avistado por Pedro Álvares Cabral ao descobrir o Brasil, no litoral-sul da Bahia. Nos últimos tempos, além das funções rituais, a fumaça que exala do aromático fumo de ervas sagradas preparado pelo índio vem ganhando um novo significado. É sinal de dias melhores para as aldeias na busca de alternativas de sobrevivência e de convivência harmônica com a floresta já em adiantado estado de destruição. O motivo é simples: antes exclusivo dos índios, o “cachimbo da paz” é hoje compartilhado com forasteiros e constitui um exemplo de como os costumes e rituais tradicionais dos pataxós estão se transformando em atrativos turísticos. E passam a compor roteiros culturais na região, próxima a Porto Seguro, Trancoso e a uma infinidade de belíssimas praias baianas, onde os apelos do sol e do mar sempre reinaram absolutos.

Abrir-se para os turistas é motivo de orgulho para Raoni, jovem que se prepara para ser pajé e aprendeu com os mais velhos os poderes das plantas medicinais. Entre uma tragada e outra no cachimbo, Raoni aponta para as ervas espalhadas no chão à sua frente e explica com ar de professor: a guiné é ótima contra dor no rim; o jamborão cura dor de barriga; o mastruz trata gripe e inflamações. A pajelança é apenas um aperitivo. O espetáculo oferecido aos visitantes continua na oca ao lado, na qual o jovem Apurinã, 17 anos, prepara a moqueca de samucanga, um peixe de inigualável sabor, assado ao pé da fogueira embrulhado na folha da patioba, uma palmeira da Mata Atlântica hoje difícil de ser encontrada por conta da devastação da floresta. Após a degustação, as mulheres se juntam aos homens para a dança do awê, celebrando em passos ritmados e vozes afinadas o amor, a paz e a união. Por fim, os visitantes são convidados a provar o cauim, bebida alcoólica fermentada a partir da mandioca, e a fazer tatuagens sob os cuidados de Jaoti, um índio de 16 anos que já é um mestre em pinturas corporais à base de pigmento extraído do jenipapo.

“A idéia de mostrar nossos costumes para os turistas nasceu nos debates e trabalhos na escola da aldeia”, conta Joati. Com apoio do cacique, os índios formaram um grupo cultural, hoje com 29 participantes, e montaram em janeiro deste ano oito ocas em meio à mata da aldeia-mãe dos pataxós, a principal vila da Terra Indígena Barra Velha. O lugar fica a 20 minutos do povoado de Caraívas, balneário que se tornou famoso nos anos 90 como alternativa ao turismo de massa de Porto Seguro. Localizada dentro da Terra Indígena, margeada pelos manguezais do rio Caraívas próximo ao encontro com o mar, a vila turística cresceu e tem hoje várias pousadas e restaurantes charmosos, destinados a um público de alto poder aquisitivo. De lá partem os buggies que levam os visitantes para as ocas dos pataxós -- uma viagem em meio a uma paisagem de areia branca e fofa coberta por vegetação rasteira, aventura exclusiva para carros com tração nas quatro rodas.

Resgate cultural

Ao contrário do que se pode imaginar, o que primeiro despertou as aldeias para o novo projeto não foram os dólares ou os reais dos turistas. Resgatar a cultura tradicional, divulgando-a entre os próprios pataxós, foi o passo inicial. “Só depois começamos a abrir para as pessoas de fora”, revela Jaoti. De fato, tempos atrás a herança dos antepassados, traduzida nas danças, crenças e conhecimentos sobre a floresta, quase se apagou entre esses índios. Hoje os mais jovens começam a entender que, preservando as tradições culturais, podem tirar bom proveito do turismo e transformá-lo em fonte de renda para a sobrevivência das aldeias.

