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Porto Velho (RO) - Falta de mercado afeta a madeira retirada para hidrelétricas

 

O problema gera desperdício de recursos e emissões de carbono

· Rondônia

Ao desmatar a área a ser ocupada pelo reservatório de 258 quilômetros quadrados da Usina Hidrelétrica de Jirau, com enchimento previsto para este ano e início da geração em 2014, a empresa Energia Sustentável do Brasil, responsável pelo empreendimento a 170 km de Porto Velho, em Rondônia, enfrenta um problema que pode resultar em desperdício de recurso natural e impactos ambientais – como emissões de carbono -- não estimados nos estudos prévios à obra. Sem compradores e infraestrutura local para beneficiamento, parte dos 2 milhões de metros cúbicos de madeira de lei e lenha que começam a ser retirados para a formação do lago corre risco de apodrecer ao relento.

“Falta interessados até em receber o material como doação, porque a quantidade é muito grande e o mercado regional não tem como absorver”, revela Antonio Luiz Abreu Jorge, diretor de meio ambiente da empresa. Até o momento 60% da área teve a vegetação suprimida e parte das toras está em pátios de estocagem. “Vendemos simbolicamente a R$ 1 o metro cúbico, apenas para emitir a nota fiscal de transporte”, diz o executivo, confirmando que foi cogitado instalar uma termoelétrica para o emprego do insumo florestal e até a sua comercialização para uma empresa chinesa, o que acabou não se consolidando. Após a retirada, a madeira pode ser estocada por um prazo de até dois anos, após o qual perde qualidade e valor comercial.

Se não houver um arranjo de logística, ressalta Jorge, a extração das árvores para se evitar impactos na água do reservatório, na biodiversidade e no funcionamento das turbinas, é economicamente inviável. O custo do desmate gira em torno de R$ 30 mil por hectare, área de onde pode se retirar perto de 100 metros cúbicos de madeira de lei. Como o valor médio das toras comerciais amazônicas é de R$ 134, segundo dados do Instituto de Desenvolvimento Florestal do Pará, a receita por hectare desmatado – considerando a madeira para serrarias -- seria inferior à metade do custo. Galhos e troncos mais finos podem ser utilizados como lenha ou em aterros e olarias para fabricação de tijolos e telhas.

“A morosidade do licenciamento dificulta planejar o escoamento da madeira, com a prospecção de mercado dentro do prazo necessário à instalação de serrarias e indústrias-âncora, além de logística capaz de atrair investimentos”, justifica o diretor. Diante das dificuldades, o consórcio empreendedor negocia com o Ibama a redução no percentual de árvores que precisa obrigatoriamente ser retirado da floresta antes do enchimento da represa, conforme o licenciamento ambiental. “Modelos computacionais mostram a quantidade de vegetação que pode ficar no fundo do reservatório sem afetar a água e os peixes com matéria orgânica”, afirma Jorge. Os 10 mil hectares de floresta que inicialmente seriam suprimidos podem cair pela metade, com redução de custos.

Quando submersos, tanto os solos que sustentavam a floresta como as folhas das árvores se decompõem e geram metano, o mais potente gás causador do efeito estufa. O problema se agrava posteriormente, durante a operação da usina, através da proliferação de ervas aquáticas daninhas que também se degradam nas variações de vazão do reservatório, prejudicando a biodiversidade. Na água, os troncos permanecem intactos. “Mas as árvores mortas pela inundação da floresta frequentemente se projetam acima da superfície da água e se deterioram ao ar livre, liberando gás carbônico, também contribuinte do aquecimento global”, explica o pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Fearnside questiona a metodologia do inventário de emissões das usinas brasileiras, elaborado com apoio da Eletrobras. Em estudo publicado no exterior, ele identificou erros no cálculo e apresentou um método diferente, pelo qual a emissão de carbono da superfície dos reservatórios seria 345% maior que o número oficial. De acordo com o cientista, para os 33 mil quilômetros quadrados de represas no país, o impacto total das emissões de metano é próximo ao da queima de combustível fóssil na Região Metropolitana de São Paulo. “Se somarmos as emissões da água que passa pelas turbinas e vertedouros, e não apenas as geradas pela superfície, o número seria ainda maior”, estima Fearnside.

Em resposta, a Eletrobras diz que “o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) deixa claro o quanto ainda há de incertezas científicas nas estimativas para gases de efeito estufa em reservatórios de hidrelétrica”. E por isso não é obrigatório para os países elaborarem seus inventários utilizando tais estimativas. No momento estão sendo realizadas medições de parâmetros físicos, químicos e biológicos em oito reservatórios e em locais onde serão instaladas novas hidrelétricas, projeto que tem a participação de diversas universidades.