O projeto dos pataxós traz à baila uma velha questão: é possível compatibilizar terra indígena e turismo, sem destruir a natureza ou atingir as culturas e as visões de mundo das aldeias? Até bem pouco tempo atrás, qualquer iniciativa turística deste tipo causava arrepios a antropólogos, indigenistas e instituições de defesa da causa indígena. As ameaças levadas pelos forasteiros -- doenças, conflitos econômicos e sociais, disputas pela posse de terras e alterações nas culturas tradicionais -- sempre foram vistas como fatores que levariam muito mais problemas do que os benefícios para as aldeias. A política da Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão do governo federal responsável pela assistência aos povos indígenas, tem sido historicamente de isolar as aldeias como maneira de protegê-las. O acesso de turistas em áreas indígenas é proibido por lei, embora a atividade ocorra em alguns locais, sem repressão das autoridades.

Pelo contrário, em alguns casos, como dos pataxós, os índios são estimulados a se abrir aos novos tempos -- é claro, de maneira criteriosa e ordenada. As necessidades de renda, aliadas à difícil da vida no campo ou nas florestas já degradadas, de onde já não se consegue obter o sustento como na época dos antepassados, estão mudando antigos padrões entre os índios. Isso tem levado aldeias a buscar novas fontes de renda. “O ecoturismo é uma dessas opções”, afirma a pesquisadora Ivani Ferreira de Faria, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que coordena um projeto-piloto de gestão comunitária junto a aldeias do alto-rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM). Ciente do problema, a Funai criou em janeiro um grupo de trabalho sobre turismo indígena. “O objetivo é fazer um diagnóstico dessas atividades e subsidiar, com fundamentos sólidos, o posicionamento da instituição quanto a esse tipo de turismo”, explica Thais Gonçalves, da Funai, integrante do grupo de trabalho. Novas regras estão por vir.

“A questão é complexa, mas não impossível”, destaca Israel Waligora, diretor da Ambiental Expedições. É preciso, segundo ele, harmonizar a visão de mundo dos índios com a do turismo, que exige cumprimento de horários, qualidade no atendimento e normas de segurança, entre outros fatores. Apesar dos desafios, ele acredita: “os traços da cultura e a experiência indígena de contato com a natureza podem se transformar em instrumentos de geração de renda”.

Colares no lugar das gamelas

No caso dos pataxós, o turismo é visto como questão de sobrevivência. Esses índios foram os primeiros que tiveram contato com os colonizadores portugueses, no século 16. Ao longo do tempo, pressionados pelo crescimento urbano e pelas atividades econômicas no litoral-sul da Bahia, acabaram abandonando costumes e métodos de sustento tradicionais. Muitos passaram a fazer parte de esquemas comerciais clandestinos que destroem a Mata Atlântica. Grande parte da floresta do entorno do Monte Pascoal já foi devastada para a retirada de madeira destinada à construção civil.

Hoje o principal problema é a derrubada de árvores para a produção de colheres de pau e gamelas -- travessas de madeira que no passado os índios utilizavam para banhar as crianças e que atualmente são vendidas aos milhares para turistas na beira das estradas e nas lojas das cidades turísticas da região. Levantamento do Ibama indica que as aldeias derrubam em média 30 árvores de grande porte por semana para produzir gamelas. “Cortando duas ou três árvores, conseguimos ganhar cerca de R$ 400 por semana”, informa o índio Nauí, 27 anos. “Se não houver alternativa, isso vai continuar até a floresta acabar totalmente”.

Os índios percebem que hoje é preciso ir cada vez mais longe na floresta para encontrar madeiras nobres. Isso significa que a renda conseguida com a venda de gamelas está com os dias contados. Em algumas das 10 aldeias que existem na Barra Velha e arredores, os índios substituíram a produção de gamelas pela confecção de colares com sementes de árvores da Mata Atlântica -- atividade extrativa bem menos prejudicial ao ambiente do que o corte de madeira. Árvores, como o tento, o mata-passo e a aroeira, que fornecem sementes boas para o artesanato, são plantadas pelos índios ao redor das casas. “Podemos ganhar muito mais dinheiro vendendo colares do que gamelas”, reconhece o cacique Araçari, 45 anos, chefe da aldeia Pé do Monte. A vila indígena se localiza na entrada do Parque Nacional Monte Pascoal, uma área criada por lei para proteger a fauna e a flora, na qual é proibida qualquer tipo de moradia ou atividade econômica. No entanto, como a área protegida está localizada dentro dos 13.800 hectares da Terra Indígena Barra Velha, os índios têm o direito legal de explorar a floresta. O Ibama, responsável pelos parques nacionais brasileiros, tenta conviver de maneira harmônica com a presença indígena no Monte Pascoal.

Esperança do turismo

O ecoturismo, mesmo embrionário e sem planejamento, é uma das atividades promovidas pelos índios no parque. Os pataxós se pintam e se vestem a caráter com cocares e saias de fibras vegetais para percorrer trilhas e mirantes com os turistas. A taxa de visitação, R$ 5 por pessoa, é administrada pelo cacique e aplicada em benefícios para a aldeia. Para organizar melhor as incursões no parque, o Ibama, que gerencia a área em regime de co-gestão com os pataxós, começará a construir um novo centro de visitantes no local. Guias de ecoturismo indígenas estão sendo formados pela Flora Brasil, uma organização não-governamental que desenvolve projetos para criar alternativas econômicas capazes de melhorar a qualidade de vida das comunidades e reduzir os impactos na floresta. Uma das iniciativas é a instalação de roças coletivas nas aldeias com técnicas que preservam o ambiente.

“O interesse pelos pataxós começou na época das comemorações dos 500 anos do Descobrimento, há seis anos, quando as notícias sobre os vários protestos em defesa da etnia rodaram o mundo”, conta Cléber Lage, dono da operadora Taípe, de Porto Seguro. Turistas estrangeiros passaram a chegar em maior número. “Os portugueses redescobriram esses índios”, revela o empresário, otimista com a nova opção turística. Todos os dias, a operadora leva visitantes para a reserva da Jaqueira, área onde os nativos montaram uma programação turística semelhante à da Barra Velha. “Recebemos 200 pessoas por semana e hoje 80 índios sobrevivem desse trabalho na aldeia”, revela o índio Jaguariti, coordenador do receptivo

“O turismo, planejado de maneira responsável, tem grande potencial de preservar o que restou de Mata Atlântica no Monte Pascoal”, destaca Philip Reed, consultor do Ministério do Meio Ambiente e coordenador de projetos econômicos nas aldeias. Ações predatórias naquele trecho do litoral baiano, polarizado por Porto Seguro, já causaram graves danos à floresta e à vida dos índios, que hoje amargam uma realidade de extrema pobreza. Chegou a hora de recuperar o estrago e virar o jogo, usando o próprio turismo -- desta vez sustentável -- como arma. Os pataxós dão o grito de guerra. Graças à fumaça dos cachimbos sagrados, novos tempos estão chegando para os índios do Monte Pascoal.

 

Debate ganha dimensão mundial

 

O exotismo das tradições e do estilo de vida indígenas, a experiência de contato com a natureza e as belas paisagens que cercam as aldeias cultivam sonhos de viagem em turistas de todos os continentes. No Brasil, país que tem 345 mil índios vivendo em 626 reservas que cobrem 12,5% do território nacional e 21% da Amazônia, não há regras para a prática do turismo indígena e o potencial do setor é ainda inexplorado. O turismo indígena é classificado dentro do segmento de ecoturismo, setor que cresce entre 10% e 15% ao ano no mundo e já representa 25% do total de viagens de lazer. Países como o México, Peru, Canadá e Austrália estão entre os que mais promovem esse tipo de turismo étnico. São também aqueles que mais sofrem os impactos negativos de atividades que não seguem critérios e não têm planejamento. Os efeitos, neste caso, são preocupantes: além das ameaças ao meio ambiente, culturas ancestrais são rapidamente transformadas em produtos turísticos a serem vendidos; danças, rituais e cerimônias religiosas perdem seus valores espirituais; artesanatos tradicionais se tornam arte popular. Em muitos casos, os índios passam a desenvolver valores de consumo bem diferentes dos ensinamentos que lhes foram transmitidos de geração em geração.