No caso da hidrelétrica de Jirau, além da vegetação inundada, há risco de emissões pela degradação da madeira retirada e não aproveitada ou pela quantidade que acabará sendo utilizada, por falta de um destino mais sustentável, para carvão e outras atividades intensivas em carbono. As dificuldades comerciais na região estão relacionadas à decadência do mercado madeireiro após as operações policiais e o cerco da fiscalização contra a ilegalidade nos últimos anos. Mas a falta de demanda também está associada à oferta excessiva de toras na região, em decorrência do enchimento do reservatório da hidrelétrica de Santo Antônio, localizada também no Rio Madeira. O desmatamento para enchimento do lago, no total de 12,1 mil hectares, concluído em novembro do ano passado, gerou 90 mil metros cúbicos de toras e 63,8 mil de lenha, que agora estão sendo comercializadas junto a serrarias e outros compradores.

“As dificuldades ocorrem pela distância geográfica do empreendimento em relação aos grandes centros consumidores do Sul e Sudeste do Brasil, e pela baixa qualidade da madeira, tendo em vista os impactos de ações humanas já existentes na área”, afirma Carlos Hugo de Araújo, diretor de sustentabilidade da Santo Antônio Energia.

Na obra da usina de Belo Monte, no rio Xingu, Pará, o inventário florestal deverá ser finalizado nos próximos meses, definindo os tipos de madeira e o percentual de interesse comercial. Quase 60% da área a ser ocupada pelo reservatório é formada por pastagens e vegetação secundária, já desmatada no passado. “A floresta que restou em pé apresenta potencial madeireiro abaixo do esperado”, atesta Valéria Saracura, da Norte Energia.

A previsão é o corte das árvores para o enchimento da represa acontecer em 2013. Conforme o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) para o licenciamento, a obrigação é retirar 50% da vegetação. Mas a empresa realiza estudos para confirmar o percentual realmente necessário e negociar com o Ibama uma quantidade menor, como acontece em Jirau. “É interessante manter vegetação submersa como abrigo dos peixes”, argumenta Valéria, lembrando que “a extração de madeira é complexa e exige alto grau de logística”. Ela conta que a prioridade de comercialização será dada às empresas regionais, mas o escoamento via exploração não está descartado.

“Não adianta apenas retirar árvores, mas é preciso definir critérios no licenciamento para o destino da madeira”, adverte Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Em sua análise, os recursos financeiros gerados pela venda da madeira deveriam ser revertidos para o interesse da sociedade, aplicados em projetos de restauração florestal. “Desperdício de madeira significa falta de planejamento e de articulação prévia como mercado”, lamenta Malu Villela, coordenadora da Rede Amigos da Amazônia, mantida pela Fundação Getúlio Vargas com foco no manejo sustentável de espécies nativas.

 

 

BOX

 

Produção de frutas reduz madeira ilegal

 

 

 

O município de União Bandeirante, no entorno do futuro reservatório da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, frequentou por muitos anos a lista negra do desmatamento. Hoje alternativas econômicas em áreas já degradadas, como a produção cooperativada de banana, abacaxi e açaí, têm o potencial de reduzir a pressão sobre o que restou de floresta. “Ganharemos o dobro com menos tempo e trabalho”, prevê o lavrador Ediomar de Souza. Ele integra um grupo de produtores rurais que antes eram submetidos aos esquemas e baixos preços da madeira ilegal e agora aplicam técnicas para plantio sem queimadas e derrubada de árvores, com ganhos em produtividade.

A base das mudanças está no fornecimento de mudas cultivadas in vitro na biofábrica instalada pela construtora Camargo Correia em parceria com o Sebrae, com investimento de R$ 1,7 milhão. As mudas são transferidas para viveiros em três comunidades, onde os produtores se organizaram em cooperativas. A antiga produção de subsistência, refém do assistencialismo, se transforma em empreendimento e ganha escala como negócio. “Não é economicamente vantajoso desmatar para plantar”, reconhece Josimar do Nascimento, cuja família chegou em Rondônia na década de 1970 atraída por incentivos do governo federal. Em seus 10 hectares de terra, o agricultor produz milho, mandioca e feijão, o que garante uma renda mensal de R$ 1 mil. “Com as novas mudas de banana, vamos mudar de patamar”, prevê Nascimento.

Uma câmara fria instalada próximo às lavouras garante a armazenagem das frutas por mais tempo sem perdas por amadurecimento. “A partir de novas técnicas pode-se cultivar 4,5 mil pés de bananeiras onde só era possível plantar 800, o que significa necessidade de menos área para produção muitas vezes abertas com motosserra”, afirma Dilmar Reis, técnico agrícola que auxilia as comunidades a vencer resistências na mudança de cultura ambiental.

No canteiro de obras da hidrelétrica, as ações buscam maior eficiência no uso da madeira. A partir de medidas como redução de perdas e maior diversificação de espécies madeireiras, os gastos com essa matéria prima diminuíram R$ 450 mil. A maior parte do insumo é consumida na fabricação de formas para concreto. Após o uso, parte da madeira gerada como resíduo é picotada em cavacos para reaproveitamento em fornos de cimento e recomposição dos solos em áreas degradadas. O plano é plantar 230 mil mudas para recuperar a área do canteiro ao fim da obra, totalizando 600 hectares. Os cavacos excedentes são comercializados para outros empreendimentos através de uma bolsa de resíduos. A iniciativa integra as ações da construtora que objetivam reduzir as emissões de carbono em 37% até 2020.

 

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