Quais os limites para a criação de normas envolvendo populações indígenas? No oeste australiano, terra dos aborígines, o Comitê dos Operadores de Turismo Indígena (WAITOC), que atua na região, tem um programa de certificação para esse segmento turístico, chamado “Respeitando Nossas Culturas”. Segundo o programa, para receber o selo de qualidade que atesta os bons serviços no campo do turismo indígena, a empresa precisa de licença por escrito das autoridades e dos donos das terras, bem como respeitar os direitos de propriedade e a autenticidade cultural e artística do artesanato e dos rituais nativos. O programa oferece oficinas e assistência técnica para ajudar as comunidades a entender como se desenvolve produtos turísticos e como funciona a indústria do turismo.

No entanto, a certificação do turismo indígena é um tema polêmico. Organizações como o Indigenous Tourism Rights International (ITRI) temem que, dentro de um mercado certificado, os povos indígenas se tornem ainda mais dependentes, submetidos a uma série de exigências que contraria a autonomia das comunidades. Além disso, elaboradas por consultores externos que muitas vezes não conhecem as realidades locais, as normas podem ignorar ou enfraquecer as prioridades e práticas tradicionais das aldeias em relação à prestação de contas, hospitalidade e proteção da natureza. Em resumo, os críticos da certificação defendem que, antes dela, é preciso fortalecer as organizações indígenas, elevando o respeito próprio e a auto-estima e valorizando a identidade cultural e o meio ambiente.

 

Turismo indígena exige cuidados

 

O Programa Piloto de Ecoturismo em Terras Indígenas, elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente com participação da Funai e de organizações não-governamentais, estabeleceu princípios que devem ser respeitados no turismo indígena:

 

- A comunidade indígena deve participar de todo o processo do ecoturismo e gerir de maneira participativa e comunitária as atividades em suas terras.

- A tradição cultural indígena e seus valores devem prevalecer sobre os interesses comerciais do ecoturismo.

- As atividades devem gerar recursos econômicos para melhorar a qualidade de vida da comunidade indígena.

- O uso sustentável dos recursos naturais deve ser uma prioridade.

- O ecoturismo deve ser tratado como uma iniciativa complementar às atividades tradicionais e a outros projetos da comunidade indígena.

 

Publicado originalmente na revista Host

A cada baforada no cachimbo abastecido com capim de aruanda, folha de jurema e resina de amesca, ervas usadas para proteger contra os maus espíritos, o jovem pataxó Raoni, de 24 anos, preserva um ritual milenar das tribos indígenas situadas ao pé do Monte Pascoal, o morro avistado por Pedro Álvares Cabral ao descobrir o Brasil, no litoral-sul da Bahia. Nos últimos tempos, além das funções rituais, a fumaça que exala do aromático fumo de ervas sagradas preparado pelo índio vem ganhando um novo significado. É sinal de dias melhores para as aldeias na busca de alternativas de sobrevivência e de convivência harmônica com a floresta já em adiantado estado de destruição. O motivo é simples: antes exclusivo dos índios, o “cachimbo da paz” é hoje compartilhado com forasteiros e constitui um exemplo de como os costumes e rituais tradicionais dos pataxós estão se transformando em atrativos turísticos. E passam a compor roteiros culturais na região, próxima a Porto Seguro, Trancoso e a uma infinidade de belíssimas praias baianas, onde os apelos do sol e do mar sempre reinaram absolutos.

Abrir-se para os turistas é motivo de orgulho para Raoni, jovem que se prepara para ser pajé e aprendeu com os mais velhos os poderes das plantas medicinais. Entre uma tragada e outra no cachimbo, Raoni aponta para as ervas espalhadas no chão à sua frente e explica com ar de professor: a guiné é ótima contra dor no rim; o jamborão cura dor de barriga; o mastruz trata gripe e inflamações. A pajelança é apenas um aperitivo. O espetáculo oferecido aos visitantes continua na oca ao lado, na qual o jovem Apurinã, 17 anos, prepara a moqueca de samucanga, um peixe de inigualável sabor, assado ao pé da fogueira embrulhado na folha da patioba, uma palmeira da Mata Atlântica hoje difícil de ser encontrada por conta da devastação da floresta. Após a degustação, as mulheres se juntam aos homens para a dança do awê, celebrando em passos ritmados e vozes afinadas o amor, a paz e a união. Por fim, os visitantes são convidados a provar o cauim, bebida alcoólica fermentada a partir da mandioca, e a fazer tatuagens sob os cuidados de Jaoti, um índio de 16 anos que já é um mestre em pinturas corporais à base de pigmento extraído do jenipapo.

“A idéia de mostrar nossos costumes para os turistas nasceu nos debates e trabalhos na escola da aldeia”, conta Joati. Com apoio do cacique, os índios formaram um grupo cultural, hoje com 29 participantes, e montaram em janeiro deste ano oito ocas em meio à mata da aldeia-mãe dos pataxós, a principal vila da Terra Indígena Barra Velha. O lugar fica a 20 minutos do povoado de Caraívas, balneário que se tornou famoso nos anos 90 como alternativa ao turismo de massa de Porto Seguro. Localizada dentro da Terra Indígena, margeada pelos manguezais do rio Caraívas próximo ao encontro com o mar, a vila turística cresceu e tem hoje várias pousadas e restaurantes charmosos, destinados a um público de alto poder aquisitivo. De lá partem os buggies que levam os visitantes para as ocas dos pataxós -- uma viagem em meio a uma paisagem de areia branca e fofa coberta por vegetação rasteira, aventura exclusiva para carros com tração nas quatro rodas.

Resgate cultural

Ao contrário do que se pode imaginar, o que primeiro despertou as aldeias para o novo projeto não foram os dólares ou os reais dos turistas. Resgatar a cultura tradicional, divulgando-a entre os próprios pataxós, foi o passo inicial. “Só depois começamos a abrir para as pessoas de fora”, revela Jaoti. De fato, tempos atrás a herança dos antepassados, traduzida nas danças, crenças e conhecimentos sobre a floresta, quase se apagou entre esses índios. Hoje os mais jovens começam a entender que, preservando as tradições culturais, podem tirar bom proveito do turismo e transformá-lo em fonte de renda para a sobrevivência das aldeias.

O projeto dos pataxós traz à baila uma velha questão: é possível compatibilizar terra indígena e turismo, sem destruir a natureza ou atingir as culturas e as visões de mundo das aldeias? Até bem pouco tempo atrás, qualquer iniciativa turística deste tipo causava arrepios a antropólogos, indigenistas e instituições de defesa da causa indígena. As ameaças levadas pelos forasteiros -- doenças, conflitos econômicos e sociais, disputas pela posse de terras e alterações nas culturas tradicionais -- sempre foram vistas como fatores que levariam muito mais problemas do que os benefícios para as aldeias. A política da Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão do governo federal responsável pela assistência aos povos indígenas, tem sido historicamente de isolar as aldeias como maneira de protegê-las. O acesso de turistas em áreas indígenas é proibido por lei, embora a atividade ocorra em alguns locais, sem repressão das autoridades.

Pelo contrário, em alguns casos, como dos pataxós, os índios são estimulados a se abrir aos novos tempos -- é claro, de maneira criteriosa e ordenada. As necessidades de renda, aliadas à difícil da vida no campo ou nas florestas já degradadas, de onde já não se consegue obter o sustento como na época dos antepassados, estão mudando antigos padrões entre os índios. Isso tem levado aldeias a buscar novas fontes de renda. “O ecoturismo é uma dessas opções”, afirma a pesquisadora Ivani Ferreira de Faria, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que coordena um projeto-piloto de gestão comunitária junto a aldeias do alto-rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM). Ciente do problema, a Funai criou em janeiro um grupo de trabalho sobre turismo indígena. “O objetivo é fazer um diagnóstico dessas atividades e subsidiar, com fundamentos sólidos, o posicionamento da instituição quanto a esse tipo de turismo”, explica Thais Gonçalves, da Funai, integrante do grupo de trabalho. Novas regras estão por vir.

“A questão é complexa, mas não impossível”, destaca Israel Waligora, diretor da Ambiental Expedições. É preciso, segundo ele, harmonizar a visão de mundo dos índios com a do turismo, que exige cumprimento de horários, qualidade no atendimento e normas de segurança, entre outros fatores. Apesar dos desafios, ele acredita: “os traços da cultura e a experiência indígena de contato com a natureza podem se transformar em instrumentos de geração de renda”.

Colares no lugar das gamelas

No caso dos pataxós, o turismo é visto como questão de sobrevivência. Esses índios foram os primeiros que tiveram contato com os colonizadores portugueses, no século 16. Ao longo do tempo, pressionados pelo crescimento urbano e pelas atividades econômicas no litoral-sul da Bahia, acabaram abandonando costumes e métodos de sustento tradicionais. Muitos passaram a fazer parte de esquemas comerciais clandestinos que destroem a Mata Atlântica. Grande parte da floresta do entorno do Monte Pascoal já foi devastada para a retirada de madeira destinada à construção civil.

Hoje o principal problema é a derrubada de árvores para a produção de colheres de pau e gamelas -- travessas de madeira que no passado os índios utilizavam para banhar as crianças e que atualmente são vendidas aos milhares para turistas na beira das estradas e nas lojas das cidades turísticas da região. Levantamento do Ibama indica que as aldeias derrubam em média 30 árvores de grande porte por semana para produzir gamelas. “Cortando duas ou três árvores, conseguimos ganhar cerca de R$ 400 por semana”, informa o índio Nauí, 27 anos. “Se não houver alternativa, isso vai continuar até a floresta acabar totalmente”.

Os índios percebem que hoje é preciso ir cada vez mais longe na floresta para encontrar madeiras nobres. Isso significa que a renda conseguida com a venda de gamelas está com os dias contados. Em algumas das 10 aldeias que existem na Barra Velha e arredores, os índios substituíram a produção de gamelas pela confecção de colares com sementes de árvores da Mata Atlântica -- atividade extrativa bem menos prejudicial ao ambiente do que o corte de madeira. Árvores, como o tento, o mata-passo e a aroeira, que fornecem sementes boas para o artesanato, são plantadas pelos índios ao redor das casas. “Podemos ganhar muito mais dinheiro vendendo colares do que gamelas”, reconhece o cacique Araçari, 45 anos, chefe da aldeia Pé do Monte. A vila indígena se localiza na entrada do Parque Nacional Monte Pascoal, uma área criada por lei para proteger a fauna e a flora, na qual é proibida qualquer tipo de moradia ou atividade econômica. No entanto, como a área protegida está localizada dentro dos 13.800 hectares da Terra Indígena Barra Velha, os índios têm o direito legal de explorar a floresta. O Ibama, responsável pelos parques nacionais brasileiros, tenta conviver de maneira harmônica com a presença indígena no Monte Pascoal.

Esperança do turismo

O ecoturismo, mesmo embrionário e sem planejamento, é uma das atividades promovidas pelos índios no parque. Os pataxós se pintam e se vestem a caráter com cocares e saias de fibras vegetais para percorrer trilhas e mirantes com os turistas. A taxa de visitação, R$ 5 por pessoa, é administrada pelo cacique e aplicada em benefícios para a aldeia. Para organizar melhor as incursões no parque, o Ibama, que gerencia a área em regime de co-gestão com os pataxós, começará a construir um novo centro de visitantes no local. Guias de ecoturismo indígenas estão sendo formados pela Flora Brasil, uma organização não-governamental que desenvolve projetos para criar alternativas econômicas capazes de melhorar a qualidade de vida das comunidades e reduzir os impactos na floresta. Uma das iniciativas é a instalação de roças coletivas nas aldeias com técnicas que preservam o ambiente.

“O interesse pelos pataxós começou na época das comemorações dos 500 anos do Descobrimento, há seis anos, quando as notícias sobre os vários protestos em defesa da etnia rodaram o mundo”, conta Cléber Lage, dono da operadora Taípe, de Porto Seguro. Turistas estrangeiros passaram a chegar em maior número. “Os portugueses redescobriram esses índios”, revela o empresário, otimista com a nova opção turística. Todos os dias, a operadora leva visitantes para a reserva da Jaqueira, área onde os nativos montaram uma programação turística semelhante à da Barra Velha. “Recebemos 200 pessoas por semana e hoje 80 índios sobrevivem desse trabalho na aldeia”, revela o índio Jaguariti, coordenador do receptivo

“O turismo, planejado de maneira responsável, tem grande potencial de preservar o que restou de Mata Atlântica no Monte Pascoal”, destaca Philip Reed, consultor do Ministério do Meio Ambiente e coordenador de projetos econômicos nas aldeias. Ações predatórias naquele trecho do litoral baiano, polarizado por Porto Seguro, já causaram graves danos à floresta e à vida dos índios, que hoje amargam uma realidade de extrema pobreza. Chegou a hora de recuperar o estrago e virar o jogo, usando o próprio turismo -- desta vez sustentável -- como arma. Os pataxós dão o grito de guerra. Graças à fumaça dos cachimbos sagrados, novos tempos estão chegando para os índios do Monte Pascoal.

Debate ganha dimensão mundial

O exotismo das tradições e do estilo de vida indígenas, a experiência de contato com a natureza e as belas paisagens que cercam as aldeias cultivam sonhos de viagem em turistas de todos os continentes. No Brasil, país que tem 345 mil índios vivendo em 626 reservas que cobrem 12,5% do território nacional e 21% da Amazônia, não há regras para a prática do turismo indígena e o potencial do setor é ainda inexplorado. O turismo indígena é classificado dentro do segmento de ecoturismo, setor que cresce entre 10% e 15% ao ano no mundo e já representa 25% do total de viagens de lazer. Países como o México, Peru, Canadá e Austrália estão entre os que mais promovem esse tipo de turismo étnico. São também aqueles que mais sofrem os impactos negativos de atividades que não seguem critérios e não têm planejamento. Os efeitos, neste caso, são preocupantes: além das ameaças ao meio ambiente, culturas ancestrais são rapidamente transformadas em produtos turísticos a serem vendidos; danças, rituais e cerimônias religiosas perdem seus valores espirituais; artesanatos tradicionais se tornam arte popular. Em muitos casos, os índios passam a desenvolver valores de consumo bem diferentes dos ensinamentos que lhes foram transmitidos de geração em geração.

Quais os limites para a criação de normas envolvendo populações indígenas? No oeste australiano, terra dos aborígines, o Comitê dos Operadores de Turismo Indígena (WAITOC), que atua na região, tem um programa de certificação para esse segmento turístico, chamado “Respeitando Nossas Culturas”. Segundo o programa, para receber o selo de qualidade que atesta os bons serviços no campo do turismo indígena, a empresa precisa de licença por escrito das autoridades e dos donos das terras, bem como respeitar os direitos de propriedade e a autenticidade cultural e artística do artesanato e dos rituais nativos. O programa oferece oficinas e assistência técnica para ajudar as comunidades a entender como se desenvolve produtos turísticos e como funciona a indústria do turismo.

No entanto, a certificação do turismo indígena é um tema polêmico. Organizações como o Indigenous Tourism Rights International (ITRI) temem que, dentro de um mercado certificado, os povos indígenas se tornem ainda mais dependentes, submetidos a uma série de exigências que contraria a autonomia das comunidades. Além disso, elaboradas por consultores externos que muitas vezes não conhecem as realidades locais, as normas podem ignorar ou enfraquecer as prioridades e práticas tradicionais das aldeias em relação à prestação de contas, hospitalidade e proteção da natureza. Em resumo, os críticos da certificação defendem que, antes dela, é preciso fortalecer as organizações indígenas, elevando o respeito próprio e a auto-estima e valorizando a identidade cultural e o meio ambiente.

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